PROPOSTA DE AMPLIAÇÃO DO CURRÍCULO ESCOLAR A PARTIR DA INSERÇÃO DE TÓPICOS DE FÍSICA MÉDICA NO ENSINO MÉDIO
Fernanda Cristina Pansera, Laís Costa Alves, Carlos Augusto Araújo, Cláudia Peron
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 27/01/2015
- Linha de pesquisa
- Seleção, Organização Do Conhecimento E Currículo
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PROPOSTA DE AMPLIAÇÃO DO CURRICULO ESCOLAR A PARTIR DA INSERÇÃO DE TÓPICOS DE FÍSICA MÉDICA NO ENSINO MÉDIO
## Fernanda Cristina Pansera , Laís Costa Alves , Carlos Augusto Araújo , 1 2 3 Cláudia Peron 4
4 Colégio Estadual Landell de Moura, cperon2010@bol.com.br
## Resumo
O presente estudo refere-se a uma atividade envolvendo o ensino de tópicos de física médica a estudantes do ensino médio. A física é uma disciplina curricular considerada pelos estudantes de média importância para a vida social e profissional deles, conforme observado em diálogos e questionários realizados ao longo da atuação dos professores de física no Colégio Estadual em que foi realizada a atividade descrita neste trabalho. As interações, questionamentos e pesquisas de dados levantadas com professores, alunos e direção apontaram ainda que a física é uma das disciplinas em que há maior índice de reprovação e possivelmente é um elemento que contribui para o significativo número de abandono escolar; acreditamos que esta não seja uma situação particular e sim a realidade de muitas escolas brasileiras. Supostamente o desinteresse de boa parte dos estudantes pela física está relacionado com a dificuldade de relacionar os conteúdos estudados em sala de aula com a realidade vivenciada pelos alunos. Partindo deste pressuposto foi realizada uma análise dos planos de estudo e de currículo de física na escola, com o objetivo de organizar uma proposta diferenciada e que suprisse de algum modo a inexistência de tópicos sobre física médica ao longo do ensino médio. A escolha do tema justifica-se pela importância e utilização que o mesmo tem ao longo da vida de praticamente todos os indivíduos. Baseando-se nestes argumentos aconteceu o planejamento, a realização e posteriormente a avaliação da atividade.
Palavras-chave : Currículo de Ensino de Física, Ensino Médio, Física Médica, Ensino-Aprendizagem
## Introdução
A física é uma disciplina curricular considerada pelos estudantes de média importância para a vida social e profissional deles, conforme observado em diálogos e questionários realizados por estudantes licenciandos em Física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul- Câmpus Bento Gonçalves em colaboração com licenciandos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão- Câmpus Imperatriz.
Apesar de vários estudos já terem sido realizados que comprovam e justificam a importância do ensino de física durante a formação básica, facilmente percebemos o desinteresse e aversão dos estudantes a está ciência Uma das
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26 a 30 de janeiro de 2015
justificativas citadas pelos alunos e que nos motivou a fazer este estudo é de que eles não notam aplicação direta dos conceitos e fenômenos estudados em sala de aula com a vida que os mesmos têm fora do ambiente escolar. O trecho abaixo retirado dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998, p.48) destaca essa realidade.
O ensino de física tem-se realizado frequentemente mediante a apresentação de conceitos, leis e fórmulas, de forma desarticulada, distanciados do mundo vivido pelos alunos e professores e não só, mas também por isso, vazios de significativo. Privilegia a teoria e a abstração, desde o primeiro momento, em detrimento de um desenvolvimento gradual de uma abstração que, pelo menos, parta da pratica e de exemplos concretos. Enfatiza a utilização de fórmulas, em situações artificiais, desvinculando a linguagem matemática que essas fórmulas representam de seu significado físico efetivo. Insiste na solução de exercícios repetitivos, pretendendo que o aprendizado ocorra pela automatização ou memorização e não pela construção do conhecimento através das competências adquiridas. Apresenta o conhecimento como o produto acabado, fruto de genialidade de mentes como a de Galileu, Newton ou Einstein, contribuindo para que os alunos concluam que não resta mais nenhum problema significativo a resolver. Além disso, envolve uma lista de conteúdos demasiadamente extensa que impede o aprofundamento necessário e a instauração de um dialogo construtivo.
Verificamos dentro da realidade estudada que a disciplina de física é, por diversas vezes trabalhada sem uma ligação com o cotidiano do estudante, o que dificulta a compreensão e participação ativa do jovem na sociedade em que vive, seja durante o período escolar ou após a conclusão do Ensino Médio. As Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio) para a disciplina de física trazem uma série de sugestões e estratégias que podem servir de guia aos professores. Desta forma, possibilitam que os professores tenham claros os objetivos dos conteúdos a serem trabalhados em sala de aula, bem como a fundamental importância do seu trabalho como instigador da busca do conhecimento, visando a formação de um cidadão contemporâneo, atuante e solidário, cuja formação seja sólida e baseada em conceitos adequados.
A escola deseja colaborar na formação de um cidadão crítico, participativo, com princípios éticos, sociais e culturais. Sob esta visão, a escola oportuniza a compreensão da multiculturalidade, o reconhecimento da independência com o meio ambiente, a convivência com o outro e o autoconhecimento. Segundo Moraes (2000, p.211),
[...] significa oferecimento de uma educação voltada para a formação integral do indivíduo, para o desenvolvimento da sua inteligência, do seu pensamento, da sua consciência e do seu espírito, capacitando-o para viver numa sociedade pluralista em permanente processo de transformação. Isso implica, além das dimensões cognitiva e instrumental, o trabalho também, da intuição, da criatividade, da responsabilidade social, juntamente com os componentes éticos, afetivos, físicos e espirituais. Para tanto, a educação deverá oferecer instrumentos e condições que ajudem o aluno aprender a aprender, a aprender a pensar, a conviver e a amar.
As Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio) para a disciplina de física evidenciam também a necessidade do estudo abrangente e complementar levando em consideração as diversas áreas do conhecimento. O documento apresenta alguns vínculos que a física tem com outras ciências, expondo competências relacionadas principalmente com a investigação e compreensão dos fenômenos físicos, há outras que dizem
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respeito à utilização da linguagem física e de sua comunicação, ou, que tenham a ver com sua contextualização histórica e social.
Em um dos tópicos do documento, referente à contextualização sociocultural, é apresentada a competência geral 'Ciência e Tecnologia na Atualidade' que objetiva reconhecer e avaliar o desenvolvimento tecnológico atual, suas relações com as ciências, seu papel na vida humana, sua presença no mundo cotidiano e seus impactos na vida social. O texto exemplifica e sugere possibilidades dentro deste tópico, como por exemplo: acompanhar o desenvolvimento tecnológico contemporâneo, tomando contato com os avanços das novas tecnologias na medicina, através de tomografias ou diferentes formas de diagnóstico. Dessa maneira reconheceu-se que a aplicação da física na medicina é um aspecto relevante que condiz com o objetivo desta competência, justificamos assim a escolha do tema a ser trabalhado com os estudantes.
## Planejamento e execução da atividade proposta
Conforme citado anteriormente a atividade referente a inserção de tópicos de física médica no ensino médio regular aconteceu em três momentos distintos: planejamento, execução e avaliação da proposta.
- De acordo com Vasconcellos (2006) o planejamento envolve uma elaboração, e esta elaboração se dá como referência as três dimensões da ação humana consciente: realidade, finalidade e mediação.
- O planejamento da atividade envolveu estudantes de licenciatura em física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (Câmpus Bento Gonçalves) e estudantes licenciandos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (Câmpus Imperatriz). A comunicação entre os licenciandos de instituições distantes ocorreu por meio virtual (email, redes sociais e telefonemas). É importante salientar que os estudantes envolvidos no trabalho possuem experiência docente nos diferentes segmentos (em atividades de estágio, monitória ou regência de classe).
Assim que definido como física médica o tema geral a ser incluído no plano de conteúdos do segundo ano do ensino médio, o grupo preocupou-se em selecionar os tópicos que tem maior envolvimento e/ou relação com a realidade dos estudantes. O levantamento apontou para dez questões principais de estudo, que são: Pressão arterial; Eletrocardiograma; Raios-X; Tomografia computadorizada; Ressonância magnética; Ultrassom; Radiação Solar; Quimioterapia e radioterapia; Iodo radioativo; Acidentes nucleares.
Definidos os conteúdos, o grupo passou a selecionar textos e materiais relacionados a física médica. A pesquisa e a elaboração das aulas exigiram muitas leituras e discussões dos temas (por meio eletrônico), porque apesar dos acadêmicos envolvidos estarem frequentando as aulas do curso de licenciatura em física, não há nenhum componente curricular que aborde especificamente os assuntos escolhidos. Buscamos estudar amplamente cada assunto, exame ou situação, trazendo elementos que relacionassem conceitos já conhecidos pelos estudantes ao longo da sua formação escolar com alguns conceitos novos e com situações comuns a eles ou a seus familiares e conhecidos. Gomes (2008, p. 57) explica que:
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Ausubel propõe que a rede de conhecimento se construa através da associação da nova informação, a qual está sendo vista pela primeira vez, a conhecimentos já aprendidos e vivenciados, isto é, a nova informação deve ser incluída em um cabedal de conhecimentos prévios. Após essa relação, consolidada pela agregação aos 'subsunçores', cria-se um novo e/ou mais abrangente conceito. Ao se somar, nesse processo, a experimentação ao estímulo e interação com o aprendiz, tem-se maior chance de obtenção de uma aprendizagem realmente significativa. Neste ponto, vale ressaltar que o equilíbrio cognitivo é certamente um estado dinâmico, sendo capaz de construir e manter a ordem funcional e estrutural do sistema num eterno processo de construção-desconstruçãoreconstrução.
Segundo Villani (1984), 'a mente do aluno é como um átomo, com um núcleo de ideias centrais e uma série de ideias mais ou menos marginais'. A aprendizagem se dá quando as novas ideias conseguem interagir com as já existentes. O ensino deve facilitar este processo fornecendo conteúdos adequados e sugerindo atividades estimuladoras e questionadoras, propondo avaliações que propiciem e revelem a síntese operada.
Almejando tornar a aprendizagem significativa, o grupo elaborou um material que tratava dos assuntos anteriormente citados relacionados à física médica. O material foi produzido com base em leituras de textos diversos e deveria necessariamente atingir três pontos: contextualização histórica em que ocorreram os estudos e aperfeiçoamentos; princípios de funcionamento e ação dos mecanismos (físicos, químicos e biológicos); relações e impactos atuais do uso dessas tecnologias.
O momento de desenvolvimento da proposta com os estudantes aconteceu no mês de maio de 2014 e contou com o envolvimento de aproximadamente quarenta alunos do segundo ano do ensino médio regular do Colégio Estadual Landell de Moura, localizado na cidade de Bento Gonçalves. A interação dos estudantes com o tema se deu de maneira expositiva e dialógica, mediada pela professora regente das duas turmas (que faz parte do grupo de licenciandos que planejou a atividade). Durante a atividade, havia abertura para questionamentos ao longo das apresentações, o que possibilitou intercâmbios de ideias e discussões pertinentes com ênfase em questões do dia-a-dia dos estudantes, principalmente questões de saúde em que há a necessidade de tratamento ou diagnóstico que envolva conhecimentos de física médica. De acordo com Libâneo (1994, p.78), ensinar,
Compreende ações conjuntas do professor e dos alunos pelas quais são estimulados a assimilar, consciente e ativamente, os conteúdos e os métodos, de assimilá-los, com suas forças intelectuais próprias, bem aplicá-los, de forma independente e criativa, nas várias situações escolares e na vida prática.
Durante a exposição dos tópicos os estudantes demonstraram interesse pelo tema física médica, principalmente pelo fato de haver questionamentos e respeito as falas da professora. A apresentação contou com o uso de várias ferramentas multimídias que podem ter contribuído para o sucesso da atividade, além disso, o grupo procurou utilizar exames clínicos de diagnóstico reais e discuti-los com os estudantes.
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Todas as interações e exposição dos materiais foram registradas para que os licenciandos do IFMA (Campus Imperatriz) pudessem acompanhar e participar da análise e discussão dos resultados da atividade.
Abaixo temos a imagem de um dos momentos em que a professora interagia com os estudantes, expondo a evolução de determinado equipamento ao longo das décadas que sucederam a invenção.
Figura 01 : Apresentação da evolução do exame denominado Eletrocardiograma aos estudantes
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A atividade teve duração de aproximadamente duas horas e trinta minutos, foram utilizadas diversas metodologias para a apresentação, houve momentos puramente expositivos e outros que possibilitaram melhor visualização dos conceitos através de ferramentas tecnológicas e pedagógicas. Sendo assim, não podemos afirmar que os resultados se deram pelo uso de uma determinada metodologia, e sim, pela interação de diversas metodologias de ensino e aprendizagem.
A avaliação da atividade aconteceu por meio de questionários aplicados aos estudantes, relatos e participação durante as falas e explicações dos professores.
De acordo com o relato dos estudantes que participaram da atividade: o assunto física médica desperta bastante interesse e curiosidade entre eles, porque evidencia a ligação que há entre os conceitos físicos estudados na escola com a vida cotidiana; ligações que muitas vezes não acontecem na sala de aula.
## Considerações finais
O desenvolvimento da atividade descrita neste trabalho apresentou resultados positivos, tratando-se de uma proposta de sucesso para inserção de tópicos de física médica no ensino médio regular de uma escola pública no estado
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do Rio Grande do Sul. O grupo planeja executar a mesma atividade em uma escola estadual do estado do Maranhão para conhecer e avaliar resultados em outras realidades escolares e futuramente alcançar estudos mais aprofundados sobre o currículo e propostas de mudanças em grande escala. Diante disso, podemos fazer algumas considerações:
- ¾ O plano de conteúdos e estudos não é algo permanente e imutável, e deve ser atualizado sempre que favorecer o desenvolvimento cognitivo dos estudantes, aproximando os conteúdos da realidade em que os sujeitos estão inseridos, possibilitando que os indivíduos se tornem capazes de interagir e compreender situações diversas em que a física se faz presente.
- ¾ É importante que aconteça a interação entre as diversas formas do conhecimento (empírico e cientifico) nas aulas de física.
- ¾ Utilizar recursos tecnológicos atuais pode despertar maior interesse e envolvimento dos estudantes com os conceitos, contribuindo para a construção do conhecimento.
- ¾ A colaboração entre estudantes licenciandos e professores de diferentes regiões do país possibilitou a troca de experiências e saberes que contribuem para a formação docente.
Não é possível afirmar que a proposta apresentada neste trabalho é uma saída para a melhoria da educação, muitos são os desafios que professores e alunos enfrentam diariamente na sala de aula. Mas, foi uma proposta que obteve bons resultados na realidade em que foi desenvolvida. O grupo pretende continuar a desenvolver o estudo do tema e fazer novas interações em outras escolas.
## Referências
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BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio) . Brasília: MEC, 2000.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Média e Tecnológica . Parâmetros Curriculares Nacionais + (PCN+) - Ciências da Natureza e suas Tecnologias . Brasília: MEC, 2002.
GOMES, A. P.; DIAS COELHO, U. C.; CAVALHEIRO, P. O.; GONÇALVEZ, C. A. N.; RÔÇAS, G.; SIQUEIRA-BATISTA, R. A educação médica entre mapas e âncoras: a Aprendizagem Significativa de David Ausubel, em busca da arca perdida . Revista Brasileira de Educação Médica, v. 32, n. 1, p. 56-59, 2008.
LIBÂNEO, J. C.. Didática: Coleção magistério - Série formação do professor . 1ª Ed., São Paulo: Cortez, 1994.
MORAES, G. M. S.. Novas tecnologias no contexto escolar. Comunicação e Educação. São Paulo, 2000.
Ministério da Educação e do Desporto, Parâmetros Curriculares Nacionais , 1998.
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Orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares NacionaisFísica . < http://www.sbfisica.org.br/arquivos/PCN\_FIS.pdf>Acesso em 15 de junho de 2013.
VASCONCELLOS, C. S.. Planejamento: Projeto de Ensino Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico - elementos metodológicos para a elaboração e a realização. 16ª ed. São Paulo: Libertad, 2006 (1995). (Cadernos Pedagógicos do Libertad; v.1)
VYGOTSKY, L. A Formação Social da Mente ; 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1978.
VILLANI, A. . Reflexões Sobre o Ensino de Física no Brasil: Práticas, Conteúdos e Pressupostos. REVISTA DE ENSINO DE FISICA, São Paulo, v. 6, n.2, p. 76-97, 1984.
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