O ENSINO DE ELETRICIDADE NA EJA: UMA PROPOSTA.
Frederico Vasconcellos Costa, Yassuko Hosoume
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 24/10/2008
- Linha de pesquisa
- Didática, Currículo E Avaliação No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O ensino de eletricidade na EJA: uma proposta.
## A proposal for teaching adults about electricity.
## Frederico Vasconcellos Costa 1
## Yassuko Hosoume 2 2
- 1 Mestrando - PUCMinas/ UNIS -MG/ FUNEC -MG -fred\_univ@yahoo.com.br
- 2 Instituto de Física da USP e PUCMinas -yhosoume@if.usp.br
## Resumo
Este trabalho trata -s -se de uma proposta de ensino de Eletricidade aplicada à Educação de Jovens e Adultos do ensino médio. Buscamos com este trabalho proporcionar aos alunos dessa modalidade uma formação básica em Ciência e Tecnologia, bem como discutir questões relacionadas à cidadania. Para tal, lançamos mão da pedagogia de Paulo Freire como referência e as Competências e Habilidades propostas pelo Encceja como metas a serem alcançadas. A proposta é uma releitura e articulação de textos, do livro para o estudante, publicados pelo ENCCEJA e pelo GREF, bem como textos de cartilhas da ANEEL e da CEMIG, constituindo -se em um conjunto de atividades a serem desenvolvidas pelos alunos tanto em sala de aula, quanto em casa. Essas atividades foram elaboradas de forma a contemplar três momentos pedagógicos: investigativa, numérica e interpretativa. Participaram da pesquisa 33 alunos de uma escola pública do município de Contagem, MG. A avaliação da proposta foi realizada através de 20 questões versando todos os temas abordados nas atividades . Os resultados dessas avaliações somados aos comentários dos alunos durante o curso são um indicativo de que estamos no caminho pretendido, ou seja, rumo à cidadania.
Palavras - chave: Ensino, Eletricidade, Educação de Jovens e Adultos.
## Abstract
In this work we elaborate a proposal for teaching adults about electricity at the high school level. Having the theory of Paulo Freire as a reference, this work aims to provide a basic understanding about Science and Technology, as well discussing issues related to citizenship. The proposal includes reading and coordinating instructional texts, published by ENCCEJA, GREF, ANEEL and CEMIG. The activities, which can be developed by the students at home or in the classroom, contemplate three pedagogical aspects: investigation, interpretation and calculation. Thirty three public school students, from the city of Contagem, took part in the first evaluation, answering 20 questions about the developed activities. The results and the student's comments during the activities indicate that our proposal is consistent with our goals.
Keywords: Physics, Electricity, Adult Education
## 1 -O aluno da EJA e o ensino de Física
É muito grande o número de pessoas que não concluíram seus estudos de formação básica (ensino fundamental e médio) e conseqüentemente o número de alunos que freqüentam a modalidade EJA também o é. A EJA é oferecida por escolas públicas e particulares nos níveis fundamental e médio e atende a um público bem diversifificado, tanto em idade (jovens de 18 anos, que já podem freqüentar turmas de EJA, e senhores com mais de 60 anos que optaram por voltar a estudar), quanto a condição social, pessoas que conseguiram posições de destaque na sociedade apesar de sua carência escolar e pessoas que estão há anos desempregadas e que acreditam que o diploma poderá ajudá-los a reverter esta situação. Embora seja diferente do ensino médio regular consideramos os objetivos da EJA aqueles formulados nos Parâmetros Curriculares do Ensinino Médio:
Os objetivos do Ensino Médio em cada área do conhecimento devem envolver, de forma combinada, o desenvolvimento de conhecimentos práticos, contextualizados, que respondam às necessidades da vida contemporânea, e o desenvolvimento de conhecimentos mais amplos e abstratos, que correspondam a uma cultura geral e uma visão de mundo. (Brasil, 1999.p.207)
Semelhantemente ao aluno do ensino médio, o aluno da EJA também apresenta sérias dificuldades relacionadas com o método tradicional de ensino. O motivo vo geralmente expresso por estes alunos é que a forma com que a Física é ensinada não lhes permite perceber relação com suas vidas diárias. De acordo com Garcia, Rocha & Costa (2000):
"Uma das situações normalmente observadas no desenvolvimento de conteúdos os escolares de física é a sua pouca vinculação com a realidade vivenciada pelo aluno. Talvez isso aconteça, em grande parte, por se ministrarem conteúdos que foram consolidados e estratificados no tempo, sem se atentar para a realidade sempre em mudança dos alunos e dos professores nem descobrir o que lhes seria mais familiar ou útil."
Desta forma, uma proposta de ensino de física voltada para a formação cidadã deve estar atenta às transformações sofridas por nossa sociedade. O professor da EJA encontra um público muito heterogêneo e com dificuldades variadas. Mas, em geral, todos têm algo em comum: uma experiência de vida, ou melhor, uma visão de mundo adquirida no seu dia-a-dia de trabalhador. Valorizar esta experiência de vida destes alunos é condição nececessária para tornar o ensino mais significativo e voltado para a realidade do aluno.
A partir desta perspectiva, o professor assume o papel de aluno em alguns momentos da discussão em sala de aula. Existem assuntos tratados no curso de física que fazem parte do dia-a-dia de alguns alunos e é preciso que o professor tenha a postura de aprendiz e suscite comentários destes alunos sobre sua experiência de vida. Desta forma, o ensino toma maior significado para aqueles alunos. Esta dinâmica onde o professor ensnsina e ao mesmo tempo aprende é bem definida por Paulo Freire (1996):
"É preciso que desde o começo do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-a-se e forma ao seser formado. Não há docência sem dicência, as duas se explicam e seus sujeitos apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender".
A educação de Jovens e Adultos é carente de material didático e os professores geralmente utilizam como livros didáticos os mesmos utilizados para o
ensino médio regular. Para tal, alguns conteúdos são resumidos e outros eliminados. O material específico para a EJA mais conhecido nacionalmente é o Telecurso 2000 criado pela fundação Roberto Marinho. Nesta proposta de ensino, embora os títulos dos conteúdos das apostilas sejam bem diferentes daqueles tratados nos livros didáticos do ensino médio, sua forma de trabalhar tais conteúdos em nada difere daquela utilizada por tais livros. Ou seja, o aluno deve resolver atividades e exercícios como forma de treinar determinado conteúdo tratado no capítulo. Para obter o certificado de conclusão, o aluno deve fazer os exames supletivos que são oferecidos pelas Secretarias de Educação de cada Estado.
Outra proposta de ensino para a EJA é contemplada nos documentos elaborados para cada área de ensino pelo Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos - - Encceja ( Brasil, 2002c) e é fundamentada em competências e habilidades a serem desenvolvidas pelos alunos. O Encceja mostra como a ciência e a tecnologia estão intimamente relacionadas, e como, em nossos dias, saber lidar com estas tecnologias é tão importante quanto saber ler e escrever; daí já termos escutado falar do analfabeto tecnológico, que por não saber lidar com as tecnologias de nossa vida diária muitas vezes perde oportunidade de emprego, e se sente não pertencente ao mundo em que vive.
Em nível acadêmico encontramos algumas propostas de ensino de Física para Jovens e Adultos em algumas dissertações de mestrado. Dentre elas podemos destacar uma proposta de ensino de Radiações na EJA apresentada por Ferreira (2005), na qual a autora faz uso de algumas atividades com om o objetivo de identificar quais os pré-conceitos sobre radiações seus alunos têm e, a partir daí, utilizou reportagens de revistas científicas para o desenvolvimento do curso. Gebara (2005) faz uma proposta de ensino de eletricidade em um EJA profissionalizante de nível de ensino fundamental e articulada com todas as outras disciplinas do curso. Já Franco (2004) propõe a utilização de textos de cunho ético e/ou cultural com o objetivo de facilitar e tornar prazeroso o ensino de Física, bem como tornar os alunos mais conscientes de sua cidadania e Garcia (2000) pretende identificar, através de questionários respondidos por funcionários, quais os temas da Física estão presentes em uma linha de montagem e se aquilo que se estuda na escola é útil para estes funcionários no seu ambiente de trabalho.
Nossa proposta de ensino para a EJA objetiva formar cidadãos com competências e habilidades relacionadas à interpretação de fenômenos relacionados à eletricidade. Este aluno, que almejamos formar, deverá adquirir competências para ir a um supermercado, saber ler e interpretar corretamente os códigos contidos nas informações técnicas de um determinado eletrodoméstico e ao mesmo tempo julgar se este é econômico ou não, antes de comprá-lo. Além disto, ele deverá compreender quais os riscos inerentes ao uso de eletrodomésticos e quais atitudes tomar para evitar acidentes.
## 2 - - A estruturação do curso de Eletricidade
Na elaboração do curso de eletricidade para o EJA foi utilizadado o material do Encceja (Brasil, 2002c), para a área de CiCiências da Natureza e suas tecnologias, como pano de fundo, os textos da cartilha " Fique por dentro da conta de luz" produzida pela ANEEL , bem como textos da CEMIG e as Leituras de Física do GREF (Grupo de Reelaboração do o Ensino de Física, 2008) como texto básico por se tratar de um texto didático que procura revelar o caráter prático-transformador e teórico -universalista da Física (GREF, 1993).
Este curso tem como objetivo confrontar conceitos básicos da Física, em particular, conceitos de eletricidade, com o cotidiano do estudante. Assim, algumas atividades são propostas para verificar conhecimentos prévios dos estudantes e dar significado científico a tais conhecimentos. Também propomos atividades para serem realizadas em casa, com o intuito d de mostrar que os conceitos estudados em sala de aula também podem ser visualizados em outros ambientes.
As atividades propostas durante o curso de eletricidade estão dividas em 3 categorias: atividade investigativa, a, atividade numérica e atividade interpre tativa . A A primeira está relacionada principalmente com as competências de investigação e compreensão dos fenômenos físicos e as duas outras categorias com as competências de representação e comunicação propostas nos PCN (Brasil, 1999). As competências relacionadas às atividades de contextualização sócio-cultural estão implícitas nas situações do cotidiano abordadas no desenvolvimento dos conteúdos. Na atividade investigativa o aluno é colocado diante de uma situação-problema onde é convidado a realizar determinada tarefa e responder a algumas questões propostas. O objetivo é identificar alguns conceitos prévios dos estudantes e, junto com eles, construir alguns modelos a partir de tais conceitos. A atividade numérica, como o próprio nome indica, consiste na resolução de problemas envolvendo conceitos de eletricidade aprendidos na aula. Tal atividade geralmente é desenvolvida após a explicação de alguma variável da eletricidade, como por exemplo, o cálculo de energia elétrica. Já a atividade interpretativa está tá relacionada com textos que o estudante deve ler e, logo em seguida, responder a um questionário. Esta atividade geralmente é feita em grupos onde os estudantes devem discutir sobre o texto lido e responder às questões propostas.
O curso de eletricidade f foi elaborado com o objetivo de mostrar ao estudante que física não é apenas cálculo, como é pensado pela maioria dos estudantes da EJA. As 3 categorias de atividades anteriormente apresentadas estão distribuídas ao longo do curso com o objetivo de dar uma dinamicidade às aulas. Ou seja, o estudante não estará sempre fazendo cálculos ou escutando explicações do professor, ele também vai "por a mão na massa" e realizar atividades que serão importantes na construção do conhecimento.
Ao final de cada tópico, o professor recorda o que foi estudado até então, com o objetivo de solidificar os conceitos discutidos naquela aula. Esta prática também deve ser realizada no início da aula seguinte. Assim, o aluno vai percebendo no decorrer do curso que alguma coisa está tá sendo aprendida e que ele foi responsável por isto. No fim do curso é aplicada uma avaliação com o objetivo que quantificar quais competências foram atingidas pelos alunos.
## 3 - - As atividades e os temas do curso
Por conveniência de apresentação dividimos o desenvolvimento dos temas em aulas e, assim, nem sempre um tema se esgota em uma única aula. O professor, ao utilizar este material, deve ter clareza de que quando se trabalha com jovens e adultos, o tempo de cada aluno é particular, ou seja, a heterogeneidade das turmas faz com que um mesmo tema tenha diferentes tempos em cada grupo de alunos. Portanto, o professor deve respeitar tais tempos ao trabalhar os textos com os alunos do EJA.
## 3.1 - - Aula inicial - - Conhecendo os alunos
Propomos nesta primeira aula, a exibição de um filme produzido MEC na colação DVDescola intitulado Brasil Alfabetizado. Tal DVD foi distribuído a todas as escolas públicas, estaduais e municipais. Trata-se de um filme que conta a história de alguns estudantes de EJA espalhados em cidades de várias regiões do Brasil. Cada um carrega consigo uma história de vida e todos eles contam porque voltaram a estudar, o que esperam da escola e como a escola mudou sua vida. São histórias muito parecidas com as de nossos alunos e o filme chega a emocioná-los. Este filme faz o aluno pensar porque ele está ali naquela escola e, que a partir daquele momento, sua vida mudou. Após o filme, o professor pede aos alunos que, a exemplo dos personagens do filme, contem sua história. Como a turma está na primeira aula do curso, pode ser que fiquem acanhados e contar sua história verbalmente na frente dos colegas. Assim, sugerimos que o façam por escrito.
## 3.2 - - Aula 2 --- Descobrindo as grandezas da eletricidade.
No inicio da aula o professor faz algumas perguntas aos alunos com o objetivo de motivar uma discussão inicial. São perguntas do tipo: "Você se preocupa com os gastos de energia de sua casa? Você demora muito quando vai tomar banho? Você sempre esquece a luz acesa quando sai do seu quarto?" " Para cada pergunta surgem comentários dos alunos. Assim, este momento inicial do curso serve para uma discussão sobre a importância da economia de energia elétrica. Em seguida, através de uma atividade investigativa, o professor apresenta alguns anúncios de eletrodomésticos que foram retirados de sites de hipermercados. Os alunos são divididos em grupos e convidados a identificar quais são as grandezas físicas que estão nestes anúncios e que estão relacionadas com a eletricidade.
Após esta atividade, o professor pede aos alunos que o ajudem a organizar os dados colhidos por eles. No quadro negro, ele escreve quais grandezas estes alunos conseguiram identificar. As grandezas que aparecem são Voltagem, Potência, Freqüência e energia consumida. O professor conceitua cada grandeza e apresenta uma nova grandeza: a corrente elétrica. Para finalizar a aula, o professor pede aos alunos que preencham uma tabela com os valores das grandezas estudadas.
## 3.3 - - Aula 3 --- A energia elétrica
Nesta aula, o tema é a energia elétrica. O aluno aprende a calcular a energia elétrica utilizando a potência do aparelho e o tempo de uso. Desta forma são propostas algumas atividades numéricas com o objetivo de exemplificar o consumo de energia numa residência. Como exemplo, o professor utiliza a seguinte situaçãoproblema:
Imagine a seguinte situação: você deixa a lâmpada do seu quarto ligada enquanto assiste ao domingão do Faustão. Se esta lâmpada é de 60 W de potência e fica ligada durante 3 horas e 30 minutos, qual a quantidade de energia que e foi gasta?
Nesta aula, o aluno aprende a fazer o cálculo do consumo de energia. O professor pode passar algumas questões no quadro para que os alunos resolvam. Uma forma interessante de conduzir a aula é dividir a turma em duplas e pedir que cada dupla resolva uma questão por vez. Assim, o professor resolve as questões no quadro e comenta outras formas de resolver a mesma questão. Geralmente alguma dupla encontra uma forma diferente de resolver a questão e questiona se eles estão
errados. Este é um momento de o professor valorizar os trabalhos das duplas e apontar mais de um caminho para a solução de um determinado problema.
Antes de dar seqüência ao curso, o professor chama a atenção dos alunos para a diferença entre a potência elétrica e energia elétrica. Embora as unidades sejam pouco parecidas, elas não dizem a mesma coisa. Esta confusão é comum a muita gente. Como exemplo, o professor apresenta aos alunos uma questão do ENEM de 2001 que trata desta confusão:
- ... O Brasil tem potencial para produzir pelo menos 15 mil megawatts por hora de energia a partir de fontes alternativas.
Somente nos estados da região Sul, o potencial de geração de energia por intermédio das sobras agrícolas e florestais é de 5.000 megawatts por hora.
Para se ter uma idéia do quque isso representa, a usina hidrelétrica de Ita, uma das maiores do país, na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, gera 1.450 megawatts de energia por hora.
Neste momento o aluno aprende que a unidade de energia elétrica utilizada pelas companhias de energia é o kWh e, em seguida, o professor propõe a seguinte questão: Quanto custa a energia que você consome? Para responder a esta questão, os alunos dizem que é preciso saber quanto a companhia de energia elétrica cobra por kWh de energia consumida por uma residência.
A última aula desta etapa do curso diz respeito a uma atividade investigativa onde o aluno é convidado a investigar o relógio de luz da sua casa. O objetivo desta atividade é identificar a contribuição individual de cada aparelho no consumo de energia e relacionar os dados obtidos com a potência do aparelho.
## 3.4 - - Aula 4 --- A instalação elétrica e o choque elétrico.
Esta etapa do curso aborda os seguintes temas: instalação elétrica residencial e choque elétrico. Nesta etapa, o aluno fafaz atividades interpretativas a partir da leitura de alguns textos retirados do livro de Física volume 3 do GREEF. O primeiro tema abordado (instalação elétrica residencial) mostra como se obtém 110V e 220V a partir dos fios que chegam do poste até as nossas casas. O texto explica detalhadamente o que ocorre com aqueles fios que vemos nos postes de luz. O professor deve ler o texto pausadamente e explicar cada etapa do processo de instalação elétrica. O texto também explica como é feita uma ligação em série e uma ligação em paralelo. Diferentemente dos textos didáticos tradicionais, a preocupação desta aula não é fazer com que o aluno aprenda a calcular resistência equivalente ou corrente elétrica numa ligação em série e numa ligação em paralelo.
Após a leititura e comentários sobre o texto, o professor pede ao aluno para montar um modelo de instalação de interruptor simples com lâmpada de 110V e outro com lâmpada de 220V. Nesta atividade, ele identifica os fios fase e neutro e sua importância na hora das ligações elétricas. Desta forma, se discute a importância do fio terra na ligação de chuveiros e torneiras. Os alunos geralmente contam casos em que eles tomaram choques ao abrir a torneia quando vão tomar banho, a turma acha graça e a aula fica descontraída. Também são discutidos os cuidados que se deve tomar ao se fazer uma instalação.
Outro tema abordado pelo texto é o uso correto de fios nas instalações elétricas. A espessura do fio deve ser levada em conta na hora de uma ligação elétrica. É importante que o professor leve alguns fios com diâmetros diferentes e
proponhas algumas situações -problema para os alunos, como por exemplo: " Na minha casa tem um quintal que tem 10m de largura. Quero instalar uma lâmpada de 100 W bem no meio do quintal. Qual fio devo usar? " " O objetivo desta atividade é chamar a atenção do aluno para os perigos de uma instalação mal feita. Como exemplo, podemos tomar as instalações feitas nos chuveiros elétricos onde geralmente os fios começam a derreter durante um banho demorado.
Em outra aula o tema é o choque elétrico, também tratado como atividade interpretativa. Com o auxílio de um texto, o aluno responde a algumas questões que versam sobre como ocorre o choque elétrico, os danos à saúde e como proceder em caso de acidentes. No texto há um guia de primeiros socorros em caso de acidentes que envolvam choque elétrico. Estes dois temas levam a classe a uma boa discussão, onde os alunos relatam experiências vividas em casa ou no trabalho. Observe que nesta etapa do curso, o aluno já está familiarizado com alguns termos de eletricidade como tensão, corrente elétrica, etc.
Podemos encontrar na literatura vários textos paradidáticos sobre choque elétrico. Também é possível encontrar algumas notícias interessantes na internet ou revista de divulgação cientifica. O tema é muito interessante e tem destaque neste curso. Todo ano vemos notícias na TV sobre acidentes envolvendo choques elétricos. É importante a participação do professor de biologia na discussão sobre primeiros socorros. É uma boa oportunidade para se realizar uma aula interdisciplinar na escola. Também é interessante convidar um profissional da área de saúde para discutir o tema com os alunos ou até mesmo alguém do corpo de bombeiros ou cruz vermelha.
## 3.5 - - Aula 5 --- O chuveiro elétrico
Nesta parte do curso o aluno aprende como é o funcionamento de um chuveiro elétrico, observa os filamentos das lâmpadas incandescentes, diferencia lâmpada incandescente de lâmpada fluorescente, aprende como calcular a resistência elétrica e estuda os fufusíveis e os disjuntores e sua função em um aparelho ou na rede elétrica. O professor mostra um chuveiro elétrico para a turma e pede que abram o chuveiro e identifiquem as principais peças que estão dentro dele, trata -s -se, portanto de uma atividade investigativa. Em seguida a classe discute como é feita a ligação de um chuveiro, com base no que se aprendeu na etapa anterior. O professor faz um desenho no quadro do resistor que há no chuveiro e, junto com os alunos, descobre como é feita a ligação inverno e verão do chuveiro. O texto utilizado nesta aula também foi retirado do GREF, mas muitos livros de física também explicam como é feita a ligação de um chuveiro. Após a explicação do professor, os alunos respondem a algumas questões sobre o texto lido e completam uma tabela que relaciona algumas grandezas, aprendidas no inicio do curso, com o funcionamento do chuveiro elétrico.
Na aula sobre resistência, os alunos realizam uma atividade investigativa intitulada observando os filamentos das lâmpadas, onde eles devem identificar a relação entre a espessura do filamento e o brilho da lâmpada. A partir das conclusões obtidas pelos alunos, o professor introduz o conceito de resistência elétrica. Em seguida o professor pergunta à turma: Qual a diferença entre lâmpada incandescente e lâmpada fluorescente? A maioria dos alunos responde que lâmpada fluorescente é mais econômica que lâmpada incandescente. Esta resposta esta correta, pois esta é realmente uma diferença entre estes dois tipos de lâmpadas. Isto mostra que, , embora o aluno não dê a resposta que gostaríamos que
ele desse, a resposta está correta. Assim, o professor reformulou a pergunta: Como se dá a luminosidade em uma lâmpada incandescente e em uma lâmpada fluorescente?
## 3.6 - - Aula 6 --- Dicas de economia de Energia
Nesta última parte do curso o aluno discute questões relativas à economia de energia, como chega a energia em nossa casa e como é feita a conta de luz. Inicialmente, a apostila retoma a discussão sobre as lâmpadas incandescentes e fluorescentes. Na aula anterior o professor perguntou qual a diferença entre lâmpadas incandescentes e fluorescentes e uma resposta comum diz respeito à economia de energia produzida pela troca da lâmpada incandescente pela fluorescente. Como esta parte do curso trata justamente deste tema, o professor retoma esta fala dos alunos e, através de uma atividade investigativa onde se analisa uma propaganda comumente encontrada em lâmpadas fluorescentes relativa à economia de energia, calcula a economia de energia obtida na substituição de uma lâmpada incandescente de 60W por uma fluorescente de 12W.
Ainda nesta etapa, o aluno discute o que são Inmetro e Procel, onde se encontram tais palavras e qual a função de cada um. O professor conclui a discussão destacando que o selo Procel nos dá informações sobre o quão econômico é o aparelho e o Inmetro nos dá informações sobre o funcionamento daquele aparelho, ou seja, um aparelho com o selo do Inmetro passou em uma série de testes e está apto para a utilização doméstica. Por fim, o professor pergunta se os alunos têm o costume de observar estes selos antes de comprar um eletrodoméstico. Será que todos observam isto? Será que até mesmo o professor de física observa isto?
Numa outra aula, o professor lê e discute com os alunos algumas reportrtagens que passaram no Fantástico sobre o teste do Inmetro com benjamins, chapinha de cabelo e ferro elétrico. Como atividade interpretativa, o professor pede aos alunos que identifiquem quais testes foram realizados com cada aparelho e qual o objetivo de cada teste. Estes três aparelhos estão presentes nas casas dos alunos e provavelmente eles comentam sobre como utilizam tais aparelhos, assim, estas reportagens servem de pano de fundo para uma discussão sobre como utilizamos os aparelhos em nossa casa e quais os reais perigos que corremos com uma utilização errônea de tais aparelhos.
Por fim, esta parte se encerra com um estudo dirigido sobre uma cartilha da ANELL intitulada Por dentro da conta de luz . Nesta aula o aluno aprende como é feita a geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. Também se discute quais tarifas são cobradas em uma conta de luz e o que fazer para diminuir a conta de luz. O curso de eletricidade termina com um debate entre os alunos sobre os direitos e deveres do consumidor de energia elétrica e algumas dicas de segurança na utilização de alguns eletrodomésticos.
## 3.7 --- Aula final - Atividades de avaliação
A última etapa deste curso é a aplicação de um teste com o objetivo de verificar as competências alcançadas pelos alunos e, em seguida, após a correção da prova, aplicar a prova de recuperação. Para elaborar tal avaliação, o professor pode fazer uso de questões de vestibular, do Enem ou produzir questões relacionadas ao próprio texto estudado. Trata-s-se da chamada avaliação unificada, onde o aluno terá que responder a 20 questões de múltipla escolha de 4 alternativas
cada. Se o aluno obtiver nota inferior a 60% (menor que 12 pontos), ele deverá fazer prova de recuperação.
## 4 - - Análise de uma aplicação do curso
Este curso foi ministrado para 33 alunos de uma escola pública do município de Contagem, MG. Durante a maioria das aulas o número de alunos presentes em sala foi superior a 20 alunos. Esta classe é formada por alunos que, em sua maioria, estão na faixa etária entre 20 e 35 anos. Nesta classe temos pais e mães de família, jovens recém ingressos no mercado de trabalho, uma aluna que recentemente se tornou mamãe e outra que daqui a alguns meses será vovó. Uma característica marcante na turma é a união que há entre eles. A maioria destes alunos já está na última etapa do curso e quase todos os alunos pretendem continuar seus estudos, seja na universidade, seja em um curso técnico. Desta forma, quando começamos o curso de eletricidade, as discussões já foram enriquecedoras desde a primeira aula. As atividades propostas em sala foram realizadas por todos os alunos e praticamente todos participaram das discussões motivadas pelo professor. Quando um aluno perdia uma aula, na aula seguinte ele procurava o professor para apresentar-lhe o caderno onde havia copiado o conteúdo da aula perdida. O curso teve duração de 40 horas.
A coleta de material para análise do curso foi realizada durante todo o processo, resultando em materiais como textos escritos pelos alunos durante as atividades desenvolvidas em sala de aula e outras realizadas em casa , além das avaliações parcial, unificada e de recuperação. Neste trabalho apresentamos apenas os resultados da avaliação final, que já nos oferece uma visão sobre os resultados da aplicação do curso proposto.
O gráfico abaixo, intitulado Análise do Curso de Eletricidade, nos mostra o resultado da avaliação final, realizado através de uma prova objetiva de 20 questões. Utilizamos como critérios para selecionar as questões os temas abordados em cada aula, ou seja, para cada aula ministrada há pelo menos duas questões na prova final . No eixo horizontal está a numeração de cada questão e no eixo vertical está o percentual de acerto dos alunos.
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A partir dos resultados obtidos classificamos as questões em 3 categorias: difícil, médio e fácil. Consideraremos fácil aquela questão que teve índice de acertos superior a 60%, médio aquela que teve índice de acerto entre 40% e 60%, e difícil será aquela que teve índice de acerto inferior a 40%. Utilizamos este critério de qualificação das questões com o objetivo de quantificar quais temas trabalhados em
sala de aula não foram assimilados pelos alunos e que precisam ser revistos. Portanto, das 19 questões analisadas, 7 questões são estão no nível fácil, 6 questões es estão no nível médio e 6 questões estão no nível difícil. O tempo médio para esta turma responder às questões foi de 43 minutos. A questão 17 não fez parte do banco de dados porque esta questão tinha 2 alternativas corretas.
Classificar as questões da prorova unificada como interpretativa, numérica e investigativa não é uma tarefa fácil uma vez que uma questão pode ser classificada ao mesmo tempo como interpretativa e investigativa ou interpretativa e numérica e assim por diante. Desta forma, o critério que utilizamos foi classificar as questões foi relacionar a questão ao tema abordado na mesma. A questão 9, por exemplo, trata um tema de natureza interpretativa. Já a questão 7 é caracterizada numérica pois trata de um tema abordado em uma aula do tipo numérica. Assim, 19 questões da prova unificada que foram analisadas, 6 são numéricas (questões 3, 4, 5, 7, 18 e 20), 7 são investigativas (questões 1, 2, 6, 10, 13, 15 e 18) e 6 são interpretativas (demais questões). Das 6 questões numéricas, 2 questões foram consideradas fácil, 1 questão considerada médio e 3 questões consideradas difícil pelos alunos .
Para exemplificar apresentamos uma questão de nível médio e uma de nível fácil. A questão de nível médio é do tipo numérica e a de nível difícil é do tipo inteterpretativa. São dois tipos de situação-problema em que o aluno deve fazer uso de elementos contidos na questão para poder responder a mesma.
Questão 7 -Abaixo estão listados alguns aparelhos fabricados para funcionar sob uma tensão de 127 V.
Ferro elétrico \_\_ 1200 W
Microondas \_\_\_ 800 W
Lâmpada \_\_ 40 W
Chuveiro \_\_ 4000 W
Joãozinho resolveu calcular o consumo de energia de um destes aparelhos e achou o valor de 2 kWh. A alternativa que identifica corretamente o aparelho e o tempo de uso utilizado por Joãozinho é:
- a) Ferro Elétrico - - - 3 horas
- b) Microondas - - 30 minutos
- c) Lâmpada - - 10 horas
- d) Chuveiro - - 30 minutos
Nesta questão o aluno deve relacionar as várias informações contidas no texto. Primeiramente ele deve identificar a energia e transformá-la para Wh e em seguida atentar para os tempos dos aparelhos, ou seja, alguns estão em horas e outros em minutos. Por fim, ele deve calcular a energia consumida por cada aparelho e verificar qual o aparelho consome 2.000 Wh de energia. Dois alunos disseram que não conseguiram fazer a questão porque acharam que deveriam utilizar o valor 127 V em suas contas. Isto demonstra que tais alunos procuraram utilizar todos os dados do problema, mesmo aqueles desnecessários. O índice de acerto desta questão foi de 4 49% .
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## d) uma lâmpada de 220 V e uma tomada de 110 V.
Nesta questão o aluno deve identificar quais ligações foram feitas na lâmpada e na tomada. Em sala de aula ele pode fazer exercícios semelhantes a esta questão e o professor discutiu a diferença entre as ligações de 110 V e 220 V de uma lâmpada. O O índice de acerto desta questão foi de 27%. Esta questão teve uma distribuição homogênea de respostas dos alunos. Isto demonstra que as competências e habilidades cobradas por esta questão não foram desenvolvidas pelos alunos. Portanto, cabe ao professor rerevisar os conceitos envolvidos na resolução da questão.
Os resultados obtidos nas provas demonstram que, de uma forma geral, os alunos alcançaram as competências almejadas pelo curso de eletricidade e possíveis de serem extraídas de uma avaliação objetiva como a apresentada neste trabalho.
## 5 - - Complementações e considerações finais
Uma forma de analisar o quão significativo um curso é para um aluno se dá através de seus depoimentos. Uma aluna certa vez disse em uma aula: "Professor, o senhor acredita que ue depois que eu aprendi a calcular o consumo de energia e vi que cada aparelho gasta um pouco de energia, eu passei a desligar as lâmpadas dos quartos onde não tinha ninguém. Engraçado que só comecei a fazer isto depois que assisti a estas aulas de física . " Outro aluno, que trabalha com construção, disse: "Eu trabalho com construção de casa e ajudo a fazer as ligações elétricas da casa. Eu não sabia o porquê de algumas ligações. Agora com este curso eu começo a compreender melhor as ligações que ajudo a fazezer.r." Enfim, muitos foram os comentários positivos feitos pelos alunos a respeito do curso de eletricidade.
Este trabalho aos poucos está ganhando adesão de professores de outras áreas da instituição em que fora realizada a experiência. A professora de Geografia disse que há muito questionava sua prática educacional e se sua aula era de fato significativa para o aluno. Ao conhecer este trabalho, ela se mostrou curiosa em saber qual material foi utilizado no curso e se havia alguma coisa de Geografia. Os professores desta escola não conhecem os livros do Encceja, nem sequer ouviram falar do Encceja. Este curso está despertando alguns professores para uma reflexão sobre sua prática pedagógica. Esta proposta de ensino nasceu de uma reflexão sobre o significado do ensino de física para alunos de uma modalidade de ensino como a EJA, a mesma reflexão está sendo feita por outros professores de outras áreas de ensino desta escola. Portanto, acreditamos que futuramente o ensino nesta instituição será mais voltado para a formação da cidadania. Isto valida nossas expectativas e faz com que tenhamos a certeza que estamos no caminho certo. Embora encontramos alguns obstáculos no decorrer do curso, acreditamos que isto faz parte do processo e cabe ao professor reflexivo a prática de sempre repensar sobre o curso ministrado (Contreras, 2002).
## Referências
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