As possibilidades do uso do Humor na Divulgação Científica
João Ramos, Luís Paulo Piassi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Educação Não Formal
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## AS POSSIBILIDAES DO USO DO HUMOR NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
## João Eduardo F. Ramos 1 , Luís Paulo Piassi 2
1
USP, joaoeframos@gmail.com 2 EACH/USP, lppiassi@usp.br
## Resumo
É possível rir da ciência? Qual seria a relação entre o riso e a ciência? Na presente pesquisa apresentamos o estudo sobre o humor na divulgação científica presente na mídia e nas redes sociais. A partir do estudo de exemplos pontuais dos sites Piadas Nerd e Quase Físico, do seriado The Big Bang Theory, e da revista Super Interessante, e de um estudo sobre a relação entre humor e educação, observamos que ao apresentarem a física a partir do humor, estes materiais quebram com a seriedade dos assuntos e apresentam uma ciência mais acessível e descontraída, mas que mesmo a partir do riso, permite ensinar. Além do mais, utilizam exemplos que pedem um conhecimento mínimo de física para a compreensão da piada, ponto em que reside a possibilidade educacional destes materiais, uma vez que a aprendizagem, a partir do humor, se dá com a compreensão da incongruência presente na piada.
Palavras-chave : Riso, Humor, Divulgação científica
## Introdução
É possível rir da ciência? Qual seria a relação entre o riso e a ciência? Este mesmo riso pode auxiliar a apresentação de conceitos e ideias científicas ou por tratar de questões sérias, logo racionais, não há espaço para gargalhadas?
- O costume de distanciar o sério do humorístico tem suas raízes por volta da Idade Média, como aponta Bakhtin (2010, p. 57-58), ao observar que, nesta época, o essencial e o importante não poderiam ser cômicos, assim, como não se poderia exprimir verdades primordiais pelo riso. Em contraposição a esta visão, a partir do Renascimento, o riso passa a ser visto, por alguns teóricos, como um ponto de vista tão importante quanto o sério (BAKHTIN, 2010, p. 57-58). Isso, pois, o riso permite mostrar a realidade a partir de outro ponto de vista (LARROSA, 2010, p. 178). Em outras palavras, 'o riso destrói as certezas' (LARROSA, 2010, p. 181) e nos convida a refletir e repensar a realidade.
Assim, já não parece ter mais sustentação a ideia de que se o assunto é sério, não podemos rir dele, ou transformá-lo em algo engraçado. Neste sentido, a ciência pode ser engraçada, no entanto, onde está este humor? Nas equações e postulados? Talvez algumas até possam ser engraçadas, no entanto, grande parte do humor científico se encontra na divulgação científica, sejam em blogs - de cientistas e não cientistas -, tiras humorísticas, artigos, livros, vídeos, entre outros. Ou seja, é na tentativa de comunicar ideias científicas e visões de mundo que se utiliza o humor como ferramenta de diálogo.
Mas o que leva esta aproximação ser utilizada? Seria apenas como entretenimento nas horas de lazer? Para pensar sobre estas questões apresentamos nesta pesquisa um estudo teórico sobre a utilização e a presença do
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26 a 30 de janeiro de 2015
humor na divulgação científica. Realizamos uma revisão inicial sobre a relação entre riso, pensamento e educação, na qual buscamos refletir sobre a possibilidade educacional do riso. Em seguida buscamos as justificativas e características da utilização do humor na divulgação científica e geral, em seus diferentes suportes, a partir de exemplos pontuais, escolhidos devido a seu impacto. Por fim, tecemos algumas considerações tendo como base as formas de consumo deste material humorístico e seu potencial educacional.
## Humor, pensamento e educação
Não é de hoje que o riso é um objeto de estudo. Desde a antiguidade já se tentava encontrar a essência do riso. Para Platão, por exemplo, o riso 'seria um prazer falso, experimentado pela multidão medíocre de homens privados de razão' (ALBERTI, 2002, p. 45). Isto ocorria, pois o riso distanciaria o homem da verdade, do mundo das ideias. Outro exemplo é o de Aristóteles, que define o homem como o único animal que ri (ALBERTI, 2002, p. 45), e observa a comédia como a representação de ações piores do que os homens. No entanto, o cômico seria apenas a parte torpe que não causa dor nem destruição.
Dessa forma, ao longo da história do pensamento é possível observar como diferentes estudiosos, de diferentes áreas, tentavam apreender esta essência. Dessa maneira, o riso partilha com entidades como: o jogo, a arte, o inconsciente, do espaço do indizível e do impensado (ALBERTI, 2002, p. 11). Verena Alberti (2002), em seu livro O riso e o risível na história do pensamento , apresenta um estudo das principais teorias sobre o riso ao longo da história do pensamento, e observa que muitas das teorias contemporâneas sobre o riso refletem, ou repetem, ideias já propostas desde a antiguidade. No título de sua obra Alberti traz uma relação importante, a do riso e o pensamento. Uma relação que dá ao riso uma importância junto ao pensamento, de maneira que para alguns filósofos como Joachim Ritter, o riso estaria diretamente ligado aos caminhos seguidos pelo homem para explicar o mundo, uma vez que o riso engloba o nada à razão (ALBERTI, 2002, p. 12). No caso das ciências, isto é particularmente importante uma vez que a partir da ciência buscamos compreender o universo e suas relações.
As diversas teorias sobre o riso podem ser sumarizadas a partir de três principais teorias, como sugere Gordon (2014), a Teoria da Superioridade , Teoria do Alívio e Teoria da Incongruência . A Teoria da Superioridade, que enxerga o riso com desprezo, considera o riso como uma expressão de nosso deleite para com o defeito dos outros ou de nossos próprios erros e falhas anteriores (GORDON, 2014, p. 2). São defensores desta teoria pensadores como Platão e Hobbes. Em certa maneira, este seria um tipo de riso negativo. Para Teoria do Alívio, o riso funciona como uma válvula através da qual uma energia nervosa, que não é mais útil, é liberada (GORDON, 2014, p. 2). Esta energia pode ser de origem emocional, sexual ou cognitiva. Um dos principais defensores desta teoria é Freud (RIBEIRO, 2008). Por fim, a Teoria da Incongruência, segundo a qual o riso surge quando nossas expectativas desaparecem e então nos notamos uma incongruência entre o conceito e o que esperávamos, o que gera uma quebra de expectativa (GORDON, 2014, p. 2). Estas duas últimas teorias indicam um riso positivo e construtivo.
E quanto à educação, o que o humor possibilita? Gordon (2014, p. 27) sugere que o humor pode atuar como uma terapia educacional, uma vez que o humor destaca diferentes ações e atitudes que não fazem muito sentido e convida
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as pessoas a pensarem em formas alternativas de responder questões. Além disto, um grupo de pesquisadores avaliou, a partir de um levantamento bibliográfico, os benefícios e os inconvenientes do humor e concluíram que o humor apresenta benefícios psicológicos, sociais e cognitivos (LEI et al , 2010, p. 326).
Tal visão mostra que o humor vai muito mais além do que simplesmente facilitar o ensino e a aprendizagem. Além disto, de acordo com o pedagogo Larrosa, 'o riso polemiza com o sério, entra em contato com o sério, dialoga com o sério, com essa linguagem elevada que pretende envolver o mundo e compreendê-lo e dominálo.' (LARROSA, 2006, p.178). Observamos, entretanto, que são poucas as pesquisas que se preocupam com o riso e o humor no ensino de ciências (PETERSON, 1980; WORNER e ROMERO, 1998; GARCIA MOLINA, 2009, p. 64; ROTH et al , 2011).
Dessa maneira observamos que é possível relacionar o riso com a educação e o pensamento. O riso é capaz de ensinar. Evidente que não é todo tipo de riso que possibilita isto, no entanto usando de forma correta ele permite ir além. De forma que no caso da divulgação científica não é gratuito o uso do humor, como observamos a seguir.
## Humor e divulgação científica
Não há dúvidas sobre a importância da divulgação e comunicação científica tanto na produção da ciência (VAN DIJCK, 2003) quando para a educação (PINTO, 2010; MASSARANI et al 2002). Entendemos, assim como propõe Van Dijck (2003, p. 177), que há uma prática multicultural na divulgação científica, que permitiu um aumento na diversidade cultural possibilitando que diferentes áreas também se envolvessem na produção e negociação da ciência, não se resumindo apenas à mediação. Nesta visão de divulgação científica, é possível observar que o humor seria uma forma de legitimar a discussão científica.
A divulgação científica, hoje presente em diversos suportes, se utiliza de diferentes formas para se aproximar do público. Seja com o uso de animações e efeitos especiais ( Cosmos ), uso de pessoas famosas ( Trought the worm hole ), a partir da produção de vídeos curtos, de até 2 minutos, passando ideias rápidas ( Minute Physics ), entre outras. Junto a estas, o humor também tem sido uma forma de se aproximar e dialogar com o público.
De certa maneira, o que se tem observado é que o engajamento do público em relação à ciência tem se tornado cada vez menos formal e mais aberto a outros meios como os festivais de ciência e shows de comédia (HOSLER, 2013). Além de se proporem a utilizar outras técnicas como narrativas, uso do mistério e a informalidade, como aponta Linda Holser (2013), em uma reportagem para a AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência).
Em relação ao uso do humor, algumas abordagens apontam o fato do humor possibilitar manter o foco e a atenção da audiência (MCCRORY, 2010, p. 85, VIEIRA, 2007). Além de também possibilitar se aproximar do público como aponta 'o comediante da ciência', Brian Malow, colaborador do show de rádio StarTalk com Neil DeGrasse Tyson, por mostrar que somos humanos e temos uma história (SANTISI, 2011). E há ainda o lado lúdico do humor, no qual primeiro rimos e depois percebemos que fomos informados e podemos pensar sobre o assunto, como defende Marc Abrahams, criador do prêmio IgNobel.
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Ao entrevistar diversos profissionais da divulgação científica e da educação informal (neste caso, profissionais de museus e parques de ciência) sobre o papel das emoções na comunicação, Paul McCrory (2010, p. 85) observou que todos afirmaram que o humor era uma ferramenta importante para a apresentação de shows de ciência, sejam na televisão ou em museus, por exemplo. As justificativas são bastante variadas como a possibilidade de aliviar a tensão ao explorar diferentes concepções (p. 85), quebrar o gelo (p. 86), mostrar o cientista como uma pessoa real (p. 86), por exemplo. McCrory (2010, p. 87-88) observou também que o principal tipo de humor é que o surge naturalmente na interação, algo que também é apontado por Malow ao afirmar que é preciso conhecer o seu público e usar o humor de acordo com ele (SANTISI, 2011).
## Exemplos
Dentro da relação entre humor e divulgação, apresentamos alguns exemplos pontuais encontrados tanto na mídia quanto nas redes sociais. Tentamos focar em produções nacionais, uma vez que o humor depende muito do contexto em que é produzido, podendo ser diferente em cada país. Nos exemplos selecionados destacamos as páginas Piadas Nerd e Quase Físico , um trecho de um episódio do seriado The Big Bang Theory (TBBT), e uma sessão da revista Superinteressante .
O Piadas Nerd , que possui aproximadamente 226 mil seguidores no Twitter, é uma página que reúne diversas piadas e brincadeiras com a ciência e diferentes temas da cultura pop . As piadas já foram, inclusive, compiladas em um livro 1 (BARONI et al , 2011). No caso, são piadas que em alguns casos necessitam de um entendimento mínimo para compreendê-las. Selecionamos uma piada presente na página, entre outras, relacionada a um assunto comum na educação básica.
Figura 01: Piada com grandezas físicas
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Nela há uma brincadeira com as grandezas físicas que são desprezadas para tornar o problema mais simples. No ensino médio raramente se fala na força de resistência do ar enquanto a força de atrito se faz presente em alguns problemas de estática. A edição da imagem ajuda a deixa-la mais cômica ao apresentar o divã.
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Evidente que uma piada que por si só não acrescenta muito, no entanto, serve como uma porta para abordar a questão da simplificação na física.
A página do Quase Físico, no Facebook, apresenta diferentes memes e 2 brincadeiras com o universo do graduando de Física. Criado, por um estudante de física, com a ideia de 'integrar as pessoas à física e derivar humor', como indicado no blog da página. Como a própria descrição da página indica o site não está preocupado em necessariamente explicar tudo o que está lá, se voltando para a ideia de que 'entendedores, entenderão'. É o caso da piada romântica abaixo
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Figura 02: Piada sobre grandezas vetoriais
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Neste caso o blog convida o leitor que tiver interesse de ver a explicação da 'cantada científica'. É um exemplo onde há a veiculação de um conteúdo além da piada em si. No exemplo, há uma brincadeira com a definição de grandeza escalar que diferente da grandeza vetorial, não possui direção e sentido, puro romantismo. A veiculação da imagem do Feynman na piada, devido a sua pose, também contribui para a instauração do humor. Em outro exemplo há uma brincadeira irônica com uma imagem real que termina sendo utilizada para explicar um conceito.
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Figura 03: Piada sobre inércia
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É uma piada voltada para um riso um tanto irônico e de 'superioridade' onde imaginamos como o motorista foi descuidado. Mas mostra a também a importância do conhecimento científico.
O trecho selecionado da série TBBT explicita um pouco a ideia de entendedores entenderão. TBBT (LORRE e PRADY, 2008) é um seriado, no qual o cotidiano de quatro amigos cientistas, três deles físicos, é retratado de forma cômica, mostrando inclusive suas tentativas de relação amorosa. Um seriado bastante conhecido (GALVÃO, 2009). No trecho um personagem nervoso conta uma piada para relaxar. Trata-se de uma piada conhecida pelos físicos, mas que é aparentemente sem pé nem cabeça.
Figura 04: Trecho do episódio da primeira temporada em que Leonard conta a piada da Galinha esférica no vácuo
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Na piada um fazendeiro pede ajuda a um físico para solucionar o problema de suas galinhas que não põem ovos. O físico encontra uma solução, mas que só funciona com galinhas esféricas e no vácuo. Na imagem é possível ver os cientistas rindo bastante enquanto a amiga deles (mulher e loira, estereótipos?) fica sem
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entender nada. No caso, é uma brincadeira com a visão de que a física só funciona em casos muito específicos e fora da realidade.
Por fim, observamos algumas postagens da página ciência maluca da revista Superinteressante. Sessão da revista que tem o intuito de mostrar pesquisas inusitadas que por si só seriam engraçadas e ou inesperadas. Algo semelhante a proposta do IgNobel. Os temas apresentados são os mais variados e seu lado engraçado está em apostar no inesperado, quebrando a expectativa do leitor. Reportagens como pessoas mentem mais durante a tarde , Via Láctea tem gosto de framboesa , entre outras. A ciência maluca leva ao questionamento de 'porque alguém pesquisaria isso?' e mostra que há uma influência da divulgação no sentido de não apoiar o que seria 'inútil', inclusive tachando de maluco.
## Considerações
É possível notar que os exemplos apresentados, ainda que pontuais, recorrem à ideia da utilização do humor como forma de apresentar o conteúdo de forma mais descontraída, ainda que não necessariamente estejam voltadas para o ensino. No entanto, são piadas e brincadeiras que estão voltadas para o conteúdo, o que pode possibilitar um impacto positivo na aprendizagem (WANZER et al (2010).
Por possibilitar um clima mais leve e descontraído, o humor acaba sendo consumido de maneira diferente em relação aos outros gêneros. Devido aos locais no qual os exemplos selecionados foram retirados, observamos que são produtos voltados para um consumo livre e prazeroso. Muitas vezes estes produtos são consumidos durante momentos de tempo livre, quando se tem o poder de escolher o que quer fazer, o que de certa forma é uma característica dos materiais de divulgação científica.
Portanto estes materiais estão voltados para o lazer, no entanto isto não significa que estejam desprovidos de conteúdo ou que possam ensinar. No caso, o riso acaba contribuindo para que a mensagem desejada seja transmitida, algo que está de acordo com alguns comunicadores da ciência, como apresentado. Além do mais, observamos que é possível brincar com conteúdos científicos além de só utilizar um tom humorístico para falar deles. Resta-nos aprofundar os estudos a fim de observar o impacto destes materiais tanto no público em geral quando no ambiente escolar.
## Referências
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