O CONTROLE BACONIANO DA NATUREZA PARA A COMPREENSÃO DA TECNOCIÊNCIA: IMPLICAÇÕES PARA O ENSINO DE FÍSICA QUE RELACIONA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
Andiara Pereira Dos Santos, João José Caluzi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- Alfabetização Científica E Tecnológica E Abordagem Cts No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O CONTROLE BACONIANO DA NATUREZA PARA A COMPREENSˆO DA TECNOCI˚NCIA: IMPLICA˙ÕES PARA O ENSINO DE F"SICA QUE RELACIONA CI˚NCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
## Andiara Pereira dos Santos , Joªo JosØ Caluzi 1 2
- 1 Universidade Estadual Paulista/Faculdade de CiŒncias/Programa de Pós-Graduaçªo em Educaçªo para a CiŒncia, andiara.fis@gmail.com
## Resumo
Neste trabalho apresentamos o estudo do mØtodo baconiano de controle da natureza bem como a epistemologia de Hugh Lacey para melhor compreender que a busca pelo controle da natureza Ø um valor social. Esse valor social estÆ presente no corpo teórico da ciŒncia e na abordagem tecnológica atual. Isso mostra a impossibilidade da existŒncia da neutralidade e da autonomia da atividade científica, o que pode gerar riscos na saœde humana, fomenta a alienaçªo e provoca impacto ao meio ambiente, de acordo com o filósofo Hugh Lacey. Entretanto, a imparcialidade na escolha de teorias científicas Ø um ideal factível e que explica o sucesso da tecnologia. Concluímos que o conhecimento de tais implicaçıes pode contribuir para o Ensino de Física que envolve as relaçıes entre CiŒncia, Tecnologia e Sociedade, principalmente na formaçªo do professor, para uma educaçªo científica que promova cidadªos que auxiliem na fiscalizaçªo e na decisªo por uma tecnociŒncia voltada para o bem estar humano, tal como foi idealizado por Bacon.
Palavras-chave : Controle da Natureza; Bacon; Lacey; Ensino de Física; CiŒncia, Tecnologia e Sociedade (CTS).
## Introduçªo
A filosofia e a metodologia baconiana entre os pesquisadores de Ensino de Física Ø um exemplo ingŒnuo de concepçªo de ciŒncia, (CHALMERS, 1993). Consideramos que o estudo dos pressupostos do polímata inglŒs Francis Bacon (1561 - 1626), ainda que nªo concordemos totalmente com suas bases filosóficas, Ø de suma importância para a educaçªo científica atual. A responsabilidade de compreender os pressupostos baconianos aumenta para aqueles que investem na ideia de que um ensino atual de Física precisa estar permeado das relaçıes que envolvem a CiŒncia, a Tecnologia e a Sociedade. Nas disciplinas de Filosofia da CiŒncia aprendemos que a teoria baconiana da ciŒncia jÆ foi criticada severamente, por exemplo, pelo filósofo austríaco Karl Popper (1902 - 1994) no texto ' CiŒncia: problema, objetivos, responsabilidades ' em Popper (1994). Neste mesmo texto ele afirmou:
Bacon, eu sugiro, nªo era um cientista, mas um profeta. Ele era um profeta, nªo só no sentido de que ele propagou a idØia de uma ciŒncia experimental, mas tambØm no sentido de que ele previu e inspirou a revoluçªo industrial. Ele teve a visªo de uma nova era, da idade industrial, que tambØm estaria na era da ciŒncia e da tecnologia. Referindo-se à descoberta acidental de pólvora, e da seda, ele falou sobre a possibilidade de uma pesquisa científica sistemÆtica para outras substâncias e materiais œteis, e de uma nova sociedade, na qual, por meio da ciŒncia, os homens encontrariam a
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26 a 30 de janeiro de 2015
salvaçªo da misØria e da pobreza. Assim, a nova religiªo da ciŒncia realizada uma nova promessa do cØu na terra - de um mundo melhor, que, com a ajuda de novos conhecimentos, os homens criariam para si mesmos. Conhecimento Ø poder, Bacon disse, e essa idØia, essa idØia perigosa, do domínio do homem sobre a natureza - de homens como deuses - tem sido um dos mais influentes das idØias atravØs do qual a religiªo da ciŒncia transformou o nosso mundo, (POPPER, 1994, p. 85 - 86).
Tendo em vista as criticas, do qual citamos apenas um exemplo, podemos perguntar: Por que o estudo de Francis Bacon pode ajudar nos problemas atuais do Ensino de Física, jÆ que Ø uma abordagem filosófica do sØculo XVI? E mais, por que estudar Bacon Ø importante para quem desenvolve ensino e pesquisa em CiŒncia, Tecnologia e Sociedade, jÆ que tal movimento teve sua origem nas críticas à ciŒncia baconiana realizadas pelos filósofos da ciŒncia Thomas Kuhn (1922-1996) e Paul Feyerabend (1924 - 1994)? Tais questionamentos sªo mais do que justos, entretanto nossa pesquisa teórica evidencia que grande parte dos problemas atuais que envolvem a CiŒncia e a Tecnologia, alØm de suas implicaçıes sociais, Ø advinda de um valor social de controle da natureza que se iniciou com Bacon.
Na atualidade, hÆ uma forte influŒncia da ciŒncia para produzir novas tecnologias, bem como a necessidade da tecnologia para novos 'descobrimentos' científicos.. A ciŒncia e a tecnologia estªo tªo relacionadas que neste texto serÆ mais conveniente chamar de tecnociŒncia, quando falamos dos processos de desenvolvimento científico e tecnológico atuais. Entretanto, Ø importante dizer que, geralmente, a tecnociŒncia estÆ fortemente ligada ao desenvolvimento econômico de forma que as pesquisas científicas estªo voltadas para o interesse privado (ou interesse do capital).
Para Bacon o objetivo da ciŒncia Ø o controle da natureza com vistas a auxiliar a humanidade, proporcionando maior bem estar individual e coletivo. Da mesma forma, atualmente, o controle da natureza estÆ presente, entretanto os objetivos sªo diferentes. É aí que o Ensino de Física deve entrar, educando a populaçªo para conseguir 'enxergar' suas próprias 'prisıes', se dando conta da linguagem do comØrcio que impıem a alienaçªo escondida de progresso tecnocientífico . Compreendendo o mundo em que vive, com suas imposiçıes socioeconômicas, e tendo o entendimento dos objetivos do estado e da mídia, teremos condiçıes para dizer nªo ou sim, com consciŒncia, para as inovaçıes relacionadas à ciŒncia e a tecnologia. Devemos ter um ensino de Física que 'arme' os cidadªos com o conhecimento, com vistas a lutar pela democracia, de forma a fiscalizar e a decidir por uma tecnociŒncia verdadeiramente voltada para o bem estar humano.
Para discutir tais implicaçıes para o Ensino de Física adotamos a seguinte metodologia: Voltar nosso olhar para a filosofia baconiana (sØculo XVI) com vistas a compreender qual era sua concepçªo de ciŒncia e como o conhecimento Ø construído. Após esse estudo voltamos para a atualidade, buscando compreender como os pressupostos baconianos interferem em nossa maneira de entender a ciŒncia. Para nos auxiliar neste estudo utilizamos a filosofia engajada do filósofo australiano radicado nos Estados Unidos Hugh Lacey. Seus estudos nos auxiliam no entendimento de como as pesquisas tecnocientíficas sªo conduzidas atualmente. Em sua concepçªo elas sªo desprovidas de valores sociais e visando somente o lucro podendo trazer malefícios para o ser humano. Finalizaremos com uma síntese apontando a esperança que os cidadªos tenham consciŒncia da importância da democracia para decisıes que envolvam a atividade científica e tecnológica. Esta
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esperança estarÆ mais próxima de concretizar se existir uma formaçªo para o professor que envolva as relaçıes CTS.
## O mØtodo baconiano
Mesmo compreendendo a grandeza de Aristóteles, Bacon foi um forte crítico de seu trabalho, pois para ele sua filosofia nªo oferecia obras que beneficiassem a vida humana. Para ele o saber Ø poder, e o conhecimento Ø um meio seguro para conquistar a natureza a benefício do homem. O saber por si só Ø estØril e nªo tem valor em si mesmo. O que concebeu como ciŒncia prÆtica foi o saber em sua totalidade e nªo o utilitarismo rasteiro. Seu desejo Ø que a ciŒncia servisse para utilidade em geral e nªo para o domínio de outras pessoas.
A fim de obter o controle da natureza, Bacon defende que Ø na experiŒncia que se origina da ordem e das deduçıes de axiomas, partindo do particular para o geral - que se pode obter uma verdadeira forma de compreender os caminhos da natureza. Entretanto, critica a forma com que os empiristas de sua Øpoca conduziam as experiŒncias, muitas vezes pelo acaso, de forma desordenada, alternando entre o entusiasmo e o vagar sem proveito. Bacon, por sua vez, defende o mØtodo, a ordem, pois levando em conta sua educaçªo religiosa ele afirmou '(...) Nem mesmo o Verbo Divino agiu sem ordem sobre a massa das coisas' (BACON, p.65, LXXXII) . 1
De forma a ficar claro a distinçªo da verdadeira filosofia e verdadeira ciŒncia, em que critica o empirismo de sua Øpoca e os racionalistas, Bacon utiliza a jÆ bastante conhecida metÆfora da formiga, da aranha e da abelha:
(...) Os empíricos, a maneira das formigas, acumulam e usam as provisıes; os racionalistas, a maneira das aranhas, de si mesmos extraem o que lhes serve para a teia. A abelha representa a posiçªo intermediÆria: recolhe a matØria-prima das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a transforma e digere. (...) Por isso muito se deve esperar da aliança estreita e sólida (ainda nªo levada a cabo) entre essas duas faculdades, a experimental e a racional. (Bacon, p.76, XCV).
Bacon estabelece um meio termo entre o empírico e o racional, nªo se limitando aos extremos. Todavia lança mªo, em primeiro lugar, do empírico (a matØria prima), para depois elaborar o conhecimento pela via da razªo pura, desprovida dos ídolos do intelecto o que o torna empirista. Segundo Bacon os ídolos sªo quatro: a) "dolo da tribo: Os sentidos do homem sªo a medida das coisas, Bacon considera esta afirmativa falsa, pois os sentidos e a mente guardam analogia com a natureza humana e nªo com o universo, (BACON 1999, Livro I, § 41); b) "dolo da caverna : AlØm das aberraçıes próprias da natureza humana em geral, cada um tem uma caverna ou cova que intercepta e corrompe a luz da natureza, (BACON 1999, Livro I, § 42); c) "dolo do mercado: "dolos provenientes do intercurso e da associaçªo recíproca dos indivíduos do gŒnero humano entre si. (BACON, 1999, Livro I, § 43); d) "dolo do teatro : "dolo que imigra para o espírito humano por meio das diversas doutrinas filosóficas e tambØm pelas regras viciosas de demonstraçªo, (BACON 1999; Livro I, § 44).
De posse da abundância de experimentos, Bacon adverte que o intelecto nªo pode trabalhar de forma espontânea, tªo somente com o auxílio da memória, mas com a experiŒncia literata, escrita, pois ' (...) nenhuma forma de invençªo Ø
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conclusiva senªo por escrito ' (BACON 1999, p.79). Assim, pode-se organizar e coordenar os fatos de um objeto por meio de tabelas, que Bacon chama de tÆbuas da investigaçªo, em que a mente possa se servir para produçªo do conhecimento.
Entretanto, com esses experimentos iniciais ainda nªo se obtØm o conhecimento puro, mas somente o caminho para o intelecto produzir os axiomas. Para a construçªo dos axiomas Ø necessÆrio lançar mªo de uma induçªo diferente da atual (de sua Øpoca) que procede por simples enumeraçªo e leva a conclusıes precÆrias. A induçªo œtil Ø tal que analisa a natureza primeiramente por exclusªo, observando os fatos negativos, para depois analisar os positivos. Esse tipo de induçªo, diferente do utilizado atØ o momento, serve tanto para construçªo de axiomas quanto para definiçªo de noçıes científicas.
Depois da produçªo dos axiomas, Ø necessÆrio se voltar para as obras. Nas palavras de Bacon, '(...) nosso caminho nªo Ø plano, hÆ nele subidas e descidas. É primeiro ascendente, em direçªo aos axiomas, Ø descendente quando se volta para as obras '. (BACON 1999, p.80). Procedendo dessa maneira, Bacon assegura que inventos que levariam sØculos para serem descobertos, graças ao acaso e oportunismo, poderiam ser antecipadas muito antes do tempo usual, muitas vezes de forma simultânea e repentina.
A partir das tÆbuas, Bacon faz um estudo com vistas no descobrimento de relaçıes entre essas tÆbuas e as relaçıes da natureza aumentando o nœmero de observaçıes indutivas por meio do intelecto. Entretanto, nªo se pode, com a posse das tÆbuas, fazer afirmativas por meio da induçªo. De acordo com Bacon, se a mente humana assim procede, ela incorre no erro, em fantasias. É necessÆrio operar com o intelecto de forma a submeter às instâncias a exclusıes e rejeiçıes. Bacon ainda adverte que, agindo dessa maneira, '(...) uma só instancia que se contradiga destrói qualquer conjectura sobre a forma ' (BACON 1999, p.129).
De posse de tais rejeiçıes da natureza simples, a verdadeira induçªo deverÆ se apoiar na afirmativa (utilizando as trŒs tÆbuas ou das instâncias que ocorrem fora delas), o que Bacon chama de Primeira Vindima, que faz parte das permissıes ao intelecto a fim de teorizar sobre o objeto e produzir conhecimento. É na primeira vindima que o conhecimento começa a se delinear, pois jÆ Ø possível estabelecer afirmativas e obter a verdadeira forma ou definiçªo da coisa.
A verdadeira forma Ø o intento do cientista, pois, para Bacon, o entendimento da forma Ø o conhecimento verdadeiro e para isso o seu mØtodo. J Andrade (1999) adverte que a palavra 'forma' Ø um dos pontos mais controvertidos do pensamento baconiano, sendo possíveis vÆrias interpretaçıes, pois Bacon nªo se afasta totalmente da tradiçªo escolÆstica a qual ele critica. Sendo assim o que se considera como melhor interpretaçªo Ø que a forma Ø lei e causa dos fenômenos naturais.
Para Aristóteles a descoberta da forma Ø impossível e o vulgo acredita que o verdadeiro saber Ø o saber das causas. Entretanto, Bacon vai dizer que somente conhecendo a forma se pode encontrar a verdade. Ora, a mente humana tem o erro de atribuir à forma como sendo uma afirmaçªo da essŒncia individual de um corpo. A forma nªo Ø a essŒncia dos corpos individuais, mesmo sabendo que na natureza os corpos individuais produzem atos puros individuais. Todavia, as naturezas se comportam de acordo com uma lei (essa lei Ø a forma) que Ø o fundamento para o saber e para a prÆtica. Nas palavras de Bacon, 'a verdadeira forma Ø tal que deduz a natureza de algum princípio de essŒncia que Ø inerente a muitas naturezas e Ø
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mais conhecido (como se diz) na ordem natural que a própria forma' (BACON 1999, p.103-104). O que Bacon quer dizer Ø que em vÆrias naturezas se tem a mesma essŒncia e a mesma forma. A essŒncia nªo estÆ presente em um corpo individual somente, mas em um conjunto de corpos, um conjunto de naturezas. E Ø no conhecimento da forma que as verdades da investigaçªo sªo encontradas, embora seja mais facilmente conhecido na ordem natural do que na própria forma.
Ainda assim, com todos esses procedimentos, '(...) Ø necessÆrio passar aos outros auxílios do intelecto na interpretaçªo da natureza, bem como à induçªo verdadeira e perfeita'. (BACON, 1999, p. 136). Dessa forma, o primeiro passo Ø a utilizaçªo da tØcnica das instancias prerrogativas, que forçam a investigaçªo em certo caminho. Dentro dessa tØcnica Bacon enumera 27 instâncias prerrogativas que auxiliam os sentidos, o intelecto e a parte operativa.
Depois de estabelecer tais instâncias, que Ø o primeiro passo depois da primeira vindima, Bacon enumera outros passos que nªo chega a discorrer sobre elas, tais como a tØcnica dos adminículos da induçªo, que Ø o segundo passo; o terceiro Ø o da retificaçªo da induçªo; em quarto lugar o da variaçªo da investigaçªo segundo a natureza do assunto; em quinto estªo às prerrogativas da natureza (daquilo que se deve investigar antes e depois); o sexto passo Ø o dos limites da investigaçªo (ou sinopse de todas as naturezas do universo); em sØtimo lugar estÆ a tØcnica da deduçªo à prÆtica (do que estÆ relacionado com o homem); em oitavo lugar Ø a tØcnica dos preparativos para a investigaçªo e, em œltimo lugar, Ø sobre a escala ascendente e descendente dos axiomas.
Por meio de tal mØtodo, de acordo com Bacon, Ø possível colocar o poder sobre a natureza nas mªos dos homens. Tal mØtodo permite ao homem o controle da natureza com vistas a beneficiar toda a humanidade, o que Ø o verdadeiro objetivo das ciŒncias para Bacon. Uma síntese da visªo baconiana de ciŒncia pode ser vista no texto ' Nova Atlântida'. O texto Ø uma descriçªo de uma sociedade utópica que foi publicada, postumamente, em 1627 e Ø uma obra inacabada. Nesta utopia, Bacon retrata na 'prÆtica' tanto sua visªo de sociedade ideal quanto sua visªo de como a ciŒncia precisa ser organizada e direcionada para beneficiar a humanidade.
## O ideal baconiano de controle da natureza: um valor social da atualidade
Para compreender como o ideal baconiano de controle da natureza estÆ presente como um valor social na atualidade, precisamos compreender alguns conceitos importantes propostos por Hugh Lacey. Ele distingue os valores Øticos, sociais e pessoais dos valores cognitivos. Os valores pessoais envolvem crenças que levam pessoas a fazerem determinadas escolhas em detrimento de outras estando ligadas aos sentimentos, emoçıes e desejos. Na medida em que a sociedade incorpora valores pessoais e sªo articulados socialmente, os valores sociais sªo '(...) manifestados nos programas, leis, e políticas de uma sociedade e expressos nas prÆticas cujas condiçıes eles proporcionam e reforçam' (LACEY, 2008, p.60). Assim, os valores sociais e pessoais tŒm uma relaçªo estreita na medida em que uma sociedade incorpora valores pessoais às instâncias de poder, por exemplo, a ideologia dominante sustenta ideias e crenças nos valores pessoais que podem parecer atØ certo ponto inevitÆveis e naturais da condiçªo humana. JÆ os valores cognitivos, Ø uma alternativa para escolha racional entre teorias, o que difere
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das regras dos empiristas e racionalistas. O autor ilustra alguns valores considerados cognitivos como a adequaçªo empírica , consistŒncia teórica (tanto dentro da própria teoria quanto das demais teorias aceitas), simplicidade, fecundidade, poder explicativo e certeza.
Lacey destaca trŒs momentos da atividade científica: '(...) (1) escolha de estratØgia, (2) avaliaçªo da teoria, (3) aplicaçªo de resultados científicos.' (LACEY, 2010a, p. 3). Para ele os valores Øticos e sociais estªo presentes em (1) e em (3), mas nªo na avaliaçªo da teoria, de forma que apenas os valores cognitivos estªo presentes nesta etapa. O papel da estratØgia Ø fundamental na epistemologia de Lacey e Ø responsÆvel pela restriçªo da escolha de teorias. A estratØgia fornece critØrios para seleçªo de dados empíricos que possibilitam avaliar se tal teoria corresponde ou nªo ao tipo de fenômeno estudado. Valores Øticos e sociais estªo intimamente ligados a adoçªo destas estratØgias. Sªo os valores sociais que motivam a adoçªo da estratØgia para escolha de qual ou quais, teorias serªo aceitas.
Lacey baseia sua epistemologia na concepçªo de que a ciŒncia, embora nªo neutra, admite a imparcialidade como um ideal factível na atividade científica, na medida em que incorpora os valores cognitivos, ou seja, a escolha racional de teorias. A racionalidade estÆ presente na atividade científica, nªo por aplicaçªo algoritmizada de regras, mas por valores cognitivos advindos do diÆlogo entre os membros de uma comunidade científica (LACEY, 2008).
Embora imparcial, a ciŒncia nªo pode ser neutra nem autônoma, jÆ que os valores sociais estªo incorporadas na escolha da estratØgia (nªo neutra) e destinadas a aplicaçªo dos resultados científicos (nªo autônoma). Lacey adverte que o valor social de controle da natureza se baseia no ideal baconiano de forma que as pesquisas modernas a utilizam. A busca do controle da natureza sem levar em consideraçªo os valores sociais locais Ø denominada por Lacey de abordagem descontextualizada . Tal estratØgia vŒ o mundo em termos das causas eficientes em detrimento das causas finais (OLIVEIRA, 1998, p.6). As pesquisas tecnocientíficas estªo a serviço da produçªo do lucro e nªo na melhoria da qualidade de vida das pessoas. AlØm disso, a metodologia para escolha de teorias ou de pesquisas nªo leva em conta os valores Øticos, de justiça, ou mesmo que todos possam se beneficiar dos avanços.
O que garante que a maioria das pesquisas em ciŒncias naturais na atualidade utilize as estratØgias descontextualizadas Ø a valorizaçªo moderna de controle da natureza (LACEY, 2010b, p.27) em que favorece: 1) A valorizaçªo do homem como quem exerce o controle sobre os elementos e objetos naturais, sendo incorporadas institucionalmente por meio de inovaçıes tecnocientíficas devido ao conhecimento científico produzido. Nesse aspecto, os valores do capital e do mercado para adoçªo de estratØgias descontextualizadas tŒm ampla manifestaçªo nas instituiçıes hegemônicas; 2) O controle nªo Ø subordinado pelos valores sociais e na maioria das vezes a temÆtica social e ambiental tolera a nªo vinculaçªo aos valores sociais à implementaçªo da tecnologia em seu meio, como um preço a pagar pelo 'desenvolvimento'; 3) Ambientes potenciais para a tecnociŒncia e a difusªo das tecnologias sªo valorizados, assim os problemas que cercam a vida moderna sªo problemas nos quais a tecnologia visa solucionar.
As pessoas tendem crer que o desenvolvimento científico e tecnológico somente melhora a qualidade de vida das pessoas. Vimos neste estudo que esse
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entendimento estÆ diretamente ligado a questªo da dominaçªo presente na sociedade e nos valores decorrentes desse modo de produçªo e de vida. Esses valores levam a crença no poder científico devido às estratØgias descontextualizadas de controle, muitas vezes justificada devido seu poder de explicaçªo do mundo e sua eficiŒncia tecnológica. Assim, pesquisas que nªo estejam ligadas as estratØgias descontextualizadas nªo sªo fortemente financiadas. É neste ponto que o Ensino de Física deve agir, e discutiremos na próxima seçªo como relacionar a CiŒncia, Tecnologia e Sociedade de forma que os cidadªos possam ter o entendimento e interferir nas estratØgias das pesquisas científicas.
## O Ensino de física com abordagem CTS: objetivando a democracia
Vimos que as pesquisas tecnocientíficas sªo conduzidas de acordo com a estratØgia descontextualizada. Entretanto Lacey chama a atençªo que pesquisas podem ser realizadas sem tal estratØgia, mas obedecendo tambØm aos critØrios de objetividade dos valores cognitivos.
Ele detalha o exemplo das pesquisas em sementes transgŒnicas (que utiliza abordagem descontextualizada) em que sªo feitas com base em projetos de soberania alimentar. Isso favorece o crescimento econômico, embora nªo garante a segurança alimentar para todas as pessoas. Em paralelo temos as pesquisas em agroecologia que sªo fundamentadas na sustentabilidade, preservaçªo da biodiversidade, etc. Entretanto, pesquisas em agroecologia nªo tŒm o mesmo financiamento que pesquisas em sementes transgŒnicas, o que evidencia o valor social de controle da natureza dentro da abordagem descontextualizada (LACEY, 2010).
Os avanços tecnocientíficos tŒm alto valor em nossa sociedade, embora, grande porcentagem da populaçªo nem sequer entenda os processos, acreditando de olhos fechados nas promessas da mídia. Daí a necessidade de uma educaçªo científica que possa fornecer às pessoas o entendimento necessÆrio das relaçıes CTS com vistas à emancipaçªo do sujeito.
Lacey defende que novas formas de pesquisa conectadas com o pluralismo de valores pode beneficiar a humanidade. Partilhamos a mesma opiniªo do autor e trazendo essas concepçıes para o Ensino de CiŒncias, defendemos que os alunos precisam perceber como a pesquisa atual funciona, o que contribuirÆ para desmistificar mitos e proporcionarÆ consciŒncia crítica. Depois disso, para uma melhora em nível social, buscando ampla democracia, deverªo ser apresentadas aos alunos novas possibilidades formando assim, cidadªos que participem e que haja uma ciŒncia realmente voltada para o bem estar social e individual, tal como o ideal baconiano. Essa consciŒncia crítica de cidadªos que lutam pela democracia Ø o ideal do Ensino de CiŒncias que visa às relaçıes entre CiŒncia, Tecnologia e Sociedade
Defendemos que se as pessoas compreendem o processo que estamos vivendo, entendendo a origem do problema, elas se libertam, pois passam a ter espírito crítico. Historicizar e compreender os objetivos da ciŒncia da Øpoca e contrastar com a visªo de ciŒncia atual levam o indivíduo a percepçıes diferentes e ao estabelecimento de engajamentos uns com os outros, melhorando sua capacidade de escolha e a compreensªo do porque estÆ comprando ou vivendo daquela forma. O entendimento fornece probabilidade do indivíduo de pensar, de rejeitar e de compreender para mudar. É certo que o entendimento Ø apenas o
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primeiro passo e somente isto pode nªo levar a mudança radical, mas Ø um passo importante.
## Conclusªo
- O objetivo do trabalho foi mostrar que os problemas que vivenciamos em relaçªo as pesquisas atuais, pode ser explicado por meio de um valor social de controle da natureza. Esse controle da natureza foi proposto inicialmente por Bacon e que, mesmo sendo uma filosofia do sØculo XVI, nos influencia fortemente.
Com o auxílio da epistemologia de Hugh Lacey pudemos compreender que o controle da natureza Ø um valor social atual e que faz com que as pesquisas sejam conduzidas pela abordagem descontextualizada. AlØm disso, vemos que o empirismo baconiano, tambØm estÆ presente, sendo um dos valores cognitivos atuais para escolha de teorias. Todos esses conceitos proporciona o entendimento do sucesso científico atual, alØm de explicar a alienaçªo e o aprisionamento das mentes das pessoas, alØm dos problemas para saœde humana e ambiental.
Concordamos com Bacon que conhecimento Ø poder, e em nossa sociedade esse poder se concentra em poucas mªos, tais como o capital. Entretanto, descordamos com Bacon quando afirma que o conhecimento Ø um meio seguro para conquistar a natureza a benefício do homem. Pelas pesquisas atuais como as pesquisas em sementes e as aplicaçıes da nanotecnologia, vemos exatamente o contrÆrio: implementaçıes em cosmØticos e em alimentos com pouco ou nenhum estudo sobre os riscos e toxicidade.
- O Ensino de Física precisa colocar o poder (do conhecimento) nas mªos da populaçªo, formando para a cidadania plena. Entretanto, Ø necessÆrio professores que sejam antes formados nessa concepçªo que se preocupa com as relaçıes entre CiŒncia, Tecnologia e Sociedade. Dessa forma, acreditamos que esse estudo inicial contribui para o Ensino de Física no contexto CTS, de forma que auxilia no alcance de seus objetivos originais que Ø fomentar a participaçªo dos cidadªos nos questionamentos envolvendo a CiŒncia e Tecnologia, bem como promover uma consciŒncia mais crítica sobre a utilizaçªo dos aparatos tecnológicos.
## ReferŒncias
ANDRADE, J.A. Apresentaçªo (Vida e Obra). In: BACON: F. Novum Organum. Sªo Paulo: Editora Nova Cutural, 1999, pp. 5 -18.
BACON, Francis. Novum Organum ou Verdadeiras indicaçıes acerca da interpretaçªo da natureza e Nova Atlântica . Coleçªo Os Pensadores. (Traduçªo e Notas de JosØ Aluysio Reis de Andrade). Nova Cultural. Sªo Paulo. 1999.
LACEY, Hugh. Valores e atividade Científica 1 . Sªo Paulo: Editora 3,. 2008
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Entrevista: Hugh Lacey. Trabalho, Educaçªo e Saœde , Rio de Janeiro, v. 7 n. 3, p. 623-628, nov.2009/fev.2010
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Valores e atividade científica 2 . Editora 34. Sªo Paulo. 2010 b \_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Reflections on science and technoscience. Scientiae Studia . Special issue. Sªo Paulo. V.10, pp. 103-128, 2012
OLIVEIRA, M. B. A epistemologia engajada de Hugh Lacey. Disponível em: http://www2.fe.usp.br/~mbarbosa/hlacey1.pdf. Data de acesso: 03/11/2013.
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POPPER, K. The myth of the framework : in defense of science and rationality. Abingdon,Oxon (UK): Routledge, 1994.
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