DESAFIOS PARA UM CURRÍCULO INTERDISCIPLINAR: DISCUSSÕES A PARTIR DO CURRÍCULO DA UFABC.
José Luís Michinel, Álvaro Santos Alves, José Carlos Oliveira De Jesus, Gilvan De Oliveira Rios Maia
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- Seleção, Organização Do Conhecimento E Currículo
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DESAFIOS PARA UM CURRÍCULO INTERDISCIPLINAR: DISCUSSÕES A PARTIR DO CURRÍCULO DA UFABC.
## Gilvan de Oliveira Rios Maia , José Luís Michinel , Álvaro Santos Alves , José 1 2 2 Carlos Oliveira de Jesus 2
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia/Campus Jacobina, gfismaia@gmail.com
2 Universidade Estadual de Feira de Santana/Departamento de Física, jmichine@hotmail.com
3 Universidade Estadual de Feira de Santana/Departamento de Física, asa@uefs.br
## Resumo
O presente trabalho tem por objetivo levantar e analisar algumas dificuldades da transição de um currículo baseado na lógica disciplinar, tradicional e fragmentada, para um currículo interdisciplinar, organizado por eixos temáticos. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, baseada na análise de documentos que compõem o currículo escrito (projeto pedagógico do curso) e o currículo praticado, ou atos de currículo (planos de aula, listas de exercícios, bibliografia básica e complementar). Os dados deste trabalho foram coletados no sítio da Universidade Federal do ABC e nos blogs criados pelos professores para socialização do material da disciplina 'Energia: Origem, Conversões e Uso'. São analisados os materiais disponibilizados por diferentes professores dessa disciplina, em diferentes quadrimestres, para o curso de Licenciatura em Física. Os resultados deste trabalho apontam para o compromisso do currículo escrito com a perspectiva de organização curricular interdisciplinar. No entanto, o currículo praticado aponta algumas resistências à superação da organização disciplinar, fragmentadora, mostrando um descompasso entre o currículo escrito e os atos de currículo.
Palavras-chave : Currículo. Interdisciplinaridade. Perfil Epistemológico. Perfil Conceitual.
## Introdução
O debate sobre o currículo e suas implicações tem ocupado grupos de pesquisadores em várias partes do mundo, especialmente a partir de meados do século XX. O que é o currículo? Como operacionalizar o currículo? Por quais razões este currículo foi escolhido? Qual a sociedade que queremos ao adotar este currículo? Estas são algumas perguntas que orientam tanto a elaboração quanto a pesquisa em currículo. Segundo Silva (2007), como campo especializado de estudos, o currículo tem sua origem nos Estados Unidos (EUA) a partir do livro The Curriculum , escrito por John Bobbitt, em 1918. No período pós-guerra o Brasil sofre forte influência das propostas curriculares americanas (MACEDO, 2007), a exemplo do projeto Physical Science Study Commitee (PSSC), que foi introduzido no ensino de física na década de 60, mas cujas limitações para sua aplicação na realidade educacional brasileira levaram ao surgimento de nossas próprias propostas, como o PEF e o GREF (SÃO PAULO, 2007).
26 a 30 de janeiro de 2015
A introdução da crítica sobre o currículo, especialmente na segunda metade do século XX, demanda novos olhares e questionamentos sobre os currículos e suas realizações práticas. No Brasil, os trabalhos de Paulo Freire representam um importante marco teórico para a crítica às formas de educação excludentes que marcam os currículos tradicionais.
Os primeiros estudos sobre a interdisciplinaridade surgem na década de sessenta (TEIXEIRA, 2007). Em 1970, um seminário realizado na Universidade de Nice, propunha discussões sobre a utilização de perspectivas pluri e interdisciplinares no ensino e na pesquisa. A interdisciplinaridade, segundo Japiassu (1976) é uma exigência das ciências, dada a complexidade dos objetos com os quais lida. Recentemente algumas instituições de ensino superior brasileiras colocaram a interdisciplinaridade como elemento chave na organização dos seus currículos, criando os cursos de Bacharelados Interdisciplinares, fato que tem implicações para as atividades de pesquisa, ensino e extensão.
Organizar currículos a partir da noção de interdisciplinaridade é lançar-se ao desafio de fazer com que diferentes áreas do conhecimento dialoguem e diferentes grupos de pesquisadores, professores e alunos participem de atividades problematizadoras cujas soluções precisam partir das ações coordenadas entre si. Além disso, é preciso estruturar as instituições de ensino para que seja possível a criação uma estrutura física e administrativa de um ambiente propício a um trabalho interdisciplinar.
Diante disso, a pergunta que conduz as investigações deste trabalho pode ser então colocada: quais os desafios envolvidos na transição de um currículo tradicional para um currículo inspirado na interdisciplinaridade? A busca por respostas para essa pergunta constitui a razão para a condução deste trabalho, consolidado em um trabalho de conclusão de curso (MAIA, 2013).
## Metodologia
O percurso metodológico adotado para este trabalho tem como objetivo a análise de documentos. Entenda-se por documentos, atas, planos de aula, provas e avaliações do curso publicadas no sítio WEB da instituição Universidade Federal do ABC. Incialmente propunha-se a elaboração de questionários que seriam aplicados aos professores. O intuito era mapear o perfil conceitual dobre o tema energia (um dos eixos temáticos do currículo da UFABC). No entanto, por razões espaciais e temporais a pesquisa documental tornou-se a única possibilidade para a obtenção de resultados aqui apresentados. De acordo com Rabelo e Coelho (2008):
[...] a pesquisa documental, como próprio nome sugere, é aquela cujo método de coleta de dados é baseado exclusivamente em documentos. Isto ocorre pela facilidade de o pesquisador aproximar-se de fatos que estão distantes no tempo e/ou no espaço. (RABELO; COELHO, 2008, p. 34).
Ainda segundo os mesmos autores na pesquisa documental 'o problema é explicitado e os objetivos são atingidos utilizando-se, exclusivamente, de leituras e interpretações dos documentos necessários e disponíveis para tal' (idem, p. 36). Para os objetivos desta monografia, a saída pela análise de documentos tornou-se uma importante ferramenta de pesquisa.
As relações entre o currículo pré-ativo e o currículo praticado não são diretas, nem tão pouco de fácil percepção. Goodson (1995), ao discutir estas 'relações', observa que elas servem para:
[...] demonstrar que a construção pré-ativa pode estabelecer parâmetros importantes e significativos para a execução interativa em sala de aula. Por conseguinte, se não analisarmos a elaboração do currículo, a tentação será a de aceitá-lo como um pressuposto e buscar variáveis dentro da sala de aula, ou pelo menos, no ambiente de cada escola em particular. Estaríamos aceitando como 'tradicionais' e 'pressupostas', versões de currículo que num exame mais aprofundado podem ser consideradas o clímax de um longo e contínuo conflito. (Goodson, 1995, p. 24).
Neste trabalho, a partir da análise documental, busca-se identificar estes 'conflitos'. Caminhando nesta direção, parte-se da hipótese que é na transposição das concepções pedagógicas e epistemológicas do currículo pré-ativo para o currículo praticado que residem os conflitos. É na manifestação do currículo enquanto prática social que emergem as rupturas e transgressões, ou mesmo reafirmações, com as propostas apresentadas no documento de currículo escrito. Compreende-se como currículo escrito, para este trabalho, o Projeto Pedagógico da UFABC (PP/UFABC) e o Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Física da UFABC (PPCLF/UFABC). Nesse sentido, a análise dos documentos que compõem o currículo (tanto o escrito como o praticado) possibilitou a obtenção de resultados importante que serão discutidos na seção dedicada à conclusão.
## Referenciais teóricos
Para a emergência de um objeto de pesquisa, alguns autores foram de extrema importância. O currículo como documento (instituído através dos projetos pedagógicos dos cursos) e como atos de currículo são discutidos a partir de Macedo (2007). Os atos de currículo , segundo Macedo (2008), compreendem documentos e ações pensados com o intuito de responder a proposta do currículo pré-ativo. Nesse sentido, a atuação do professor em sala de aula, planos de aulas, provas aplicadas, lista de exercícios, por exemplo, fazem parte dos atos de currículo .
Japiassu (1976), Veiga-Neto (1997) e Fazenda (2011) contribuem para este trabalho, sendo os principais autores na discussão sobre interdisciplinaridade. Veiga-Neto (1997), denomina o programa do movimento pela interdisciplinaridade , assumindo o caráter de um movimento curricular , por entender que:
- [...] pode-se observar que há uma formação discursiva coerente e que essa formação se estabeleceu em dois eixos. O primeiro, de fundamentação, está articulado num discurso filosófico (epistemológico) que parte de uma postura humanista crítica. O segundo eixo, de desenvolvimento, está claramente anunciado pelo discurso filosófico, mas vai se expandir no discurso pedagógico de cunho prescritivo. É aí que ele vai, então, tratar dos conteúdos e, principalmente, das metodologias tanto para organizar esses conteúdos quanto para trabalha-los no ensino. (VEIGA-NETO, 1997, p. 69).
Estes 'dois eixos' se articulam, implicam-se um no outro. Sendo assim, no que tange às questões curriculares, um 'discurso epistemológico' tem consequências para o 'discurso pedagógico'.
Em Mortimer (2005) e Bachelard (1978) encontram-se as discussões sobre o perfil conceitual e o perfil epistemológico, conceitos teóricos importantes para a
análise dos dados deste trabalho. O perfil conceitual de energia, proposto por Michinel (2001), ilustra o que foi dito acima.
Figura 1. Perfil epistemológico de energia. (Extraído de MICHINEL, 2001; p. 57).
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Michinel (2001) identifica seis doutrinas filosóficas que compõe o seu perfil epistemológico de energia. Diante das distintas filiações epistemológicas e ontológicas acerca do conceito de energia, pode-se dizer que uma perspectiva curricular baseada na interdisciplinaridade é bastante desafiadora. Dominar o espectro de compreensões, tanto relacionadas com a evolução histórica do conceito quanto com as suas manifestações em diferentes culturas, requer um grande dinamismo por parte dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem.
## Resultados e Conclusões
Os resultados da pesquisa conduzida nesse trabalho foram estruturados em dois movimentos, a saber: 1) a partir das relações entre pressupostos pedagógicos, pressupostos epistemológicos e interdisciplinaridade, como categorias para uma primeira análise; a partir das relações entre perfis (conceitual e epistemológico) compondo categorias para a segunda análise. Segue-se abaixo, os achados dessa pesquisa.
Um currículo marcado pela orientação interdisciplinar tem implicações tanto para o processo ensino-aprendizagem quanto para questões relacionadas com a produção, divulgação e validação dos produtos da ciência. Toma-se por pressupostos pedagógicos, as principais teorias que norteiam as compreensões de ensino e aprendizagem (ou ensino-aprendizagem, assim grafado por serem processos indissociáveis) delineadas na literatura de pesquisa em ensino de ciências (MATTHEWS, 2000; REZENDE, 2002; GOUVEIA, 2004). Quanto aos pressupostos epistemológicos estão relacionados com a compreensão de como o conhecimento é elaborado e validado. Sendo assim, dos pressupostos pedagógicos emanam as concepções de ensino ou ensino-aprendizagem com as quais o PP/UFABC e PPCLF/UFBAC dialogam, ao passo que os pressupostos epistemológicos buscam explicitar suas visões sobre o conhecimento científico presentes nestes documentos. A perspectiva interdisciplinar para a organização curricular fica clara na apresentação do projeto:
Seu projeto de criação ressalta a importância de uma formação integral, que inclui a visão histórica da nossa civilização e privilegia a capacidade de inserção social no sentido amplo. Leva em conta o dinamismo da ciência propondo uma matriz interdisciplinar para formar os novos profissionais com um conhecimento mais abrangente e capaz de
trafegar com desenvoltura pelas várias áreas do conhecimento científico e tecnológico . (PPCLF/UFABC, p. 6). (Grifo nosso).
Aqui o argumento para uma organização curricular interdisciplinar é compartilhado por Japiassu (1976), para o qual a interdisciplinaridade é um imperativo posto pelo dinamismo que marca o conhecimento científico. Defende-se, neste trabalho, que o 'dinamismo da ciência' está ligado, em alguma medida ao dinamismo dos conceitos, no que tange aos aspectos epistemológicos e ontológicos. Isso significa que eles evoluem, segundo a epistemologia bachelardiana, no que se refere à noção de perfil epistemológico.
A extinção dos departamentos e institutos, comuns à maioria das instituições de ensino no Brasil, institucionalizando-se os Centros, é uma aposta para que seja possível a criação de um ambiente onde professores e estudantes oriundos dos mais variados campos do saber possam dialogar. Não é possível afirmar, no entanto, partindo apenas dos documentos do currículo pré-ativo, que existe uma postura interdisciplinar na forma como os professores elaboram e desenvolvem suas atividades. A manutenção da estrutura fragmentadora pode ser uma resposta daqueles que eventualmente se opõem a estrutura interdisciplinar. Como lembra Macedo (2007, p.26), por ser o currículo 'um complexo cultural tecido por relações ideologicamente organizadas e orientadas' o 'conservadorismo está sempre às turras com o enfrentamento da tendência do significado ao deslizamento, à disseminação, ao vazamento, à transgressão e à traição' (idem, p. 27). O documento PP/UFABC reconhece essa possibilidade ao afirmar que:
A estrutura institucional, por si só, não garante a desejada integração do conhecimento, mas a ideia é que ela facilite e induza a interdisciplinaridade, promovendo a visão sistêmica e, através delas, a apropriação do conhecimento pela sociedade, sem esmorecimento da rigorosa cultura disciplinar. (PP/UFABC, p. 3).
Há um compromisso pedagógico com os 'novos modos e ritmos de apropriação do conhecimento'. Essa é uma característica dos currículos contemporâneos, notadamente daqueles currículos que se organizam por temas. Segundo Macedo (2007), em uma organização desta natureza os conhecimentos vão sendo coletivamente construídos, ao mesmo tempo em que são respeitados os interesses individuais e os ritmos diversificados de aprendizagem, tendo como inspiração pedagógica o pensamento freiriano. Essa é uma característica dos Bacharelados Interdisciplinares, dos quais a instituição é uma das pioneiras. Enquanto construção pré-ativa o currículo assume uma pedagogia humanística.
Ainda sob os aspectos do currículo, como já foi dito, alguns componentes curriculares (ex. Transformações nos Seres Vivos e Ambiente; Educação Científica, Sociedade e Cultura; Origem da vida e Diversidade dos Seres Vivos; ou ainda, Energia: Origem, Conversão e Uso) sinalizam para uma perspectiva de organização do currículo por temas. Não é possível inferir com clareza sobre como essas tendências se manifestam na prática em sala de aula neste momento. Para tanto, seria necessário a elaboração de ferramentas teórico-metodológicas que suportassem a análise da dinâmica de uma aula, essencialmente heterogênea e palco de diversos conflitos.
- O segundo movimento, para análise dos dados deste trabalho, busca uma aproximação com os atos de currículo , ou seja, com os aspectos do currículo que se desenvolvem nos espaços da instituição, notadamente na sala de aula. Os dados são compostos pelo itinerário das aulas (em formas de slides ), listas e resoluções de
exercícios e um dos livros indicado nas referências bibliográficas do componente curricular Energia: Origem, Conversão e Uso, escolhida em virtude do tema 'Energia' perpassar distintas áreas do conhecimento. Foram analisadas as bibliografias, as formas como os professores estruturam as aulas e como avaliam seus alunos. Interessa a essa pesquisa, nesse momento, as manifestações práticas interdisciplinares explicitas nos atos de currículo, bem como eventuais dificuldades quanto ao acesso à bibliografia. A nossa hipótese é que faltem materiais didáticos para um trabalho na perspectiva interdisciplinar. Isso fica evidenciado no PPCLF/UFBAC quando apresenta o quantitativo de títulos de livros multidisciplinares. Em 4432 títulos, apenas 91 atendem a esse requisito, contando com 149 volumes. Tal fato mostra a carência de material didático que atenda a nova lógica formativa que está se estabelecendo. Não é possível inferir quanto, desta quantidade, discute o tema energia. Mas, é bem provável, que sejam apenas os indicados na ementa da disciplina discutida.
Por fim, busca-se entender como o professor elabora suas aulas, como as atividades por ele propostas, conduzem à abordagem segundo perspectiva interdisciplinar. Foram analisados os dados de três quadrimestres diferentes, com professores diferentes (por razões éticas, identificados, a partir de agora como P1, P2, e P3). Dois deles tem formação em física (P1 e P3). P2 tem formação em engenharias mecânica e nuclear. Parte-se da hipótese que o professor, ao selecionar os elementos dos conceitos ou das noções que serão expostos nos slides, em alguma medida, transfere suas visões de mundo, seu entendimento sobre o objeto a ser discutido com os estudantes. A figura abaixo exemplifica o que foi dito.
Figura 2. Extraído dos slides professor P2.
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Ao discutir energia de ligação nas interações que envolvem átomo e moléculas, o professor P2 marca claramente seu perfil conceitual. Quando fala de energia nuclear, está na categoria epistemológica do Racionalismo Relativista. Mas adota uma ontologia da partícula, liga ao Racionalismo Clássico . Além disso, a figura do átomo, representado por 'camadas de elétrons', mostra que o perfil conceitual do professor encontra-se mais elevado na categoria do Racionalismo Clássico. A ideia de 'camada', e o próprio modelo de representação para o átomo marcado por trajetórias dos elétrons concêntricas ao núcleo, são proibidos pelas relações de incerteza de Heisenberg. Ainda sobre o professor B, o quadro abaixo apresenta sua proposta de discussão a partir da visão da sustentabilidade.
Figura 3. Proposta de discussão do tema energia a partir da ideia de sustentabilidade, apresentada pelo professor P2.
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No quadro acima, há uma ampliação do debate sobre energia que está para além da epistemologia. A "visão da sustentabilidade" implica em olhar o conceito de energia a partir de outros campos do saber, uma vez que envolve desde questões técnicas (ligadas às formas de produção e distribuição de energia) até questões humanísticas (ligadas, por exemplo, aos impactos sobre as comunidades que se veem obrigadas a abandonar suas casas em regiões de construção de hidrelétricas). Voltando-se à lista de exercícios, vê-se que, de um modo geral, os professores trabalham com a noção de energia e não com o conceito de energia. Energia é apresentada sob a perspectiva das aplicações na tecnologia, dos seus fins últimos. Além disso, as listas de exercícios mostram uma tendência à manutenção de formas de avalição com pouco espaço de questionamento dos resultados obtidos. A Figura 3, extraída dos documentos de pesquisa relativos ao professor P1, é uma demonstração do que se afirma acima.
A figura da próxima página mostra que os resultados quantitativos são aceitos de imediato. Não se discute, por exemplo, os resultados obtidos para a eficiência de uma máquina térmica, nem das demais grandezas envolvidas. Este trabalho não tem a pretensão de caracterizar como boa ou ruim a prática dos professores, nem tem pouco as propostas curriculares adotadas pela Instituição. Análise dos slides, exercícios e resolução de exercícios apontam para tentativa de superar a perspectiva disciplinar. No entanto, a interdisciplinaridade como um diálogo entre distintos campos do saber sobre o tema energia, por exemplo, não aparece explicitamente nestes documentos.
Figura 3 . Resolução de exercícios encontrada nos documentos do professor P1 .
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Embora alguns professores reconheçam que o componente curricular 'Energia: origem, conversão e uso' propõe um debate interdisciplinar, as suas propostas de aula mostram o
contrário: há uma constante retomada da perspectiva curricular tradicional, baseada na departamentalização administrativa e na compartimentalização fragmentadora de conhecimentos e saberes. Apenas em alguns casos o caráter interdisciplinar do tema energia é debatido, problematizado, ainda que restrito aos domínios da física. Acreditamos que uma razão possível para essa constatação - a partir dos atos de currículo - está na própria formação tradicional dos professores envolvidos.
## Referências
BACHELARD, G. A filosofia do não. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, p. 4-87, 1978.
FAZENDA, I. C. A . Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro . 6ª ed. São Paulo: Edições Loyola, São Paulo , 2011.
GOODSON, I., F. Currículo: teoria e história . Petrópolis. Vozes. 1999.
JAPIASSU, H. Interdisciplinaridade e patologia do saber . Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976.
MACEDO, R., S. Currículo: campo, conceito e pesquisa . Rio de Janeiro: vozes, 2008.
MAIA, Gilvan de O. Rios. Desafios para um currículo interdisciplinar: discussões a partir do currículo da UFABC. Trabalho de Conclusão de Curso (Monografia). Universidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Física, 2013.
MICHINEL, J. L. O funcionamento de textos divergentes sobre energia com alunos de Física : a leitura no ensino superior. 2001. 220f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2001.
MORTIMER, E. F. Linguagem e formação de conceitos no ensino de ciências . Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2011.
RABELO, P. F. R; COELHO, A. C. V. Pesquisa documental. In: ROCHA, N. M. F.; LEAL, R. S.; BOAVENTURA, E. M. (Org.). Metodologias qualitativas de pesquisa . Salvador: Fast Design Editora, 2008. p. 35-44.
GOUVEIA, V.; VALADARES, J. A aprendizagem em ambientes construtivistas: uma pesquisa relacionada com o tema ácido-base. Investigação em ensino de Ciências, v.9, n.2, p. 199-220, 2004.
MATHEWS, M. Construtivismo e ensino de ciências: uma avaliação. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v.17, n.3, p. 279-294, 2000.
REZENDE, Flávia. As novas tecnologias na prática pedagógica sob a perspectiva construtivista. Pesquisa em Educação em Ciências, v.2, nº1, março. 2002.
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