LICENCIANDOS EM FÍSICA E ALGUMAS RELAÇÕES ENTRE GÊNERO E CIÊNCIA INTERMEDIADAS PELA HISTÓRIA DA CIÊNCIA
Winston Gomes Schmiedecke, Viviana Da Cruz Vicente
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 27/01/2015
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## LICENCIANDOS EM FÍSICA E ALGUMAS RELAÇÕES ENTRE GÊNERO E CIÊNCIA INTERMEDIADAS PELA HISTÓRIA DA CIÊNCIA
## Viviana da Cruz Vicente , Winston Gomes Schmiedecke 2 1
1 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo / Licencianda em Física / viviana.ifsp@gmail.com
## Resumo
A presença de mulheres nos cursos de formação de professores de ciências é, atualmente, uma realidade. No caso particular das licenciaturas em Física, as duas últimas décadas acompanharam o crescimento do ingresso de mulheres nessa carreira, muitas das quais prosseguindo seus estudos em nível de pós-graduação, fato refletido na expressiva produção acadêmica das mesmas. Contudo, essa realidade não encontra efetivo respaldo e ressonância nas ações características dos cursos de ciências oferecidos na escola básica, que ainda parecem sofrer a influência do pensamento sexista de personagens históricos de relevante importância no desenvolvimento da ciência e em suas interlocuções com o ensino, tais como Comte, Rousseau e Hegel. Tal pensamento é, há tempos, reproduzido nas relações sociais desde as mais tenras idades dos(as) nossos(as) estudantes, pois não é incomum ainda encontrarmos, por exemplo, materiais de cunho didático associando brinquedos e jogos com maior apelo científico/tecnológico ao uso dos meninos, em oposição a outros menos sofisticados e 'naturalmente' mais próximos das características femininas. Este trabalho apresenta detalhes de uma intervenção realizada no contexto de uma disciplina da licenciatura em Física do IFSP-SP - sobre a aproximação entre os estudos de gênero em ciência e a História da Ciência - a partir da iniciativa de uma de suas alunas que efetuou o registro das falas emitidas por um grupo de licenciandos daquela instituição naquela situação didática. O principal resultado preliminar desta investigação ressalta a influência do contexto sócio-histórico-cultural na determinação das ações que caracterizam o ensino de uma Física ainda por demais apoiada em valores predominantemente 'masculinos', refletida no discurso de boa parcela dos professores em formação, os quais praticamente desconhecem e, portanto, não valorizam, as principais contribuições históricas oferecidas pelas mulheres à Ciência.
Palavras-chave: gênero em ciência, história da ciência, licenciandos em
Física
## Introdução
Embora no campo científico as mulheres não sejam reconhecidas da mesma maneira que as figuras masculinas, isto não quer dizer que historicamente elas não forneceram suas contribuições. De uma forma geral, os poucos relatos realizados acerca da participação de mulheres na constituição da ciência estão relacionados a colaborações feitas em conjunto com pais, irmãos, maridos ou filhos de personagens femininas. Contudo, com o advento da chamada Revolução Científica, muitas mulheres envolveram-se com atividades de cunho científico, tais como a observação e mapeamento do céu através de telescópios, a análise de plantas e pequenos organismos por meio de microscópios, além do estudo de insetos e outros animais (SCHIEBINGER, 2001).
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26 a 30 de janeiro de 2015
O não reconhecimento dessas e outras contribuições femininas ao desenvolvimento da ciência parece estar na gênese da disseminação de um conceito de gênero fatalista e inata, que não seria construído socialmente, mas, sim, carimbado desde a nossa gestação, fato futuramente determinante da divisão do trabalho domiciliar e das tarefas a serem desempenhadas por cada ser. Essa relação de gênero constituída entre homens e mulheres, e orientada pelas diferenças biológicas, foram transformadas em desigualdades, as quais fizeram da mulher um ser suscetível à exclusão social (FISCHER e MARQUES, 2001).
Nesse sentido, é necessário frisar que, no campo científico, as mulheres só passaram a ter acesso ao estudo formal a partir do século XVI, desde que conseguissem conciliar suas atribuições domésticas com as práticas de escrita e leitura. Tempos depois, particularmente no Brasil, surgem os embriões das primeiras escolas públicas, sendo o ensino feminino somente regulamentado por uma lei promulgada no ano de 1827. Ainda assim, havia a determinação de se proibir o chamado 'ensino misto' (entre homens e mulheres) e a educação para mulheres restringia-se ao ensino primário (BRUSCHINI e AMADO,1988).
Com vistas à ampliação desse limitado horizonte, os menos de 200 anos que nos separam desse advento foram testemunha da luta das mulheres pela conquista do direito amplo e irrestrito ao estudo formal, ao passo que aos homens sempre foi mais que natural a atribuição da quase totalidade das conquistas e avanços obtidos em ciência.
Mesmo assim, discussões envolvendo algumas personagens femininas na constituição do empreendimento científico parecem ter conquistado seu espaço nos cursos de formação dos futuros professores de ciências, geralmente surgidas no contexto de alguma disciplina relacionada à História e/ou à Filosofia da Ciência.
Em Física, por exemplo, Marie Curie (1867 - 1934) é muito citada pelos prêmios dois prêmios Nobel recebidos (ainda que um deles tenha sido em Química), assim como Lise Meitner (1878 - 1968) é lembrada pela elaboração do quadro teórico que deu sustentação à descoberta da Fissão Nuclear, sem, contudo, ter sido efetivamente reconhecida e laureada com o respectivo prêmio Nobel por tal trabalho. Quando muito, esses parecem ser os únicos nomes de mulheres ligados ao desenvolvimento da Física, realidade convalidada pelos livros didáticos e paradidáticos comumente trabalhados no Ensino Médio e, ainda, pelas raras discussões abarcando gênero nas aulas dos cursos de licenciatura em Física.
Sob essa premissa, buscamos neste trabalho lançar uma tênue luz sobre o papel desempenhado em ciência por outras mulheres, abrindo espaço, inclusive, para iniciativas futuras valorizando o histórico de mulheres ligadas ao âmbito nacional. Acreditamos que o conhecimento, por parte dos alunos, das trajetórias pessoais e profissionais dessas personagens auxilie sobremaneira na compreensão de aspectos relevantes da natureza da ciência, favorecendo a diminuição do abismo separando homens e mulheres na prática científica, de modo a permitir que estudantes do sexo feminino sintam-se em igualdade de condições em relação aos do sexo masculino no momento de optar, ou não, por se dedicarem a carreiras científicas, do magistério na escola básica à pesquisa em alto nível.
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## Apenas para refletir....
Desde muito pequenos crescemos ouvindo 'histórias' sobre bruxas e afins; o que muitos de nós não sabemos é que parte do que imaginávamos ser apenas ficção tem um caráter de verdade. Em torno do século XV, na Europa, surge a chamada 'caça às bruxas', incentivada pelos papas e padres da igreja católica e reformados protestantes, entre outros. Ainda assim, é razoável considerar não ser possível afirmar que tal realidade não existiu antes desse momento, pois, em história, é sempre temerária a datação inquestionável da origem de determinadas práticas feita com base em relatos relacionados a uma única cultura (no caso, eurocêntrica).
As pessoas dessa época geralmente acreditavam na magia dessas mulheres como fruto de pactos efetuados com seres sobrenaturais, dos quais o demônio seria o mais notório representante. Logo, as mulheres nessa época foram sistematicamente perseguidas, sofrendo mortes violentas devido ao comportamento inadequado segundo os parâmetros vigentes. Não somente, mas até por isso, não é de se estranhar a profunda demora relatada para que as mesmas pudessem pleitear o acesso à educação, sob o risco de perpetuarem de maneira inadvertida práticas consideradas amorais - e, por que não, acientíficas (TOSI, 1998).
Para além dessa tradição, alguns dos mais renomados expoentes do pensamento filosófico e científico colaboraram de forma decisiva para a perpetuação de uma sociedade erigida e governada segundo valores e necessidades predominantemente masculinas, na qual a mulher ficaria relegada aos cuidados com a casa e a família.
Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778) é um autor de grande influência no pensamento iluminista, muito estudado, inclusive, por suas contribuições à História da Educação. Como homem de seu tempo, não conseguiu fugir da crença convicta na supremacia dos homens em relação às mulheres, segundo ele legitimada pelas 'leis naturais'. Já Georg Hegel (1770 - 1831), filósofo alemão de profunda influência na constituição do pensamento marxista, não fez cerimônia ao destacar que, mesmo tendo direito à educação, a mulher não teria uma mente adequada à compreensão das 'ciências mais elevadas', incluída, aqui, a filosofia. Por final, em sua obra Sistema de Política Positiva, Auguste Comte (1798 - 1857), precursor da moderna Sociologia, foi mais um intelectual de esquerda a defender 'arranjos sociais que implicavam que a mulher mantivesse o seu ancestral estatuto de apêndice e subsidiária do homem' (PICKERING, 1996, p. 10).
Visando verificar se essa mentalidade já se perdeu no tempo ou, se de maneira anacrônica e quase atávica, ainda insiste em se expressar em meio a discussões envolvendo a História da Ciência trabalhada em um curso de formação de professores, apresentamos a seguir o detalhamento da investigação que realizamos.
## Descrição do trabalho desenvolvido
Com o objetivo de colocar em discussão assuntos relacionados ao fazer científico e suas interlocuções com outras instâncias, foi proposto aos alunos de uma disciplina da licenciatura em Física do campus São Paulo do Instituto Federal de Ciência Tecnologia de São Paulo (IFSP-SP) a leitura de Silva (1998), cuja
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apresentação preliminar à classe ficou sob incumbência de uma determinada licencianda.
O artigo apresenta detalhes da participação da sociedade na construção da ciência e da tecnologia, ressaltando o fato de que as mudanças científicas e tecnológicas englobam invariavelmente interesses sociais, políticos e econômicos incluídos em uma cultura em que relações entre gênero e poder subjazem. Nesse sentido, ao idealizarmos um mundo em que o gênero feminino não tenha subordinação aos valores predominantemente masculinos, deveríamos partir de duas realidades: do reconhecimento da existência da subordinação e da elaboração de uma visão de mundo capaz de contemplar plenamente tal objetivo (SILVA, 1998).
Com base na análise de pesquisas efetuadas em quatro universidades (UFSCAR, Unesp, UNICAMP e USP), a autora destaca, dentre outros fatores, o fato de dois terços dessa produção ter sido realizada por homens. Esse resultado seria devido às dificuldades com as quais as mulheres se defrontam visando conciliar a vida profissional com as tarefas do lar.
No decorrer da leitura desse artigo, a licencianda em referência questionouse sobre a legitimidade de uma adoção de determinado gênero para representar a ciência, ao se deparar com menções acerca das diferenças biológicas existentes entre os sexos e, também, sobre a ciência ter sido desenvolvida sobre o olhar e as necessidades masculinas. Haveria uma origem para tal fato? E, como professora em formação, seria possível desconstruir essa mentalidade em suas futuras aulas na escola básica?
A constatação de que, quando crianças, as meninas ainda ganham fogões e bonecas para brincarem de casinha enquanto os meninos são agraciados, por exemplo, com carros, foguetes e blocos de construção (tipo Lego ), levou a licencianda a uma profunda reflexão acerca de sua condição de mulher estudando ciência. A interiorização de uma cultura em que meninas devem cozinhar e cuidar das bonecas é promovida/imposta muitas vezes por suas próprias mães, que acabam por perpetuar tal prática. Dessa maneira, a oportunidade de discutir essa dinâmica no contexto de um curso de formação de professores de Física ganhou matizes especiais, visto que seria possível confrontar as opiniões dos diversos sujeitos participantes da disciplina em referência, permitindo a constituição de um quadro - local e particular - do que atualmente os futuros professores conhecem e pensam sobre o papel da mulher na ciência.
Para tanto, a licenciando incumbiu-se do registro das falas dos alunos presentes à aula naquele dia, produzindo o material que foi a seguir sistematicamente analisado, visando à tabulação das opiniões acerca da temática aqui explorada.
Nesse contexto, ainda, foi introduzido o histórico de duas personagens femininas da ciência, a italiana Laura Bassi (1711 - 1778) e a francesa Émilie Du Châtelet (1706 - 1749), apresentando e discutindo junto aos licenciandos suas principais produções voltadas para a divulgação do legado newtoniano no âmbito da chamada 'Europa Continental', com destaque para a influência do contexto sóciohistórico-cultural em que cada uma delas estava inserida no desenvolvimento e nas diferentes formas de aceitação dos seus principais trabalhos.
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## Resultados Obtidos
Feita a apresentação do artigo para a sala, houve um debate a respeito do que os licenciandos achavam sobre o papel da mulher na ciência e, em especial, no mercado de trabalho. No a ocasião estavam presentes 21 participantes, sendo 5 mulheres e 16 homens, na faixa dos 22 aos 50 anos.
Iniciada a discussão do artigo, alguns homens presentes disseram que trabalhar com mulheres era algo complexo, pois elas são muito sensíveis e qualquer coisa é motivo para chorarem ou se indisporem a fazer algo pré-combinado.
Na sequência, quando mencionado pela licencianda que estamos imersos em uma cultura em que predominam brinquedos simulando atividades domésticas para as meninas, um dos homens da sala disse que se ele tivesse uma filha certamente iria incentivá-la a brincar com bonecas e casinha.
Por mais estranho e anacrônico que pareça, essa afirmação é reflexo do ambiente em que esse sujeito cresceu, provavelmente vendo as mulheres da sua família sendo submetidas a uma cultura doméstica. Não seria de se estranhar que, se ele tivesse um filho, provavelmente iria induzi-lo a brincar com carrinho de bombeiros, policiais ou algo do tipo, realidade com chances significativas de mostrar presente em seu futuro discurso e em sua ação docentes.
Portanto, embora muitas pessoas digam que o preconceito é algo do passado, ele ainda existe e é influenciado pelo ambiente sócio-cultural que historicamente o sustenta. A rigor, qual seria o problema de uma mulher brincar de carrinho e, por exemplo, querer ser física ou engenheira? Além do mais, como já mencionado, o preconceito existe e é perpetuado, inclusive, pelas próprias mulheres, reforçando sua gênese sócio-cultural.
Quando questionados sobre mulheres em ciência que já conheciam anteriormente àquela aula, os alunos ofereceram respostas infelizmente previsíveis, tais como:
- - 'Tirando Marie Curie, não me lembro de ler ou conhecer outros nomes de mulheres na ciência'.
- - 'Muito pouco, bem menos daquilo comentado nesta aula'.
- - 'Pouquíssimo...'.
- - 'Conheço muito pouco sobre a participação das mulheres na ciência. Especificamente, conheço Marie Curie, pelo fato de ter estudado os seus trabalhos em outras disciplinas do nosso curso'.
- - 'Marie Curie, Marie-Anne Lavoisier... tem também a esposa do Fritz Haber - que não me lembro o nome'.
Pode-se observar que, como previsto, grande parte fez referência a Marie Curie. Esse resultado enfatiza a problemática discutida, em que muitos livros didáticos de Física estão preocupados em cumprir com as formalizações teóricas e aspectos tecnológicos, deixando de enunciar, ao menos, fatos englobando a participação das mulheres na ciência. E cabe salientar que, as raras vezes em que isso ocorre, não é incomum nos depararmos com relatos lacônicos, baseados em abordagens inapropriadas e distorcidas acerca da história que ensejavam relatar.
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Prosseguindo na análise do debate mencionado, refletimos acerca dos livros e demais materiais didáticos comumente utilizados nos ensinos fundamental e médio (cartilhas, cadernos, vídeos etc.). Sugiram as questões: por qual motivo eles quase sempre relacionam a imagem de um profissional da ciência a figuras masculinas? Por que nos livros de Física é comum nos depararmos com fotos de um seleto e privilegiado grupo de cientistas e pensadores da ciência, onde nomes como Galileu, Newton e Einstein têm lugar cativo, ao contrário de tantos outros que, como vimos, também ofereceram preciosas contribuições à Física? Sob esse viés, não é de se estranhar que raramente encontremos nesses materiais a imagem de uma mulher, ou até mesmo, o relato do histórico acerca da participação de mulheres na construção da ciência.
Outra questão explorada pelos estudantes foi a da dupla jornada de mulheres trabalhando com ciência, que precisam cuidar dos filhos, lar e da vida acadêmica. Entretanto, foi aventada a ocorrência do processo inverso: por que não os homens efetuarem tais tarefas e as mulheres se dedicarem aos estudos?
Para nossa surpresa, a discussão gerada evidenciou que muitas das mulheres ali presentes não desejam que isto ocorra, porque, para elas, já existe (e está aceito com grande passividade) a interiorização de uma cultura em que 'só as mulheres possuem o jeitinho de cuidar bem da casa e dos filhos'.
Na prática, trata-se aparente - e inócua - demarcação de espaço, em que mulheres teriam clareza da superioridade e maior eficácia de suas ações em relação aos homens. Portanto, os resultados sinalizam que o progresso da presença feminina no trabalho (na ciência, por exemplo) é lento devido, inclusive, à ausência de interesse de uma parcela não desprezível de suas representantes.
Outro fator que foi ventilado entre os participantes da intervenção foi sobre recordarem já terem desenvolvido trabalhos abarcando a questão do gênero nas aulas de ciências da Escola Básica; mais uma vez, a resposta foi negativa.
Um ponto positivo a ser destacado refere-se à aceitação e ao interesse dos licenciandos em relação à atividade apresentando-lhes a divulgação dos trabalhos de Isaac Newton (1642 - 1727) na Europa continental, em pleno séc. XVIII, pelas mãos de duas mulheres até então desconhecidas por eles. A compreensão da influência do contexto sócio-cultural em que estavam envolvidas em termos dos resultados que conseguiram obter parece ter lançado luz sob algumas formas se contornar obstáculos ainda hoje existentes no cotidiano daqueles -e, principalmente, daquelas - que se interessem por trabalhar no meio científico, tecnológico e, por que não, educacional.
## Considerações finais
Com base nos comentários tecidos pelos licenciandos que leram o artigo mencionado e, participaram da discussão promovida, parece ainda haver um longo caminho a ser trilhado por quem se interessar em tornar a ciência um empreendimento mais aberto à efetiva participação das mulheres, fato corroborado pelo desconhecimento sumário desses estudantes da importância e das contribuições oferecidas por personagens femininas ao longo da história da ciência.
Essa falta de conhecimento sinaliza para a necessidade de se levar para as salas da escola básica discussões abarcando as questões de gênero em ciência, nas quais a História da Ciência apresenta-se como um importante recurso didático-
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pedagógico, considerando sua capacidade de evidenciar e explorar alguns dos diversos momentos da marcante presença feminina na ciência. Para tanto, a produção de materiais - principalmente de livros didáticos e paradidáticos apresenta-se como um importante parceiro nessa aproximação.
Nesse sentido, o trabalho realizado com Bassi e Châtelet mostrou-se muito profícuo, indicando que a abordagem efetuada viabiliza a discussão, junto aos professores em formação, de aspectos essenciais da natureza da ciência, por eles desconhecidos, mas extremamente necessários para a promoção de uma educação científica efetivamente transformadora, permitindo aos alunos um posicionamento ativo e crítico diante da educação científica a eles oferecida.
Em contrapartida, as afirmações sexistas efetuadas pelos filósofos mencionados nesta pesquisa -ainda que mereçam ser contextualizadas e relativizadas no contexto de época em que foram proferidas - parecem ainda encontrar ressonância em boa parte dos nossos futuros professores (e professoras) de Física, reflexo das relações socialmente ainda perpetuadas em nossa cultura, fato que merece ser mais bem discutido e aprofundado nos cursos de formação de professores.
## Referências
COSTA, Maria C. da. Divulgando a visibilidade das mulheres na ciência. História, Ciências, Saúde - Manguinhos. N. 15 (suplemento), pp. 289 - 293, 2008.
FISCHER, I. R.; MARQUES, F. Gênero e Exclusão Social. Fundação Joaquim Nabuco, Trabalhos para Discussão, n. 113, ago. 2001.
PICKERING, M. Angels and Demons in the Moral Vision of Auguste Comte. Journal of Women's History, v. 8, n. 2, p. 10, 1996.
SCHIEBINGER, L. O feminismo mudou a ciência? Trad. de Raul Fiker. Bauru: EDUSC, 2001.
SILVA, E. B. Des-construindo gênero em ciência e tecnologia. Cadernos Pagu, n. 10, p. 7 - 20,1998.
TOSI, L. Mulher e ciência: a revolução científica, a caça às bruxas e a ciência moderna. Cadernos Pagu , n. 10, p. 369-397, 1998.
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