TEORIA DA ATIVIDADE NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA: O COTIDIANO ESCOLAR E O ESTÁGIO NO IFUSP
Danila Farias Brito Ribeiro, Cristiano Rodrigues De Mattos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## TEORIA DA ATIVIDADE NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA: O COTIDIANO ESCOLAR E O ESTÁGIO NO IFUSP
Danila Farias Brito Ribeiro , Cristiano Rodrigues Mattos 1 2
2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, mattos@if.usp.br
## Resumo
Neste texto, apresentamos um recorte de nossa pesquisa de mestrado cujo objetivo é a análise da formação inicial do professor de Física tal como ocorre em uma disciplina que incorpora horas de estágio, do curso de Licenciatura em Física do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP). Especificamente, nosso foco aqui é o potencial da Teoria Sócio-histórico-cultural da Atividade para análise da formação de professores tal como ocorre, na referida disciplina, por meio do estágio supervisionado levado a termo em escolas públicas da cidade de São Paulo. O estágio sobre o qual nossa pesquisa se detém incorporam um conjunto complexo de atividades que envolvem cinco principais sujeitos: (i) os docentes da universidade que ministram a disciplina; (ii) os monitores-educadores, pósgraduandos bolsistas da universidade; (iii) os licenciandos que cursam a disciplina; (iv) os professores de Física das escolas de educação básica que supervisionam esses estagiários; (v) os alunos das escolas que participam das aulas elaboradas pelos estagiários. Para investigar o complexo sistema hierárquico constituído pelas relações entre esses sujeitos, utilizamos como instrumento de pesquisa, unidade de análise, o conceito sócio-histórico-cultural de atividade, conceito este central numa fundamentação teórica que considera o contexto concreto do sistema de atividades em questão.
Palavras-chave : formação de professores de física, estágio supervisionado, cotidiano escolar, Teoria da Atividade.
## Professor: produto sócio-histórico-cultural
Para iniciar uma discussão sobre a formação de professores, entendemos que é necessário estabelecer a concepção que temos do ser humano e de seu desenvolvimento. Para Leontiev (1978), o homem, como sujeito, é concebido a partir do processo dinâmico do trabalho. Seu desenvolvimento depende de leis biológicas, que coordenam sua adaptação às condições e necessidades de produção, e de leis sócio-históricas, que regem o desenvolvimento de sua produção. Nessa perspectiva, desde a infância o homem se desenvolve por meio de apropriação da cultura desenvolvida pelas gerações antecedentes, processo que se realiza no seio das suas atividades sociais, conceito fundamental para Leontiev (1988).
- O desenvolvimento psicológico do homem não pode ser separado do desenvolvimento de suas formas de ser no mundo e das atividades nas quais se manifestam. É por meio delas que sua consciência é moldada. Por isso, para compreender o desenvolvimento da psique do homem, deve-se notar seu lugar nesse sistema de relações, lugar este determinado pelas atividades e condições concretas de vida.
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26 a 30 de janeiro de 2015
Baseados nas teorias da psicologia social desenvolvidas por Vigotski et al. (1988), entendemos que é pela análise das motivações do homem nas suas relações de trabalho que podemos compreender as manifestações de sua atividade e de sua consciência, ou seja, compreender os motivos que o movem e sentidos por ele atribuídos, permitindo, assim, que se possa intervir no seu processo de desenvolvimento. É compreendendo a dinâmica da atividade que podemos identificar transições entre estágios de desenvolvimento humano, isto é, identificando as mudanças das atividades - as relações do sujeito com a realidade é que podemos avaliar a consciência desses sujeitos.
Além disso, tomando a perspectiva de Leontiev (1978), podemos entender que o desenvolvimento do sistema escolar anda passo a passo com o desenvolvimento histórico da sociedade. Por isso, é evidente a importância de se investigar o papel das condições e das potencialidades concretas das atividades humanas num dado momento histórico. Nessa perspectiva, é possível compreender o papel da educação na transformação das suas próprias atividades e, consequentemente, da consciência de educadores/educandos em seu processo de formação profissional. Leontiev (1988) aponta que, na busca por maior compreensão das relações humanas, não se podem ignorar as desigualdades entre os homens, determinadas por conjuntos complexos de fatores como desigualdades econômicas, sociais e das relações diferentes estabelecidas durante o desenvolvimento histórico do homem. Por essa razão, pessoas diferentes, num mesmo momento histórico, têm formas diferentes de conceber uma realidade histórica e de interagir-intervir nela.
No que diz respeito à formação de professores, entendemos que professores diferentes, num mesmo momento histórico, têm formas diferentes de conceber as atividades nas quais estão inseridos. Entre elas está a supervisão de estagiários.
A formação profissional inicial, seja de professores seja de outros profissionais, está diretamente relacionada à práxis relativa ao sistema de atividades ao qual a profissão está subordinada. No caso concreto do sistema capitalista, no qual estamos incluídos, é exigência, para subsistência, a inclusão de professores ainda enquanto licenciandos no mercado de trabalho, sem a devida orientação profissional, . Entretanto, mais recentemente, estabeleceram-se mecanismos na atividade universitária de imposição do estágio como obrigação parcial do curso de licenciatura.
Para compreender o estágio supervisionado como um fenômeno de inclusão de uma atividade universitária dentro da atividade o nível hierárquico do sistema de educação básica, nos baseamos na Teoria Sócio-histórico-cultural da Atividade, sobre a qual discorremos no próximo tópico.
## Atividade em Leontiev
Para Leontiev (1988), a atividade é o conjunto de processos relacionados a uma necessidade estabelecida nas interações entre homem e mundo. Tal necessidade se manifesta em um motivo concretizado em um objeto, para o qual a atividade está dirigida. Assim, o objeto de uma atividade é a concretização do motivo, que encarna a necessidade para qual se move.
Na Teoria da Atividade, estão presentes dois conceitos dinâmicos: ação e operação. Ação é um processo consciente realizado pelo sujeito, a qual é movida
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por um fim , que não coincide com o objeto da atividade. Uma mesma atividade pode ser composta de várias ações, as quais podem ser movidas por diversos fins. Quando o fim que move uma ação de um sujeito coincide com o objeto dessa ação, esta ganha status de atividade, sendo composta por outras ações com diversos fins.
- A operação está relacionada às condições de execução de uma ação, ocorrendo na esfera do inconsciente. Com o tempo, quando surge um novo fim, para se realizar uma nova ação mais complexa, são necessárias novas condições, isto é, novas operações. Nessa dinâmica, uma ação se torna inconsciente, hábito automático, ganhando status de operação.
Na perspectiva da Teoria da Atividade, a atividade é a unidade fundamental de análise. Isto é, do ponto de vista analítico, procura-se compreender quem são os sujeitos, quais são os fins que os movem em suas ações, e quais são as condições - operações - para realização dessas ações nas dinâmicas que se desdobram em torno dos motivos que se concretizam no objeto da atividade.
## Necessidade de repensar a formação de professores: o contexto atual da prática social chamada ensino
Professor e aluno -e, portanto, seu desenvolvimento como sujeitoprofissional - constituem a cultura e os contextos sociais dos quais fazem parte, por isso, é preciso que o ensino seja constantemente repensado tendo-se em vista sua natureza de prática necessariamente social.
- O desenvolvimento de um sujeito depende da época em que ele vive e das exigências sociais estabelecidas. Ao longo do processo de desenvolvimento, o sujeito vai percebendo que suas potencialidades vão além do lugar que ocupa nas relações humanas, o que o leva a se esforçar para modificá-lo. Assim, a transição de um estágio de desenvolvimento para outro ocorre por uma necessidade interior que surge a partir do enfrentamento de novas tarefas correspondentes a suas potencialidades em mudança e à sua nova percepção disso. Entendemos que, é nessa dinâmica, que deve atuar a Educação e, logo, a formação de professores.
No âmbito do estágio supervisionado, não se deve perder de vista que nas escolas frequentemente ocorre condicionamento do trabalho dos professores e tolhimento de sua autonomia, por conta da caracterização técnica dos currículos elaborados previamente por especialistas -, sufocamento da atividade pedagógica pela transformação dos professores em consumidores de 'práticas pré-esboçadas' e intensificação do trabalho docente unida à crescente falta de valorização desse profissional. Nesse sentido Sacristán (1991), defende que os pesquisadores da formação de professores devem investigar as relações entre as dinâmicas internas das escolas e as condições externas que exercem influência sobre o trabalho do professor. No âmbito da nossa pesquisa, faz parte desse trabalho embora não devidamente regulamentada, a função de formador de novos professores nos estagiários supervisionados dos cursos de licenciaturas.
Na sequência apresentamos um contexto real que evidencia a necessidade de análise da práxis educativa na formação de professores de Física.
- O objetivo deste trabalho é discutir a relevância e o potencial da Teoria da Atividade como instrumento teórico para investigação das relações que ocorrem em contextos concretos de escolas públicas na atividade de estágio supervisionado.
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Discutimos, do ponto de vista teórico, algumas questões no âmbito dos estágios supervisionados desenvolvidos no Instituto de Física da USP (IFUSP). Destacamos que questões empíricas e outras de natureza teórica estão sendo desenvolvidas em pesquisa mais ampla da qual este trabalho é um recorte.
## Formação de professores de Física por estágio supervisionado: um contexto concreto da USP
Neste tópico descrevemos um panorama que evidencia a relevância das pesquisas focadas no papel e contexto concreto dos professores das escolas: a participação de professores de escolas públicas na formação de graduandos do curso do IFUSP, recebidos nas escolas como estagiários da disciplina 'Práticas em Ensino de Física'.
Criada em 2007, essa disciplina incorpora 100 horas de estágio supervisionado obrigatório. Seu projeto foi direcionado pelo Programa de Formação de Professores da USP (PFP-USP), que propõe uma parceria entre universidade e escola, assumindo uma
[…] política de formação de professores comprometida com os problemas escolares contemporâneos [devendo, para tanto] centrar-se num esforço de compreensão das teorias, das práticas, dos valores e da história das instituições escolares e seus agentes institucionais, tendo em vista que as escolas são as entidades concretas em que os futuros professores exercerão suas atividades. (USP, 2004, p.4)
Até 2013, o trabalho da disciplina começava com um planejamento anual e visitas a escolas do entorno da universidade para propor um vínculo para supervisão dos estagiários. Essas visitas eram feitas pelos docentes do IFUSP responsáveis pela disciplina, juntamente com os monitores-educadores, estudantes de pósgraduação contratados a partir de processo seletivo interno, para trabalho de 20 horas semanais previstas no PFP-USP. Os monitores-educadores eram responsáveis por auxiliar na organização da disciplina e por oficinas de preparo de aulas experimentais pelos estagiários. Nessas oficinas, quinzenais, de duas horas, eram preparadas e reelaboradas atividades majoritariamente experimentais a partir de um banco de roteiros, e montadas caixas com os recursos necessários, transportados pelos monitores para as escolas na semana antecedente à aula programada. Até esse ano havia 7 escolas participantes, sendo 6 estaduais e uma municipal.
Na relação entre o IFUSP e escola públicas para formação de professores de Física ocorreram vários problemas que, mesmo previstos em programas de formação de professores como o PFP-USP, não foram devidamente levados em consideração na concretização do estágio. Como exemplo, citamos: falta de acompanhamento das aulas dos estagiários pelos professores supervisores; mudanças constantes na grade horária das aulas nas escolas, o que dificultava os planejamentos da disciplina e dos estagiários; dispensa dos alunos das escolas do período noturno por ausência de professores (aulas vagas); ausência dos professores de Física e falta de comunicação entre os mesmos e os estagiários; conflitos entre as agendas dos licenciados e os horários das escolas, dificultando a alocação dos estagiários nas escolas; incompatibilidade entre a sequência curricular seguida pelos professores da escola e as aulas planejadas pelos estagiários; escassez de tempo dos professores da escola, dos estagiários e dos docentes da
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universidade para replanejarem o curso com os estagiários; dificuldade de acesso de estagiários ao portão de entrada nas escolas; concepção do estágio por parte da escola como um ônus, sem qualquer tipo de beneficio à escola (PFP-USP, 2004, p.28).
No contexto concreto em que ocorre a relação entre IFUSP e escolas públicas, a proposição da existência de parcerias institucionalizadas - envolvendo, inclusive, os níveis hierárquicos de relações que envolvem a Secretaria de Educação -, prevista no próprio PFP-USP (2004, p.24) e sugerida por professores supervisores (entrevistados na pesquisa mais ampla da qual esse texto é um recorte) indica um caminho para solução dos problemas mencionados acima. Mas, mesmo uma institucionalização clara pode não resolver os problemas se os fins que dirigem as ações dos sujeitos envolvidos não forem coordenados
À luz da Teoria da Atividade temos em vista que a uma mesma ação podem ser atribuídos diferentes sentidos por diferentes sujeitos dependendo de qual é o fim que os leva à execução da ação. Com diferentes fins, sem a devida coordenação entre eles dentro de uma mesma atividade, têm-se as contradições do sistema em questão. Ao mesmo tempo, o aumento da consciência sobre a atividade composta pelas várias ações dos sujeitos nos vários níveis hierárquicos propicia adoção de novos fins. Assim, modificações em fins/ações geram mudanças de motivos e, portanto, da atividade.
Entendemos que as melhorias na proposta de parceira entre universidade e escola previstas pelo PFP-USP devem avançar no sentido dessa crescente conscientização dos sujeitos envolvidos sobre as ações que compõem os estágios supervisionados, para uma maior coordenação das ações nos vários níveis hierárquicos. A fim de propor superações dessas contradições, olhamos pelo prisma da Teoria da Atividade para as relações entre IFUSP e escolas públicas, numa pesquisa mais ampla da qual este texto é um recorte. Considerando fundamental destacar a participação dos professores nos processos de mudança que o PFP-USP e pesquisas recentes apontam como necessárias, nessa pesquisa mais ampla nos detemos sobre a compreensão dos professores que recebem os estagiários do IFUSP - dentro de seu contexto concreto - a respeito dos diferentes sentidos atribuídos pelos vários sujeitos nos vários níveis hierárquicos da parceria entre universidade e escola (relações com os docentes e monitores da universidade, estagiários, gestão escolar, alunos e, eventualmente, instâncias superiores).
## Considerações finais
Estudando a formação profissional tal qual se dá no âmbito dos estágios supervisionados do curso de licenciatura em Física do IFUSP, vemos um amplo conjunto de ações realizadas num sistema complexo de práticas guiadas por obrigações cujos sentidos nem sempre são claros para os sujeitos participantes nas relações que estabelecem entre si.
Para investigar tais relações é preciso pensar a Educação de tal modo que a mesma promova uma lógica mais clara e justa em que os interesses - fins para as ações realizadas pelos sujeitos participantes da atividade - estejam coordenados na proposição de uma harmoniosa atividade educadora.
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Várias são as questões que o uso da Teoria da Atividade na pesquisa sobre formação de professores pode contemplar, como a desconsideração dos significados atribuídos pelos diferentes sujeitos atuantes nas relações entre IFUSP e Escola. No âmbito da formação de professores de Física no estágio supervisionado, a qualidade de intervenção do professor da escola básica, bem como de todos os sujeitos envolvidos nessa proposta de parceria, está relacionada à sua capacidade reflexiva sobre as relações entre os sujeitos, os fins de suas ações e como elas se relacionam nos níveis hierárquicos de uma atividade mais ampla.
A pesquisa mais ampla da qual este trabalho faz parte aponta a necessidade de caminhos para engajar os professores supervisores de estágios supervisionados dos licenciandos do IFUSP, isto é, fazer com que os fins de suas ações sejam coordenadaos numa proposta institucional que evidencie a importância pedagógica do professor de Física da escola básica na formação inicial de professores.
Entendemos que, ao longo das atividades no âmbito dos estágios supervisionados do IFUSP, os sujeitos envolvidos devem se tornar cada vez mais capazes de assumir uma atitude ativa perante a realidade na qual está inserido. Para tanto, há necessidade de se criarem condições para que a atividade adquira um sentido pessoal para os educandos em nosso contexto, professores supervisores e os demais sujeitos da parceira entre IFUSP e escolas públicas - de modo a se constituírem numa fonte de autodesenvolvimento e colaboração mútuos e, juntos, superem as contradições por meio de uma ampliação de consciência.
Como Leontiev, entendemos que essa transformação é histórica, pois as mudanças dos sentidos atribuídos pelos professores de Física como formadores de novos professores ocorrem tão mais rápida quanto mais depressa ele der um novo sentido à atividade na qual está inserido.
Assim, é necessário que esses sujeitos tomem consciência das esferas de relações nos vários níveis hierárquicos, para que, então, seja possível se pensarem em formas de coordenação de suas ações.
Que articulações são necessárias para que ocorra coordenação dos fins que levam os professores supervisores dos estagiários do IFUSP a se envolverem no processo de formação desses licenciandos? Esta é uma das perguntas que nos desafiam a dar continuidade à investigação do papel do professor de Física da escola na formação de futuros professores de Física. Faz-se necessário coordenar esforços para que os benefícios da aproximação entre ensino e pesquisa sobre/na/para formação de professores de física no IFUSP tornem-se sistemáticos por meio de um conjunto de ações que levem em consideração o contexto histórico no qual ocorre a atividade de parceria e a constituição sócio-histórica dos sujeitos envolvidos na atividade.
## Referências
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