A PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA, O CONTEXTO DAS EFAS E AS TEORIAS E LEIS GERAIS DA FÍSICA.
Ana Lúcia Vilaronga Barreto, Milton Souza Ribeiro Miltão
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Educação, Política E Sociedade
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA, O CONTEXTO DAS EFAS E AS TEORIAS E LEIS GERAIS DA FÍSICA.
Ana Lúcia Vilaronga Barreto , Milton Souza Ribeiro Miltão 1 2
1 Universidade Estadual de Feira de Santana/Departamento de Física/aninha.vilaronga@yahoo.com.br
2 Universidade Estadual de Feira de Santana/Departamento de Física/miltaaao@ig.com.br
## Resumo
Constam neste trabalho informações que se referem ao modo de ensinar e compreender a Física no cenário que abrange a educação do campo. A referência é o contexto educacional das EFAs (Escolas Famílias Agrícola) na Bahia. O objetivo é refletir e debater o Ensino de Física no nosso universo de pesquisa (EFAs integradas à REFAISA - Rede de Escolas Famílias Agrícolas Integradas do Semiárido). O estudo deste universo tem possibilitado a compreensão da inoperância das políticas públicas quando se trata de educação do campo. A educação rural vem pautada no fato de ser controlada pelo poder político e econômico. O campo ganha sentido no decorrer da década de 1930, a partir do momento em que se tem a concepção de que os sujeitos devem ser inseridos no processo educacional. É a partir da década de 1930 que o campo começa a ser incluído no modelo de educação, aliado a projetos que buscam a sua valorização, apesar de que o que se pode observar é o fracasso no desempenho das políticas públicas. É neste contexto que estamos desenvolvendo esta pesquisa com base no conceito de Etnofísica e obtendo alguns resultados por meio de viagens de campo e questionários aplicados para tirarmos conclusões que nos permitam dar contribuições no que se refere ao ensino de Física em algumas EFAs no Estado da Bahia.
Palavras-chave : Etnofísica, Educação do Campo, EFAs
## Introdução
Este trabalho situa-se no conjunto de discussões acadêmicas que envolvem a Rede de Escolas Famílias Agrícola Integradas do Semiárido (REFAISA) em parceria com a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). De modo geral, o projeto desenvolvido consiste em estudos sobre educação do campo e técnicas de procedimentos pedagógicos mais apropriados de funcionamento e qualidade de ensino. Neste contexto os conhecimentos do Campo do Saber da Física se inserem (BARRETO e MILTÃO, 2011a), e o nosso trabalho objetiva dar uma contribuição para que esta proposta se realize buscando uma melhor formação no meio em que vivem os sujeitos da pesquisa que se constituem em monitores e estudantes.
- O perfil metodológico das Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) é baseado na Pedagogia da Alternância (PA), que é uma alternativa para a Educação no campo, pois como se sabe o ensino neste contexto não contempla as necessidades da população que vive neste universo. Alguns problemas educacionais encontrados nas escolas no meio rural dão origem à necessidade de uma proposta educacional específica para o campo. Podem ser listados alguns desses problemas, tais como: a escola divorciada da realidade local, a falta de recursos para atividades básicas do campo, a necessidade dos alunos ficarem na propriedade com sua família para
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20 a 25 de janeiro de 2013
trabalhar e terem dificuldades de acompanhar o calendário tradicional das escolas, dentre outras dificuldades.
É neste contexto que a Física é analisada. Diante das experiências que se obteve, foi fácil perceber o quanto ela é descontextualizada do cotidiano dos estudantes. Sabemos o quanto esta falta de conexão dos conteúdos descritos no currículo com as realidades nas quais os alunos se inserem torna o processo de ensino e aprendizagem mais difícil porque pouco estimula a curiosidade e o interesse dos educandos. Ademais, nota-se que os saberes intuitivos dos educandos são, na maioria das vezes, esquecidos, ocasião em que muitos entram em conflito com os conhecimentos científicos apresentados por meio de uma abordagem teórica, de maneira que constitui para o aluno um conhecimento desprovido de significado. Por este motivo, é importante que este processo se dê, inicialmente, de forma que sejam levadas em conta representações da realidade.
É interessante perceber que a Física que se tem conhecimento atualmente, surgiu de um estudo aprofundado de fatos que emergiram em determinadas culturas. Desta forma,
Aikenhead (1999) afirma que a Física Newtoniana, a Física que conhecemos num certo sentido, é também uma Etnofísica, pois emergiu de uma subcultura dentro da sociedade europeia, a partir do intercâmbio de várias culturas, grega, romana, inglesa, etc. Destaca também (Aikenhead,1999) que cada estudante vive e coexiste com várias culturas identificadas por nação, linguagem, sexo, classe social, religião, etc., e que sua identidade cultural pode chocar em um grau variável com a cultura da Ciência Ocidental. Outra forma de dizer isto é que o estudante pode ter de cruzar uma fronteira cultural (Aikenhead, 1999) quando passa do seu mundo quotidiano da ciência do senso comum para o mundo da ciência oficial da escola, isto é, aprender ciência é um evento intercultural e multicultural. (SANTOS, 2002, p.5).
A Etnofísica (ANACLETO, 2007; D'AMBROSIO, 2001) nos possibilita compreender a diversidade cultural e histórica criando novos aspectos que permitem ao educando se sentir parte do processo de ensino-aprendizagem. Para uma análise completa, nossa proposta, do ponto de vista metodológico, está relacionada ao trabalho de campo em junção com a linguagem teórica. Isso porque, o trabalho de campo leva em conta a pesquisa etnográfica, que pode ser definida como (CARIA, 2001):
... Assim, a etnografia supõe um período prolongado de permanência no terreno, cuja vivência é materializada no diário de campo, e em que o instrumento principal de recolha de dados é a própria pessoa do investigador, através de um procedimento geralmente designado por observação participante (p.13).
## Metodologia e Desenvolvimento
Inicialmente procuramos entender as discussões teóricas que foram desenvolvidas com base nos conceitos principais que rodeiam a pesquisa. Para tanto, a fim de compreender o conceito de Educação do Campo, o contexto das EFAs e a Pedagogia da Alternância, nos debruçamos em Arroyo, Caldart, Molina (2004), Cavalcante (2006) e (2007), Gimonet (1999), Nosella (1977), Paludo (2001), e Paiva (2003), entre outros. Para subsidiar a discussão sobre pesquisa etnográfica e Etnofísica foram indispensáveis às leituras de Anacleto (2007), D'Ambrosio (2001), e Santos (2002), dentre outros.
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Junto à revisão bibliográfica, o trabalho empírico começou a ser feito. Como característica da pesquisa qualitativa, nos deslocamos para conhecer os contextos e os sujeitos envolvidos na pesquisa. A pesquisa desenvolvida é do tipo ação participante (DEMO, 2004; GIANOTTEN e WIT, 2000). Assim sendo, o estudo está pautado no diálogo teoria e prática, no universo academia e Rede das EFAs, visando o fortalecimento do trabalho desenvolvido pelas suas escolas, seus processos formativos nos contextos em que se inserem, mediante o processo formativo de seus monitores (CAVALCANTE e SANTOS, 2008).
As entrevistas foram conduzidas durante as observações e nas horas de descanso para o lanche, almoço, etc. Foram investigados os conhecimentos prévios de Física na prática diária da PA.
O questionário teve por objetivo inicial conhecer os educandos, professores e monitores da área, saber as principais dificuldades que eles encontram relacionadas ao ensino de Física, como os estudantes qualificam estudar Ciências em uma EFA, como a Física é vista na PA, e tentar identificar as áreas de trabalho em que eles têm percepção do uso de conhecimentos físicos, dentre outros aspectos relevantes à pesquisa.
Na observação participante, nos inserimos no contexto do grupo estudado e, após esta interação, partimos para uma coleta de dados num bloco de anotações para a devida análise dos resultados obtidos.
Para tanto, nos beneficiamos das pesquisas em Etnofísica buscando compreender a maneira com que os fenômenos físicos são vistos, interpretados, compreendidos, explicados e trabalhados por parte da comunidade das EFAs.
Diante de algumas conclusões que obtivemos no desenvolvimento desse trabalho, temos como uma questão a ser analisada, a afirmação que os monitores ou professores da área da Física fazem ao dizer que encontram dificuldades para ensinar essa disciplina, pois há necessidade de materiais didáticos que relacionem a Física com a PA, sem contar ainda que os sujeitos que ensinam têm uma qualificação profissional que precisa ser melhorada (BARRETO e MILTÃO, 2011a).
Esta análise foi identificada através da aplicação dos questionários aos monitores da área de Física (o educador que mora na EFA e tem obrigações que vão além das de um professor comum, que apenas ministram as aulas e participam das reuniões) e aos educandos (de acordo com o princípio da PA, em EFAs, é comum o termo 'educando' para se referir ao estudante/aluno). Para o aprofundamento das análises que fizemos, socializamos os resultados do trabalho que tem sido feito em eventos nacionais, tanto na área de Ensino de Física, a exemplo do XIII EPEF (Encontro de Pesquisa em Ensino de Física) (BARRETO e MILTÃO, 2011a), bem como na área de Educação, a exemplo do XX EPENN (Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste) (BARRETO e MILTÃO, 2011b).
Sabemos das dificuldades encontradas pela maioria dos alunos ao chegarem ao ensino médio, posto que a Física não é vista na sua essência durante o ensino fundamental. Na análise relacionada ao questionário dos educandos, em relação às dificuldades, temos, por exemplo, a seguinte resposta representativa:
[...] As principais dificuldades dizem respeito a: falta de estrutura da escola, investimento na qualificação de professores e material didático que não relacionam os assuntos com a nossa realidade.
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Esta percepção reflete no fato de que o sistema educacional apresenta deficiências comuns ao meio urbano, em particular, o que ocorre também com o ensino de Física no que tange à crítica de falta de laboratórios e de material didático apropriado ao contexto em que é usado. Embora a maioria dos estudantes afirme achar interessante estudar a disciplina mencionada anteriormente, os mesmos se sentem sem estímulo, o que a resposta representativa abaixo coloca:
[...] Eu gostaria de ver a Física com muitas aulas práticas, experimentos coletivos, material didático de qualidade, professores qualificados e com muita interação e comunicação entre os alunos .
Esta fala acima traduz, entre outros aspectos, o desejo dos educandos em aprender e interagir com os outros sujeitos.
Analisando agora as respostas que obtivemos, por parte dos monitores, notamos que, em relação às principais dificuldades em relação ao ensino de Física estão:
A falta de conhecimento dos educandos; a falta de atividades práticas (laboratório) e de materiais didáticos que relacionem a Física com a Pedagogia da Alternância [...].
Assim, percebemos que é necessária a produção de materiais didáticos apropriados que levem em consideração a PA, bem como a elaboração de atividades práticas.
## Considerações Finais
A partir dessas considerações estabelecidas pudemos perceber qual ação poderíamos desenvolver no contato com a comunidade da EFA acerca dos fenômenos físicos. Durante as conversas que tivemos com os estudantes, por exemplo, procuramos estimulá-los a começar a entender a Física observando situações cotidianas. Por exemplo, poços artesianos, movimentos da lua e do sol, coleta de água da chuva nos telhados, etc. possibilitam questionamentos sobre o porquê do funcionamento e, dessa forma, a busca pela resposta, através do monitor ou da pesquisa nos livros, levaria a uma compreensão significativa.
Por outro lado, sob a perspectiva da qualificação profissional dos monitores, junto ao projeto REFAISA, são realizados cursos de formação na UEFS, em que os monitores vêem conteúdos que eles julgaram mais complexos e cuja apresentação deve levar em consideração os aspectos da PA (MILTÃO, 2010a, 2010b).
Neste sentido, acreditamos que estamos contribuindo no processo de formação das EFAs já visitadas (Ribeira do Pombal, Alagoinhas, Rio Real e Monte Santo) e pretendemos ainda ampliar nossas ações visitando outras EFAs que estão inseridas na REFAISA, procurando levar para estas comunidades, em uma linguagem apropriada e a partir da realidade delas, os conhecimentos relativos aos fenômenos físicos. Vale frisar que temos em mente o objetivo de, a partir dessa realidade, elaborar um material didático sobre Física que leve em consideração a PA.
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## Referências
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ARROYO, Miguel; CALDART, Roseli S.; MOLINA, Mônica Castagna (Org.). Por uma educação do campo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
BARRETO, A. L. V. e MILTÃO, M. S. R. A Física sob a perspectiva da pedagogia da alternância em escolas famílias agrícolas . In: Encontro de Física 2011 (XIII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física), 2011, Foz do Iguaçu. Anais do XIII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2011a. http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/enf/2011/sys/resumos/T2901-1.pdf
BARRETO, A. L. V. e MILTÃO, M. S. R. Estudo dos Fenômenos Físicos a partir da realidade das Escolas Famílias Agrícolas . In: 20º Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste, 2011. Anais do 20º Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste, 2011b.
CARIA, H. Telmo. A construção etnográfica do conhecimento em Ciências Sociais: reflexividade e fronteiras , (Pág. 4) . In: Experiência Etnográfica em Ciências Sociais. Porto, Afrontamento, pp. 9- 20, 2001.
CAVALCANTE, Ludmila Oliveira Holanda e SANTOS, Célia Regina Batista dos. Rede de Escolas Famílias Agrícolas Integradas do Semiárido: possibilidades de uma educação socioambiental do campo . Projeto de Pesquisa, UEFS, Feira de Santana, 2008.
CAVALCANTE, Ludmila Oliveira Holanda. A escola família agrícola quais caminhos em que direção? In: Caderno Multidisciplinar - Educação e Contexto do Semi-Árido. Rede de Educação do Semi-árido. Juazeiro, Bahia. 2006
CAVALCANTE, Ludmila. A escola família agrícola - quais caminhos em que direção? In: Caderno Multidisciplinar - Educação e Contexto do Semi-Árido. Rede de Educação do Semi-árido. 2007.
D'AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: Elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
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GIMONET, Jean Claude. Nascimento e Desenvolvimento de um Movimento Educativo: as casas familiares rurais de educação de educação e de orientação . In: ALTERNÂNCIA e desenvolvimento. Salvador, Bahia. União das Escolas Família Agrícola do Brasil (UNEFAB), 1999.
MILTÃO, M. S. R.. Prática Pedagógica: Exatas - Física - Mecanica Classica na Pedagogia da Alternancia. 2010. Curso de curta duração ministrado no IV Encontro REFAISA\_UEFS Agosto 2010, Feira de Santana - Bahia, 2010a.
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MILTÃO, MSR. O Campo do Saber da Física: sua natureza e subdomínios. Material didático apresentado no IV Encontro REFAISA\_UEFS Agosto 2010, Feira de Santana - Bahia, 2010b.
NOSELLA, Paulo . Uma nova educação para o meio rural. Sistematização e problematização da experiência educacional das escolas família agrícola do movimento de educação promocional do Espírito Santo. Dissertação de Mestrado da Pontifícia Universidade Católica. (1977).
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PALUDO, Conceição. Educação popular em busca de alternativas: uma leitura desde o campo democrático e popular . Porto Alegre: Tomo Editorial, 2001.
SANTOS, Renato P dos. A Parábola no Oriente: Etnofísica,Psicogênese e Multiculturalidade, 1º Colóquio Intercultural - 'A Comunicação entre Culturas', ADECI - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento, a Formação e a Investigação em Comunicação Intercultural, Almada, Portugal, 9-10/05/2002.
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