Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

Um experimento sobre fisiologia muscular como ferramenta de ensino interdisciplinar de biofísica para alunos em ciências da saúde

Alisson Mazzorani Vieira, Paola Jardim Cauduro, Everton Lüdke

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
22/01/2013
Linha de pesquisa
Linguagem E Ensino De Física
Tipo
Pôster

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2013

Texto completo

## UM EXPERIMENTO SOBRE FISIOLOGIA MUSCULAR COMO FERRAMENTA DE ENSINO INTERDISCIPLINAR DE BIOFÍSICA PARA ALUNOS EM CIÊNCIAS DA SAÚDE

Alisson Mazzorani Vieira , Paola Jardim Cauduro , Everton Lüdke 1 2 3

- 1 Universidade Federal de Santa Maria/Departamento de Física/alissonmazzorani@live.com
- 2 Universidade Federal de Santa Maria /Departamento de Física/paola.pjc@gmail.com
- 3 Universidade Federal de Santa Maria /Departamento de Física/eludke@smail.ufsm.br

## Resumo

Baseado na disponibilidade de microcontroladores e das ferramentas de desenvolvimento de recursos experimentais de baixo custo para laboratórios de física básica e biofísica, propomos, neste trabalho, ferramentas básicas para avaliação e estudo quantitativo de propriedades fisiológicas e cinesiológicas de alguns musculares importantes do corpo humano. Apresentamos detalhes da construção de um equipamento para coleta de dados sobre força e velocidade para os músculos tríceps e bíceps, sendo que o aparelho pode ser fixado ao chão para possibilitar o estudo dos músculos sartório, reto femoral e vastos lateral, medial e intermédio que agem sobre a flexão do joelho. Os parâmetros obtidos visam obter a lei de Hill para contração muscular quantitativamente, que é uma relação matemática importante em estudos de biofísica muscular e do exercício. Aplicações diversas do experimento também são descritas.

Palavras-chave : Avaliação, ensino de Biofísica, metodologia de Gagné.

## O laboratório didático de biofísica

Em nossa visão, é importante o desenvolvimento de novas tecnologias que possibilitem aos alunos de cursos de ciências da saúde como enfermagem e fisioterapia, estabelecer e explorar experimentalmente os diversos conceitos estudados em disciplinas de primeiro ano de seus cursos universitários. Em particular, na disciplina de Biofísicas não se dispõem comercialmente de recursos e experimentos suficientes para que os alunos adquiram e explorem os conceitos estudados de uma forma a satisfazer as diretrizes curriculares. Na prática, sabemos que é difícil encontrar artigos publicados sobre ensino experimental em biofísica pelas carências na formação de professores em universidades onde a interdisciplinaridade como entre a física e a biologia é difícil de ser implementada (PIERSON; NEVES, 2001).

Em particular, buscamos experimentos de biofísica de baixo custo e fácil manutenção (AXT; MOREIRA, 1991) que possibilitem aos professores administrar melhor a progressão das aprendizagens, envolver os alunos em suas aprendizagem pelo meio de discussões em equipe e que possam administrar sua própria formação continuada pela utilização competente de novas tecnologias e a formação de grupos interdisciplinares para a resolução de problemas. Lévy (2008) destaca que, no ensino moderno,

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

20 a 25 de janeiro de 2013

'...o pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e traduzem as representações.'

De uma forma geral, também percebemos a necessidade de implementar experimentos de baixo custo para que os estudantes possam entender o processo de metodologia experimental de aquisição de dados por computador, ainda nos primeiros semestres das suas atividades curriculares regulares. A melhoria da precisão dos resultados obtidos, otimização e agilização dos grupos de estudantes na obtenção rápida dos dados e interpretação dos resultados pela análise estatística ou ajuste de funções permitem usar o tempo de laboratório no sentido de criar um ambiente adequado para construção do conhecimento (PRAIA; CACHAPUZ; GILPÉREZ, 2002) onde os alunos constroem seu próprio conhecimento a partir da dinâmica experimental que representa a realidade profissional que deverão enfrentar e conhecer (MORAES, 2003).

Portanto, o objetivo desse trabalho é descrever um experimento para um estudo qualitativo e quantitativo de propriedades biofísicas da contração muscular, na forma da determinação experimental da lei de Hill, integrando conceitos de anatomia, fisiologia e cinesiologia para alunos de ciências da saúde.

## Descrição técnica do experimento

O equipamento consiste em uma parte mecânica composta de roldanas de baixo atrito que foram confeccionadas em um torno mecânico, pelas quais correm uma corda de algodão ou Nylon de 2 mm de espessura e que suspendem um peso de calibração de 5 Kg para estudos dos músculos bíceps e tríceps dos braços direito e esquerdo de um aluno escolhido pelo grupo. A figura 1 abaixo mostra a construção da parte mecânica, fixada a uma carteira escolar de 40x60 cm por meio de parafusos:

Figura 1 - Esquema de construção do medidor de força e velocidade muscular.

<!-- image -->

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Na figura 1, podemos ver as três polias numeradas de 1 a 3 e a corda flexível passando pelas polias 1 e 2. Com uma manopla tubular de madeira na extremidade da esquerda e o peso de 5,0 kg na extremidade direita. Segurando a manopla com o dorso da mão para cima, o aluno pode flexionar o antebraço realizando trabalho mecânico para baixo, empregando o músculo tríceps e medindo a tensão no fio e a velocidade de movimentação do peso durante a realização do exercício. Passando a corda pela polia 3, o aluno segura a manopla com o dorso da mão para baixo realizando flexões do músculo bíceps. Para teste dos músculos de locomoção dos membros inferiores, o peso de calibração deve ser substituído por um de 10 Kg, a manopla por uma tornozeleira de couro com presa à corda e o equipamento colocado no chão.

- O equipamento possibilita obter a tensão T máxima no fio em Newtons durante a realização do exercício e medir a velocidade máxima do fio V durante a tração do peso no display acoplado ao computador de controle do instrumento. A velocidade máxima é fornecida pelo computador, calibrada em metros por segundo devido ao software residente que corrige as funções de transferência do encoder óptico e do sensor de tração do fio.
- O encoder óptico acoplado à polia 2 está mostrado na figura 2, cujas ranhuras pintadas sobre o disco de acrílico preso ao mesmo eixo da polia e alinhado paralelamente a ela (no desenho está perpendicular apenas para ilustração). Para o sensor de tensão no fio, reaproveitamos um 'strain sensor' de uma balança digital de baixo custo, que apresenta uma leitura linear da função de transferência de voltagem na faixa de 0 e 25 mV versus tensão mecânica no intervalo entre 0 e 25 kgf.

Figura 2 - Esquema de construção do medidor de força e velocidade muscular.

<!-- image -->

No projeto usamos rolamentos de patins de 2,2 cm de diâmetro externo e polias de máquinas de costura de 4,5 cm de diâmetro externo.

Embora microcontroladores da linha Arduino tenham sido recentemente utilizados no controle de experimentos de física ( CAVALCANTE; TAVOLARO; MOLISANI, 2012 ), resolvemos empregar o microcontrolador da microchip PIC18F4550 pela versatilidade superior. A figura 3 mostra a topologia básica do

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

circuito do computador de controle, onde as portas AN0 e AN1 são usadas como conversores analógico-digitais para o encoder de velocidade e tensão do fio.

<!-- image -->

O programa residente gravado no microcontrolador monitora a frequência de pulsos geradas pelo encoder de velocidade mostrado na figura 2 e o nível de tensão produzida pelo encoder de tensão mecânica sobre o fio, que está posicionado entre a corda e o peso de calibração, registrando a média das velocidades e tensões máximas no cabo com a evolução dos exercícios e mostrando os valores no mostrador digital LCD que são anotados pelos alunos, para diferentes velocidades de execução do mesmo exercício pelo 'aluno-paciente'. Os LEDs coloridos monitoram se a aquisição dos dados é confiável (acende LED verde) ou não confiável (acende LED vermelho). LED amarelo indica que o exercício deve ser melhorado.

## Descrição das atividades experimentais

Os participantes desta pesquisa foram alunos do curso de Fisioterapia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) durante o ano de 2012.

Os alunos foram selecionados em grupos de quatro pessoas, sendo que três efetuam as medidas e um deles faz o papel de um 'paciente' cuja movimentação muscular deve ser estudada.

Os pontos de inserção dos tendões de flexão (músculos bíceps) e extensão (tríceps) do antebraço podem ser estimados em relação ao epicôndilo lateral e medial (úmero) e acrômio (segmento clavicular), usando um livro de anatomia topográfica como MOORE e DALEY (2001) e uma fita métrica. O problema 24 do

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

capítulo 13 do livro HALLIDAY, RESNICK e WALKER (1996) descreve um equipamento similar e a geometria para aplicação dos conceitos de conservação do momento linear e angular para obtenção da tensão no fio e sua relação com a tensão muscular Tm e velocidade máxima no ponto de inserção do músculo no antebraço Vm , resolvendo o problema das alavancas com a física conhecida do primeiro semestre de curso para modelagem da máquina. Um programa em linguagem C é escrito com o compilador DevC++, de distribuição gratuita na internet, para obtenção de Fm e Vm nos tendões do músculo bíceps ou tríceps a partir da tabela que contem V e T medidas pelo computador de controle, disponibilizados pelos alunos para 10 medidas. Um arquivo em formato texto é gerado pelo programa que modela a máquina e as dimensões ergométricas, que pode ser plotado com o programa 'freeware' gnuplot para visualização da hipérbole que caracteriza o comportamento muscular segundo a lei de Hill (Fm-a)(Vm-b)=const .

Os alunos também podem ajustar as constantes a e b da lei de Hill para a contração muscular na fórmula, empregando diversos programas de ajustes ou escrevendo os seus próprios programas em linguagem C ou FORTRAN.

Diversos parâmetros musculares podem ser estimados a partir de equações conhecidas para a física dos exercícios (GOMES; PARTELI, 2001 e CARR; RASCH, 2001). Empregando um ultrassom de uso clínico, pode-se medir a massa muscular e espessura do bíceps e tríceps e tentar relacionar essas variáveis com as constantes de ajustes da lei de Hill para uma amostra de 5 ou mais alunos, usando a estatística para comprovar a validade das relações identificadas. Em um artigo futuro, vamos explorar essas medidas que definem as condições musculares de bíceps e tríceps e efeitos do hábito da academia de exercícios em adultos jovens e da física aplicada ao desenvolvimento da biomecânica do exercício (OKUNO; FRATIN, 2003).

## Considerações finais

Os resultados obtidos mostraram que o experimento proposto tem se mostrado muito útil para o ensino de métodos de laboratório no estudo de parâmetros da biofísica muscular e na determinação da lei de Hil.

Os alunos que participaram do experimento frequentemente referiram a necessidade da integração entre a física básica e as disciplinas de primeiro e segundo semestre de curso como fisiologia e cinesiologia, manifestando interesse em entender os processos de medida em biofísica.

Acreditamos que o experimento possibilita, como ganho adicional, fomentar discussões entre os alunos sobre as relações da física com o esporte e o entendimento das grandezas musculares envolvidas no exercício pela análise de diferentes grupos de fibras musculares, fomentando práticas educacionais em níveis mais avançados do conhecimento de física e tecnologia aplicados às ciências da saúde, com uma boa introdução a medidas biométricas auxiliadas por computadores.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

## Referências

AXT, R.; MOREIRA, M.A. O ensino Experimental e a Questão do Equipamento de Baixo Custo. Revista Brasileira de Ensino de Física. São Paulo, v.13, p.97-103, 1991.

CARR, G. and RASCH, P. J., Biomecânica do Esporte , Ed. Manole Ltda (2001).

CAVALCANTE, M.A.; TAVOLARO, C.R.C.; MOLISANI, E. Física com Arduino para iniciantes . Revista Brasileira de Ensino de Física. São Paulo, v. 33, p.4503, 2011.

DRIVER, R.; ASOKO, H.; LEACH, J.; CASTILHO, D.H. Construindo conhecimento científico na sala de aula. Química Nova na Escola, São Paulo, n.9, p.31-40, 1999.

GOMES, M.A.F; PARTELI, E.J.R. A física nos esportes . Revista Brasileira de Ensino de Física. São Paulo, v. 23. p.10-18, 2001.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos da Física 2 - Gravitação, Ondas e Termodinâmica , 4a edição, São Paulo: LTC. p.18, 1996.

LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática., 15ª reimpressão , São Paulo: Editora 34, 2008.

MOORE, K.L.; DALLEY, A.F. Anatomia orientada para a clínica , 4ª. Edição, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.

MORAES, R. Construtivismo e ensino de ciências. Porto Alegre: EDPUCRS, 2003.

OKUNO, E., FRATIN, L.; Desvendando a Física do Corpo humano: Biomecânica ; Ed Manole, 2003.

PIERSON, A; NEVES, M. Interdisciplinaridade na formação de professores de ciências:conhecendo obstáculos. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v.1, n. 2, pp. 19-30 (2001).

PRAIA, J.F.; CACHAPUZ, A.F.C.; GIL-PÉREZ, D. Problema, teoria e observação em Ciência: para uma reorientação epistemológica da educação em ciência . Ciência &amp; Educação, Bauru, v.8, n.1, p. 127-145, 2002.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.