O ENSINO DE FÍSICA E O PORTUGUÊS: DIFICULDADES NO ENSINO MÉDIO
Daniel De Andrade Moura, Suzana Cristina De Andrade Souza
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O ENSINO DE FÍSICA E O PORTUGUÊS: DIFICULDADES NO ENSINO MÉDIO
## Daniel de Andrade Moura 1 , Suzana Cristina de Andrade Souza 2
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UFABC, ascencao@hotmail.com 2 IFSP, suzy\_cris@hotmail.com
## Resumo
A última avaliação da escola estadual de São Paulo apresentou um dado preocupante: aproximadamente trinta e sete por cento dos formandos do ensino médio e vinte e oito por cento dos formandos da educação fundamental apresentam nível de português abaixo do adequado. O baixo nível de compreensão da língua traz conseqüências diretas para todas as disciplinas do ensino médio, entre elas a física que apresenta aos alunos diversos conceitos científicos associados à linguagem matemática (que também teve um baixo desempenho em São Paulo). O presente artigo traz um estudo sobre esta questão, com o intuito de auxiliar o professor de física a compreender o problema e criar estratégias para contorná-lo. Para obtenção dos dados, duas turmas de primeiro ano do ensino médio, uma de escola particular e outra de escola estadual, foram acompanhadas durante o ano letivo de 2011. Foi possível concluir que o português ruim acabou contribuindo mais do que a matemática com o mau desempenho dos alunos da rede estadual na disciplina Física.
Palavras-chave : analfabetismo funcional e ensino de física.
## Introdução
A matemática e a língua portuguesa são duas disciplinas fundamentais para o ensino escolar e, por isso, são avaliadas constantemente por meio de avaliações a nível estadual e federal.
Na avaliação sobre a proficiência em português e matemática realizada pelo estado de São Paulo no ano de 2011 por meio do SARESP foram obtidos dois índices preocupantes: no ensino médio, 58 % dos alunos se formam com conhecimentos insuficientes em matemática e 37 % não possuem português abaixo do adequado (SARESP, 2012). No ensino fundamental os resultados também são alarmantes: 28 % dos formandos não possuem um nível de português adequado e . Este quadro acaba por dificultar o trabalho do docente, principalmente na área de exatas que além de ter por requisito mínimo o domínio da língua também necessita de um bom desempenho em matemática básica por parte do aluno.
No ensino de física, espera-se que o aluno compreenda diversos fenômenos naturais por meio de conceitos pertinentes aos mesmos e que possa interpretá-los e fazer algumas aferições utilizando a linguagem matemática. O educando deve ser capaz de, segundo o PCN (MEC, 2000, p. 83), 'frente a uma situação ou problema concreto, reconhecer a natureza dos fenômenos envolvidos, situando-os dentro do conjunto de fenômenos da Física e identificar as grandezas relevantes, em cada caso'.
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20 a 25 de janeiro de 2013
Porém, a deficiência em Português e Matemática certamente atrapalham o desempenho dos educandos, e tornam o trabalho do professor de física ainda mais árduo.
Tendo em vista este cenário, o presente trabalho busca responder a seguinte pergunta: 'Quem contribui mais para um mau desempenho dos alunos na área de física: a matemática ou o português?'. Para responder a questão, os autores deste artigo acompanharam 2 turmas de ensino médio do primeiro ano de uma escola estadual de São Paulo, localizada no bairro de Vila Maria, e 1 turma do mesmo ano de uma escola particular, localizada em Guarulhos. Além de observar aulas de física ministradas em 2011, os pesquisadores conversaram com professores da área de exatas a respeito do tema.
Inicialmente o artigo trata a questão do analfabetismo funcional, com o intuito de embasar e contextualizar a pesquisa. Depois, são apresentados os pontos de vista dos alunos e dos professores a respeito das dificuldades oriundas da falta de domínio da língua portuguesa. Por fim, são apresentados alguns dados a partir do que foi observado pelos autores do presente trabalho.
## O analfabetismo no Brasil
Há alguns anos atrás, uma das grandes preocupações do governo brasileiro era o analfabetismo. Naquela época, o analfabeto era visto como aquela pessoa que não sabia ler e escrever simplesmente. Porém, com o passar dos anos a definição de alfabetização mudou:
'Em 1958, a Unesco definia como alfabetizada uma pessoa capaz de ler ou escrever um enunciado simples, relacionado a sua vida diária. Vinte anos depois, a Unesco sugeriu a adoção do conceito de alfabetismo funcional. É considerada alfabetizada funcional a pessoa capaz de utilizar a leitura e escrita para fazer frente às demandas de seu contexto social e de usar essas habilidades para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida' (RIBEIRO, 2006).
Embora o Brasil tenha incluído boa parte da sua população na rede escolar e diminuído a quantidade de pessoas analfabetas (no sentido de saber ler e escrever, simplesmente) no país, o analfabetismo funcional é um fantasma que assombra muitos brasileiros. Ainda é muito grande o número de pessoas que sabem ler, mas não conseguem compreender ou interpretar textos.
Segundo o IBGE (2012), 20,3 % dos brasileiros são analfabetos funcionais. Porém, o instituto considera como pessoa alfabetizada funcionalmente aquela que cursou até a quarta série do ensino fundamental. Será que este nível de escolaridade garante que a alfabetização funcional de individuo? Ribeiro (2006) responde a esta pergunta:
- 'A pergunta não tem resposta categórica, pois o conceito é relativo, dependente das demandas de leitura e escrita existentes nos contextos e das expectativas que a sociedade coloca quanto às competências mínimas que todos deveriam ter. É por isso que, enquanto nos países menos
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desenvolvidos se toma o critério de quatro séries escolares, na América do Norte e na Europa toma-se oito ou nove séries como patamar mínimo para se atingir o alfabetismo funcional. E, mesmo já tendo estendido a escolaridade de oito ou até 12 séries para praticamente toda a população, muitos países norte americanos e europeus continuam preocupados com o nível de alfabetismo da população, tendo em vista, principalmente, as exigências de competitividade no mercado globalizado. O grau de escolaridade atingido já não satisfaz como critério de alfabetismo'.
Ao observar os resultados do SARESP, é possível perceber o nível baixo de entendimento do português e, a partir daí, imaginar o grau de analfabetismo funcional presente no ensino médio. Isto acaba por prejudicar o ensino de diversas disciplinas, entre elas a física.
## O texto no Material Didático de Física
Com o decorrer dos anos, os materiais didáticos destinados ao ensino de física sofrem mudanças no que se refere a parte textual em seu interior. Atualmente, eles possuem mais textos. Isto ocorre em decorrência da mudança do contexto escolar, do desenvolvimento dos estudos na área de física, das transformações pelas quais o mundo passo, entre outros fatores.
A contextualização, ferramenta muito defendida por estudiosos da área do ensino de física, é um elemento que contribuiu e contribui com o acréscimo de textos. Ao comparar um livro didático de física de 30 anos atrás com um atual, é possível perceber uma mudança importante: a contextualização. Embora o conteúdo central ainda seja muito semelhante, os livros atuais possuem cada vez mais textos históricos e quadros que buscam contextualizar o conteúdo. Ela também é tendência nos outros materiais didáticos destinados ao ensino de física: parte das apostilas utilizadas em escolas particulares tenta aproximar o conteúdo ao universo do aluno e o 'caderno do aluno' usado na rede estadual de São Paulo é repleto de textos que instigam o educando a perceber a presença da Física em seu cotidiano.
Na busca da aproximação ao universo do aluno, os materiais didáticos modificaram a linguagem empregada. Embora ela ainda seja culta, é possível perceber um texto mais claro e simples nos materiais mais novos. Diversos autores usam o fato de empregarem esta forma de linguagem como uma vantagem no uso de suas obras. Um exemplo disso é a afirmação de Luz e Álvares (2011, p. 2.5):
'No desenvolvimento de toda a nossa obra tivemos especial atenção com a linguagem usada, procurando desenvolver todos os textos com correção gramatical, sintática e linguística, atentando também para um aspecto que julgamos imprescindível em livros escolares: uma redação de fácil compreensão tanto pelos professores quanto pelos alunos e mesmo por pessoas leigas'.
Outro exemplo disto é a afirmação feita para o aluno por Gaspar (2010, p. 3):
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'Cada capítulo começa com uma página dupla, ilustrada por algum fenômeno natural ou construção humana que mostra a importância do conteúdo a ser estudado. Em seguida, é apresentado o texto básico em linguagem simples e acessível'.
Nas obras antigas, muitos textos eram curtos, diretos, complexos e descontextualizados, o que provavelmente dificultava o aprendizado dos alunos.
## O ponto de vista dos professores
Para a obtenção dos dados desta seção, foram os autores conversaram com docentes das duas escolas que foram objetos de pesquisa, sendo que 3 professores são de física, 2 de química e 3 de matemática.
Os professores de exatas acham que o nível básico de aprendizado dos alunos está abaixo do adequado, tanto na escola pública como na particular, porém na rede estadual o problema é mais alarmante. Isto acaba por desmotivar tanto o aluno, que muitas vezes não compreende o que o material didático diz e o professor que se vê rodeado de alunos sem ferramentas matemáticas e compreensão textual adequados ao aprendizado das ciências naturais.
Em relação a questão central do trabalho, a maioria dos docentes (66 %) acham que a falta de base matemática é a principal barreira para o aprendizado. Eles alegam que como o aluno não consegue desenvolver cálculos simples eles acabam por não conseguir resolver problemas simples na área de exatas. Também afirmam que isto limita a abordagem a ser trazida em sala de aula.
Embora a fala dos professores sejam semelhantes, é preciso dizer que o material utilizado nas escolas estaduais de São Paulo possui mais textos e menos matematização do que aqueles utilizados no colégio particular. Isto ocorre porque no estado a preocupação com o vestibular é menor e o excesso de conteúdo e a 'decoreba' de equações não são prioridades.
Por fim, vale destacar que a visão dos professores sobre os materiais didáticos diverge. Alguns (37,5 %) acham que os materiais mais antigos eram melhores, pois aprofundavam mais o assunto; outros (25 %) preferem o material da rede estadual, pois ele contextualiza e inclui o aluno como ator ativo no seu aprendizado; o restante (37,5 %) gosta dos livros didáticos atuais e sistemas apostilados, como o do Positivo, pois acham que eles possuem textos e contextualizam de forma satisfatória.
## O ponto de vista dos alunos
As informações desta seção foram obtidas a partir de entrevista com 40 alunos, sendo 30 da escola estadual e 10 da particular.
Na visão da maioria dos educandos (75 %), a maior dificuldade é compreender o que um problema de física exige em sua resolução. Eles não
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conseguem entender o enunciado de uma série de exercícios propostos e tem dificuldade em saber que equação utilizar.
Um fato que chama a atenção é o desprezo dos alunos de ambas as escolas no que concerne ao material didático utilizado na rede estadual. Ambos acham o conjunto de apostilas muito fraco, por deixar de focar uma série de conteúdos que serão cobrados a posteriori no vestibular. De fato, o material do estado não prepara o educando para a realização do vestibular.
No que diz respeito ao material utilizado na escola particular (Sistema apostilado Positivo), muitos alunos (60 %) da linguagem empregada e preferem usar livros didáticos para estudar.
Por fim, um dado preocupante: todos os alunos entrevistados dizem nunca ter ido a uma biblioteca fora da escola. Toda vez que vão buscar informação, o fazem com o uso da internet e não se preocupam com a autenticidade dos conteúdos obtidos nesta mídia.
## O português durante as aulas
Os autores assistiram as aulas de três turmas do primeiro do ensino médio durante 4 meses: de março a junho de 2011 em ambas as escolas. O conteúdo apresentado nesta seção foi escrito a partir do que foi observado nestas aulas.
Durante as aulas iniciais, os alunos da escola estadual se mostram comportados, pois ainda não conhecem o professor da disciplina. O educador explica como se darão as suas aulas e incentiva os alunos a lerem o primeiro tema do material didático (o 'Caderno do aluno') para que eles possam ter um melhor desempenho na próxima aula. O incentivo a leitura prévia é uma constante nas demais aulas deste professor.
Após algumas aulas, foi possível perceber que os alunos não liam previamente os textos sugeridos pelo professor, que acabava explicando-os em sala. Os alunos alegavam que não conseguiam entender o que a apostila queria dizer e, quando se tratava de propostas de atividades, achavam a maioria sem sentido, sem relação com o que viriam a aprender na Física. A reclamação dos alunos dificilmente se referia a matemática, pois como eles mal compreendiam o que os textos queriam dizer acabavam por não chegar na matematização proposta pelos mesmos.
Na escola particular o quadro era diferente. O material didático utilizado foi a apostila Positivo e os alunos no qual os alunos confiavam (embora dissessem achar o sistema Anglo e o Etapa mais fortes). Apesar na confiança no material, o mesmo problema encontrado na escola pública persistia: muitos alunos reclamavam da complexidade do texto das apostilas. Em algumas das aulas, uma aluna chegou a afirmar que não faltava as aulas de física, pois sabia que se precisa compreender o assunto a partir da apostila não iria conseguir.
A principal reclamação dos alunos da escola particular era no que diz respeito a enunciados dos problemas. Eles tinham dificuldade em compreender que era solicitado e qual equação utilizar para chegar à solução.
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## Conclusão
É possível concluir, a partir dos dados desta pesquisa, que a falta de entendimento dos textos presentes em materiais didáticos contribui mais com a falha no aprendizado do que a falta de base matemática, diferente do que muitos professores da área de exatas pensam. Isto ocorre porque como os alunos não conseguem compreender a situação-problema exposta em enunciados de exercícios ou não entendem textos didáticos de livros acabam por não utilizar usar a matemática de forma satisfatória.
## Referências
GASPAR, Alberto. Compreendendo a Física - volume 1: Manual do Professor. São Paulo: editora ática, 2011.
IBGE. Disponível em < http://www.ibge.gov.br/home/>. Acesso em agosto de 2012.
LUZ, Antonio Máximo Ribeiro e ÁLVARES, Beatriz Alvarenga. Curso de Física - volume 1: Manual do Professor. São Paulo: editora Scipione, 2011.
MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Publicado em 2000. Disponível em < http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/blegais.pdf>. Acesso em agosto de 2012.
RIBEIRO, Vera Masagão. Analfabetismo e alfabetismo funcional no Brasil. Boletim INAF. São Paulo: Instituto Paulo Montenegro, jul.-ago. 2006.
SARESP. Disponível em <http://saresp.fde.sp.gov.br/2011/>. Acesso em agosto de 2012.
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