ENSINO DE FÍSICA E FORMAÇÃO DO ESPÍRITO CRÍTICO: REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Renata A. Ribeiro, Maria Regina D. Kawamura
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 24/10/2008
- Linha de pesquisa
- Física E Divulgação Científica Em Espaços Educativos Formais E Não Formais
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA E FORMAÇÃO DO ESPÍRITO CRÍTICO: ÕÃÍ Ç REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
## PHYSICS TEACHING AND CRITICAL REASONING: CONSIDERATIONS ABOUT THE ROLE OF POPULARIZATION OF SCIENCE
## Renata A. Ribeiro 1 , Maria Regina D. Kawamura 2
1
Instituto de Física da USP, rribeiro@if.usp.br
2 Instituto de Física da USP, mrkawamura@if.usp.br
## Resumo
Apresentamos algumas reflexões sobre as potencialidades da divulgação científica para o ensino de física e, sobretudo, sobre particularidades dos materiais de divulgação importantes de serem clarificadas e problematizadas, particularmente no que diz respeito a sua contribuição para a formação do espírito crítico. Inicialmente, dirigimos nosso olhar para a ciência que é veiculada pela mídia impressa, ressaltando cararacterísticas da divulgação científica apontadas por pesquisadores do campo da comunicação e do ensino de física. Depois, lançamos o olhar para os meios de comunicação, no intuito de sinalizar r e problematizar algumas peculiaridades inerentes a esses meios. Por fim, apresentamos algumas considerações sobre a articulação desses dois olhares no contexto do ensino de física, especialmente para a formação de uma postura crítica em relação aos meios e aos produtos desses meios de divulgação. Entendemos que a compreensão dessas características seja fundamental para a ampliação da visão referente ao processo de divulgação de informações sobre ciência e tecnologia e, principalmente, para as escolhas e usos de materiais de divulgação como potenciais instrumentos de ensino.
Palavras -chave: Divulgação científica; ensino de física; formação do espírito crítico.
## Abstract
This paper presents some considerations about the role of popularization of science in the perspective of Physics Teaching. It is our belief that these memedia could contribute to the development of student critical reasoning. With this purpose, we identify some aspects concerning the conception of science presented in printed media as well as characteristics of scientific popularization materials and journals. These two approaches were confronted with the purpose of identifying potential elements that could contribute to the development of critical reasoning in physics teaching context. These elements could also help to extend the comprehension of science and technology relationship and the use of popularization of science materials in physics classrooms.
Keywords: Popularization of science; physics teaching; critical reasoning .
## INTRODUÇÃO
"Quando éramos 'inquilinos'", disse outro camponês, depois de dois meses de participação nas atividades de um 'Círculo de Cultura' num 'assentamento', "e o patrão nos chamava de ingênuos, dizíamos: obrigado, patrão. Para nós, aquilo era um elogio. Agora, que estamos ficando críticos, sabemos o que queria dizer com ingênuos . Chamava-a-nos de bobos". E que é ser crítico?, lhe perguntamos. "É pensar certo. É ver a realidade como ela é", respondeu.
Paulo Freire
Desafiar o educando a pensar a sua realidade social, cultural e política de maneira crítica é uma meta que nós, educadoreres, perseguimos. Com freqüência, ouvimos e reafirmamos a necessidade de desenvolver, com nossos estudantes, uma análise crítica da realidade, na qual o conteúdo ensinado (seja física, química, história etc.) não se constitui uma peça alheia à análise, pelo contrário, a integra.
Pesquisas recentes na área de ensino de física têm apresentado discussões sobre os diferentes papéis atribuídos à divulgação científica, particularmente em relação ao seu potencial educacional. Essas discussões sinalizam que a utilização de materiais de divulgação em ambientes de educação formal pode favorecer a introdução de novos sentidos para o ensino-aprendizagem de física e proporcionar ao aluno o contato com diferentes linguagens e discursos, motivando-o e despertando o interesse pelo conhecimento científico, desenvolvendo habilidades de leitura, fornecendo subsídios para a formação de leitores críticos, explicitando as diferentes contribuições da ciência, inserindo novas abordagens e novas temáticas nas aulas de física etc.
A interpretação de noticias sobre ciência e tecnologia veiculadas pelas diferentes mídias e a compreensão de seus significados e das implicações sociais, políticas e ambientais do desenvolvimento científico e tecnológico constituem algumas competências, apresentadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio - - PCNEM, a serem desenvolvidas até o final da escolaridade básica. Os Parâmetros atentam ainda para a importância de prover meios para que nossos estudantes se posicionem criticamente diante do mundo, emitindo juízos próprios sobre as informações com as quais têm contato e participando ativamente da transformação de sua realidade.
Nesse trabalho, apresentamos uma reflexão sobre uma potencialidade da divulgação levantada por boa parte das pesquisas sobre a interface ensino de física/divulgação científica, relacionada ao uso de materiais de divulgação nas aulas de ciências, que é a de estimular o olhar crítico para a realidade. De acordo com essas pesquisas, os materiais de divulgação contribuiriam, inclusive quando utilizados em sala de aula, para a formação do espírito crítico dos estudantes (ASSIS & TEIXEIRA, 2003; SANTOS, 2001; ALVETTI, 1999, CHAVES et al, 2001). A nosso ver, esse olhar crítico para a realidade está relacionado tanto ao processo de produção do conhecimento cientifico e suas aplicações (foco na ciência e tecnologia) quanto ao de produção das próprias informações sobre ciência e tecnologia e sua veiculação pelos diferentes meios de comunicação (foco na mídia impressa). Embora as pesquisas da área apontem as potencialidades que os materiais de divulgação apresentam para a formação do espírito crítico, sobretudo em relação ao primeiro foco, ressaltamos que a articulação e problematização desses dois focos são fundamentais para uma reflexão sobre as formas de incorporação desses materiais em nossas aulas.
Antes de abordarmos cada um desses focos, cabe inicialmente explicitar o que entendemos por formação do espírito crítico e também as formas pelas quais a divulgação científica pode contribuir para essa formação. Na abertura desse artigo, a conversa que apresentamos entre o educador e o camponês reflete exatamente a nossa compreensão por "formação do espírito crítico". É uma atitude reflexiva, de adentramento, de percepção do real e e aprofundamento em sua significação, de compreensão das relações e interações entre os termos que constituem o real, de admiração lúcida, de permanente inquietação intelectual indagadora, de prédisposição à busca, de desvelamento da realidade. Novamente, buscamos em Paulo Freire as bases para a fundamentação de nossos olhares. De acordo com o educador, essa atitude crítica é nota imprescindível para a construção de uma mentalidade democrática (FREIRE, 1996).
"Quanto mais crítico um grupo humano, tanto mais democrático e permeável, em regra. Tanto mais democrático, quanto mais ligado às condições de sua circunstância. Tanto menos experiências democráticas que exigem dele o conhecimento crítico de sua realidade, pela participação nela, pela sua intimidade com ela, quanto mais superposto a essa realidade e inclinado a formas ingênuas de encaráála. A formas ingênuas de percebê-la. A formas verbosas de representá-la. Quanto menos criticidade em nós, tanto mais ingenuamente tratamos os problemas e discutimos superficialmente os assuntos" (FREIRE, 1996:103).
A superação dessa postura ingênua pressupõe uma mudança no processo educativo e na concepção de educação que subjaze nossas práticas. Torna-s-se necessário repensar essas práticas e experiências educacionais para q que possamos desenvolver com nossos estudantes atitudes críticas e reflexivas perante a realidade, num movimento contrário àquele que Paulo Freire aponta como sendo uma das características de nossa educação.
"Esta nos parecia uma das grandes características as de nossa educação. À de vir enfatizando cada vez mais em nós posições ingênuas, que nos deixam sempre na periferia de tudo o que tratamos. Pouco ou quase nada que nos leve a posições mais indagadoras, mais inquietas, mais criadoras. Tudo ou quase tudo nos os levando, desgraçadamente, pelo contrário, à passividade, ao 'conhecimento' memorizado apenas, que, não exigindo de nós elaboração ou reelaboração, nos deixa em posição de inautêntica sabedoria. À nossa cultura fixada na palavra corresponde a nossa inexperiência do diálogo, da investigação, da pesquisa, que, por sua vez, estão intimamente ligados à criticidade, nota fundamental da mentalidade democrática" (FREIRE, 1996:104).
E como a divulgação científica pode contribuir para a formação desse espírito crítico? Retornemos aos focos. Tanto as pesquisas na área de comunicação quanto aquelas na área de ensino de física que investigam a dimensão educativa da divulgação atribuem à divulgação o potencial de fomentar discussões sobre temas de ciência e tecnologia, para a formação de uma visão crítica em seu público leitor. Entendemos que esta visão está relacionada tanto ao processo de desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico (1 o foco) quanto ao processo de produção das informações sobre ciência e tecnologia (2 o foco).
Pretendemos lançar agora um olhar cuidadoso para algumas características da divulgação científica e da ciência apresentada na mídia, as quais, ao nosso ver, devem ser atentamente consideradas, clarificadas e problematizadas quando pensamos, em termos educacionais, no desenvolvimento de capacidade crítica de leitura e na construção do conhecimento a partir das relações que estabelecemos entre nossas experiências e as informações das quais nos apropriamos. Entendemos que a compreensão dessas características seja fundamental para a ampliação da visão referente ao processo de divulgação de informações sobre ciência e tecnologia e, principalmente, para as escolhas e usos de materiais de
divulgação como potenciais instrumentos de ensino. Lembramos que, muito embora esses materiais possam ter outras funções, no que diz respeito aos usos que deles podemos fazer em sala de aula, o olhar atento para essas características é a base para uma reflexão crítica sobre a divulgação e sobre a ciência veiculada pelos meios de divulgação.
## 1. O primeiro foco: um olhar para a ciência na divulgação científica
Quais são as ênfases e abordagens dadas à ciência nas informações? Qual a representação que o público em geral têm da ciência? Uma pesquisa recente realizada no Brasil, Argentina, Uruguai e Espanha, e que integra o projeto IberoAmericano de Indicadores de Percepção Pública, Cultura Científica e Participação dos Cidadãos, intitulada Percepção Pública da Ciência (VOGT & POLINO, 2003), mostra que a maioria dos s entrevistados da amostra desse estudo associa a ciência a idéias de "grandes descobertas", "avanço técnico" e "melhoria da vida humana". De acordo com a pesquisa, estas associações estão relacionadas a imagens "que a retórica e a iconografia da ciência vêm alimentando a partir das narrativas escolares, da divulgação científica e da ficção científica" (VOGT & POLINO, 2003:79).
E como a ciência é veiculada pela mídia? António Fernando Cascais, em um estudo sobre as formas pelas quais a dinâmica da ciência e da tecnologia é veiculada pelos meios de comunicação, faz uma reflexão sobre o que denominou de "mitologia dos resultados" na divulgação científica. De acordo com Cascais, a mitologia dos resultados consiste na representação do fazer científico pelos seus produtos, ignorando os processos (históricos, sociais e culturais) e os procedimentos (metodológicos) inerentes à atividade científica; na compreensão dos resultados das pesquisas como decorrentes de procedimentos cumulativos e finalistas, invalidando o papapel do erro nas escolhas dos cientistas a partir da crença em um método científico único e infalível e; em anunciar somente como resultados aqueles avaliados como aplicáveis, excluindo resultados inesperados ou adversos, ou seja, assimilando "fins a resultados" (CASCAIS, 2003:67). Ainda sobre essa questão, algumas críticas à divulgação científica estão dirigidas justamente ao próprio conteúdo do que é veiculado. Geralmente, a cobertura de temas sobre ciência e tecnologia concentra-se muito mais em noticiar r descobertas e invenções que em difundir a pesquisa básica ou de desenvolvimento (NISBET et al, 2002).
Uma outra crítica à divulgação refere 1-se ao fato de que ela contribuiria para a manutenção do chamado mito g 1 da neutralidade da ciência. Além de apontamentos como ausência de contextualização (principalmente em matérias sobre ciência que são publicadas em jornais e revistas de notícias), a ciência apresentada pela mídia também seria destituída de valores; independendente deles. De acordo com Martha França, alguns os jornalistas de ciência "aceitam a ideologia da ciência como uma autoridade neutra, um juiz objetivo da verdade. Sentem-se confiantes por trabalhar em uma área em que aparentemente não existem conflitos e na qual não terão de presta contas ao público e até mesmo aos seus chefes pelo que escreveram" (FRANÇA, 2005:41). Maurício Tuffani, jornalista especializado na cobertura de
temas de ciência e meio ambiente, complementa essa visão ao sinalizar a existência de um amplo espectro de convicções entre os próprios jornalistas, "que variam da aceitação ingênua da neutralidade da ciência à visão conspiratória de que ela é um braço da política" (TUFFANI, 2005:50).
A questão da neutralidade da ciência é um ponto de discussão bastante presente em artigos e estudos sobre a divulgação e o jornalismo de ciência (encontramos essa discussão em BUENO, 1988; ASSIS, 2001; TEIXEIRA, 2002; FRANÇA, 2005; IVANISSEVICH, 2005;). Geralmente, essa questão aparece nesses trabalhos como conseqüência, entre outras coisas, de uma ausência de visões contraditórias em matérias e artigos sobre ciência, o que contribuiria para a construção de uma imagem de ciência como produtora de verdades inquestionáveis (FRANÇA, 2005). Mônica Teixeira (2002) aborda essa questão ao expor a relação entre jornalistas, cientistas e a própria ciência. Segundo a jornalista, não há contraditório na cobertura de ciência; as as matérias sobre ciência geralmente são feitas a partir de uma única fonte porque existe uma crença de que, quando se trata de ciência, não existem versões da verdade, e sim uma única verdade, a verdade científica. Dessa forma, a ausência de contraditório nas matérias é conseqüência do entendimento de que não há contraditório possível para a ciência (p.134). Mônica ressalta ainda que alguns jornalistas que cobrem ciência vêem no "cientista-f-fonte" a personificação da ciência, de forma que é esta quem fala por intermédio de seus cientistas, arautos "d"de uma mesma e única verdade, a verdade científica, derivada do método - - e, reza a lenda sobre o o 'método científico', ser, ele, como a ciência, um mesmo e único" (TEIXEIRA, 2002:134).
A apresentação da ciência como algo espetacular também é outra característica reforçada por alguns materiais de divulgação que contribui para construção de imagens equivocadas sobre o "fazer científico". Para Marcello Cini (1998), ex-x-editor da revista italiana de divulgação Sappere, ao tornar a ciência espetacular, algumas iniciativas de divulgação cientifica a mistificam e não transmitem uma visão de ciência como uma forma de conhecer o mundo.
"Transmite -s -se uma imagem da ciência como algo espetacular que descobre coisas estranhas e, sobretudo, como uma atividade que produz verdades absolutas. A idéia que se passa é a de que, se uma coisa é científica, ela deve ser aceita sem discussões, que é inevitável e que é também, necessariamente, um bem para a humanidade. Penso que essa mensagem é um erro. Ela não ajuda as pessoas a compreenderem o que a ciência está fazendo, para onde vai, quais são os problemas debatidos internamente, como as idéias se confrontam dentro das várias disciplinas científicas e também como ela se insere no tecido tecnológico e econômico" o" (CINI, 1998:10).
Destacar a ciência do contexto em que é praticada também contribui para a construção de uma imagem de ciência mistificada. Novamente, o foco nos resultados das pesquisas em relação aos processos favorece uma visão de ciência neutra, autônoma e independente de contextos. Sobre a relação entre ciência e sociedade, o filósofo Claude Chrétien é incisivo ao afirmar que
"a ciência não goza de nenhuma extraterritorialidade com relação à sociedade que a produz e a usa. Ela é uma entre outras atividades sociais, integrada ao funcionamento e ao equilíbrio da vida coletiva; ela é mesmo (...) a expressão de um determinado tipo de sociedade e seria no mínimo ingênuo confiná-la num gueto ideal, penhor de sua pureza (...) As pesquisas não são atividades puramente espirituais e desencarnadas; elas se inserem nas estruturas de financiamento e difusão, moldam-s-se nas formas da divisão do trabalho e da competição, curvam-se às normas de controle e produtividade, entram em concorrência em relação com as outras atividades sociais, técnicas, econômicas, políticas, culturais etc." (CHRÉTIEN, 1994:78).
Esse primeiro olhar para as foformas como ciência e tecnologia são veiculadas, de maneira geral, pelos meios de divulgação, no sentido de explicitar visões de ciência e do conhecimento científico presentes nesses meios (ou no imaginário social), tem por objetivo uma dupla desmistificação. Se por um lado, o contexto no qual as informações são produzidas acabam condicionando o modo como a ciência é apresentada ao público, por outro, no próprio contexto da ciência algumas dessas imagens são alimentadas, devido às ideologias que nele existem (LEVY-LEBLOND, 1975).
É evidente que essa discussão não se encerra aqui. Procuramos pontuar algumas reflexões sobre as imagens da ciência difundidas pelos meios de comunicação, segundo estudos no campo do jornalismo científico e da divulgação, uma vez que acreditamos que discussões dessa natureza são necessárias quando pensamos na utilização de textos de divulgação para o ensino de física, ou para a educação em ciências, de forma geral. A leitura de um artigo de divulgação envolve a compreensão crítica dos significados sociais tanto do meio que o veicula quanto da própria ciência (representada pelos seus processos e pelos resultados de pesquisas). Desse modo, se a ciência na divulgação apresenta as características que discutimos anteriormente, os materiais de divulgação, quando incorporados em nossas aulas de física de forma acrítica, levam essas características para o ensino. Nesse sentido, um olhar atento para o contexto de produção das informações sobre ciência e tecnologia, assim como para as formas pelas quais a ciência é apresentada nos meios de comunicação contribui, ao nosso ver, para a formação de cidadãos críticos, que identifiquem esses meios como intérpretes da ação social cotidiana, necessários para a nossa participação ativa e responsável na soc iedade.
## 2. O segundo foco: um olhar para a divulgação científica
No primeiro momento, apresentamos algumas imagens e características da ciência veiculada pelos meios de comunicação. Nesse segundo momento, vamos direcionar nosso olhar para algumas particularidades dos próprios meios de comunicação e de sua linguagem. Esse olhar constitui o que denominamos de segundo foco das pesquisas em ensino e em comunicação, relacionado ao papel da divulgação na formação do espírito crítico. Discussões sobre a função sococial dos meios de comunicação na sociedade atual, sobre a questão da neutralidade das informações, sobre os diferentes formatos e meios (jornais e revistas) e as variadas estruturas narrativas (opinião, editorial, colunas, artigos, notícias etc.) que compõem um veículo de informação são essenciais para o desenvolvimento de atitudes favoráveis ao exercício da cidadania (MARQUES DE MELO, 2006).
Vamos dirigir a atenção aos meios de comunicação, particularmente, a três características das informações que são alvos de críticas de jornalistas, cientistas e pesquisadores da área de ensino, mas que também podem ser consideradas e utilizadas, quando pensamos nas potencialidades da divulgação para a educação científica e para o ensino de física, de maneira positiva e construtiva. São elas: o sensacionalismo, a fragmentação e a simplificação.
## (a) A armadilha do entretenimento (sensacionalismo)
Entre as características das informações sobre ciência e tecnologia, o sensacionalismo, sua necessidade e suas conseqüências têm lugar de destaque nas discussões sobre divulgação e jornalismo de ciência. Nessas discussões, aparece
freqüentemente associado a termos como "exagero", "superficialidade", "entretenimento", "distorção", "espetacularização", entre outros. Tido como uma opção editorial de alguns jornais, revistas e outros meios de comunicação, o tratamento sensacionalista dispensado a matérias e artigos de divulgação científica tem como principal objetivo atrair o leitor, gerar um sentimento de empatia e, com isso, aumentar as vendas.
Utilizado por alguns, que o vêem como forma de atrair o leitor para o mundo da ciência ao torná -la atrativa, e criticado por outros, que o responsabilizam por distorcer e deturpar o fazer científico ao reduzir a informação ao inusitado e ao espetacular, o sensacionalismo é um conceito polêmico, que apresenta graduações e facetas. Pode englobar desde a utilização de recursos, como suspense e adjetivação, em manchetes ou chamadas, por exemplo, até a extrapolação do real e espetacularização dos fatos.
Discussões sobre o tratamento sensacionalista que vem sendo dado às informações sobre ciência e tecnologia por veículos de comunicação envolvem o esclarecimento de algumas concepções e características que essa questão suscita. Uma delas diz respeito aos limites e às graduações do sensacionalismo. De que maneira reconhecemos como sensacionalista uma matéria, um veículo de informação ou uma imagem ou chamada de capa? Quais são os elementos que nos permitem realizar esse tipo de identificação? Estabelecer er um modo de comunicação emocional (despertar emoções, sensações, medos, ansiedades, curiosidades, fantasias, projeções etc.) seria sensacionalizar? Essa discussão é importante porque nos chama a atenção para algumas imagens que construímos sobre as informações de ciência e tecnologia e a forma como estas informações representam (ou reproduzem) a realidade, os fatos.
Por provocar emoções e sensações, os produtos da divulgação rotulados como sensacionalistas também exemplificam uma forma de conexão com o mundo do público leitor desse tipo de material. Nesse sentido, investigar essa conexão é um passo importante no estudo sobre as potencialidades dos materiais de divulgação científica. Talvez uma reportagem sensacionalista possa ser um agente que proporcione a problematização de um dado tema científico em ambiente de sala de aula, por exemplo. Ou possa fomentar discussões a respeito dos processos de produção dos noticiários sobre ciência. Ou, ainda, possibilite, em conjunto com outros tipos de materiais, a construção de um olhar mais crítico sobre os resultados e os processos da ciência e também sobre a mídia.
## (b) A redução do complexo (simplificação)
Uma outra característica da divulgação científica bastante enfatizada em pesquisas nessa área é a simplificação o da linguagem e dos conteúdos científicos no texto de divulgação, seja por prescindir do ferramental matemático, seja por tentar aproximar o público do texto e do conteúdo da informação e assim promover um maior entendimento a respeito deste conteúdo.
É importante ressaltar que o termo "simplificação", entendido como a passagem de um texto ou discurso mais "complexo", hermético, como é o caso do científico, para um texto ou discurso acessível ao público de não especialistas, nesse caso, o de divulgação, traz em si uma concepção da própria atividade de divulgar informações científicas, uma vez que pode gerar uma visão da divulgação
como um meio de tornar o conhecimento produzido pela ciência "simplificado" para que assim seja inteligível ao público em geral.
De forma geral, quando pensamos na passagem de um texto científico para um de divulgação, é inevitável não associá-la a processos como simplificação, redução, adaptação, tradução, transposição, reformulação e recontextualização, por exemplo. Essas idéias trazem em si concepções sobre a própria atividade de divulgar ciência. Algumas delas são provenientes de estudos sobre a transformação que o conhecimento científico sofre ao passar para o campo escolar ou da divulgação (como a transposição ou a recontextualização). Outras são usadas simplesmente para mostrar mudanças que ocorrem na linguagem e na apresentação dos conceitos nessa passagem.
O problema central da simplificação é o comprometimento da precisão dos conceitos e da linguagem científica. Alguns defendem que o procedimento de "simplificar" para possibilitar a compreensão de assuntos sobre ciência por parte de um grande número de pessoas, de certa forma, " reduz " a ciência em sua complexidade e profundidade original (BARROS, 2002), uma vez que simplificação em demasia pode gerar distorções. Outros argumentam que a redução da complexidade para fins de inteligibilidade, mediada pela preocupação com a compreensão e formação do público leitor, consiste em uma das características da divulgação e que, desse modo, concessões ao rigor seriam necessárias.
Em alguns trabalhos que abordam a questão das transformações que o conhecimento científico sofre ao passar do contexto da ciência para o da divulgação, a idéia de simplificação é substituída pela de construção de e um novo saber, como aponta um estudo realizado por Martha Marandino (2004).
"a transformação do conhecimento científico com fins de ensino e divulgação não constitui simples "adaptação" ou mera "simplificação" de conhecimento, podendo ser então analisada na perspectiva de compreender a produção de novos saberes nesses processos" (MARANDINO, 2004:95, grifo nosso).
Nossa intenção não é aprofundar essa discussão, mas apenas mostrar que cada uma das idéias associadas à passagem do saber científico a um saber a a ser ensinado ou divulgado compreende uma concepção sobre a constituição desses saberes. Todavia, é importante frisar que no campo da pesquisa em ensino de física e de ciências, trabalhos que utilizam referenciais da área da análise do discurso mostram uma a preocupação com as transformações do discurso científico em termos de linguagem, das formas de argumentação, dos recursos textuais e visuais utilizados etc. Além disso, esses trabalhos sinalizam que essas transformações podem trazer implicações quanto à natureza do conhecimento científico, seus processos e produtos, e reforçam a necessidade de pensar criticamente o uso de materiais de divulgação como recurso complementar ao didático (MARTINS, CASSAB & ROCHA, 2001).
## (c) A quebra da linearidade (fragmentação)o)
Notícias dispersas. Ausência de contexto. Consolidação de uma visão única. Superficialidade no tratamento e reprodução dos acontecimentos. Esses são alguns aspectos das informações sobre ciência e tecnologia associados à fragmentação. O jornalista Wilson da Costa Bueno, em artigo intitulado "Comunicação para a saúde: uma revisão crítica", aponta essa quebra de linearidade, ou fragmentação, como uma característica da divulgação e do jornalismo de ciência.
"A divulgação científica pauta-a-se pela fragmentação, ou seja, as notícias e reportagens fluem na mídia como peças de um quebra-a-cabeça que nunca se completa. O leitor é bombardeado por um sem número de informações, diluídas ao longo das várias edições, que, se pudessem ser vistas conjuntamente, indicariam, de imediato, contradições insanáveis" 2 .
A fragmentação é uma característica marcante das informações. O poder de reprodução dos fatos pela mídia, a agilidade com que os acontecimentos são relatados e a velocidade de circulação das informações são fatores que contribuem para a chamada fragmentação da realidade. Ao leitor cabe selecionar e escolher entre as informações disponíveis aquelas que forem de seu interesse. Cabe também ao leitor articular as peças dessa realidade relatada de maneira fragmentada .
Para o jornalista José Marques de Melo, a atomização da realidade (onde o real é percebido em seus fragmentos - política, ciência, economia, cultura, saúde, educação etc. - e não em sua totalidade) em conjunto com o sensacionalismo (ou seja, a idéia de quque para vender é necessário despertar emoções) constituem características básicas sob as quais a ideologia mercantil do jornalismo se manifesta.
"O jornalismo científico é produto típico dessa ideologia do jornalismo na sociedade capitalista. Destina-s-se a apreender uma parte do real - aquela que ocorre nos laboratórios de pesquisa, que, por sua vez, só se torna notícia quando desperta sensação" (MARQUES DE MELO, 2006:116).
Nesse sentido, a realidade social é percebida e, portanto, constituída como uma sucessão de acontecimentos independentes (perde-se a conexão entre os fatos, e com isso, sua história). Exemplos dessa fragmentação são variados e, no campo da ciência, incluem principalmente a divulgação de descobertas científicas e de inovações tecnológicas recentes sem a apresentação de seus antecedentes e dos processos e procedimentos de investigação que deram origem a esses resultados. O acontecimento é destacado do contexto que o originou. Também são conseqüências dessa fragmentação a ausência de profundidade dos fatos noticiados e a unilateralidade peculiar das matérias jornalísticas e dos textos de divulgação sobre ciência, nos quais as fontes são consultadas para referendar um acontecimento, o que traz como conseqüência a consolidação de uma visão única, a, sem contraponto, referente ao assunto veiculado 3 .
Ressaltamos que a fragmentação não é uma característica unicamente dos meios de comunicação e da maneira como os fatos são por eles veiculados. Podemos, por exemplo, falar em fragmentação do conhecimento o científico na medida em que este se encontra cada vez mais especializado. Na perspectiva da educação em ciências e, mais especificamente, do ensino de física, olhares mais holísticos para o conhecimento científico e para a cultura científica fazem-s-se necesessários. Nesse sentido, buscar a contextualização dos fatos, construir sua historicidade, confrontar suas diferentes versões e articular este fato com outros afins são ações que se conseguem não apenas a partir de um exemplar de texto de divulgação (entendendo esse exemplar como uma matéria ou um artigo de divulgação), mas sim de um conjunto de exemplares selecionados e articulados para tal fim.
## 3. Divulgação científica e formação do espírito crítico: um desafio
De maneira geral, as pesquisas na área de ensino de física que propõem a utilização de textos de divulgação em sala de aula atribuem à divulgação o papel de facilitar a compreensão das relações entre ciência, tecnologia e sociedade, de contribuir para a formação de uma imagem de ciência adequada e crítica, assim como para reflexões sobre ciência, suas aplicações e implicações sociais destas. Encontramos nessas pesquisas, inclusive, propostas de instrumentos para a análise de artigos de revistas e jornais e relatos de estratégias metodológicas para uso desses artigos em sala de aula (SILVA & CRUZ, 2004; GABANA, LUNARDI & TERRAZZAN, 2003).
No entanto, do que exposto anteriormente, uma reflexão sobre o papel educacional da divulgação científica e sua potencialidade para auxiliar na formação de atitudes críticas não pode ser feita desvinculada das formas pelas quais os materiais de divulgação podem ser incorporados pela escola, nas aulas de física, por exemplo. Além disso, muito embora determinados textos de divulgação apresentem informações referentes aos impactos sociais e ambientais decorrentes do desenvolvimento científico e tecnológico, por exemplo, ou esbocem cenários mundiais que refletirão a atual ação do homem sobre a natureza, é importante, se o objetivo é desenvolver o olhar crítico (e, portanto, ir além de "informar"), que informações sejam confrontadas, que controvérsias sejam levantadas, o que implica a leitura de textos publicados por diferentes veículos de comunicação, postura esta também ressaltada pela jornalista Graça Caldas.
"Sabeese, que a aquisição do conhecimento e a formação crítica de leitores não se dá pela leitura única de um veículo, mas justamente pela comparação entre eles. É exatamente pelo acesso ao contraditório, à percepção e ao reconhecimento de diferentes visões e interpretaçações de um mesmo fato, pela polifonia das vozes, que é possível efetuar uma leitura do mundo que vá além da leitura das palavras" (CALDAS, 2006:126-6-127).
Nesse sentido, fazer comparações entre as publicações de divulgação, em busca de diferentes versões de um mesmo fato, possibilitaria uma compreensão mais ampla dos acontecimentos noticiados pelas diferentes mídias (jornais, revistas, boletins etc.) e também do próprio funcionamento dos meios de comunicação, com suas ideologias, seus valores e interesses. O O estabelecimento de relações entre as informações e o conteúdo destas, a identificação de contradições e o reconhecimento das diferentes formas de se apresentar e interpretar um mesmo fato são práticas que podem auxiliar na capacitação de leitores críticos. Paulo Freire acrescenta a essa discussão a curiosidade crítica como um elemento chave na superação de posturas ingênuas e no desenvolvimento de atitudes críticas.
"Uma leitura de mundo crítica implica o exercício da curiosidade e o seu desafio para que se se saiba defender das armadilhas, por exemplo, que lhe põem no caminho as ideologias. As ideologias veiculadas de forma sutil pelos instrumentos chamados de comunicação. Minha briga, por isso mesmo, é pelo aumento de criticidade com que nos podemos defender desta força alienante. Esta continua sendo uma tarefa fundamental de prática educativo-o-democrática. Que poderemos fazer, sem o exercício da curiosidade crítica, em face do poder indiscutível que tem a mídia e a que Wright Mills já se referia nos anos 50, em A elite do poder, de estabelecer sua verdade como a verdade? Ouvi no jornal da TV X, é o que dizem muitos de nós, sem dúvida, quase absolutamente possuídos pela verdade sonora e coloridamente proclamada" (FREIRE, 2000:49).
O desenvolvimento de um olhar crítico para os meios de comunicação também passa pelo reconhecimento e pela discussão de características como o
sensacionalismo, a fragmentação e a simplificação, as quais foram brevemente discutidas anteriormente. Nesse sentido, o trabalho com textos de divulgação em sala de aula, visando a formação do espírito crítico de nossos educandos, além de possibilitar discussões a respeito das relações entre ciência, tecnologia e sociedade, dos impactos sócio-ambientais decorrentes do desenvolvimento científico e tecnológico, da política científica nacional etc., também precisa proporcionar uma reflexão crítica e analítica sobre os próprios meios de comunicação, o que envolve o desvelamento de ideologias, o reconhecimento dos recursos utilizados para atrair o leitotor e suas influências sobre os conteúdos das informações noticiadas, as estratégias de narrativas e linguagem, a estrutura textual e as características dos textos informativos etc.
Em revisão bibliográfica de pesquisas na área de ensino de ciências que realizamos (RIBEIRO & KAWAMURA, 2006), mostramos que a ênfase das práticas com textos de divulgação nas aulas de ciências é dada ao potencial desse material em fomentar discussões sobre as relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Todavia, reflexões sobre as peculiaridades dos meios de comunicação, assim como a explicitação dessas características, ainda são poucas na área. Ao nosso ver, discussões dessa natureza são fundamentais para o desenvolvimento de posturas críticas frente às informações que recebememos e procuramos diariamente. Segundo o jornalista José Marques de Melo, "é preciso oferecer aos novos leitores instrumentos eficazes para torná-los leitores críticos" (MARQUES DE MELO, 2006:166).
## CONSIDERAÇÕES E AFINAIS
Nesse trabalho, procuramos apresenentar algumas discussões que subsidiassem pensares sobre características dos meios de divulgação científica, assim como da ciência por eles veiculada, essenciais de serem consideradas quando os entendemos como meios para a educação cientifica e como recursos os para o ensino de ciências. Com isso, almejávamos ressaltar a importância de um olhar crítico para esses meios e para o que eles veiculam, um olhar que busca transcender o explícito e emergir dele para imergir em suas peculiaridades, suas condições de produção, suas imagens, suas luzes e sombras.
Quanto aos veículos de informação, as diferenças de ênfases e abordagens, assim como as próprias características dessas diferentes mídias são fundamentais para o desenvolvimento de visões amplas tanto sobre o processo de construção do conhecimento científico, quanto sobre as formas de divulgação desse conhecimento. O contato com maneiras diversificadas de se abordar um mesmo tema, tanto em relação ao conteúdo, quanto à forma sob a qual este é apresentado enriquece e as discussões e amplia o leque de relações que o aluno pode estabelecer entre o conhecimento formal (escolar) e o conhecimento informal. Nesse sentido, ressaltamos que a simples ação de levar materiais de divulgação e notícias sobre ciência para a sala de aula não dá a esse material uma função educativa.
Os materiais de divulgação científica, por apresentarem linguagens e discursos diferenciados dos característicos de materiais didáticos, assim como por abordarem temas de atualidade, apresentam um grande potencial para serem explorados como instrumentos de apoio ao trabalho do professor em sala de aula. Entretanto, devemos ter claro que a utilização desses materiais não deve ser indiscriminada, uma vez que estes possuem características e qualidades variadas. É necessário ter clareza quanto à intenção por trás da escolha e uso de cada texto,
porque além do conteúdo, esses materiais apresentam linguagens, abordagens, discursos e características e estruturação diferentes daqueles que caracterizam os livros didáticos.
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