ESTUDO DE RECEPÇÃO DE UM VÍDEO SOBRE REFRAÇÃO DA LUZ PRODUZIDO POR ALUNOS DE ENSINO MÉDIO COMO ATIVIDADE DO LABORATÓRIO DIDÁTICO DE FÍSICA
Marcus Vinicius Pereira, Luiz Augusto Coimbra De Rezende Filho, Américo De Araújo Pastor Junior
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 27/01/2015
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ESTUDO DE RECEPÇÃO DE UM VÍDEO SOBRE REFRAÇÃO DA LUZ PRODUZIDO POR ALUNOS DE ENSINO MÉDIO COMO ATIVIDADE DO LABORATÓRIO DIDÁTICO DE FÍSICA
Marcus Vinicius Pereira , Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho , 1 2 Américo de Araújo Pastor Junior 3
- 1 Instituto Federal do Rio de Janeiro, marcus.pereira@ifrj.edu.br
- 2 Universidade Federal do Rio de Janeiro, luizrezende@ufrj.br
## Resumo
Tal como se observa para outras áreas, este trabalho apresenta uma aproximação entre o ensino de física e aportes teóricos dos estudos de produção e recepção audiovisual ao considerar as especificidades da utilização do vídeo em uma sala de aula. Um vídeo produzido por alunos de ensino médio como uma atividade do laboratório didático de física sobre a refração da luz, intitulado 'Jornal MQM - o caso do canudo torto' foi analisado de , acordo com o referencial da análise fílmica francesa de Vanoye e Goliot-Lété. Foi então realizado um estudo de recepção desse vídeo a distância com sete estudantes a partir do modelo multidimensional de Schrøder, que amplia o modelo de codificação/decodificação proposto originalmente por Stuart Hall. Os resultados mostraram que, em geral, os alunos privilegiaram em suas leituras do vídeo os aspectos científicos apresentados e deram menos relevância aos aspectos estéticos. Ao assistirem ao vídeo eles mostram-se mais tolerantes com as discordâncias sobre a narrativa e as deficiências técnicas, e mais críticos quando identificam erros conceituais ou sugerem mudanças para resolver problemas pedagógicos. Houve uma tendência à leitura do vídeo buscando apreender as intenções dos produtores, já que os alunos tentam suprir lacunas para melhor compreendê-lo e respondem ampla e variadamente quando perguntados sobre sugestões de mudanças. Estudos de recepção como esse podem trazer conhecimentos sobre as características e especificidades do ensino-aprendizagem com audiovisuais, uma vez que podem identificar dinâmicas existentes entre a apropriação e a resistência dos alunos ao material utilizado.
Palavras-chave : laboratório didático de física, produção de vídeo, estudo de recepção.
## Introdução
A pesquisa em ensino de física no Brasil tem acolhido, especialmente nos últimos anos, diversas temáticas que se articulam às questões e problemas mais fundamentais e característicos da área. Temas como formação de professores, educação não-formal, material didático, tecnologia, interações discursivas etc. e áreas como a psicologia, sociologia, história e filosofia da ciência, lingüística etc. têm sido integrados à pesquisa em uma perspectiva multidisciplinar.
Ainda que não se apresentem com especial destaque, os recursos audiovisuais vêm despertando o interesse de pesquisadores como uma temática relevante nos últimos anos. Nesta linha, encontram-se alguns trabalhos (CONDREY, 1996; GIRAO, 2005; TANAKA, 2005; PÉREZ, 2009; PEREIRA et al. , 2011) que discutem a produção de vídeos pelos alunos. Além disso, é recorrente a ideia segundo a qual o vídeo potencializa a motivação e o envolvimento do aluno nas atividades didáticas e no aprendizado dos conceitos.
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26 a 30 de janeiro de 2015
Os estudos voltados para o uso do vídeo em contextos educativos tendem a defender e ressaltar potenciais papéis educativos desempenhados por este recurso. No entanto, muitos destes estudos não têm atentado para algumas questões importantes para compreender como as atividades com vídeo ocorrem em sala de aula. Em diversos casos, o ensino-aprendizagem com audiovisuais é considerado apenas em sua dimensão puramente cognitiva e, portanto, isolado da situação concreta e social da sua recepção em sala de aula.
Levando em consideração a importância de se conhecer melhor as características de pesquisas em ensino de física com audiovisuais, o presente trabalho apresenta um estudo das dinâmicas de resistência e apropriação que podem envolver a exibição de vídeos em sala de aula, que, por sua vez, podem interferir e condicionar essa atividade. Nesse sentido, os estudos de recepção podem trazer significativas contribuições à área.
Neste trabalho é apresentado o estudo de recepção de um vídeo intitulado ' Jornal MQM - o caso do canudo torto ' sobre a refração da luz que foi produzido por alunos de ensino médio como atividade do laboratório didático de Física. O objetivo é, portanto, analisar a atividade de recepção deste vídeo por alunos espectadores que nunca participaram da produção de vídeos ao serem analisadas duas dimensões de um modelo multidimensional apresentado na seção a seguir.
## Quadro teórico-metodológico
Ao se estudar a exibição de um vídeo em uma sala de aula, deve-se conceber tal espaço como um espaço de recepção, no qual os alunos podem ser considerados espectadores. Para se estudar a recepção da obra audiovisual nos referenciamos no modelo multidimensional de Schrøder (2000), que incorpora e amplia o tradicional modelo de codificação/decodificação de Stuart Hall (2003). Hall, em meados da década de 1970, rompeu com um modelo de estudo da comunicação fundamentado na centralidade da transmissão da mensagem e na suposição segundo a qual esta detinha um sentido supostamente fixo em sua 'passagem' do emissor para o receptor. Ele supõe uma circularidade entre produção e recepção, em que a codificação (produção) pode tentar controlar o sentido do texto em direção a uma decodificação (recepção) mais específica e fechada (significado preferencial), ao mesmo tempo em que o receptor pode subverter, resistir ou aderir a esse significado preferencial da codificação (HALL, 2003, p.361).
Já Schrøder (2000) amplia a proposta de Hall na medida em que propõe um modelo multidimensional para pensar a recepção, no qual se consideram dimensões específicas das atitudes de leitura. O autor apresenta um modelo para além da unidimensionalidade do modelo de Hall (centrado na questão da interferência da ideologia na recepção) ao considerar dimensões específicas, a saber:
- i. leituras : dimensões relativas aos processos da produção de sentido em um determinado contexto e por um determinado receptor, entre as quais as dimensões de motivação , compreensão , discriminação e posição ;
- ii. implicações : dimensões relativas ao significado social das leituras em sua potencialidade como recursos para a ação política, entre as quais as dimensões de avaliação e implementação .
Neste estudo, optou-se por analisar duas das quatro dimensões de leitura : a compreensão e a discriminação . A compreensão diz respeito à forma como os espectadores entendem o produto audiovisual, sendo condicionada tanto por fatores
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macrossociais (gênero, classe, etnia etc.) como por fatores microssociais (escolaridade, cultura etc.). As posições de leitura dessa dimensão alternam entre a divergência (polissemia total) e a convergência (monossemia total) do significado preferencial e dos significados efetivamente compreendidos em uma dada leitura. A dimensão de discriminação está relacionada à familiaridade do espectador com o gênero do produto audiovisual, com os processos de produção, estilos etc., ou seja, ao seu conhecimento técnico, estético e cultural. Nessa dimensão se investiga como e porque os espectadores podem ser esteticamente críticos ou não em relação ao material audiovisual, e sua análise pode se dar em dois eixos: distanciamento e não distanciamento; imersão e não imersão.
Por meio de uma análise fílmica procuramos indicar alguns significados e posicionamentos potenciais do vídeo, além de levantar hipóteses sobre seu significado preferencial. Para Vanoye e Goliot-Lété (1994), ao realizar uma análise fílmica somam-se aos elementos técnicos como enquadramento, iluminação, cortes etc. elementos relacionados à autoria, tempo, espaço, entre outros, da obra. Analisar um filme é desconstruí-lo em suas partes, em seguida reconstruí-lo e buscar a compreensão do todo da obra a partir da síntese das partes. Este todo do filme reconstituído pode subsidiar, no caso deste estudo, conclusões sobre o significado preferencial e estimativas sobre uma leitura preferencial do vídeo. Por sua vez, identificar o significado preferencial do vídeo contribui também na identificação de resistências, apropriações e adesões a este significado, por meio de uma análise comparativa entre as leituras efetivamente feitas pelos espectadores e as conclusões levantadas a respeito do significado preferencial/análise fílmica.
## Estudo de recepção
Um estudo de recepção demanda conhecer alguns aspectos do lugar social dos sujeitos para poder entender, em alguma medida, como se dá a construção dos sentidos. Nesta pesquisa, os sujeitos foram escolhidos aleatoriamente por meio de um convite feito por e-mail a alunos de uma escola pública do Rio de Janeiro com ampla experiência na realização de atividades de laboratório. Eles foram convidados apenas a participar de um estudo no qual assistiriam a um vídeo, não sendo dito de antemão que se tratava de um vídeo de conteúdo de física, tampouco um vídeo produzido por outros alunos. Tal escola é tradicionalmente (re)conhecida por seu caráter técnico-científico, com cursos técnicos fortemente relacionados às disciplinas de Ciências da Natureza, cujas cargas horárias podem ser consideradas elevadas quando comparadas às das outras ciências.
A metodologia envolveu o envio de um questionário por e-mail aos sujeitos, a fim de sondar sobre seus hábitos de consumo de informação, além de uma identificação básica do perfil socioeconômico e da experiência prévia em produção audiovisual. Sete estudantes responderam ao questionário, quando então foi enviado um segundo e-mail com cinco perguntas abertas diretamente relacionadas a um vídeo disponível no YouTube . Nenhuma informação sobre conteúdo ou produção do vídeo foi mencionada, apenas o link para que ele fosse assistido. O intervalo entre o envio do convite e a finalização do estudo foi cerca de 45 dias.
## Análise Fílmica
O vídeo 'Jornal MQM - o caso do canudo torto' foi produzido por um grupo de cinco alunos do ensino médio de uma escola pública do Rio de Janeiro. Ele aborda a refração da luz e dura cerca de 5 minutos. Uma sequência de imagens
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representativas das cenas do vídeo encontra-se na Figura 1. A escolha dessa produção deve-se ao fato de apresentar a lei de Snell-Descartes para a refração luminosa de uma forma descontraída, incomum em uma atividade de laboratório.
Figura 1: Imagens de algumas cenas do vídeo 'Jornal MQM - o caso do canudo torto'.
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Os alunos produtores definiram, eles mesmos, a linguagem e os recursos utilizados no vídeo assim como o aparato utilizado para ilustrar a lei física estudada. No vídeo, dois alunos caracterizados como apresentadores de um telejornal noticiam uma situação que teria acontecido em um restaurante da cidade: uma mulher, ao receber um copo de bebida com um canudo inserido, reclama que o canudo está torto. A partir daí, os apresentadores fazem referência a um vídeo de cientistas que 'vazou na internet' e que pode ajudar a compreender a situação do canudo torto. Alunos caracterizados como cientistas explicam a teoria envolvida no fenômeno de refração da luz que pode decorrer na aparente impressão de que algo está torto. Em seguida, realizam um experimento no qual um feixe de laser verde incide obliquamente (a 45° com a vertical) em um recipiente transparente contendo água e em um outro contendo óleo, mostrando que tal feixe é desviado de um ângulo diferente em cada caso. Os apresentadores encerram o telejornal sem fazer nenhuma referência à cena do restaurante, deixando por conta do espectador a relação necessária entre a situação do canudo torto e o vídeo dos cientistas.
O vídeo adota a estrutura didática que vai da identificação de um 'problema' cotidiano, passando pelo desvelamento desse acontecimento pela física, a reprodução do evento em laboratório, e por fim as conclusões voltam à esfera social mais ampla. Assim, nessa sequência fica implícito um entendimento da ciência como um sistema de verdades que é capaz de 'explicar o mundo', explicar a razão de eventos cotidianos. Isso toma forma na fala da personagem cientista: '- Isto não é magia! É Física! É devido à refração da luz!' (apontando para um livro didático). Um 'arsenal' (livro, lei, diagrama, equações e experimentos) é usado para 'comprovar' o argumento científico. Diante disso, apesar do tom de paródia, pode-se entender que o vídeo se fundamenta, implicitamente, na afirmação segundo a qual a ciência garante que o canudo está 'reto' apesar de ser percebido como 'torto', argumento
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entendido como científico, logo inquestionável. A ciência é, portanto, entendida nesse vídeo como um discurso de verdade, perspectiva essencial para se entender e aceitar algumas das premissas do vídeo.
Alguns recursos utilizados pelos produtores permitem inferir que ele foi endereçado primordialmente a outros estudantes (colegas de classe). Primeiro, pode-se citar a paródia tanto do telejornal, com seus apresentadores, como da figura do cientista. É parodiado o 'Jornal Nacional' ao fazer uso da vinheta de abertura e indumentária semelhante a dos apresentadores, apesar de ao final, em plano geral, ser mostrado que eles estavam de chinelo e bermuda. Já o cientista é retratado com o clichê do 'cientista louco' - gravata desarrumada, óculos mal colocados e cabelos despenteados - o que lhe dá um aspecto cômico/ridículo. Segundo trata-se do certo grau de liberdade no desenvolvimento da atividade experimental, permitindo aos alunos fazerem opções na produção que, na visão deles, talvez dialogassem melhor com o público pretendido do vídeo ou tornasse o trabalho menos entediante. Por outro lado, ao abordar no vídeo a teoria, a explicação das leis da refração é feita com seriedade, como em uma tradicional aula de física. Somam-se a essa tradicionalidade o aparato experimental utilizado, a presença do livro didático, além de equações e diagramas feitos em um quadro.
Essas considerações permitem inferir que o significado preferencial desse vídeo constitui-se por um complexo intrincado de significados. Ao mesmo tempo em que o vídeo reforça certa visão da ciência e determinados procedimentos de laboratório, os efeitos da paródia podem extravasar os limites da situação do 'telejornal' e atingir esta mesma visão assumida, em primeira análise, pelo vídeo, já que a maneira cômica como ele é apresentado pode produzir uma ambiguidade sobre como a atividade científica é entendida pelos produtores.
## Resultados e Discussão
O grupo era constituído por três estudantes do sexo feminino e quatro do sexo masculino, todos com idades entre 16 e 19 anos. Todos possuem pelo menos dois aparelhos de televisão e dois computadores em casa, demonstrando que fazem parte de um grupo social com fácil acesso a informação. Isto também pode ser percebido pelas respostas dos hábitos de consumo desses jovens: todos admitiram fazer uso, durante a semana, de vários meios de informação, em particular a televisão e outros como jornal (impresso e online ), rádio e internet. Outro aspecto interessante é o alto grau de interesse desses jovens por temas como política, meio ambiente e saúde, ciência e tecnologia e, mais culturalmente consagrado, esporte. Quanto à experiência com vídeos, dois alunos admitiram nunca terem assistido a vídeos em sala de aula, e os cinco que já haviam tido experiências como espectadores mencionaram vídeos com temática científica, ainda que um deles tenha admitido não ter gostado. Em relação à produção, seis admitiram já ter vivenciado algum tipo de experiência, mas nunca no contexto escolar.
O segundo questionário deu indícios das posições de leitura dos sujeitos para as dimensões de compreensão e discriminação . Quanto à compreensão , todos disseram que o vídeo abordava o fenômeno da refração da luz, e disseram ter entendido tudo que foi mostrado, o que pode estar relacionado ao conhecimento prévio que estes estudantes já tinham do tema. A convergência (monossemia) identificada nas respostas pode estar associada ao fato de que um vídeo científico é produzido para dar pouca margem à diversidade de compreensões (polissemia), já que parece trazer consigo elementos especialmente criados para isso, além de um
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discurso de autoridade por vezes associado à ciência, característica destacada na análise fílmica do vídeo apresentada na seção anterior.
Mesmo que consideremos que esses alunos tenham um básico conhecimento estético e cultural, são notáveis as diferenças nas leituras do vídeo no que se refere à dimensão de discriminação . Por exemplo, três alunos salientaram a encenação como ponto positivo: ' a forma de apresentar o trabalho com um certo humor ' (Aluno 2); ' encenação que torna o vídeo descontraído ' (Aluno 3); ' a dinâmica e a contextualização realizadas para tratar do assunto facilitaram o entendimento do mesmo ' (Aluno 6). Esse ponto converge com o endereçamento identificado na análise do vídeo.
No entanto, o Aluno 5 considerou o ' jornal do início desnecessário ', talvez por achar que o vídeo em questão se caracteriza como um material audiovisual que trata de um conceito físico e que, portanto, seria um tipo de produção que não daria espaço às opções estéticas feitas originalmente pelos produtores (encenação, música etc.), já que esse mesmo aluno considera que ' se algumas partes fossem alteradas, definidas acima como negativas ', o vídeo poderia ser utilizado por um professor em uma aula, ' pois a parte física está bem explicada, onde até leigos em física poderiam entender '. Esse aluno demonstra alto grau de distanciamento ao afirmar que o importante é apenas compreender o conceito físico explicado por meio do experimento realizado no vídeo. Ele discrimina o ensaio de narrativa realizado pelos produtores como desnecessário e, portanto, não adere a ele.
Três alunos destacaram como ponto negativo a qualidade do som, e um destacou ainda as ' quebras muito bruscas de imagens ' (Aluno 2). Apesar disso, de uma forma geral, seja pela encenação dos apresentadores do telejornal e dos cientistas, seja pela atividade prática realizada no vídeo, considera-se que não houve distanciamento por seis alunos, com exceção do Aluno 5.
Quanto ao segundo eixo de análise da dimensão de discriminação , considera-se que quatro alunos estiveram em algum nível de imersão evidenciado pelas respostas à questão que indagava sobre a possibilidade de fazer uso do vídeo pelo professor em uma aula:
Claro que sim, possui muita informação útil apresentada de forma clara e humorística que chama a atenção. (Aluno 2)
Sim, e facilitaria a aprendizagem por ser um meio diferente e dinâmico. (Aluno 4)
Sim, mas de maneira a complementar a aula teórica e não para substituí-la. (Aluno 6)
Por outro lado, dois alunos se encontraram mais claramente em uma posição de não imersão, ao darem as seguintes respostas para a mesma pergunta:
Não, pois acho que faltam mais exemplos (manipulações) de situações do fenômeno. Creio que para dar aula os ângulos devem ser variados gradativamente explorando melhor o fenômeno. (Aluno 3)
Não. Esse vídeo é muito didático, mas pouco elaborado na questão das fórmulas. Trata quem assiste como uma criança. (Aluno 7)
O conhecimento técnico sobre produção audiovisual e sobre física é evidenciado nas respostas sobre a possibilidade de fazer o vídeo de forma diferente, tanto do ponto de vista estético como do ponto de vista científico, a saber:
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Em cada episódio do tema tratado, colocaria um titulo para melhor orientar quem está vendo. Colocaria glicerina em vez de óleo por conter a mesma característica incolor da água e viscosidade muito diferente da mesma. (Aluno 2)
Nas medições eu aproximaria o zoom gradativamente - mostrando que houve a manipulação do experimento. (Aluno 3)
Na parte em que os alunos calculam os índices de refração da luz da água e no óleo não colocaria o áudio junto da explicação escrita que passou juntamente as imagens. Nesta parte a melhor opção seria utilizar o áudio para mencionar o conteúdo que foi escrito. (Aluno 6)
Não mostraria a tábua de passar. O caso do restaurante dá um fundo irônico ao vídeo, vocês poderiam começar fazendo perguntas, fazendo com que a(s) pessoa(s) que assista(am) ao vídeo pensem por si só. Quando o vídeo começa o experimento de fato, a forma como foi feita parece ter sido tirada de algum outro vídeo, eu faria em 'tempo real' com as alunas apresentando e controlando o experimento. (Aluno 7)
No entanto, há menos considerações sobre questões estéticas do que sobre questões relativas à realização do experimento e aos conteúdos da física. Mesmo que este estudo tenha sido realizado a distância (o que pode comprometer alguns aspectos quando comparado à forma presencial) e que o vídeo escolhido possua um caráter mais humorístico e contenha encenação e paródia, é marcante a componente científica no discurso dos sujeitos, seja quando relatam o que entenderam do vídeo, seja quando destacam aspectos de ordem técnica/estética.
## Considerações Finais
Os resultados obtidos permitiram identificar diferenças nas leituras do vídeo no que se refere à dimensão de discriminação , havendo até mesmo um aluno que avalia a tentativa de narrativa como desnecessária e, portanto, a rejeita, ainda que parcialmente. Por outro lado, houve alunos que manifestaram algum nível de imersão, demonstrando maior grau de aceitação. Mesmo que tenham, de forma geral, apontado ou manifestado questões sobre as deficiências técnicas do vídeo, isso não foi suficiente para que eles o descartassem como um todo ou desconsiderassem suas potencialidades educativas, já que eles preservam a validade e a usabilidade de seu conteúdo científico.
Por outro lado, chegam a considerar que um vídeo 'científico' deveria excluir aspectos como a encenação e a paródia. Isto pode ser evidenciado na fala do Aluno 7 quanto ao uso da tábua de passar e na fala do Aluno 5 que considera desnecessário o telejornal. Quanto à compreensão , os sujeitos não se encontraram nem no polo monossêmico (completa correspondência), nem no polo polissêmico (completa divergência), demonstrando que uma obra audiovisual, mesmo quando aborda um conteúdo científico, permite a existência de uma variedade nas leituras em se tratando de como os espectadores compreendem o texto fílmico.
Esse é igualmente um resultado importante, já que indica duas questões. Por um lado, como já apontado anteriormente, parece haver uma preponderância do conteúdo científico (apresentação dos conceitos físicos) sobre o conteúdo estético e narrativo (inserção da situação do restaurante e telejornal) nas leituras feitas pelos alunos espectadores. Ao assistirem ao vídeo eles mostram-se mais tolerantes com as discordâncias sobre a narrativa, as deficiências técnicas ou as situações 'desnecessárias', buscando assimilá-las em uma atitude de 'negociação' frente ao vídeo, e mais críticos quando identificam erros conceituais ou sugerem mudanças
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para resolver 'ineficiências pedagógicas' (mudança do meio de refração, aproximação do zoom , inserção de título etc.).
Por outro lado, parece haver também uma tendência à leitura do material audiovisual buscando apreender as intenções dos produtores, já que os alunos tentam suprir as lacunas do vídeo para melhor compreendê-lo e respondem ampla e variadamente quando perguntados sobre sugestões de mudanças. Isso aponta certa convergência com as ideias de Hall sobre o significado preferencial como uma referência para a leitura: o produtor insere, na obra audiovisual, indicações para que esta seja lida e compreendida de uma determinada maneira e o espectador, entendendo a situação de leitura como eminentemente comunicativa, procura 'decodificar' os sentidos preferidos pelo produtor. Os alunos sujeitos dessa pesquisa parecem ter identificado esses elementos, mesmo sem terem sido previamente orientados sobre a intenção ou objetivos (dos produtores) do vídeo.
Assim, estes resultados mostram que os estudos de recepção podem trazer mais conhecimentos sobre as nuances e diferenças colocadas pelo ensinoaprendizagem com recursos audiovisuais, uma vez que podem identificar, por exemplo, dinâmicas existentes entre a resistência e a adesão/apropriação pelos estudantes ao material utilizado. Nesse sentido, um estudo de recepção como esse pode criar um espaço oportuno para se investigar a produção de sentidos, sobretudo para se tentar relacionar como jovens, que, atualmente, produzem os mais diversos tipos de materiais (imagens, vídeos, games etc.) e os publicam na web , veem, compreendem, refutam ou aceitam vídeos como esse.
## Referências
CONDREY, J. F. Focus on Science Concepts: Student-Made Videos Zoom in on Key Ideas. The Science Teacher , v.63, n.4, p.16-19, 1996.
GIRAO, L. C. Processos de produção de vídeos educativos. In: ALMEIDA, M. E. B.; MORAN, J. M. (Org.). Integração das Tecnologias na Educação / Secretaria de Educação a Distância. Brasília: Ministério da Educação, Seed, 2005. p.112-116.
HALL, S. Codificação/Decodificação. In: \_\_\_\_\_. Da diáspora: Identidades e mediações culturais . Belo Horizonte: UFMG, 2003, p.387-404.
PEREIRA, M. V.; BARROS, S. S.; REZENDE FILHO, L. A. C.; FAUTH, L. H. A. Demonstrações experimentais de Física em formato audiovisual produzidas por alunos do ensino médio. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v.28, n.3, 2011.
PERÉZ, C. L. V. A criação de tecnologias no cotidiano. Trapeiros, poetas e... cineastas - crianças narradoras. In: BRASIL. Cotidianos, imagens e Narrativas . Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação a Distância, 2009. p.33-39.
SCHRØDER, K. C. Making sense of audience discourses: towards a multidimensional model of mass media reception. European Journal of Cultural Studies , v.3, n.2, p.233-258, 2000.
TANAKA. M. M. Experimentação: planejando, produzindo, analisando. In: ALMEIDA, M. E. B.; MORAN, J. M. (Org.). Integração das Tecnologias na Educação / Secretaria de Educação a Distância. Brasília: Ministério da Educação, Seed, 2005. p.118-122.
VANOYE, F.; GOLIOT-LÉTÉ, A. Ensaio sobre a análise fílmica . Campinas: Papirus, 1994.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.