O CAMPO EDUCACIONAL BRASILEIRO E SUAS DEMANDAS SOBRE A PRÁTICA DE UMA ESTAGIÁRIA
Aliny Tinoco Santos, Thiago Vasconcelos Ribeiro, Luiz Gonzaga Roversi Genovese
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O CAMPO EDUCACIONAL BRASILEIRO E SUAS DEMANDAS SOBRE A PRÁTICA DE UMA ESTAGIÁRIA
## Aliny Tinoco Santos , Thiago Vasconcelos Ribeiro , 1 2 Luiz Gonzaga Roversi Genovese 3
1 Universidade Federal de Goiás / Instituto de Física, alinytinoco@gmail.com
2 Universidade Federal de Goiás / Programa de Pós Graduação em Educação em Ciências e Matemática, thiago.v.ribeiro@live.com
3 Universidade Federal de Goiás / Programa de Pós Graduação em Educação em Ciências e Matemática / Instituto de Física, lgenovese@ufg.br
## Resumo
Este trabalho tem por objetivo sinalizar as interações que ocorrem no Campo Educacional Brasileiro no contexto do estágio curricular, ao problematizar a experiência de estágio em uma escola pública de uma licencianda do curso de Física de uma universidade pública, ambas localizadas no município de Goiânia. Com o objetivo de analisar qualitativamente a prática da estagiária, suas ações aplicadas em um contexto de intervenção pedagógica no estágio supervisionado foram relatadas. São destacadas as origens das demandas e conflitos que emergiram no processo de formação inicial da futura professora, condicionando suas ações e decisões ao longo de toda a intervenção e que foram significativamente relevantes para a constituição de seu habitus de Homo Magister . Os resultados assinalam que as práticas adotadas pela futura professora na aspiração de amenizar as dificuldades e potencializar o processo formativo de seus alunos em sala de aula foram influenciadas tanto pelas demandas da realidade escolar quanto de outros espaços sociais pertencentes ao campo educacional brasileiro.
Palavras-chave : estágio; demandas; habitus ; Campo Educacional Brasileiro.
## Introdução
O estágio curricular consiste em um importante momento para a formação inicial de futuros professores, pois, além de construir e encaminhar mais adequadamente o 'choque de realidade' (VEENMAN, 1984) onde são evidenciadas as tensões presentes no trabalho docente, permite ao futuro professor problematizar modelos de docência, construídos, moldados, reformulados e disseminados tanto por professores quanto pelos próprios estagiários (VILLANI; FRANZONI, 2000; CARVALHO, 2001; PIMENTA; LIMA, 2012).
Tamanha relevância atribuída ao estágio é evidenciada nas diversas pesquisas em educação e educação em ciências que buscam lançar um olhar crítico sobre a sua teoria e a sua prática. Dentre tais pesquisas destacamos: a influência da legislação na formação dos professores (CARVALHO, 2001; VIEIRA; NASCIMENTO; VILLANI, 2008), saberes docentes (BACCON; ARRUDA, 2010); interação professor aluno no estágio supervisionado (ARRAUDA; LIMA; PASSOS, 2011); dificuldades enfrentadas pelo futuro professor sob a perspectiva das relações humanas (FREITAS; VILLANI, 2002; MARTINS, 2009). Tais pesquisas, em geral, sinalizam para a importância em articular as teorias pedagógicas e a prática docente (PIMENTA, 1994), da perspectiva da prática reflexiva crítica para professores supervisores e estagiários (PIMENTA; LIMA, 2012) e da valorização da relação escola-universidade (GENOVESE; GENOVESE, 2012). Em meio a esse panorama apresentado, um aspecto que permanece relativamente pouco discutido é forma e a intensidade com que as relações estabelecidas entre a escola e as demais instituições relacionadas à educação (Secretarias de Ensino, Sindicatos, dentre outros) influenciam as ações e a formação no decorrer do estágio. A noção de Campo
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26 a 30 de janeiro de 2015
Educacional Brasileiro (GENOVESE, 2008) foi construída a fim de evidenciar que as escolas, as universidades e as demais instituições interessadas na educação estabelecem entre si relações de força e de sentido em torno do objeto em disputa desse campo, a saber, o que se deve reconhecer como legítimo e verdadeiro quando se refere aos ideais e valores da educação (GENOVESE, 2014). Logo, torna-se necessário compreender de que forma tais espaços e relações influenciam a formação durante o estágio curricular.
Com o objetivo de desvelar e avançar no entendimento de tal problemática, o presente trabalho procura problematizar a experiência de uma licencianda do curso de Física enquanto estagiária em uma escola pública da cidade de Goiânia. Logo, pretendese identificar as demandas exercidas pelos diversos espaços sociais que compõem o Campo Educacional Brasileiro e como as mesmas impactaram no processo de formação inicial da futura professora, ou seja, influenciaram o processo de constituição do habitus de Homo Magister (GENOVEZ, 2008) da estagiária.
## Referencial Teórico
O Campo Educacional Brasileiro (GENOVESE, 2014) é um espaço social com todas as características de um campo : um espaço hierarquizado, que atua como um campo de lutas e como um campo de forças, cujas necessidades se impõem aos agentes e às instituições que nele se posicionam na disputa por interesses específicos - os capitais simbólicos (BOURDIEU, 1996). Tais capitais consistem em propriedades de qualquer tipo os quais os agentes lhes atribuem valor, tornando-os objeto de disputa. Os agentes de determinado campo atribuem valor aos capitais devido aos habitus incorporados anteriormente no próprio campo e ao longo de sua trajetória no espaço social. Logo, o professor, condicionado por seu habitus , acumula um determinado tipo de capital específico que, por sua vez, o leva a ocupar e/ou almejar determinada posição no campo (GENOVEZ, 2008).
Figura 1: Representação esquemática dos campos que compõem o campo educacional brasileiro (Adaptado de GENOVESE, 2014).
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Em meio a esse contexto, o espaço social constituído por uma escola ou conjunto de escolas consiste em um subcampo que, ao mesmo tempo que sofre determinadas imposições de demandas, impõem outras demandas aos demais subcampos. Assim, através do ' giro formativo discente-docente ', o estagiário é inserido nesse ambiente de lutas por meio do qual irá construir e interiorizar habitus característicos da profissão habitus de Homo Magister - responsáveis por suas percepções, ações e tomadas de posição dentro do espaço escolar (GENOVESE; GENOVESE, 2012, p. 18).
Quando seu habitus corrobora para práticas que resultem no acúmulo de capitais do mesmo tipo que é valorizado pelo campo de onde provém a demanda, sua prática é dita ajustada ou naturalizada. Entretanto, quando sua prática se contrapuser à aquisição do capital ambicionado pelo campo de onde provêm a demanda, essa prática é dita nãoajustada ou não-naturalizada. Mas, ainda que o habitus esteja propiciando práticas nãonaturalizadas, é possível realizar conversões. Isso ocorre, pois assim como o campo é interiorizado pelo agente independentemente da sua consciência e vontade, ocorre o processo inverso de exteriorização da interioridade, ou seja, o habitus do agente atuando sobre a estrutura também ocorre. Tal característica destaca a propriedade dialética existente entre a estrutura e o habitus e o habitus e a estrutura (BOURDIEU, 1998).
## Metodologia
A presente pesquisa foi realizada por uma estagiária de um curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública e ocorreu em uma escola pública, ambas localizadas no município de Goiânia. O estágio foi realizado numa perspectiva colaborativa por meio da construção de um Pequeno Grupo de Pesquisa (PGP) (GENOVESE; GENOVESE, 2012) na escola, que tinha como um dos pressupostos a abordagem e o encaminhamento de problemas relevantes da escola (SANTOS et al., 2013). A estagiária trabalhou com uma turma de primeiro período da EJA (Educação de Jovens e Adultos), do período noturno preparando-os para construir e apresentar experimentos com materiais alternativos na 'Mostra Cultural', um importante evento anual da escola que naquele ano problematiza o Meio Ambiente.
Devido às aflições sentidas pela estagiária no decorrer do estágio, a presente pesquisa procurou problematizar as demandas provenientes dos diversos espaços sociais constituintes do Campo Educacional Brasileiro que influenciaram a sua prática na escola. A pesquisa, de viés qualitativo (BOGDAN; BIKLEN, 1994), utilizou-se de dados construídos por meio de Notas de Campo, elaboradas pela estagiária.
Para a organização e tratamento da análise dados foi utilizada a Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011): a partir da leitura flutuante das Notas de Campo (pré-análise), foram construídas categorias de análise (codificação - exploração do material). Tais categorias foram formadas de acordo com os pressupostos do referencial teórico e com os aspectos pertinentes e elementos significativos presentes nos dados construídos.
## Categorias de Análise
Tabela 1: Demandas Geradoras de Práticas Naturalizadas e Práticas Não Naturalizadas.
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As categorias aqui apresentadas foram construídas sob duas dimensões: Dimensão Práticas Naturalizadas e Dimensão Práticas Não Naturalizadas (Tabela 1). A Dimensão Práticas Naturalizadas refere-se às práticas da estagiária em que foi possível perceber forte ajustamento entre seu habitus e o campo de atuação. Tal percepção se reflete nos procedimentos e posturas estabelecidas e desenvolvidas pela estagiária de forma não conflituosa ao longo das atividades de ensino e aprendizagem. Nessa dimensão foram construídas duas categorias: ' Pequeno Grupo de Pesquisa ' e ' Tema transversal '. ' Pequeno Grupo de Pesquisa ' é uma categoria que analisa o processo de construção de um grupo de pesquisa implantado na escola campo de estágio para organizar o desenvolvimento do estágio supervisionado. Essa demanda representa o esforço de materializar um projeto pioneiro. A categoria ' Tema transversal ' analisa a atuação da estagiária ao lidar com um tema transversal escolhido pela escola e que deveria ser incluído em sua intervenção. A utilização de temas transversais exige uma habilidade de associação do tema sugerido e as contribuições da disciplina para a discussão desse tema.
Por sua vez, a Dimensão Práticas Não Naturalizadas refere-se a práticas conflituosas, ou seja, nas quais não ocorreram o ajustamento entre o habitus da estagiária e o campo de atuação. Nessa dimensão foram construídas outras duas categorias: A categoria ' Materiais Alternativos ' e ' Conteúdo '. A categoria ' Materiais Alternativos ' analisa o processo de execução do Projeto de Intervenção Coletivo (PIC) da escola campo de estágio. A estagiária busca corresponder, com sua intervenção, a uma demanda construída a partir dos interesses do professor supervisor de estágio, porém esse processo nem sempre é tão tranquilo porque exige competências que a estagiária ainda não possui, como ocorreu na elaboração de experimentos utilizando materiais alternativos. A categoria ' Conteúdo ' analisa como ocorre o processo de intervenção em relação ao conteúdo de física trabalhado com os alunos. As propostas da intervenção exigiram um enorme esforço para selecionar e trabalhar diferentes conteúdos e de maneira clara aos alunos. Esse processo é dificultado quando não se recebe nenhuma orientação sobre como lidar com tais articulações. A seguir são apresentadas as discussões dos dados de acordo com as categorias de análise aqui apresentadas.
## Resultados e discussões
Sobre a dimensão Prática Naturalizada são apresentadas as seguintes considerações sobre as categorias 'Pequeno Grupo de Pesquisa' e 'Tema Transversal'.
## Pequeno Grupo de Pesquisa (PGP)
A fim de estruturar um ambiente de estágio colaborativo no qual todos agentes envolvidos possam desenvolver projetos de pesquisa sobre problemas próprios da rotina da escola campo de estágio, foi implantado nesta um PGP - Pequeno Grupo de Pesquisa (GENOVESE; GENOVESE, 2012) proposto pelo professor da disciplina de Estágio, logo essa demanda é própria do Campo Universitário. A principal atividade realizada pelos agentes envolvidos foi a criação e manutenção do PGP, o que representou um grande desafio uma vez que esse foi um dos primeiros grupos criados, dentro de um projeto que atualmente se encontra consolidado na Universidade que a estagiária pertence. Dentre as obrigações desse PGP está a elaboração de um Projeto de Investigação Coletivo (PIC), que expresse as demandas e interesses do Professor Supervisor de Estágio, que neste caso consistiu na elaboração de experimentos a partir de materiais alternativos 'sucatas' para as aulas de laboratório e eventos como a Feira de Ciências e a Mostra Cultural. O PIC deve orientar a construção dos Projetos de Investigação Simplificado (PIS), que são os projetos individuais desenvolvidos por cada um dos estagiários.
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Tal demanda proveniente do Campo Universitário foi percebida pela estagiária como uma prática naturalizada uma vez que ela se sentiu segura em poder contar com o apoio do Professor Supervisor de Estágio (PS), do Professor da Disciplina de Estágio (PE) e dos colegas estagiários, como é possível destacar das notas de campo referentes a reuniões realizadas entre o PS e os estagiários:
'[...] levei a minha proposta de intervenção que o PE já tinha olhado e aprovado [...] Apresentei minha proposta, que também foi aprovada por pelo PS e por meus colegas e então dividimos as tarefas para que todos pudessem colaborar. [...] fiquei mais tranquila porque sabia que não precisaria fazer tudo sozinha.'
A demanda, representada pela categoria 'Pequeno Grupo de Pesquisa', colaborou fortemente para a execução da intervenção da estagiária e o ajuste de seu habitus foi mais tranquilo porque as competências necessárias para a demanda foram construídas ao longo do processo de intervenção com apoio principalmente do Campo que impôs a demanda, nesse caso, o Campo Universitário.
Desta demanda poderíamos concluir que quando é exigido o trabalho colaborativo no estágio, é necessário que os campos responsáveis pelas demandas estejam de acordo entre si e apoiem a prática do estagiário.
## Tema Transversal
A abordagem de temas transversais é proposta pelos PCNs decorrente do Campo das Secretarias de Educação, mas tal demanda deriva-se principalmente do Campo da Escola, uma vez que este tem liberdade de escolher os temas que julgar serem mais relevantes. A inclusão de temas transversais busca a integração de disciplinas convencionais da educação de forma que o tema esteja presente em todas elas, relacionando-as às questões da atualidade e que sejam orientadoras também do convívio escolar. Os Temas Transversais, portanto, dão sentido social a procedimentos e conceitos próprios das áreas.
A prática do tratamento de um Tema Transversal foi percebida pela estagiária como uma Prática Naturalizada uma vez que ela se sentiu tranquila quando solicitado que seu projeto fosse alterado para inclusão de um tema transversal. Ao escolher o tema 'Meio Ambiente' a escola, de maneira alguma, impossibilitou a intervenção da estagiária, pelo contrário, agregou um significado para a primeira etapa do PIC do PGP em questão, sendo esse a coleta dos materiais alternativos para confecção de experimentos, como é percebido no seguinte trecho das Notas de Campo:
'Eu já havia elaborado um pré-projeto, mas ainda não sabia como introduzir o tema com os alunos. [...] o professor supervisor propôs alterações no texto original [...] Não houve grandes modificações porque o tema escolhido não atrapalhou em nada a o que eu já tinha pensado. Eu só precisava dar uma atenção mais especial à questão da reutilização e reciclagem. [...] Foi até melhor porque a coordenadora passou a nos dar mais atenção e se ofereceu a providenciar qualquer material que precisássemos.'
Apesar da demanda requerer ajustamentos e modificações no projeto inicial, ela foi percebida como uma Pratica Naturalizada porque a constituição do habitus exigido na escola ficou a cargo do próprio campo específico, que se encarregou de fornecer a definição de temas transversais e o próprio tema a ser abordado. Nessa demanda podemos destacar a falta da participação do Campo da Universidade, que em nenhuma disciplina ofertada tratou esse tipo de tema, o que levou a estagiária a recorrer a habitus constituído fora do contexto de sua formação superior.
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Sobre a dimensão Prática Não Naturalizada são apresentadas as seguintes considerações sobre a Aplicação da Metodologia e Educação de Jovens e Adultos.
## Materiais alternativos
Extrair do PS um ponto que ele julgue ser relevante e que possa requerer a intervenção do estagiário pareceu tarefa fácil, tendo em vista que já havia outro estagiário naquela unidade de ensino e que juntamente com o professor convidaram novos estagiários para execução de um projeto antigo da escola, idealizado pelo PS e que já havia sido iniciado sem qualquer formalização. Tal projeto consistia em elaborar experimentos com Materiais Alternativos, para serem trabalhados com os alunos no laboratório de ciências da escola. A fase de coleta de materiais já estava bem avançada, mas isso só colaborou para o acumulo de diversos materiais, todos eles amontoados. Deveríamos então separar os materiais de alguma forma e elaborar os projetos para os experimentos, mas essa não é uma tarefa trivial.
Tal demanda constituída exclusivamente no Campo da Escola se apresentou como uma Prática Não Naturalizada, uma vez que ficou evidente a dificuldade dos estagiários que não haviam realizado esse tipo de prática anteriormente, como é possível observar na transcrição da nota de campo abaixo:
' [...] próximo a pia estava um monte de entulho, quando ví aquilo pensei que nunca iriamos conseguir arrumar aquela bagunça. [...] enquanto colocávamos as coisas separadas em umas estantes que estavam escondidas em um quartinho no laboratório, ficávamos tentando pensas em que tipo de experimentos eles podiam ser usados, mas não saíram muitas ideias...'.
A confecção de experimentos com materiais alternativos requeria competência que inicialmente era de domínio apenas do PS, por isso essa demanda exigiu muita paciência e dedicação dos estagiários, para que conseguissem incorporá-las a seus habitus formados no Campo da Universidade, que os limitavam aos laboratórios demonstrativos.
Desta demanda destaca-se a necessidade de preparar o estagiário para situações diversas, e assim os tornar capazes de conhecer todo o processo de um experimento e não somente a execução do mesmo, que em poucas situações poderão ser reproduzidos.
## Conteúdo
A demanda Conteúdo corresponde a uma das mais prezadas por todos os subcampos do Campo Educacional Brasileiro, cada um a sua maneira, o que não reflete na preocupação desses subcampos em explorar as relações existentes entre os interesses dessa demanda. Na prática analisada, a demanda provém principalmente do Campo da Escola, orientada pelo Campo das Secretarias de Educação, porém a prática dessa demanda mobiliza habitus que são incorporados e avaliados incialmente no Campo Universitário.
O conteúdo foi trabalhado individualmente com os alunos a partir do objeto que eles haviam escolhido. Com o grupo de alunos que escolheu trabalhar com fonte de computador (FC), por exemplo, foi discutida a função de converter corrente alternada em corrente contínua e a diferença entre esses tipos de corrente, também foi trabalhado a identificação e funcionamento de alguns componentes eletrônicos como, por exemplo, transformadores, capacitores, e diodos. Com o grupo que escolheu o ferro elétrico (FE) foi discutido, por exemplo, voltagem, resistência elétrica, conversão de energia elétrica em energia térmica, a funcionamento do termostato e a transferência de calor. Ainda podemos destacar o grupo que escolheu o aparelho celular (AC) para desenvolver o trabalho e neste caso o conteúdo
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foi limitado a algumas peças individuais como, por exemplo, as baterias que convertem energia química em energia elétrica, a tela de cristal líquido e ainda uma discussão breve sobre a radiofrequência usada para envio e recebimento de sinal.
Essa demanda exigiu que a estagiária fizesse um estudo pessoal de cada um dos objetos escolhidos, pois os alunos também fizeram suas pesquisas e traziam todas as dúvidas à estagiária, além da necessidade de confirmar as informações e fontes que os alunos estavam utilizando, o que resultou em um desgaste por parte da mesma. Foi possível perceber que o trabalho foi mais eficaz nos grupos que escolheram objetos cujo funcionamento é mais fácil de ser explicado, como ocorreu com FC e FE que conseguiram elaborar cartazes explicativos, apresentaram os objetos desmontados e identificaram os componentes que haviam se proposto a apresentar. Porém alguns objetos como o celular não permitiram o aprofundamento do conteúdo que é bem mais técnico e difícil de encontrar. Nesse caso é possível perceber que os alunos preferiram focar no tema transversal 'reciclagem e preservação do meio ambiente' e não trataram nenhum conceito físico durante a apresentação na Mostra Cultural. Esse fato pode ser percebido no seguinte trecho da Nota de Campo que transcreve a fala dos alunos:
[...] A1-Professora, nós só encontramos explicações difíceis sobre o celular por isso não fizemos cartaz, mas entendemos que o celular não pode ser jogado na rua porque tem componentes tóxicos que fazem mal pro meio ambiente [...] A3- Nem precisa jogar no lixo, porque toda loja que vende celular tem uma caixinha pra você jogar as baterias e celulares velhos.'
A estagiária se sentiu fragilizada e entendeu essa abdicação do conteúdo pelo grupo AC como uma falha que começou a partir dela própria uma vez que também não compreendia o funcionamento completo do celular e mesmo apresentando o aparelho, os componentes que constituem o celular não foram suficientes pra justificar as inúmeras funções que ele possui.
Essa prática não naturalizada também pode ser compreendida pelo não ajuste do habitus formado no Campo Universitário que, assim como na demanda Materiais Alternativos, exigiu que a estagiária recorresse a habitus constituídos fora do contexto de sua formação superior e realizar conversões para satisfazer a demanda. O estudo dos aparelhos tecnológicos precisa ser discutido pelo Campo Universitário de maneira a capacitar o futuro professor a orientar seus alunos nesse tipo de discussão tão comum e cada vez mais necessário nas escolas.
## Considerações Finais
A análise dos resultados aqui apresentados sinaliza para um possível avanço no entendimento do processo de formação de professores, mas especificamente no âmbito do estágio, ao destacar a interferência dos subcampos que constituem o campo escolar brasileiro através das demanda que impõem.
Quando o campo responsável pela demanda também é responsável pela formação do habitus , e quando os subcampos possuem o mesmo interesse sobre determinada demanda, as análises sinalizam para a tendência de que ocorram práticas naturalizadas, como nos casos das demandas ' Pequeno Grupo de Pesquisa ' e 'Tema Transversal '. O oposto também pode ser observado. A práticas não naturalizadas ' surgem em um contexto em que o campo do qual deriva a demanda não corresponde ao campo em que ocorrerá o processo de formação do habitus da estagiária, assim como é possível perceber na análise das demanda ' Materiais Alternativos ' e 'Conteúdo'. Nestas condições as análises apontam para a formação de práticas não naturalizadas, que exigem maior esforço da estagiária para realizar conversões do
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habitus que já foi formado anteriormente e que encontra-se em conflito com o campo, para que as demandas sejam cumpridas. Cabe ainda destacar que, apesar de não ser levado em consideração, compreender a constituição do habitus de uma estagiária, mesmo formado fora do que é entendido como Campo Escolar Brasileiro e a origem das demandas que balizam o processo de formação do futuro professor possibilita compreender quais os conflitos poderiam ser amenizados com a colaboração dos campos responsáveis por essas demanda e pela formação do futuro professor.
## Referências
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