O ENSINO NÃO FORMAL DA ASTRONOMIA: UM ESTUDO PRELIMINAR DE SUAS AÇÕES E IMPLICAÇÕES
Milton T. Schivani Alves, João Zanetic
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 24/10/2008
- Linha de pesquisa
- Física E Divulgação Científica Em Espaços Educativos Formais E Não Formais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O ENSINO NÃO FORMAL DA ASTRONOMIA: UM ESTUDO PRELIMINAR DE SUAS AÇÕES E IMPLICAÇÕES
## THE TEACHING NONFORMAL OF THE ASTRONOMY: A PRELIMINARY SURVEY OF THEIR ACTIONS AND IMPLICATIONS
## Milton T. Schivani Alves 1, João Zanetic 2
1 Pós - graduação em Ensino de Ciências Interunidades / Universidade de São Paulo, schivani@if.usp.br
2 Instituto de Física / Departamento de Física Experimental / Universidade de São Paulo, zanetic@if.usp.br
## Resumo
Discutimos no presente trabalho questões referentes ao ensino e divulgação da astronomia em planetários e clubes, contrapondo com possíveis implicações no sistema de educação formal vigente. Também apresentamos algumas atividades desenvolvidas por grupos de astronomia amadora, nos quais identificamos possibilidades de contribuições na divulgação e popularização deste saber. Resultados e conclusões preliminares sugerem que alguns pontos identificados em tais espaços, a princípio, caracterizados como de educação não-f-formal, possibilitam uma importante complementaridade no processo de ensino-aprendizagem deste saber. Seja em período escolar ou posterior. Entretanto, tomando como base o referencial educacional de Paulo Freire, tais estudos indicam uma forte componente de educação bancária e culturalmente invasiva. Temos como principal metodologia entrevistas qualitativas com monitores e estagiários e questionários semiestruturados aplicados a turmas de licenciatura em física da USP referentes a observações do céu e a atividades realizadas fora da sala de aula. Também contamos com visitas a eventos e sessões realizadas no Planetário Aristóteles Orsini, localizado no Parque Ibirapuera, São Paulo/SP, e em clubes de astronomia amadora. Acreditamos que a astronomia é uma ciência muito atraente para o público em geral, pois trata de assuntos instigantes e que tocam profundamente os indivíduos, tais como a origem da vida e o tamanho do Universo. Portanto, um de nossos objetivos neste trabalho é contribuir com outras propostas concretas presentes na literatura afim de superar as deficiências encontradas neste levantamento preliminar, bem como, para a exploração desse rico potencial didático-opedagógico das interconexões multidisciplinares relacionadas ao ensino da astronomia .
Palavras - chave: Educação Não-Formal, Ensino de Astronomia
## Abstract
We discuss in the present work subjects relating to the teaching and popularization of the astronomy in planetariums and clubs, opposing with possible implications in the effective formal education system. We also present t some activities developed by amateur astronomy y groups , in which we identified possibilities of contributions in the popularization of this knowledge. Preliminary results and conclusions suggest that some identified points in such spaces, initially, y,
characterized as non -formal education and ththey allow an important complementarily in the teaching-learning process of this knowledge, as much in the teaching period as later. However, taking Paulo Freire's work as reference, such studies indicate a strong component of bank education and culturally invasive. The main methodology is qualitative interviews with monitors , and the semi -structured questionnaires applied to degree groups physics institute of USP , relating to observations of the sky and activities that wewere did at the out of of the classroom. We also have visits to events and sessions at the Planetarium Aristóteles Orsini, located in the Ibirapuera park, k, São Paulo/SP and at t amateur astronomy clubs. We believe that the astronomy is a very attractive science for the public, because it treats instigates subjects that touching people, such as the origin of the life and the Universe e size. Therefore, one of the objectives in this work is to give our contribution to others concrete proposals presented at the literature , to aim to overcome e the deficiencies found in this preliminary study and for the expxploration of this rich didactic-pedagogic potential of the multidisciplinary interconnections related to the astronomy y teaching .
Keywords: Nonformal Education, A Astronomy y Teaching .
## INTRODUÇÃO
Contemplar um pôpôr do sol, mesmo que este seja visto entre arranhas céus , ou eventos celestes tais como eclipses do Sol ou da Lua, podem despertar questões instigantes e que tocam profundamente os indivíduos. Questões como a origem do Universo, origem da vida e nosso lugar no cosmos. Tais questões refletem o rico potencial didático-pedagógico e características naturalmente multidisciplinares da astronomia, que vem obtendo significativos avanços tecnológicos e científicos, principalmente nas ultimas décadas. Pesquisas e tecnologias inovadoras têm sido desenvolvidas e, em muitos casos, com aplicação direta em nosso cotidiano como, por exemplo, os satélites artificiais com contribuições consideráveis na melhoria de nossos sistemas de comunicação e os CCD (Charge-Coupled Device)e), presentes nas câmeras digitais.
Podemos verificar que a astronomia possui um rico potencial para despertar a curiosidade dos estudantes, desde os primeiros anos escolares até sua formação nos cursos de graduação, abrangendo várias áreas, em especial, a Física.
Entretanto, estudos indicam que o ensino de alguns tópicos astronômicos, presentes principalmente na física e na geografia, não é bem explorado, , quando o é. Esses resultados apontam, assim, diversos problemas que necessitam, ao menos em parte, sererem solucionados (ALVES & JAFELICE, 2005; LANGHI, 2004).
Neste trabalho buscamos apresentar alguns desses problemas encontrados tanto entre estudantes do ensino médio quanto entre aqueles que freqüentam cursos universitários.
## O ENSINO FORMAL DA ASTRONOMIA
Pesquisas anteriores realizadas em Natal, capital do Rio Grande do Norte, por meio de e questionários semi-estruturados aplicados a estudantes da rede pública estadual de ensino dessa região, apontam para algumas deficiências que podem dificultar o procesesso de ensino e aprendizagem da astronomia.
Questões relativas a observações astronômicas revelaram que 79% dos estudantes entrevistados nunca observaram o céu noturno utilizando algum
instrumento óptico como, por exemplo, um telescópio, um binóculo ou uma luneta, e 58% não acham possível ver algum planeta do nosso sistema solar a olho nu. Por outro lado, 72% dos entrevistados nunca tiveram atividades extraclasse, ou seja, conteúdos ministrados fora do ambiente tradicional da sala de aula (ALVES & JAFELIC E, 2005).
Recentemente realizamos uma pesquisa em turmas do curso de Licenciatura do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP). Nessa pesquisa levantamos algumas questões idênticas às expostas no parágrafo anterior. Apesar dos estudantes do o IFUSP virem de ambientes econômica e culturalmente muito diferentes, alguns resultados podem ser considerados muito similares.
Os questionários foram aplicados em quatro turmas da disciplina Gravitação, oferecida no segundo semestre de 2007, totalizando noventa e oito estudantes entrevistados.
Dentre outras questões, perguntamos com que freqüência eles tiveram atividades extraclasse no decorrer do período escolar de ensino médio, explicitando que nos referíamos a conteúdos ministrados fora do ambiente tradicional de sala de aula, exemplificando com pesquisas no jardim, visita a feira livre e/ou museu e observação do céu diurno ou noturno.
Também questionamos sobre a freqüência de observação do céu noturno utilizando telescópio, binóculo ou luneta e se os entrevistados achavam possível ver algum planeta do nosso sistema solar a olho nu, e, em caso afirmativo, qual(is) planeta(s) seria possível ver?
Os resultados apontam que 60,2% dos entrevistados alegaram que nunca tiveram atividades extraclasse no decorrer do período escolar de ensino médio e 67,3% alegaram nunca ter observado o céu noturno utilizando algum instrumento óptico.
Ao contrário da pesquisa anterior, onde os estudantes entrevistados eram unicamente da rede pública de ensino médio, temos aqui uma distribuição bem mais heterogênea: : 34,7% informam ter realizado o ensino médio normal em rede particular, 29,6% no ensino médio normal da rede pública, 18,4% do ensino médio técnico público, 12,2% do ensino médio técnico particular e 5,1% referente aos demais sistemas de ensino.
Também constatamos que 90,6% acreditam ser possível observar algum planeta do nosso sistema solar a olho nu. Porém, quando indagados sobre quais planetas seriam estes, o planeta Marte é citado por 30,6% dos entrevistados e o planeta Vênus vem em seguida com 29,0%, seguidos por Júpiter (18,0%), Saturno (11,5%), Mercúrio (9,3%) e, por último, Urano (1,6%).
Analisando a presença de informações referentes ao planeta Marte nos diferentes meios de comunicação, bem como o a correspondência entre a "estrela" Dalva e o planeta Vênus, identificamos serem tais fatores os principais componentes para Marte e Vênus surgirem entre os primeiros colocados. Estranhamos a grande presença de Mercúrio nessa lista.
Mesmo não sendo solicitado aos entrevistados justificarem sua resposta referente ao planeta observado neste questionário preliminar, alguns o fizeram. Tais
justificativas corroboram com a hipótese levantada no parágrafo anterior. Vejamos algumas destas justificativas:
Acredito ser possível observar pois em revistas isso é comentado ( Superinteressante e Galileu) mas não sei informar quais. (Q.38)
Não sei qual, mas já ouvi algo a respeito de uma estrela, que seria, na verdade, um planeta. (Q.35)
Vênus e, segundo relatos, Marte.(Q.94)
Sei que é possível, mas não tenho certeza sobre qual planeta. Acho que é Vênus. (Q.57)
Marte e Vênus, pois são os mais pertos. (Q.64)
O que está mais próximo. (Q.58)
Interpretamos que os resultados apresentados até aqui, no que tange o ensino da astronomia, apontam para uma necessária busca de alternativas que contribuam para sanar, ao menos em parte, as deficiências identificadas. Atividades lúdicas e de caráter demonstrativo em sala de aula são praticamente inexistentes em se tratando do ensino de e ciências, em especial da física dificultando seu processo de ensino-aprendizagem (ALVES & JAFELICE, 2005b). Levando em consideração que a maioria dos estudantes só terá aulas de física naquele período de sua vida, ou seja, o período escolar médio e fundamental, tal ensino deficiente se torna mais agravante.
Temos ciência de que não encontraremos uma fórmula única para curar todos os males, não existe um elixir didático-pedagógico, pois "não há soluções que sejam panacéias para o Ensino de Física e isso vale le para quaisquer outros campos cognitivos" (BASTOS FILHO, 2006). Entretanto, identificamos que alguns espaços, tais como planetários e clubes de astronomia amadora, a princípio caracterizados como espaços de educação não formal, apresentam atividades e ações coletivas que possibilitam enfrentar parcialmente esses problemas principalmente por meio das práticas e manuseios com telescópios e observações astronômicas. Lembrando que, curiosamente, a astronomia "oficial" conta com contribuições significativas dos astrônomos amadores por meio do envio de dados e informações para a comunidade científica profissional (LANGHI, 2004).
## Educação não-o-formal
Cabe aqui perguntarmo-nos sobre o que é educação não formal . E a educação informal? Isso sem levar em consideração a própria definição de educação. São vários os trabalhos que abordam em seus estudos tais questões (COLLEY et al , 2002; ETLING, 1993; GADOTTI, 2005; GASPAR & HAMBURGER, 2001; GOHN, 1999; idem, 2006; GOUVÊA et al , 2001; MARANDINO et al , 2004; VIEIRA, 2005).
Segundo Gohn (1999), Colley (2002) e Vieira (2005), a educação pode ser dividida em três diferentes formas: educação formal, que é desenvolvida nas escolas, em espaços bem localizados; educação informal, onde são transmitidos conhecimentos e informações es bem gerais, por meio de familiares, amigos e no convívio em geral, ou seja, aquela educação que decorre de processos naturais e espontâneos; e educação não-formal, na qual existe uma intenção do sujeito, geralmente de criar ou buscar determinados objetivos, que ocorre fora da instituição escolar.
Mesmo sendo passível de discussão, vamos considerar em primeira análise a educação não-formal como a que proporciona uma aprendizagem de conteúdos da escolarização formal em espaços como museus, centros de ciênciaias, ou qualquer outro em que as atividades sejam desenvolvidas de forma bem direcionada, com um objetivo bem definido (GOHN, 1999; VIEIRA, 2005).
Apesar de considerarmos importante, não queremos aqui aprofundar discussões referentes à existência ou não destas características bem definidas para museus, centros ou clubes de ciências. Sabemos que alguns autores os classificam como sendo espaços de educação informal (GASPAR & HAMBURGER, 2001), entretanto, no decorrer deste trabalho estaremos adotando os critérios apresentados por Gohn (1999) e Vieira (2005), expostos anteriormente, para definir espaços não formais de educação. Finalizamos esta discussão inicial com as palavras de Gouvêa et al (2001:170):
Esse tipo de educação pode ser caracterizado, em geral, por atividades de cunho coletivo, com participação voluntária. Os conteúdos apresentados são flexíveis, contendo diferentes dimensões e são organizados de forma seqüencial, mas não similares àquela apresentada pelos conteúdos programáticos escolares, podendo ser operacionalizados de várias maneiras segundo demandas sociais determinadas. [...] As atividades se dão em situações pouco formalizadas, com seqüências cronológicas diferenciadas e o tempo de aprendizagem não é fixado a priori . O espaço onde ocorre a educação não formal é criado e recriado, segundo os modos de ação previstos nos objetivos maiores e nas vivências promovidas pela socialização.
## A EDUCAÇÃO NÃO -FORMAL NO ENSINO DA ASTRONOMIA
Em busca de alternativas que contribuam para sanar, ao menos em p parte, as deficiências identificadas no processo de ensino-aprendizagem da astronomia seja em período escolar ou posterior, propomos um olhar diferenciado para esses espaços de ações coletivas e não formais (planetários fixos e móveis, observatórios, clubes es de astronomia amadora e centros de divulgação). Assim, uma importante complementaridade entre esses diferentes espaços de aprendizagem mostra-se cada vez mais evidente, possibilitando a realização de atividades praticas e lúdicas basicamente inexistentes no sistema formal de ensino.
## Características: o caso da ANRA
Com relação a clubes de astronomia amadora, foram acompanhadas algumas ações desenvolvidas pela Associação Norte Riograndense de Astronomia (ANRA), um dos mais antigos grupos de astronomia amadora do Brasil, fundada em 17 de junho de 1956 e atualmente com sede no Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte (CEFET/RN). A ANRA é presidida e coordenada pelo professor Antonio Araújo Sobrinho, professor titular de física do CEFET/RN .
Atualmente, as reuniões do grupo ocorrem às terças -feiras, a partir das 18hs, com duração média de duas horas. Basicamente as ações englobam três componentes: seminários e discussões do grupo referentes a algum tema em especial; observações astronômicas apenas com os integrantes e visitantes; e observações astronômicas para o grande público, geralmente fora da sede e em cidades do interior do estado.
Foram várias as atividades por nós acompanhadas, dentre elas, podemos citar algumas observações astronômicas, como a do eclipse total solar do dia 29 de
março de 2006 e de planetas, via telescópios montados em praça pública na cidade de Ipanguaçu/RN, da lua, realizada no calçadão da praia de Ponta Negra, em Natal/RN e o acompanhamento do eclipse total lunar na virada do dia 20 para o dia 21 de fevereiro de 2008. Esta última realizada na cidade de Carnaúba dos Dantas, interior do Rio Grande do Norte, a qual iremos expor r com mais detalhes.
Os trabalhos realizados em Carnaúba dos Dantas se iniciaram efetivamente a partir das 14hs do dia 20 de fevereiro na Escola Estadual João Henrique Dantas. Neste local ocorreu um seminário sobre Astronomia e Interdisciplinaridade para uma equipe de trinta e cinco docentes da referida cidade e adjacências, bem como trabalhos sobre observação do Sol, atentando para as devidas proteções para se observar o Sol através do uso de vidro de soldador #12.
No período noturno, ocorreram observações da Lua, em especial seu eclipse, do planeta Saturno, da estrela Alfa de Centauro e identificação de algumas constelações. Basicamente as observações foram realizadas a olho nu e utilizando dois telescópios newtonianos e dois telescópios refratores. Além disso, se fez uso de um microcomputador com projetor e câmara CCD acoplada a um dos telescópios. Tal aparato permitiu projetar as imagens capturadas pelo telescópio diretamente em um anteparo exposto ao público no local.
Consta estarem presentes cerca de trezentas pessoas de diferentes idades, principalmente crianças e jovens residentes em Carnaúba dos Dantas. Como a população atual desta cidade é de aproximadamente 8000 habitantes, é evidente a curiosidade despertada pelas observações. As atividades do período noturno foram desenvolvidas na Praça do Vaqueiro, localizada em frente à residência onde viveu o pesquisador r e divulgador da astronomia Rômulo Argentière, personagem que contribuiu para com a formação e estruturação de alguns grupos astronômicos, dentre eles a ANRA a qual lhe prestou uma homenagem.
Rômulo Argentière (1916-1995) é um personagem ainda pouco conhecido no campo da história da divulgação cientifica no Brasil, mas que muito contribuiu para com a formação e estruturação desses grupos (ALVES & ZANETIC, 2007). Ele também apresenta uma forte atuação na divulgação científica, em especial da astronomia, neste país (MOURÃO, 1988). Observando sua atuação nesse cenário de divulgação e popularização, em especial nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado (ROSADO, 2002), acreditamos que seu resgate histórico e filosófico se mostra de vital importância, principalmente para o traçado de um quadro a respeito da participação desses grupos na divulgação e popularização da astronomia no Brasil dentro de um contexto de educação não-f-formal. Entretanto, visto o espaço que temos neste artigo optamos por não alongar essa discussão sobre o referido pesquisador , deixando assim como perspectiva para um posterior trabalho.
## Implicações no sistema formal
De acordo com as atividades acompanhadas até o presente trabalho e de pesquisas preliminares realizadas por meio de e questionários e entrevistas, surgem algumas questões: Em quais momentos tais espaços podem contribuir para o ensino da astronomia? Existem apenas os aspectos lúdicos ou é possível explorar mais a fundo suas ações referentes aos conteúdos? Tendo em vista as deficiências existentes no ensino de ciências a nível médio, podem estes clubes contribuir para obtenção de saberes não conquistados em tal período? Existem fatores que podem prejudicar o processo de ensino-aprendizagem deste saber? E aqui destacamos fafatores como informações errôneas transmitidas ao grande público ou processos
que levem a uma invasão cultural. Por outro lado, temos consciência de que bem trabalhados, alguns desses fatores podem facilitar a transição da curiosidade ingênua, despertada por essas observações, para a curiosidade epistemológica (FREIRE, 1975). Estas são algumas das questões que podemos levantar inicialmente. Portanto, objetivando esclarecer algumas destas, retomemos um pouco a questão sobre educação não formal. Nas palavras de Gohn (2006):
Entendemos a educação não-o-formal como aquela voltada para o ser humano como um todo, cidadão do mundo, homens e mulheres. Em hipótese alguma ela substitui ou compete com a Educação Formal, escolar. Poderá ajudar na complementação dessa última [...] (GOHN, 2006:6).
Assim, dentro de tais objetivos, desenvolvemos uma pesquisa preliminar sobre o setor de astronomia do Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC), localizado em São Carlos/SP. Entretanto, não nos atemos às atividades nele realizadas e sim o o que ocorreu aos estudantes e envolvidos diretamente nestas ações (estagiários, bolsistas, monitores etc.). O objetivo principal era verificar possíveis implicações em sua formação visto que alguns estudantes estão cursando ou cursaram a graduação no período em que realizavam tais estágios ou monitorias.
Os primeiros resultados obtidos apontam principalmente para uma complementaridade no que se refere aos processos práticos, como por exemplo, manuseio com telescópios e contato com o público em geral. Um dos estagiários entrevistados (identificaremos aqui pelo codinome E.A) ) trabalhou neste espaço no período de março de 2004 a maio de 2006. Ele foi questionado acerca do que lhe possibilitava esse ambiente em que atuava. Eis aqui uma parte trtranscrita da entrevista gravada em áudio:
Ah! então, é... na verdade acho que foi a experiência mais produtiva que tive em São Carlos. Foi melhor até que o bacharelado. Explicando as coisas eu aprendia muito mais, descobri que aprendia muito mais quando alglguém perguntava alguma coisa para mim. Também a gente tinha uma parte prática lá. De mexer com telescópio, tirar foto, essas coisas todas eram muito divertidas. Era bem legal pegar o telescópio e a pessoa falar: "Ah! Eu nunca vi a lua!" [Por meio de algum equipamento óptico, é claro.] E você lá mirando a lua. "Eu nunca vi um planeta!"... Essa parte prática era bem legal. Assim... sei lá! Emocionava também! Era legal ver as pessoas emocionadas por estarem vendo a lua ou algo que nunca tinham visto. (E.A, 02m48s - 03m28s)
Estudos mais profundos necessitam serem feitos, entretanto, estes resultados iniciais sugerem uma positiva e importante complementaridade a qual não devemos ignorar. Principalmente quando contrastamos este estudo com o panorama exposto neste t trabalho na seçeção sobre o ensino formal da astronomia.
## Mas... usando um jargão popular, nem tudo são flores!
[...] frente à disseminação e à generalização da informação, é necessário que a escola e o professor, a professora, façam uma seleção crítica da informação, pois há muito lixo e propaganda enganosa sendo vinculados. Não faltam, também na era da informação, encantadores da palavra que desejam tirar algum proveito, seja econômico, seja religioso, seja ideológico. Isso é valido para a educação formal quanto para a educação não-formal. (GADOTTI, 2005:2-3), grifo do autor.
Deve -s -se tomar cuidado ao explorar esses espaços, tal educação "p"pode interagir com a educação formal ensinada nas escolas, nas universidades, assumindo um aspecto de concorrência posititiva com o ensino convencional. Às
vezes ela pode ser negativa." (MOURÃO, 2004:122). O simples fato de existir uma atividade extraclasse pode motivar a turma. Obviamente, o professor deve tomar É cuidado para que a mesma não passe de um atrativo sem continuidade. É necessário que a atividade seja precedida a por uma discussão anterior e, principalmente, posterior à visita realizada , possibilitando assim um ensino de Física, em especial da astronomia, que proporcione aos educandos uma maior interatividade, sendo o esta dentro de uma "leitura crítica do mundo" e de uma complementaridade no seu processo de ensino aprendizagem.
## Invasão cultural e educação bancária
Realizamos algumas visitas a eventos e sessões desenvolvidas no Planetário Aristóteles Orsini, localizado no Parque Ibirapuera, São Paulo/SP. Tomando como base o referencial educacional de Paulo Freire, observações preliminares das atividades acompanhadas nestas sessões sugerem inicialmente fortes componentes de uma educação bancária e culturalmente invasiva. . O ato de depositar, de transferir, de transmitir valores e conhecimentos , em que os educandos são meros depositários e o educador o depositante , é consideravelmente forte em tal exposição. Concordamos não ser fácil alterar tais atitudes quando tratamos deseste tipo de exposição, entretanto, aumentar o número de questões explicitas onde o público seja convidado a participar, refletindo e questionando sobre as mesmas podem amenizar esta componente de educação bancária.
No que tange a invasão cultural, Paulo Freire destacava que:
Entre as várias características da teoria antidialógica da ação, nos deteremos em uma: a invasão cultural. Toda invasão sugere, obviamente, um sujeito que invade. Seu espaço histórico-cultural, que lhe dá sua visão de mundo, é o espaço de onde ele parte para penetrar outro espaço históricoocultural, superpondo aos indivíduos deste seu sistema de valores. O invasor reduz os homens do espaço invadido a meros objetivos de sua ação. As relações entre invasor e invadido, que são relações autotoritárias, situam seus pólos em posições antagônicas. (FREIRE, 1975:41).
Os planetários em geral possibilitam explorar naturalmente questões relacionadas ao nosso dia -a-dia, como por exemplo a identificação de constelações e as fases do ano. Entretanto, ao o partir de sistemas de conhecimentos científicos, pré-estabelecidos, para então desenvolver a exposição pode implicar seriamente em uma invasão cultural. Isto implica em partir de uma visão de mundo para penetrar um espaço histórico e cultural do público presente. O ideal é partir dele e leva-lo em consideração explicitamente praticando, ao invés da simples extensão de conhecimento acadêmico, uma comunicação entre o conhecimento do senso comum e esse conhecimento construído pela ciência. Assim, a invasão cultural é substituída pela comunicação cultural.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nossa principal busca é de um ensino de física, em especial da astronomia, que proporcione ao educando uma maior interatividade no seu processo de ensinoaprendizagem. Buscando assim alternativas que contribuam para sanar, ao menos em parte, as deficiências identificadas neste processo, sejam em período escolar ou posterior.
Vale lembrar que vários estudantes só terão aulas de física naquele período de sua vida, ou seja, o período escolar r médio e fundamental. Portanto, um ensino
deficiente e a falta de possibilidades de acesso ao saber e a formação cultural da população fora desse período escolar se torna mais agravante.
Defendemos que esta educação esteja dentro de uma "l"leitura crítica do do mundo" (FREIRE, 1996), e também que proporcione a "c"construção de um diálogo inteligente com o mundo" (ZANETIC, 1989).
Em suma, muito ainda deve ser feito nesta vertente. Nossa pesquisa ainda está tá em fase de desenvolvimento, mas os estudos preliminares dãdão bons indícios para nortear os próximos passos. Os quais vão ao encontro de alternativas que buscam alcançar os objetivos deste trabalho e assim possibilitar melhorar o ensino de ciências ainda tão deficiente em nosso país.
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