CIÊNCIA E RELIGIÃO: INVESTIGANDO CONCEPÇÕES DE ALUNOS DE ENSINO MÉDIO
Karel Pontes Leal, Marcília Barcellos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CIÊNCIA E RELIGIÃO: INVESTIGANDO CONCEPÇÕES DE ALUNOS DE ENSINO MÉDIO
## Karel Pontes Leal , Marcília Barcellos 1 2
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CEFET/RJ UnED Petrópolis/karelpontes@yahoo.com.br 2 CEFET/RJ UnED Petrópolis/marcilia12@hotmail.com
## Resumo
A relação entre Religião e Ciência não é questão de fácil abordagem, ainda mais no contexto da educação básica. Não são raras ideologias que veem as religiões e a ciência formal como essencialmente opostas, como inimigas. Esta pesquisa busca, a partir de delimitações sobre os pontos de vista possíveis da relação entre Ciência e Religião, interpretar visões de alunos de Ensino Médio acerca deste tema. Desenvolvemos então um breve questionário e o aplicamos a uma turma de alunos do ensino médio. Analisamos as respostas dos alunos ao questionário proposto buscando atribuir significados a essa complexa relação e interpretar as visões presentes. A partir dos resultados encontrados indicamos a necessidade de construir alternativas para tratar esse assunto na escola básica, possivelmente pautando-se na utilização da História e Filosofia da Ciência. Esta pesquisa é uma primeira etapa de um trabalho mais amplo que visa a construção e realização de um projeto de ensino sobre Religião e Ciência.
Palavras-chave : Religião e Ciência, História e Filosofia da Ciência, Categorias, Análise de dados.
## Introdução
Muitos estudos sobre evolução do pensamento científico ao longo dos séculos, principalmente no ocidente, mostram profundas correlações entre a Ciência e as Crenças Humanas. Entretanto, esta relação sofreu modificações ao longo do tempo, criando polarizações e tensões, o que levou a sociedade a ter, muitas vezes, uma visão dicotômica sobre determinados assuntos.
Não é raro na sociedade atual, ideologias que veem as religiões e a ciência formal como essencialmente opostas, como inimigas. O problema a ser levantado nesta pesquisa centra-se justamente na investigação das possíveis relações entre ciência e religião em um contexto escolar.
A partir do entendimento de que a física, assim como todas as ciências, é uma construção humana (HENRIQUE, 2011) e portanto possuidora de história e cultura, perguntamos à alunos de Ensino Médio se há uma relação entre Religião e Ciência (REC) e pedimos uma justificativa para esta resposta.
Analisamos esses resultados a partir de categorias que emergem dos dados e também levando em consideração reflexões teóricas sobre REC. A partir dos resultados encontrados indicamos a necessidade de encontrar alternativas para tratar esse assunto na escola básica, possivelmente pautando-se na utilização da HFC.
- O trabalho aqui proposto e apresentado é parte de um trabalho de Conclusão de Curso e, portanto, constitui fragmento de uma pesquisa mais ampla.
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26 a 30 de janeiro de 2015
## Religião e Ciência
Presenciamos muitas discussões envolvendo REC. Boa parte de nossa sociedade coloca estas duas 'entidades' em lados distintos, seja qual for a situação. Entretanto, elas são mesmo completamente opostas? Há algum sentido em pensarmos assim? Faz sentido não pensarmos dessa forma?
REC são geralmente vistas como inimigas empenhadas num combate mortal (BARBOUR, 2004). A controvérsia entre REC é duradoura e obviamente as duas partes têm adeptos. De acordo com o trabalho de Henrique (2011) podemos observar algumas características de um pensamento de incompatibilidade entre REC. Destacam-se várias diferenças entre as partes, dentre elas temos o conhecimento científico como algo duradouro e confiável embora sujeito à mudanças e a religião se pauta em verdades absolutas e inquestionáveis. As teorias científicas devem ser coerentes e testáveis e a religião não se preocupa com isso, suas doutrinas são baseadas apenas na fé. A única semelhança entre REC, de acordo com Mahner e Bunge (1996), é a busca pela verdade. Esta relação conturbada também é percebida ao passo em que cientistas ateus alegam que, por exemplo, a prova científica da evolução é incompatível com qualquer forma de teísmo (BARBOUR, 2004). Este tipo de pensamento decorre da crença na religião sendo apenas uma construção humana. (MAHNER e BUNGE, 1996)
Estas ideias não são unanimidade, principalmente no cenário filosófico, pois a ciência é vista também como uma construção humana. Nesse sentido, o físico quando promove uma nova teoria tem premissas que não são necessariamente comprovadas. Parte-se de mundos onde, por exemplo, não há resistência do ar, existem superfícies sem atrito, infinitamente planas e corpos perfeitamente rígidos. Inclusive os aparatos desenvolvidos para a experimentação seriam aparelhos capazes de reproduzir fenômenos artificiais. (HENRIQUE, 2011).
Ainda podemos argumentar do ponto de vista histórico considerando REC como construções humanas e, ao longo da história. Existiram momentos onde ambas foram igualmente protagonistas. Galileu e Newton tiveram seus trabalhos e vidas diretamente influenciados por crenças religiosas.
Ele (Newton) e outros filósofos da natureza de sua época acreditavam que as verdades sobre o funcionamento do mundo haviam sido reveladas por Deus aos primeiros habitantes da Terra. Certas partes desse corpo de conhecimentos prístinos, chamado de prisca sapientia, apareciam nos ensinamentos de sacerdotes egípcios e de filósofos gregos da Antiguidade clássica. Newton não apenas estudava como admirava e, segundo o artigo 'Newton e as flautas de Pã', utilizou esses conhecimentos na elaboração de sua doutrina. (FORATO, 2008)
Com diversas formas de analisar a relação entre REC utilizaremos categorias descritas por Barbour (2004) como referência. Dividindo em Conflito, Independência, Diálogo e Interação o autor definiu os tipos de relação existentes entre REC.
A relação de Conflito existe a partir de indivíduos que acreditam que REC são essencialmente inimigas. O autor salienta que esses grupos extremistas são os que têm maior atenção da mídia, pois notícias que explicitam essa polêmica disparidade são mais emocionantes que as explicações dadas pelas pessoas com concepções entre estes extremos.
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Independência é o ponto de vista das pessoas que acreditam que REC podem existir mesmo sendo estranhas uma a outra, entretanto devem manter distância. A partir disso, não deveria haver conflito porque elas tratam de domínios diferentes do cotidiano. Pode-se pensar ainda numa visão independente entre as duas e há quem vê REC como complementares e não excludentes. Neste caso o conflito entre elas só acontece quando um religioso faz afirmações científicas ou um cientista sai de seu campo para promover uma discussão teológica. Assim é possível aceitar as duas, colocando-as em ocasiões distintas de nossas vidas, isto evita o conflito, porém não permite uma integração.
- O Diálogo existe quando há comparação entre REC entre os métodos que, mesmo diferentes, podem mostrar-se semelhantes. Esta situação ocorre também quando a ciência chega a um ponto limite onde a própria ainda não é capaz de responder. Cientistas e teólogos são parceiros numa reflexão crítica, existindo respeito mútuo entre suas áreas.
A Integração se dá num gênero de parceria mais abrangente e sistemática pelos que buscam uma relação mais próxima entre suas áreas de estudo. A tentativa de provar a existência de Deus e as constantes universais encontradas são partes desse ponto de vista. (BARBOUR, 2004)
Devido a uma complexa relação entre REC, estas categorias permitem uma delimitação entre tantas possibilidades de análise sobre a interação entre estas duas grandes áreas.
## Análise dos Questionários
Propusemos um questionário com três perguntas para 34 alunos de Ensino Médio do 1° ano (EM) de uma escola estadual de um município da Região Serrana do Rio de Janeiro.
As perguntas que compuseram esse breve questionário foram:
- 1. O que é ciência?
- 2. O que é religião pra você?
- 3. Você consegue relacionar essas duas? Elas podem caminhar juntas?
Para analisar os dados fizemos uso da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2008). As categorias foram estabelecidas por comparação ao longo da análise dos diferentes itens, em um procedimento denominado, por essa autora, de processo de acervo.
Primeiramente dividimos a pesquisa em duas grandes frentes, separando as respostas dos indivíduos que assumem a existência de alguma relação entre REC e as respostas que não admitem nenhum tipo de relação.
A partir das respostas das pessoas que não apontaram nenhuma relação entre REC (1) criamos cinco subcategorias para diferencias as justificativas dadas para fundamentar as respostas.
A partir das respostas das pessoas que conseguem ver uma relação entre REC (2), separamos também cinco subcategorias a partir das justificativas apresentadas.
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## Categorias de Análise
A partir dos autores estudados e das respostas dos questionários construímos as categorias discriminadas abaixo:
## Respostas que não assumem nenhuma relação entre ciência e religião
- 1.1 - Esta categoria reúne os questionários dos alunos que não acreditam em uma relação entre Ciência e Religião por considerar a ciência como algo que acontece apenas quando há provas do que é proposto, enquanto a religião é uma crença e para ela ser verdadeira é apenas necessário ter fé. Este pensamento pode ser exemplificado na resposta:
Porque para a ciência algo só pode ser verdadeiro se for comprovado, e, para a religião não precisa provar, basta ter fé e crença em Deus, milagres, etc.
- 1.2 - Este grupo agrupa as respostas que remetem a ideia de não haver relação entre REC por haverem diferenças muito grandes, por essas duas áreas estudarem coisas antagônicas e terem teorias diferentes. É possível que estas respostas sejam pautadas na concepção do homem ou na criação do Universo, como exemplifica a resposta abaixo:
Porque a Religião estuda, e fala coisas contrárias que a ciência. Ex.: Na Ciência o Homem é a geração do macaco. Na Religião Deus criou o Homem e os animais. No entanto somos seres totalmente diferentes.
- 1.3 - Nesta categoria trás as respostas de pessoas que acreditam numa divergência entre REC pelo fato de estas duas terem opiniões diferentes em relação à Deus. A resposta do aluno exemplifica bem isso, quando diz:
Pois cada um tem opinião diferente sobre Deus .
- 1.4 - Este grupo reflete respostas onde o sujeito assume não haver relação entre REC levando em consideração que apenas a religião tem a verdade e que a ciência procura respostas. São respostas que refletem uma espécie de não crença na ciência, e sim na religião, como se uma coisa impedisse a outra. A resposta abaixo exemplifica essa postura:
Porque a ciência procura as respostas e a religião fala sobre a verdade.
- 1.5 - Esta categoria relaciona as pessoas que não acreditam em uma relação entre a Ciência e Religião, porém não justificam sua opinião.
## Respostas que assumem alguma relação entre ciência e religião
- 2.1 - Essa categoria reúne respostas de pessoas que acreditam numa relação entre Ciência e Religião por serem elas complementares, por terem visões diferentes da vida, como exemplifica a resposta abaixo:
Complementam-se entre si pois o concreto é o que vemos e o abstrato o que acreditamos. Depende somente da consciência e mentalidade de quem as pratica. Você pode acreditar em algo e tentar provar, como também não acreditar e procurarmos acreditar.
- 2.2 - Reúne respostas que pensam numa possível relação entre Ciência e Religião porque no fundo, elas podem ser a mesma coisa. Os alunos que são
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colocados nessa categoria redigiram suas respostas aparentemente com o intuito de dizer que a Ciência e a Religião já foram a mesma coisa e também podem ser vistas como uma coisa só.
A religião pode caminhar junto com a ciência porque a ciência estuda também a religião.
- 2.3 - Tem-se agora uma categoria de respostas que apontam uma relação entre Ciência e Religião pela possibilidade de a Ciência, com suas ferramentas, possa provar a existência de Deus e também outras histórias contadas na Bíblia, como a verdadeira existência de Jesus na Terra:
Porque religião fala sobre Deus e a ciência pode provar como pode existir um Deus.
- 2.4 - Esta categoria relata a possibilidade de uma relação entre a Ciência e a Religião pois para tudo há um explicação. Como a ciência não consegue descobrir tudo, a religião é a melhor explicação até hoje.
- 2.5 - Respostam que apontam para a ideia de que a Ciência e a Religião podem caminhar juntos, entretanto não teceram nenhuma justificativa ou comentário para explicar sua concepção.
Considerando os pontos de vista definidos por Barbour (2004), podemos classificar cada um dos tipos de resposta. As categorias 1.1, 1.2 e 1.4 se encaixam claramente numa situação conflituosa. Em especial a 1.1 praticamente define a incompatibilidade entre REC observada por Henrique (2011) onde a necessidade de provas e a simples presença de fé divide a religião da ciência. A Independência pode ser observada na categoria 2.1. Nela temos, já no exemplo de resposta uma visão de complementaridade entre REC. Uma visão dialógica acontece na categoria 2.4, onde vê-se um limite para alguns questionamentos, e assim surge o diálogo. As partes integram-se nas respostas dos alunos das categorias 2.2 e 2.3, nelas podemos perceber a união entre as áreas de estudo no sentido de a ciência provar a existência de Deus e ainda, de acordo com um aluno, serem a mesma coisa.
## Resultados
Mesmo com um número igual de categorias para os alunos que acreditam ou não numa relação entre REC, há uma diferença significativa quanto partimos para uma análise quantitativa. O gráfico a seguir mostra as quantidades de alunos que responderam a questão sobre a possibilidade de ambas terem relações.
Figura 1: Gráfico que expõe quantitativamente a opinião dos alunos sobre uma relação entre REC.
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Este gráfico pode refletir o que Barbour defendeu sobre o ponto de vista conflituoso. Parece haver a necessidade de que exista apenas uma verdade correta e isso pode fazer com que os alunos não se permitam, em sua maioria, fazer uma relação mais profunda entre REC.
O gráfico a seguir discrimina a quantidade de alunos em cada categoria que pautou sua resposta na inexistência de relação entre REC.
Figura 2: Gráfico da distribuição dos alunos nas categorias relacionadas a (1).
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A seguir temos os alunos que conseguem relacionar REC e a distribuição em suas respectivas categorias de análise.
Figura 3: Gráfico de divisão de alunos em suas categorias relacionadas a (2).
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Nestes gráficos podemos notar uma quantidade significativa de alunos que não justificaram suas opinições. Também vale salientar que alunos que conseguem relacionar REC, em nossa amostra, conseguiram tecer mais justificativas do que os alunos que não relacionam as duas áreas de pesquisa.
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## Considerações Finais
A educação formal escolar pode não estar ajudando muito na construção de uma visão que relacione REC. E isso seria uma tarefa importante quando temos o objetivo de fazer do aluno um cidadão crítico e capaz de fazer relações que ultrapassam o senso comum (PCN, 2000 e LDB, 1996). Neste sentido, o ensino de história e filosofia da ciência pode ajudar. A religião, ao longo dos séculos, participou ativamente da evolução do pensamento científico.
Acreditamos ainda que é possível abordar esse tema no ensino básico, visando a construção de visões mais complexas e críticas dos alunos sobre essa relação e sobre a própria ciência. Pretendemos explorar essa possibilidade em trabalhos futuros.
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## Referências
ABRANTES, P; KAWAMURA, M. R; MARTINS, R. Mesa-Redonda: Influência da História da Ciência no Ensino de Física. Cad. Cat. Ens. Fís., Florianópolis, 5 (Número Especial) : 76-92, jun. 1988.
BARBOUR, I. Quando a Ciência Encontra a Religião : Inimigas, Estranhas ou Parceiras? Primeira Edição, São Paulo: Editora Cultrix, 2004.
BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Rio de Janeiro: Edições 70, 2008.
FORATO, T; PIETROCOLA, M; MARTINS, R. História da Ciência e Religião: uma proposta para discutir a natureza da ciência. In: XVII Simpósio Nacionalde Ensino de Fìsica, 2007, São Luiz - MA. Atas do XVII SNEF.
FORATO, T. A Filosofia Mística e a Doutrina Newtoniana: uma discussão historiográfica. ALEXANDRIA Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, v.1, n.3 , p.29-53, nov. 2008.
HENRIQUE, A. Discutindo a Natureza da Ciência a partir de Episódios da História da Cosmologia . 2011. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
SILVEIRA, F; PEDUZZI, L. Três Episódios de Descoberta Científica: da Caricatura Empirista a uma Outra História. Cad. Bras. Ens. Fís., v. 23, n. 1 : p. 26-52, abr. 2006.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.