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EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E CIDADANIA: RELAÇÕES RECÍPROCAS EM PAUTA E UM REFERENCIAL EM CONSTRUÇÃO?

Frederico Augusto Toti, Alice Helena Campos Pierson

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XI
Ano
2008
Data
24/10/2008
Linha de pesquisa
Ctsa E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E E CIDADANIA: RELAÇÕES Ç RECÍPROCAS EM PAUTA E UM REFERENCIAL EM Ç CONSTRUÇÃO?

## SCIENTIFIC EDUCATION AND CITIZENSHIP: RECIPROCAL RELATIONSHIPS ON THE AGENDA AND A THEORETICAL FRAMEWORK IN CONSTRUCTION?

## Frederico Augusto Toti1 ( 1 ), Alice Helena Campos Pierson2.

1UFSCar/PPGE, toti@iris.ufscar.br

2UFSCar/DME, apierson@ufscar.br

## Resumo

A crescente atenção da comunidade científica às articulações entre Educação Científica e as idéias acerca da Cidadania podem ser percebidas pela freqüência com que são feitas referências a estas articulações na produção científica da área de Ensino de Ciências. Apesar desta atenção , nem sempre é explicitada a compreensão de cidadania considerada nos trabalhos. Em geral, a compreensão de Cidadania é assumida como cons enso sem se questionar possíveis incompatibilidades e/ou idéias convergentes. Realizamos um estudo de caráter exploratório e de natureza teórico-o-bibliográfico com o objetivo de compreender melhor o papel que as idéias de Cidadania podem desempenhar na Educ ação Científica. Priorizamos sempre os aspectos considerados ou destacados por pesquisadores da área de Ensino de Ciências em publicações conceituadas. . Para isso foram selecionadas amostras em periódicos nacionais e internacionais. As análises dos textos permitiram destacar duas formas de abordagem das relações entre Educação Científica e Cidadania: uma que considera nessa relação o seu objeto de pesquisa e outra que se utiliza de relações entre Educação Científica e Cidadania como justificativa de relevância para determinados contextos de pesquisas. Como resultadosos , esboçamos elementos que sugerem o potencial das idéias ou compreensões de Cidadania como alicerce para um construto teórico visando uma interlocução mais profícua entre os diferentes enfoques teórico-ometodológicos empregados nas pesquisas em Ensino de Ciências de modo geral.

Palavras -chave: Ensino de Ciências, Educação Científica, Cidadania.

## Abstract

The scientific community growing attention to the articulations between Scientific Education and the ideas about C Citizenship can be noticed by the references to these e articulations frequency in the scientific production of the Sciences Teaching area . In spite of this attention d does not always appear explicitly in this production, the citizenship understanding is considered and assumed as consensus without one's questioning the possible incompatibilities and/or convergent ideas. We have done an exploratory study of theoretical-bibliographical nature with the objective of better understanding the role that Citizenship ideas can play in Scientific Education. We have always given priority to those aspects which were considered or stressed by

researchers of the Sciences Teaching area in well considered publications. In order to do that, samples were selected from national and international newspapers. The texts analyses allowed us to distinguish two ways of approaching the relationships between Scientific Education and Citizenship: one that considers this relationship its research object and the other which uses it as relevance justification for certain researches contexts.As result, we outlined elements that suggest the ideas potential or r understandings of Citizenship as the foundation for a theoretical construct which aims at a more useful dialogue among the different theoretical-methodological approaches used in the Teaching of Sciences researches in general.

Keywords: Teaching of Sciences, Science Education, Citizenship.

## 1. Introdução e objetivos - Relações entre Educação Científica e Cidadania como "ordem do dia".

Nosso ponto de partida é assumir como premissa que não se justifica completamente uma Educação Científica com o intuito de promover um aprendizado que encerre seus objetivos em conhecer o mundo em que se vive. É preciso agora, aprender para participar da sociedade. É preciso aprender para a participação social num contexto em que a Ciência se tornou indispensável à sociedade e uma característica dela. Neste sentido é que a idéia de Cidadania, ainda em construção no contexto da Educação Científica, a, ganha força e se distingue de um sentido, já explorado há algumas décadas e que não foi bem absorvido pela comunidade de pesquisadores - - "a educação para a política". Cidadania, no contexto que trataremos aqui, equivale a uma identificação com a cultura, com o conhecimento para o engajamento em questões de interesse social e também de cunho ético ou moral que perpassam o campo científico, a tomada de consciência, mais do que uma identificação com os aspectos burocráticos e jurídicos ligados ao conjunto de leis de um país ou nação, enfim, estamos concebendo a Cidadania num sentido amplo.

Segundo Jenkins (2006), tentativas de unir Educação Científica e Cidadania não são novas, tento assumido diferentes formas desde a metade do último século até as mais recentes propostas. De fato, são expressivos os pesquisadores da área de Ensino de Ciências que reconhecem a importância de uma Educação Científica articulada com as complexas, e quase sempre controversas, questões colocadas pelo largo emprego da Ciência e Tecnologia no desenvolvimento econômico e social, bem como as questões mais específicas da produção, distribuição e emprego do conhecimento científico, além das questões éticas e morais relacionadas. Tal formulação do Ensino de Ciências vem exigindo o estabelecimento de uma profunda e multifacetada relação entre Ciência e Cidadania, com o objetivo de permitir o alcance de uma articulação concreta na qual ambas, a Ciência enquanto conhecimento sistematizado que amplia as possibilidades da ação humana e a Cidadania enquanto capacidade do indivíduo de fazer história individualmente e coletivamente, figurem nas instâncias decisórias da sociedade.

Se admitirmos que o modo de vida em nossa sociedade e o modo como ela (a sociedade) tem sido construída, se sustenta numa relação entre Ciência,Tecnologia e Democracia, esta articulação não parece ser um modismo temático, mas uma necessidade científica e social relevante. A partir dessa necessidade, realizamos um estudo, de caráter exploratório, com o objetivo de

compreender r quais funções as concepções de Cidadania podem desempenhar na Educação Científica, a partir do que é destacado ou considerado por pesquisadores da área de Ensino de Ciências em publicações bem conceituadas na comunidade de pesquisadores em Ensino de Ciênc ias.

Salientamos que este trabalho é o relato de um primeiro exercício no sentido de apreender, a partir dos canais mais tradicionais de divulgação da comunidade de Pesquisa em Ensino de Ciências, elementos para tentar apurar potenciais contribuições que as idéias de Cidadania podem trazer para o campo de conhecimento Ensino de Ciências, na perspectiva ampliada de Educação Científica, a qual identificamos (e com ela nos identificamos) em Cachapuz et al (2005). Segundo os autores a Educação Científica deve permitir que os estudantes desenvolvam competências e habilidades para: i) resolver problemas cotidianos diretamente relacionados com a Ciência e a Tecnologia; ii) participar, de forma crítica e consciente, dos debates e decisões que permeiam a sociedade e que se relacionam com a Ciência e a Tecnologia; iii) compreender o mundo natural e as formas como a sociedade se relaciona com ele.

Precisamos destacar ainda, que nossa linha de argumentação coloca a questão da Cidadania no Ensino de Ciências "invertida" em relação ao que tem sido apresentado com maior freqüência, a saber: com o foco no papel da Ciência na constituição da Cidadania contemporânea. Consideramos nossa questão motivadora "invertida", pois queremos saber quais contributos diferentes compreensões es de Cidadania podem trazer a uma Educação Científica e para o desenvolvimento do campo de conhecimento delimitado pela área de Ensino de Ciências.

## 2. Aspectos metodológicos e procedimentos.

A delimitação dessa problemática, as articulações entre Educação Científica e Cidadania, num momento em que já se encontram disponíveis quantidades significativas de documentos (artigos, teses, livros e documentos oficiais), inclusive relatos de experiências didáticas sob lema "para a Cidadania", sugeriu-nos uma pesquisa de natureza teórico bibliográfico e a análise documental como metodologia. Entendemos que a análise documental permite uma compreensão de contexto bastante ampla na medida em que é possível a localização de referências relacionadas/utilizadas e de interlocutores que fazem uso de periódicos para o debate com as comunidades científicas.

A seleção dos textos para análise foi feita em duas etapas. Uma etapa nacional, na qual coletamos trabalhos divulgados até 2007 em revistas como a Revista Brasileira de Ensinino de Física , Ciência & Educação , Revista Brasileira de Educação, dentre outras. E uma etapa internacional na qual buscamos trabalhos nos seguintes periódicos: Science Education , Internacional Journal of Science Education , Physics Education , Research in Science & Technological Education dentre outros.

Na primeira etapa, foi lido um total de sete artigos selecionados mediante a presença dos termos Cidadania e Educação Científica, quer no resumo, quer ao longo do texto. Na segunda etapa foi selecionado e analisado um total de dez trabalhos selecionados da mesma forma, além de outros treze resumos.

Em ambas as etapas o intervalo de buscas foi limitado entre 1999 e 2007. Em dois ou três casos foi necessário buscar complementos em livros, anteriores a este intervrvalo, para uma melhorar a compreensão de citações e referenciais de autores.

Neste trabalho, não temos a intenção de contemplar todos os trabalhos localizados com este procedimento, mas destacar alguns para, em caráter exploratório, vislumbrarmos elementos para compreender quais funções as concepções de Cidadania podem desempenhar na Educação Científica.

## 3. Apresentação dos dados e análises - Educação Científica e Cidadania: diferentes relações para um mesmo propósito ou diferentes relações para diferentes propósitos?

Santos e Mortimer (2001) argumentam sobre a importância de se procurar desenvolver a capacidade de tomada de decisões na formação para a Cidadania, não bastando para isso acrescentar informações sobre questões de Ciência e Tecnologia na tentativa de engajamento dos estudantes em questões sociais, menos ainda de se ensinar passos para que eles tomem decisões. Para os autores, a educação para a Cidadania precisa ultrapassar o ensino conceitual chegando a uma educação comprometida com a ação social l responsável, na qual figuram preocupações com a formação de atitudes e valores. Argumentam ainda que, apesar da complexidade relacionada a esse processo, as pesquisas sobre tomadas de decisões envolvendo situações de CTS têm contribuído com diversos aspectos da estruturação dos currículos de Ciências. Deste modo os autores consideram que "as propostas curriculares para o ensino de ciências na perspectiva ciência, tecnologia e sociedade (CTS) possuem como principal meta preparar os alunos para o exercício da cidadania" (SANTOS e MORTIMER 2001, p. 95). No entanto, Santos e Mortimer (2000) já haviam salientado que a idéia de Cidadania ainda não está bem esclarecida nos trabalhos com esse enfoque. Segundo os autores, falta, por exemplo, esclarecer que cidadão s e pretende formar.

Angotti, Bastos e Mion (2001), tomando a perspectiva dialógica e libertadora da educação proposta por Paulo Freire como referência, abordam a relação CTS como possibilidade de construção de uma conscientização em uma direção inversa ao determinismo tecnológico, a partir da escolha de objetos tecnológicos como objetos gerados de um conhecimento físico ressignificado, defendem a aprendizagem do funcionamento de objetos tecnológicos, mediante uma abordagem epistemológica e metodológica reflexiva sobre tais objetos, numa perspectiva educacional na qual educar é conscientizar e "conscientizar também é educar para a construção da cidadania" (p.190).

Fensham (2002), Jenkins (1999) e Shamos (1995) defendem argumentos semelhantes entre si, fragilizando a perspectiva da possibilidade do conjunto dos cidadãos obterem uma formação científica que sirva significativamente para a participação em tomadas de decisões tecnocientíficas reais. Fensham (2002) e Shamos (1995) consideram ilusória a possibilidade e de formação científica que favoreça a participação de todos os cidadãos em decisões de cunho científico e tecnológico, pois a complexidade dos conceitos em questão, face os limites dessa formação científica, inviabiliza tal participação de forma responsável e consciente como se deseja. Entre os dados que fundamentam tal posição, estão os resultados de uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, pela American Association for the Advancement of Sciences (AAAS), que perguntou a cientistas renomados quais conteúdos científicos julgam mais importantes para serem ensinados nas escolas de modo a garantir uma alfabetização científica satisfatória dos jovens. Os resultados indicam um somatório de conhecimentos superiores aos que hoje são ensinados para elites que preparam futuros cientistas.

Em contraposição a essa concepção, Praia, Gil-Pérez e Vilches (2007), GilPérez e Vilches (2005) e Cachapuz et al (2005), destacam duas questões que consideram da maior importância. A importância de uma formação científica para uma Cidadania capaz de permitir a participação em decisões de natureza tecnocientífica e a importância da discussão sobre a natureza da Ciência e do trabalho científico na Educação Científica na preparação para a participação em tomadas de decisões tecnocientíficas de interesse social. Praia, Gil-Pérez e Vilches (2007) ressaltam que é preciso analisar com cuidado os argumentos contrários à possibilidade de uma Educação Científica capaz de tornar os cidadãos melhor preparados para tomadas de decisões tecnocientífica, citando exemplos reais desse processo em que a participação de cidadãos com uma visão da Ciência norteou caminhos que se mostraram adequados. Os autores ressaltam que a Educação Científica para a Cidadania "se impõe como uma dimensão essencial de uma cultura de cidadania, para fazer frente aos graves problemas com que há de enfrentar-se a humanidade hoje e no futuro" (p. 145). Os autores também argumentam que os profundos conhecimentos específicos dos especialistas não garantem a adoção de decisões adequadas, mas vem exigir que se leve em conta perspectivas mais amplas, que avaliem repercussões a médio e em longo prazo sob o olhar de vários campos do conhecimento. Neste sentido os autores argumentam que os "não especialistas" podem acrescentar contribuições significativas ao apresentarem perspectivas e interesses mais amplos, mas ressaltam a necessidade de um mínimo de conhecimentos científicos específicos sobre a problemática em questão para que seja possível compreender as opções que estão em questão e fundamentar decisões.

Santos (2005a) destaca a escolha consciente e orientada por competências cognitivas necessárias para a participação dos cidadãos como indispensável quando a escala de conseqüências do desenvolvimento científico e tecnológico suscita polêmicas. Para que o cidadão cumpra adequadamente esse papel, Santos (2005a) reforça a necessidade do que chama "civilizar" a Ciência e "cientifizar" a Cidadania. Para a autora a "cientifização" da Cidadania implica na apropriação da Ciência pelo cidadão. Nos dizeres de Santos (2005a, p. 61):

As competências cognitivas são indispensáveis para que o cidadão não continue a passar cheques em branco aos cientistas, ao complexo científico e industrial de determinados sectores de ponta ou a governos tecnococráticos [...] que se escudam atrás deles. É indispensável que lacunas na compreensão da tecnociência pelo público não impeçam uma acurada vigilância cidadã sobre as actuações de tais complexos.

Quanto à "civilizar" a Ciência, a autora enfatiza a necessidade de romper obstáculos epistemológicos que dificultam o acesso do cidadão ao saber científico caracterizado por um "fosso cognitivo ciência-cidadão". A autora também defende que a questão central de uma Cidadania renovada passa pela idéia de uma Cidadania Ambiental, na qual o Cidadão figura como ator de decisões que dizem respeito a todos num contexto de preocupação com a sustentabilidade e atuação efetiva para a proteção do meio ambiente, e, sobretudo da vida humana.

Roth e Désautels (2006) em um estudo de caso realizado com uma comunidade no Canadá envolvendo uma temática controversa sobre o uso da água, chegam à conclusão de que as relações entre Educação Científica e Cidadania, orientadas por uma conduta disposta a solucionar conflitos de interesse baseados em argumentos sócio-políticos-científicos, preparam melhor os cidadãos,

assegurando-lhes uma compreensão clara do significado de tomar decisões que atingem a todos.

Schibeci e Lee (2003) ao destacar "a ciência para a cidadania" como uma meta para a educação no século XXI, indicam que um dos caminhos para se atingir esta meta é viabilizar meios para que a população possa questionar a Ciência ao levar em conta decisões pessoais e sociais. Os autores, assim como Praia, GilPérez e Vilches (2007), vêem na imagem que a população constrói sobre a natureza da Ciência e do trabalho do cientista um aspecto nodal para a construção de uma "Educação Científica para Cidadania".

Kolstø(2003) propõe fundamentos para estudantes examinarem questões sociocientíficas controversas. O autor destaca que tópicos como: a Ciência como um processo social, as limitações da Ciência, valores na Ciência, e atitudes críticas em relação à Ciência, deverão compor modelos de ensino de Ciências se se quiser formar "cidadãos do mundo" prontos a lidarem com questões sociocientíficas controversas.

Dimopoulos e Koulaidis (2003), ao analisarem um conjunto de quase 2000 artigos sobre Ciência e Tecnologia em jornais gregos, elegem quatro pontos para defender o potencial da imprensa no desenvolvimento de uma Educação Científica e Tecnológica para a Cidadania. i) a imprensa é uma base de dados regular atualizado constantemente, ii) destaca assuntos tecnocientíficos que prevalecem no cenário público, iii) identifica tensões e seus respectivos atores sociais, iv) retrata com otimismo as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade embora as apresente com níveis consideráveis de preocupação e v) apresentam as notícias em contextos vivenciados pelos cidadãos. Como principal limitação os autores destac am uma deficiência na apresentação das relações entre Ciência e Tecnologia e os mecanismos internos que conduzem à produção do conhecimento correspondente. Os autores defendem o uso de textos sobre Ciência e Tecnologia de jornais de modo complementar aos materiais convencionais para ajudar a esclarecer aspectos cruciais que o discurso pedagógico oficial, embora enuncie, não tem conseguido obter êxito no contexto de uma formação para a Cidadania.

Davies (2004), a partir de dados de pesquisa empírica, defende e o potencial da colaboração entre educadores em Ciências e educadores em Cidadania no desenvolvimento de formas de uma educação para a Cidadania. O autor identifica obstáculos ao alcance de uma educação para a Cidadania ligados ao que considera uma perspec tiva acadêmica estreita de alguns educadores em Ciências com relação à percepção pública da Ciência. O autor avança fazendo a crítica às concepções de educadores em Ciências com relação à natureza da Cidadania e da Educação para a Cidadania, argumentando a a partir de diferenças significativas dessas concepções, identificadas pelo autor. Finalmente o autor sugere, ainda que de forma breve, que trabalhos adicionais que reúnam educadores em Ciências e educadores em Cidadania, possam ser válidos para a superação desses obstáculos à Educação para a Cidadania no Ensino de Ciências.

Embora pouco expressiva quantitativamente na área de Ensino de Ciências, mas tradicional em outras áreas da Educação, uma leitura marxista da utilização da idéia de Cidadania aparece como limitada pelo capitalismo, uma vez que, segundo esta análise, a Cidadania não pode se ampliar para além do capital, pois significaria permitir a emancipação humana, o que não é de interesse das elites econômicas. Assim, a definição e concretização da Cidadania plena é inatingível no interior do

capitalismo dado que sua construção só ocorreria numa região de conflito com as próprias necessidades pautadas pela ordem capitalista. Sátiro dos Santos (2002), em seu trabalho de mestrado que resultou no livro "Ensino de Ciências: abordagem histórico -crítica" apresenta ao longo de seu texto uma concepção de Cidadania que remete a militância em favor de uma revolução em termos clássicos, armada se preciso for, para a inclusão social e superação do modelo econômico vigente, no qual, segundo seu referencial, não é possível uma sociedade justa. No texto fica bastante claro, que segundo o autor, o Ensino de Ciências tem como uma de suas funções principais munir de conhecimentos os cidadãos para uma prática social revolucionária, que passa inevitavelmente pela necessidade de apropriação do conhecimento científico e tecnológico.

De todo o exposto, temos uma amostra que indica que o Ensino de Ciências tem sido articulado à idéia de Cidadania, notadamente nas abordagens interdisciplinares ligadas às questões ambientais e aos novos avanços da Biologia no campo da genética, das quais se destaca aquela que ficou conhecida como Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) e as novas referências à divulgação da Ciência como cultura.

A partir das leituras, nos foi possível perceber diferentes compressões de Cidadania no contexto da Educação Científica as quais procuramos ilustrar nesta seção, com alguns exemplos. O critério de escolha para trazer aqui estas referências foi em razão da necessidade que sentimos de providenciar algum nível de sistematização dessas idéias, buscando-s-se uma compreensão mais ampla no sentido de permitir, numa apresentação breve, a identificação de um cenário com uma diversidade de compreensões, as quais ainda não temos indícios de convergência a não ser sob seus aspectos mais óbvios, tais como a necessidade da Cidadania estar em pauta, a pertinência dessa discussão no contexto social e da crise ambiental, do consumo exacerbado etc, segundo a ênfase de cada autor,.

É possível vislumbrar a partir destes trabalhos de pesquisas, duas formas de emprego das relações entre Ensino de Ciências e Cidadania. Uma parcela aborda mais diretamente essas relações, realizando uma análise centrada no conceito de Cidadania ao associá -la ao Ensino de Ciências, explicitando resultados e implicações diretas para a pesquisa em e para o Ensino de Ciências na constituição da Cidadania em seu sentido amplo, ligado à esfera das decisões coletivas e individuais que perpassam o campo da Ciência e Tecnologia, além das questões éticas e morais.

Uma outra parcela articula a idéia de Cidadania em função do contexto da pesquisa relatada no texto sem, no entanto, chegar a ter como foco principal de pesquisa, de forma específica, alguma relação entre Ensino de Ciências e a idéia de Cidadania. Assim, localizamos dois sentidos do conceito de Cidadania que aparecem nos trabalhos de pesquisa em Ensino de Ciências. Um que emprega a Cidadania como justificativa da relevância do trabalho realizado, contextualizizando a pesquisa no contexto das discussões das relações entre Educação Científica e Cidadania e outros que têm como objeto específico de pesquisa essas relações. Cabe esclarecer que estamos desconsiderando, nessa análise, trabalhos que mencionam a Educação Científica para a Cidadania apenas como comentário esparso, sem considerações mais contextualizadas ou detalhadas.

Há uma quantidade significativa de referências mútuas entre os trabalhos considerados, que ainda precisa ser analisada para um rastreamento mais profundo

a respeito das referências de Cidadania, bem das relações entre Ciência e Cidadania e Educação Científica e Cidadania, mais influentes na área de Ensino de Ciências. Acreditamos que este esforço permitirá sistematizações ou pelo menos uma organização detalhada que dê suporte para um avanço mais profícuo das discussões das recentes tentativas de articular Educação Científica e Cidadania. Neste sentido queremos chamar a atenção para uma necessidade que parece se delinear no interior da área - - ampliar as discussões para além da idéia de que a Educação Científica deve estar adequada à construção da Cidadania, idéia que suscita diferentes olhares sob o mesmo termo (Cidadania), na direção de indagar sobre como as diferentes compreensões de Cidadania podem contribuir com o campo de conhecimento delimitado pela área de Ensino de Ciências. Esta necessidade parece legítima, se for verdadeira essa análise, a partir das leituras realizadas. Em outras palavras vislumbramos uma relação de "mão-d-dupla" entre idéias de Cidadania e Educação Científica, isto é, não só as questões mais específicas, tais como metodologias e currículo, por exemplo, devem levar em conta a construção da Cidadania contemporânea na Educação Científica, mas, precisamos olhar também o que as idéias de Cidadania que já estão em discussão nos últimos debates da área trazem para esta Educação Científica desejada por muitos.

## 4. Implicações e considerações finais

A título de considerações finais, deixaremos mais evidentes, o que entendemos como potencialidades presentes na relação Educação Científica e Cidadania e que ficaram dependentes de explicitação até aqui.

A área de Ensino de Ciências se consolidou como um campo de conhecimento científico interdisciplinar, com produção de conhecimento a partir de diversos enfoques teórico-o-metodológicos compartilhados com outras áreas de conhecimento tais como a Educação, a Psicologia e a Sociologia, além das Ciências de referências como a Física, a Química, a Biologia, a Geologia, dentre outras e campos de cunho filosófico como a filosofia, a sociologia e a epistemologia da Ciência. A produção científica da área de Ensino de Ciências tem contribuído com a construção de fundamentos para uma Educação Científica, bem como no diagnóstico de novas demandas e necessidades da sociedade referentes à formação científica, o que faz surgir desafios para área no desenvolvimento das questões do ensino e aprendizagem de Ciências e suas relações com a sociedade.

Neste contexto, o reconhecimento da importância da Educação Científica na constituição da Cidadania contemporânea pode ser percebido pelo significativo número de pesquisadores que tem explicitado e fortalecido relações entre a Educação Científica e Cidadania. No entanto, aparentemente, este conceito tem sido empregado a partir de distintas compreensões do seu sentido e função na Educação Científica, havendo necessidade de uma melhor compreensão da função desempenhada por este conceito na área de Ensino de Ciências.

Por enquanto queremos nos limitar a defesa da seguinte perspectiva: as idéias de Cidadania possuem potencial, enquanto conceito em construção, capaz de ampliar as possibilidades de diálogos interdisciplinares da área de Ensino de Ciências tanto em seu interior como com referências compartilhadas com o campo da Educação em geral, servindo de um intermediário ou espaço de congruência, assumindo segundo nossa interpretação, a função de facilitador na identificação de coerências internas entre propostas para a Educação Científica e suas finalidade.

Evidentemente, as amostras das articulações entre idéias de Cidadania e o Ensino de Ciências que destacamos merecem análises mais aprofundadas, mas já permitem vislumbrarmos esse potencial. Por outro lado, entendemos que esse potencial se anula ou se reduz consideravelmente se idéias de Cidadania forem tomadas como consensuais ou cujo sentido está subentendido (tornado-se falsamente universais), pois isso tende a dificultar um debate de busca de um conceito com fundamentos aceitáveis para o estabelecimento de um diálogo sobre as preocupações comuns na área de Ensino de Ciências. Santos (2005b, p.9) assinala que "[...] é urgente saber mais sobre Cidadania, um conceito que é usado por todos pensando coisas diferentes". Neste sentido torna-se salutar a necessidade de mantermos uma construção permanente de construtos teóricos fomentadores de interlocuções produtivas entre os diferentes enfoques teórico-metodológicos empregados ou construídos no campo de conhecimento da área de Ensino de Ciências. Nos ajuda a reforçar r esta necessidade villani (2006), onde o autor, baseado no modelo de Kaës, procura interpretar o desenvolvimento da pesquisa em Ensino de Física, vindo a sugerir a necessidade da construção de "intermediários" para potencializar a interlocução entre os diferentes enfoques teórico-metodológicos compartilhados com a Educação na pesquisa em Ensino de Ciências. O autor destacou a Cidadania como um desses possíveis intermediários.

Por fim, as idéias aqui desenvolvidas nos levam a fazer os seguintes questionamentos para a elaboração de futuras pesquisas, que embora possam parecer amplos demais, acreditamos que possam ser discutidos, mediante investigação, a partir da literatura disponível: i) O conceito de Cidadania tem sido percebido como interdisciplinar e enquanto favorecedor de um espaço mais integrado para a relação e o diálogo entre: diferentes enfoques teóricos e metodológicos utilizados nas pesquisas em Ensino de Ciências, outras áreas do conhecimento e com instâncias decisórias da sociedade? ii) Se essa percepção ocorre na comunidade científica, com quê prioridade/relevância, o conceito de Cidadania tem sido percebido dessa forma, se não, como tem sido compreendido este conceito e qual a importância e função atribuídos a ele? iii) Quais desdobramentos a Educação Científica pode ter a partir de diferentes idéias de Cidadania?

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