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Os usos do celular: uma proposta de abordagem temática na perspectiva freireana

Marcia Tiemi Saito, Kathia Schaffer Gimenes, Rodrigo Correia Da Silva, Ismael De Oliveira Ramos, Ivã Gurgel

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXI
Ano
2015
Data
28/01/2015
Linha de pesquisa
Seleção, Organização Do Conhecimento E Currículo
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## OS USOS DO CELULAR: UMA PROPOSTA DE ABORDAGEM TEMÁTICA NA PERSPECTIVA FREIREANA

Marcia Tiemi Saito , Kathia Schaffer Gimenes , Rodrigo Correia da Silva , 1 2 2 Ismael de Oliveira Ramos , Ivã Gurgel 2 3

- 1 Universidade de São Paulo / Interunidades em Ensino de Ciências / marcia.saito@usp.br
- 2 Universidade de São Paulo / Instituto de Física / kathia.gimenes@usp.br / rodrigo.correia.silva@usp.br / maeliml@hotmail.com

## Resumo

O presente trabalho busca analisar a viabilidade da utilização da abordagem temática em uma perspectiva freireana em contraposição à tradicional abordagem conceitual, visando proporcionar aos educandos uma formação mais ampla e reflexiva. Para isso, é apresentado um minicurso, intitulado 'os usos do celular', ministrado a estudantes do Ensino Médio, que abrangeu diversos assuntos, desde o funcionamento do celular até as questões sociais, políticas e ambientais relacionadas ao tema. Os resultados indicaram que houve uma boa significação do tema por parte dos educandos, e que estes se sentiram mais motivados, conseguindo estabelecer relações entre os conceitos científicos abordados e as questões sociais discutidas. A análise também mostrou que houve tomada de consciência por parte dos estudantes a respeito dessas questões, e que estes, inclusive, se sentiram motivados a intervir no meio em que vivem. Assim, conclui-se que, no contexto do minicurso, a abordagem temática atingiu o objetivo de proporcionar uma formação mais ampla, crítica e reflexiva, mostrando-se, portanto, uma prática viável, mas que deve ser aperfeiçoada e adaptada a outros contextos. Nessa abordagem também ficou clara a necessidade de superação do senso comum pedagógico, baseado na premissa de que, para ser um bom professor, basta ter um bom domínio das teorias científicas.

Palavras-chave : Celular, abordagem temática, tema gerador

## Introdução

Apesar dos avanços e das diversas pesquisas que vêm sendo realizadas na área de Ensino de Ciências, ainda há muitos desafios a serem superados. Dentre eles está a necessidade de superação do senso comum pedagógico, baseado na premissa de que, para ser um bom professor de Ciências Naturais, basta ter o domínio das teorias científicas e suas relações com a tecnologia (Delizoicov et al.; 2007). As práticas resultantes dessa premissa são marcadas por um ensino extremamente conteudista, cujos conceitos abordados são muitas vezes descontextualizados, desmotivadores e pouco significativos aos educandos.

Em contrapartida a essa abordagem conceitual, centrada nos chamados 'conteúdos', interessantes propostas, que visam superar esses obstáculos, vêm sendo discutidas nos últimos anos, entre elas, a abordagem temática (Delizoicov, 2001). Ela parte da discussão de temas significativos aos educandos, vinculados à sua realidade e aos seus interesses, para tratar dos conceitos necessários à compreensão e apropriação do tema em uma perspectiva mais ampla, visando,

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assim, uma melhor contextualização dos conteúdos aos estudantes e, consequentemente maiores possibilidades de motivá-los. Essa abordagem, vinculada a um viés freireano, busca levar os estudantes a refletir e a se conscientizar sobre a realidade em que vivem e de seu papel de sujeitos que intervêm no mundo, relacionando os temas com os problemas existentes no meio social.

Essa perspectiva está de acordo com as propostas apresentadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN e PCN+) (BRASIL, 1998; BRASIL, 2002), que buscam promover uma melhor contextualização dos assuntos a serem trabalhados e desenvolver competências e habilidades para a formação de um indivíduo reflexivo e crítico, capaz de exercer sua cidadania de forma autônoma.

Dentro dessas propostas, foi elaborado um minicurso voltado a estudantes do Ensino Médio, com o tema 'Os usos do celular'. A escolha do tema deveu-se ao fato de que se trata de uma tecnologia com a qual estes estudantes lidam constantemente, porém, ao mesmo tempo, poucas vezes estes refletem sobre suas implicações, sendo assim, um tema com grande potencial significativo e de mobilização. No minicurso buscou-se tratar questões amplas relacionadas aos usos do celular, desde o seu funcionamento até as questões sociais, políticas e ambientais envolvidas. Ao discutir essas questões, foram mobilizados os conceitos científicos pertinentes, a fim de fazer com que os estudantes refletissem tanto sobre as suas próprias práticas relacionadas ao uso do celular, quanto sobre a utilidade dos conceitos científicos para o devido entendimento de tais questões.

Assim, neste trabalho analisa-se a viabilidade de implementação de um curso estruturado a partir de uma abordagem temática, como uma alternativa à tradicional abordagem conceitual e como uma proposta inicial a ser aperfeiçoada, no intuito de superar o senso comum pedagógico.

## Marco Teórico

Frente aos desafios da Educação em Ciências, não é nova a proposta de inovação curricular em uma perspectiva freireana. Porém, pode-se dizer que ainda são poucos os trabalhos que contribuem para a estruturação de um currículo baseado nesta visão educacional (Freire, 1996), e mais escassas ainda são as tentativas de implementação dessas propostas nas escolas.

Para Freire (1996), todo ser humano possui uma vocação ontológica para 'ser mais', ou seja, todo ser humano, na medida de sua consciência a respeito de seu próprio estado de inacabamento, naturalmente busca aprimorar-se. E, como consequência dessa consciência, os sujeitos percebem-se como seres condicionados, porém não determinados, pela sua própria natureza e pelo contexto sócio-histórico-cultural em que estão inseridos. Sendo assim, nesse processo, o ser humano reconhece a impossibilidade de se ausentar na construção de sua própria presença no mundo e de seu papel social na busca em 'ser mais', a fim de tentar suprir seu inacabamento e passar a ser um sujeito histórico a intervir no mundo e não apenas adaptar-se a ele.

Dessa forma, fica claro que todos possuem uma vocação ontológica para aprender e, uma vez que somos capazes de aprender, também somos capazes de ensinar, conforme afirma Freire (1996):

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- (...) Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa, e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar. Foi assim, socialmente aprendendo, que ao longo dos tempos mulheres e homens perceberam que era possível - depois, preciso - trabalhar maneiras, cominhos, métodos de ensinar. Aprender precedeu ensinar ou, em outras palavras, ensinar se diluía na experiência realmente fundante de aprender. (Freire, 1996, pg. 23-24)

Assim, levando-se em conta que a conscientização possui diversos níveis, a finalidade da educação para Freire é a de elevar cada vez mais o nível de consciência do sujeito de seu próprio estado de inconclusão, para que ele possa, em um permanente movimento de busca, exercer de forma autônoma o seu papel de sujeito no mundo e ser dono de sua própria historicidade. Além disso, Freire destaca que ambos, educadores e educandos, são sujeitos nesse processo, acabando assim, com a dicotomia existente entre aqueles que ensinam e aqueles que aprendem, de forma que, no processo educativo, todos se educam entre si.

Tendo isso em vista, Freire (2005) propõe uma educação problematizadora e dialógica, em que o educador, em constante diálogo com os educandos, problematiza situações desafiadoras e significativas a eles, a fim de proporcionar condições para a superação do conhecimento do nível comum para um nível reflexivo, em um ato de desvelamento da realidade, possibilitando a formação de um espírito crítico e potencial transformador da realidade. Para isso, sugere que se parta de temas geradores, os quais são escolhidos após uma investigação temática.

Será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da educação ou da ação política. (Freire, 2005, pg. 100)

Especificamente para a área de Ensino de Ciências, Delizoicov (2001) estrutura a proposta freireana através de uma abordagem temática dos conceitos científicos, em que estes são trabalhados a partir da problematização de um tema central, que tenha significação para o estudante e que exige um conhecimento que, para ele, seja inédito. Essa proposta se constitui em três momentos pedagógicos: a problematização inicial, na qual são apresentadas situações reais que os estudantes conhecem e que exigem a introdução de conhecimentos científicos para interpretálas, a organização do conhecimento, onde o professor desenvolve a conceituação científica identificada como fundamental para a compreensão das situações problematizadas e a aplicação do conhecimento, onde se generaliza a conceituação abordada e se explora o potencial explicativo e conscientizador das teorias científicas estudadas.

Nas próximas seções, apresenta-se o minicurso estruturado com base nesses pressupostos e, a partir dos resultados obtidos, analisa-se a sua viabilidade de implementação.

## Contexto de pesquisa

O minicurso apresentado foi realizado no contexto da disciplina "Metodologia do Ensino de Física I", sendo esta oferecida a estudantes de licenciatura em física do último ano de graduação. O curso foi ministrado a estudantes de segundo e terceiro anos do Ensino Médio de duas escolas públicas da região metropolitana de São Paulo e as aulas aconteceram no mês de maio de 2013, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Ao total, foram realizados quatro encontros, todos aos sábados, no período da manhã e com duração de três horas cada um. A participação no curso era facultativa, sendo que 21 estudantes compareceram no

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primeiro dia, porém somente 16 o frequentaram efetivamente.

A proposta foi dividida em quatro aulas. A primeira visava problematizar sobre a importância e as dificuldades de se comunicar, e o avanço dos meios de comunicação ao longo da história. Para isso, a aula foi dividida em dois momentos, no primeiro deles, realizamos um jogo de perguntas e respostas relacionadas à comunicação em diferentes épocas da história. Por exemplo, uma das perguntas utilizadas foi: 'Estamos na era pré-histórica e você tem que comunicar aos outros que há fogo na caverna. Como você faz isso? a) gritando e falando, b) fazendo gestos e grunhidos e c) código Morse'. Em seguida, apresentamos alguns aparelhos de celular antigos e os educandos foram convidados a acrescentar seus telefones celulares tentando colocá-los em ordem cronológica (do mais velho para o mais novo) fazendo uma discussão sobre a evolução da comunicação e dos aparelhos de celular, além de provocar uma reflexão sobre como e com que finalidades o celular é usado atualmente. Fechamos este primeiro momento com uma apresentação sobre a evolução da comunicação de modo a relacionar esta com as atividades anteriores.

No segundo momento, passamos a trabalhar com os recursos necessários para a compreensão do funcionamento do celular. Para isso, os educandos realizaram o experimento do 'telefone com fio', no qual se utilizam dois copos plásticos e um barbante conectando-os, e é possível notar a propagação do som de um copo a outro ao se falar em um deles. Em seguida, problematizou-se a atividade formulando questões como: "Como vocês acham que foi possível ouvir a voz do colega pelo copinho?", "O que é o som?", "Como ele chega a nossos ouvidos?", "Qual o papel do barbante na propagação do som?". Dessa forma, foi possível construir com eles os conceitos físicos envolvidos no experimento.

A segunda aula teve como objetivo trazer informações e discutir sobre alguns meios de transmissão, como cabo transatlântico, fibra óptica, antenas e satélites, a fim de responder perguntas que surgiram da problematização feita na primeira aula. Assim, explicou-se o funcionamento dos satélites, suas aplicações e suas vantagens em relação às antenas simples, apresentou-se como é feita a transmissão via cabo comparando esta com a fibra óptica e utilizaram-se experimentos e simuladores interativos para mostrar como funcionam as antenas. A fim de iniciar uma discussão acerca do consumismo, ao final desta aula, colocou-se a questão para debate: 'As formas de transmissão das ondas de celular não mudaram desde o seu surgimento (apenas se modernizaram). Dessa forma, por que há uma necessidade tão grande em trocar frequentemente de aparelho celular?'.

A terceira aula buscava conscientizar os educandos sobre questões ambientais e incentivá-los para que, de alguma maneira, eles atuassem no meio em que vivem. Para isso, chamou-se a atenção para o fato de os telefones celulares necessitarem da utilização de um sistema de energia portátil, e, em seguida, discutiu-se a respeito do surgimento e funcionamento de pilhas e baterias, dentro de seu contexto histórico. Após a discussão, realizou-se uma atividade experimental, na qual os estudantes construíram baterias utilizando diferentes materiais, como limão, água sanitária e batata, e mediram a tensão e a corrente elétrica gerada por cada uma delas. Assim, foi possível introduzir as grandezas físicas envolvidas e discutir a diferença destas baterias com as comerciais. Destacou-se, então, a importância do descarte adequado, da reutilização dos materiais utilizados na produção das baterias e das propagandas/campanhas de conscientização ambientais.

Na última aula o objetivo era fazer com que os educandos mobilizassem os

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conhecimentos adquiridos nas aulas anteriores para refletir sobre o uso mais consciente das tecnologias e seus impactos tanto ambientais quanto sociais e políticos, pensando sobre suas próprias ações e na possibilidade de intervir no seu meio social. Desta forma, foram realizados dois debates, o primeiro foi com base no vídeo 'A história das coisas' (Cunha, 2014), que mostra as etapas de fabricação de aparelhos eletrônicos em geral, até o seu descarte, abrangendo também as questões sócio-politico-ambientais envolvidas, como o consumismo, os impactos ambientais, a obsolescência programada dos produtos, entre outros. O segundo debate foi baseado no vídeo 'Desconectando para se conectar' (Next Group Brasil, 2014), que trata do problema da alienação das pessoas ao ficar muito tempo ao celular ou computador, deixando de prestar atenção no que acontece ao seu redor. Ao final de cada vídeo, os estudantes foram estimulados a apresentar suas impressões sobre o que foi visto, e esperava-se que o debate se desse com a mobilização/relação tanto das opiniões prévias dos estudantes, quanto dos conceitos que foram discutidos ao longo do curso. Por fim, ao término dos debates, foi feito o fechamento do curso e pedido que os estudantes respondessem um questionário avaliativo. Esse questionário continha tanto questões que buscavam avaliar a compreensão dos temas abordados, quanto questões sobre as impressões gerais a respeito do curso.

A seguir são apresentadas as questões relacionadas aos temas abordados. Nelas, há um erro no emprego de conceitos científicos em uma situação próxima do real, com a qual o estudante poderia se deparar. O intuito, com isso, era avaliar a capacidade do estudante de empregar adequadamente os conceitos científicos em diferentes contextos e sua capacidade de discutir questões sociais.

- 1 - O governador Abelardo Zalckmin disse que irá melhorar a rede de telefonia celular através da implementação de novas fibras ópticas que irão conectar o Estado de SP ao resto do mundo. Por isso, o imposto das ligações a longa distância irá diminuir. Você acreditaria nessa promessa? Justifique com base no que você aprendeu no curso.
- 2 - Um jovem encontrou problemas ao sintonizar as estações de rádio em seu veículo. Após levar a assistência técnica, o técnico que avaliou o equipamento sugeriu que a antena fosse trocada por uma que captasse melhor o som das estações de rádio. Com base no que você aprendeu no curso, comente a afirmação do técnico.
- 3 - Baterias são sistemas que geram energia elétrica através de uma reação química entre os seus componentes. Você poderia dizer algo sobre a grande variedade de baterias possíveis de serem construídas? Quais seriam os motivos de termos tantos tipos de baterias?

## Metodologia, análise e resultados

Os questionários foram analisados com base no processo da Análise Textual Discursiva (Moraes & Galiazzi, 2007) de modo a criar unidades de análise através da unitarização seguida de uma categorização do material analisado (Moraes, 2003). As unidades de significado foram agrupadas em quatro categorias de análise: a) Avaliação conceitual, b) Relações entre conceitos científicos e questões sociais, c) Tomada de consciência e d) Conscientização e intervenção no meio. Tais categorias serão exemplificadas a seguir.

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## a) Avaliação conceitual

Nessa categoria, procurou-se identificar se os estudantes perceberam problemas no emprego dos conceitos científicos nas questões 1 e 2, o que não é apenas um indício de compreensão do assunto, mas também avalia a capacidade de identificar o mal uso de conceitos científicos em situações com as quais ele poderia se deparar. As respostas dadas às questões 1 e 2, respectivamente, apresentadas a seguir, exemplificam que este objetivo foi alcançado.

Não, porque a fibra óptica é o melhor material para o envio de informações de longa distância, no entanto isso funcionaria somente para telefones fixos, já que os telefones celulares trabalham com sinais de antenas e não por fios.

A intenção é para aumentar a amplitude e melhorar o sinal, e a troca da antena ajudaria a captar melhor as ondas de sinais enviadas pelas estações de rádio.

## b) Relações entre conceitos científicos e questões sociais

Nessa categoria, buscou-se identificar se os educandos conseguiram relacionar os conceitos científicos trabalhados no curso com as questões sociais abordadas. Em algumas respostas analisadas, pode-se notar que, de alguma maneira, eles conseguiram fazer tais relações, conforme as respostas dadas às questões 1 e 3, respectivamente, mostradas a seguir:

Não, segundo o que foi discutido no curso, a rede telefônica de São Paulo, já possui fibra óptica e já está conectada ao resto do mundo, por isso, tenho razões para acreditar que há chances dessa promessa envolver corrupções e desvio de verba, e não acreditaria. Sem falar que a transmissão do sinal do celular é feita por satélite e isso não envolve fibra óptica.

A batata, limão e água sanitária podem ser condutoras de energia, ou seja, há diversas maneiras e formas de fazer condutores de energia, o problema pode ser o custo ou a mão-deobra cara, enfim, há vários fatores.

Nessa última resposta, inclusive, fica clara a relação com a atividade experimental realizada durante as aulas, e embora o conceito não tenha sido empregado corretamente, o que se justifica pelo pouco tempo disponível para a formalização dos conceitos, percebe-se que o estudante compreendeu a ideia geral trabalhada e a relacionou com questões sociais.

## c) Tomada de consciência

Nesta categoria buscou-se identificar se houve, de alguma forma, tomada de consciência por parte dos educandos e se estes passaram a pensar sobre assuntos/temas que antes não haviam pensado. Na fala de um deles fica claro que esse objetivo foi alcançado:

(...) sobre o curso é que mesmo com pouco podemos aprender muito, pois com apenas 4 sábados aprendi valores que em 15 anos não havia aprendido como o de não olhar apenas p/ mim mas sim em minha volta.

## d) Conscientização e intervenção no meio

Nessa categoria, buscou-se analisar se houve conscientização a respeito de problemas sociais por parte dos educandos e se estes, de alguma maneira, mostraram vontade em intervir no meio social em que vivem. Da análise, fica evidente que os estudantes se sentem incomodados e querem mobilizar o que foi discutido no minicurso a fim de tentar modificar o meio em que estão inseridos. As falas a seguir exemplificam isso:

(...) Eu já tinha vontade de fazer a diferença, depois desse curso eu quero fazer ainda mais, e sei que pessoas estarão do meu lado.

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(...) aprendi diversas coisas que sei que vou levar para o meu cotidiano e também abrir os olhos dos meus colegas (...).

Além disso, ao final de cada aula, os educadores se reuniam, faziam um relatório sobre suas impressões do andamento das atividades, da participação dos estudantes nestas e discutiam sobre o que poderia ser melhorado e como seria o andamento das aulas seguintes.

De um modo geral, pode-se dizer que os estudantes participaram com bastante interesse de todas as atividades e se sentiram livres para expor suas opiniões nos debates e discussões, o que provavelmente se deveu ao esforço dos educadores em incentivar o diálogo e promover atividades interativas, que se adequassem ao perfil dos educandos, às suas demandas e ao contexto social em que estão inseridos, demonstrando o caráter dialógico do curso. Além disso, notouse que o minicurso possibilitou mudanças no seu modo de pensar, tendo em vista que os educadores tentaram problematizar e conduzir as discussões para que elas não ficassem no senso comum, buscando trazer elementos novos aos estudantes e fazer com que eles refletissem sobre os assuntos propostos com profundidade. Isso fica evidenciado pela seguinte fala:

(...) me fez refletir sobre o que realmente está acontecendo na vida real, e fizemos um debate bem legal também, podendo expressar nossas ideias.

Nota-se também que a escolha e a forma de abordar o tema foi adequada, e que este foi bem contextualizado, sendo significativo e motivador aos educandos. Isso fica reforçado pelo fato de 76% deles frequentarem o curso até o fim, mesmo este sendo realizado aos sábados de manhã e em um lugar afastado de suas casas, e fica claro na seguinte fala:

(...) o curso excedeu todas as minhas expectativas, o achei super interessante pois não envolveu somente física, mas também história, filosofia e sociologia (indiretamente) entre outras coisas do nosso cotidiano, que é interessante sabermos pois são coisas tão comuns e simples, mas que muitas vezes ignoramos por acharmos que não iremos exercer tal conhecimento em muitos casos. (...)

Assim, a partir da análise descrita, constata-se que os objetivos de uma abordagem temática em uma perspectiva freireana foram alcançados, já que o curso se deu de forma dialógica, os educandos apreenderam os conceitos científicos necessários para a compreensão dos temas abordados, conseguiram relacionar esse conceitos a questões sociais, políticas e ambientais e demonstraram estar dispostos a mobilizar o que foi aprendido para atuar no seu meio. Dessa forma, pode-se afirmar que o minicurso permitiu uma formação mais ampla e o desenvolvimento de um olhar mais crítico sobre os assuntos relacionados ao tema, além de os fazer refletir sobre assuntos não antes pensados. Esses aspectos estão de acordo com a proposta dos PCNs de formar cidadãos críticos para atuar de forma autônoma na sociedade.

Da análise, contudo, pôde-se perceber também que o minicurso ainda necessita ser aprimorado para proporcionar aos estudantes uma compreensão mais aprofundada e precisa acerca dos conceitos científicos. As dificuldades na abordagem desses conceitos podem estar relacionadas ao curto espaço de tempo no qual o minicurso foi realizado, e também à forma e aos próprios objetivos deste, onde a prioridade era a formação mais ampla e não o aprofundamento dos conceitos, sendo estes abordados no grau necessário à compreensão do tema em um nível adequado ao contexto do minicurso.

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## Conclusões

A partir dos resultados analisados, pudemos concluir que o minicurso atingiu seus objetivos de, através de uma abordagem temática, fazer com que os estudantes percebessem a necessidade de compreender os conceitos científicos para se apropriar melhor do tema e relacioná-lo com questões que vão desde situações cotidianas à políticas e sociais mais amplas, possibilitando uma maior reflexão sobre tais assuntos, tornando-se um sujeito mais crítico e capaz de intervir no meio em que vive.

Dessa forma, comparando a abordagem conceitual com a abordagem temática proposta, fica claro que esta é mais significativa, pois proporciona uma formação do sujeito de maneira mais ampla, conforme as tendências atuais do Ensino de Ciências. Assim, podemos dizer que a implementação dessa proposta é viável, embora necessite ser aprimorada e adaptada a outros contextos.

Com este trabalho também fica claro que, dentro dessa proposta, o professor não pode limitar-se ao conhecimento dos conceitos científicos, necessitando de uma formação mais ampla, que supere o senso comum pedagógico.

## Referências

BRASIL. Ministério a Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN Ensino Médio: Orientações Educacionais Complementares aos Parametros Curriculares Nacionais. Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC, 1998.

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CUNHA, Michel. A história das coisas (versão brasileira). https://www.youtube.com/watch? v=7qFiGMSnNjw, acessado em 20/06/2014.

DELIZOICOV, Demétrio. Problemas e problematizações. In: Pietrocola, M. (org.) - Ensino de Física: conteúdo, metodologia e espistemologia numa coleção integradora. Florianópolis: Ed. Da UFSC, 2001.

DELIZOICOV, Demétrio; ANGOTTI, José André; PERNAMBUCO, Marta Maria. Ensino de Ciências: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2007.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

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MORAES, Roque; GALIAZZI, Maria do Carmo. Análise Textual Discursiva. Ijuí: UNIJUÍ, 2007.

MORAES, Roque. Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada pela análise textual discursiva. In: Ciência & Educação, v.9, n:2, p. 119-211, 2003.

NEXT GROUP BRASIL. Desconectando para se conectar.

https://www.youtube.com/watch? v=GXURjzpbVHQ, acessado em 20/06/2014.

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