O CONTEXTO HISTÓRICO-EDUCACIONAL BRASILEIRO E A INSERÇÃO DO ENSINO DE FÍSICA NA ESCOLA SECUNDÁRIA DURANTE AS DÉCADAS DE 60 E 70
Fernando Martins De Paiva, Carlos Alberto S. Almeida
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O CONTEXTO HISTÓRICO-EDUCACIONAL BRASILEIRO E A INSERÇÃO DO ENSINO DE FÍSICA NA ESCOLA SECUNDÁRIA DURANTE AS DÉCADAS DE 60 E 70
## Fernando Martins de Paiva 1,3 , Carlos Alberto Santos Almeida 2
1 UFC/Departamento de Física, f\_martinsbr@yahoo.com.br
2 UFC/Departamento de Física, carlos@fisica.ufc.br
3 Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará
## Resumo
Este estudo tem por objetivo explicitar o contexto histórico educacional brasileiro quando da inserção do ensino de Física na escola secundária durante as décadas de 60 e 70. Foi subsidiado por uma pesquisa bibliográfica e documental, as quais empregadas no intuito de reunir informações que pudessem fornecer subsídios à compreensão dos aspectos que foram determinantes no ensino de Física na escola secundária a partir dos rumos que a educação brasileira tomou ao longo das décadas de 60 e 70 do século passado. A explicação do contexto histórico e educacional brasileiro quando da inserção da Física como disciplina escolar apontou elementos que nos permitem refletir sobre as razões que impediram a consolidação das melhorias no Ensino de Física em âmbito nacional, dentre as quais a precária formação dos professores nos cursos de licenciatura curta criados nessa época e o amplo acesso da população à escola sem que esta estivesse preparada para recebê-la. .
Palavras-chave : Ensino de Física, Ensino Médio, Anos 60 e 70.
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## Introdução
Desde o estabelecimento do ensino secundário no Brasil , hoje conhecido 1 como ensino médio e em seguida com a inserção das ciências naturais, especificamente da Física, como disciplina escolar durante a Reforma do Ensino Secundário essa ciência compõe o currículo da escola secundária brasileira. 2
Por ora, podemos afirmar que o ensino de Física esteve e está atrelado ao desenvolvimento científico e tecnológico do nosso País, especialmente a partir do processo de industrialização que foi iniciado no Brasil na década de 30 e que se intensificou após os anos 50. No entanto, faz-se necessário conhecer o que orientou o ensino de Física nas escolas brasileiras nas décadas de 1960 e 1970 desde sua inserção no currículo do ensino secundário; quais eram os objetivos da disciplina; como esta foi inserida nas escolas, quais os conteúdos que compunham a matriz curricular dessa disciplina, quais as metodologias empregadas, se existiam ou não atividades experimentais, e quais tendências pedagógicas predominavam no cenário educacional da época
Assim, conhecer como essa disciplina foi introduzida nos currículos estudantes do ensino secundário e de como foi evoluindo ao longo das décadas de 60 e 70, poderá apontar caminhos para que possamos entender o porquê da situação que descrevemos inicialmente e para reestruturação dos cursos de formação de professores de Física (as licenciaturas). Pois enquanto a Física no ensino secundário (atual Ensino Médio) for vivenciada como uma disciplina de difícil mobilização pelos estudantes, pouco avançaremos quanto a consolidação de uma educação científica nos espaços escolares.
Partimos do entendimento de que conhecer o percurso histórico do ensino de Física é uma condição necessária para que possamos compreender as causas que impediram/impedem os estudantes de avançarem em relação à essa área do conhecimento. E é nesse sentido que justificamos a realização do presente estudo, o qual foi subsidiado por uma pesquisa bibliográfica e documental, as quais empregadas no intuito de reunir informações que pudessem fornecer subsídios à compreensão dos aspectos que foram determinantes no ensino de Física na escola secundária a partir dos rumos que a educação brasileira tomou ao longo das décadas de 60 e 70 do século passado.
O cenário educacional brasileiro na década de 60 e o ensino de Física
Na década de 60 foi criada, no âmbito educacional, a Lei 4024/61 que 3 representou um avanço quanto à democratização do ensino. Todavia, faz-se necessário entender que essa década esteve sob '... as influências e conseqüências
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dos processos de industrialização e desenvolvimento tecnológico decorrentes da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria.' (DIOGO; GOBARA, 2008)
A referida Lei consagrou equivalência de estudos entre os diferentes ramos do Ensino Secundário, permitindo que os concluintes desse nível escolar prestassem concurso para qualquer curso superior e não somente aqueles relacionados ao ramo cursado.
Nessa década ampliou-se a matrícula em todos os ramos e níveis de ensino, o que acarretou vários problemas, a exemplo do que ocorreu em outros países onde as reformas se deram em décadas anteriores: insuficiência de pessoal qualificado para atuar nos ensinos primário e médio; professores leigos passaram a exercer o magistério nesses níveis e houve aumento na demanda pelo ensino superior.
Na década de 60, o Brasil vivenciou o Golpe Militar que instaurou no país a Ditadura em 1964 (Golpe de 64). Nesse período foi realizada a Reforma Universitária, que visava uma expansão com custos mínimos e para isso estabeleceu algumas medidas como a departamentalização da universidade; a matrícula por disciplina; a instituição do curso básico; a institucionalização da pósgraduação; a unificação do vestibular (que passa a ser classificatório) e instituição das Licenciaturas Curtas . 4
Foi ainda nessa década que o Estado permitiu a criação de inúmeros cursos superiores particulares, justificada como sendo a única forma viável de produzir o desejado aumento de vagas no Ensino Superior, em que '... proliferam os cursos destinados à formação de professores para atuarem no ensino secundário, necessários para suprir o mercado criado a partir de 1968, pela ampliação das redes estaduais de ensino. (PAVANELLO, 1989, p.145- 146)
Nas universidades públicas os cursos de licenciatura pecaram pela falta de unidade imposta pela departamentalização, entre cursos de conteúdo específico e de matérias pedagógicas. E um outro tipo de objeção pode ser levantado em relação àqueles oferecidos pelas outras instituições:
É que são organizados, em sua maioria, como 'licenciaturas curtas' em determinada área de estudos, seguidos de especialização em uma das disciplinas dessa área, organização esta que não garante, de modo geral, o domínio do conteúdo nem sequer daquela disciplina sobre a qual incide a especialização. (PAVANELLO, p. 146, 1989).
Surgiu então, nesse período, a necessidade de cursos de treinamento e reciclagem para complementar a formação de professores.
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Retomando o ensino de Ciências e Física, as mudanças ocorridas no sistema brasileiro de ensino , com implantação da LDB de 1961, possibilitaram mais 5 liberdade às escolas na escolha dos conteúdos a serem desenvolvidos (KRASILCHIK,1980 apud NARDI, 2005). Assim, a nova lei se apresentou ao IBECC como uma excelente oportunidade de introduzir nas escolas brasileiras os materiais já adotados em outros países.
A década de 1960 foi marcada por convênios e parcerias internacionais no 6 intuito de disponibilizar materiais didáticos de boa qualidade para o ensino das disciplinas científicas. Assim, em relação ao ensino de Física, foi introduzido no Brasil o Physical Science Study Committee -PSSC, um projeto curricular estadunidense para a produção de materiais didáticos inovadores. A adaptação dos materiais americanos foi seguida de produção de equipamentos de laboratório sugeridos nos livros-texto e pelo treinamento de professores (NARDI, 2005). 7
Em 1962 o Brasil foi definido como o País sede para o desenvolvimento de um Projeto-Piloto intitulado 'Novos Métodos e Técnicas de Ensino de Física', que segundo Barra e Lorenz (1986 apud Nardi 2005) foi o marco inicial do Programa de Ciências que a Unesco realizou em vários países nas mais diversas regiões. Tal 8 Projeto colocou o IBEEC na vanguarda desse movimento internacional. O Instituto logrou sucesso na realização das atividades previstas pelo Projeto servindo de modelo para outros países (BARRA e LORENZ, 1986 apud NARDI, 2005).
Em 1965 o MEC criou seis Centros de Ciências no Brasil. O primeiro foi implantado no Nordeste, o Centro de Ciências do Nordeste - CECINE. No ano seguinte o IBEEC recebeu cursos da Fundação Ford para o treinamento de líderes para atuarem nesses Centros. Estes tinham como objetivo treinar os professores, produzir e distribuir livros-texto e materiais de laboratório para as escolas de seus respectivos estados. E em 1967, ocorreu a criação da Fundação Brasileira para o Ensino de Ciências - FUNBEC, destinada a industrializar os materiais produzidos e realizar cursos para professores.
Até o final da década de 60 foram produzidos 15 projetos para o ensino de 1º e 2º graus, 'sendo a maioria deles traduções e adaptações de projetos americanos e ingleses [...] e foram produzidos até 1965 cerca de 25.000 kits experimentais (NARDI, 2005).
Podemos entender que houve, na década de 60, um intenso movimento em prol da melhoria do ensino de ciências no País e particularmente do ensino de Física dada a relevância dessa área do conhecimento para o desenvolvimento científico e tecnológico da nação.
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## O cenário educacional brasileiro na década de 70 e o ensino de Física
No Brasil, a Reformulação da Educação Primária e Média foi feita em 1971 com a criação da Lei 5692/71, ainda na vigência do Regime Militar. Esta lei permitiu que cada professor adotasse seu próprio programa 'de acordo com as necessidades da clientela' e introduziu mudanças profundas nos níveis de ensino: instituiu a escola de 1º grau de 8 anos (fusão dos antigos cursos primário e ginasial) e criou a escola de 2º grau, cujo objetivo era a 'qualificação para o trabalho'. Segundo Pavanello (1989, p. 146-147) essa reformulação constituiu-se também como '...resposta ao novo modelo econômico adotado e objetivava ainda desviar, pela formação profissional neste grau de ensino, parte da demanda do ensino superior.'
A implantação da Lei de Diretrizes e Bases do ensino de 1º e 2º graus acabou mantendo o tradicional dualismo da escola brasileira (escola para a elite X escola para o povo) colocando-o em termos de escola particular X escola pública, conservando a diferenciação entre o ensino oferecido aos estratos superiores da sociedade (na primeira) e aquele proporcionado à população em geral (na segunda).
Em termos de 2º grau, nas escolas oficiais, foi oferecido no período noturno e não cumpriu nem sua antiga função de preparar para os cursos superiores, nem sua função profissionalizante (falta de recursos humanos e materiais para essa tarefa). Enquanto isso, as escolas particulares interpretando a legislação conforme sua conveniência, continuaram a oferecer um ensino basicamente propedêutico.
Com a implantação do Ensino Profissionalizante, por meio da promulgação da Lei 5692/71, o Ministério da Educação instituiu o PREMEN - Projeto Nacional para a Melhoria do Ensino de Ciências, visando atender as novas exigências educacionais advindas das mudanças curriculares. Esse Programa era parcialmente apoiado pela USAID e pelo MEC.
Os materiais produzidos na década de 70 partiam de uma percepção comum do ensino de Ciências: ênfase na vivência, pelo aluno, do processo de Investigação Científica. Essa visão de Ciências não se refletia nos livros didáticos até então utilizados nas escolas, o que levou o movimento curricular existente à época (liderado pelo IBECC/FUNBEC e PREMEN) à produção de novos materiais científicos.
De acordo com Nardi (2005), as dificuldades de adaptação dos projetos estrangeiros à realidade das escolas brasileiras e no caso da Física, do PSSC, parecem ter levado os pesquisadores brasileiros a optar por Projetos Nacionais. É nesse contexto que se constituem os Grupos de Ensino de Física no IFUSP e no IFRGS, quando são desenvolvidos os Primeiros Projetos de Ensino de Física no Brasil. São eles: o Projeto de Ensino de Física (PEF) , o Física Auto - Instrutiva 9 (FAI) e o Projeto Brasileiro de Ensino de Física (PBEF).
É nesse período, mais precisamente em 1970, que se iniciam os Simpósios Nacionais de Ensino de Física - SNEF. Todos esses movimentos foram importantes
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para se constituir uma área de ensino de Física no Brasil, especialmente as pesquisas realizadas nos Programas de pós-graduação em ensino de Física.
Apesar da década de 70 ter sido marcada pelo tecnicismo 10 e pela instauração das Licenciaturas pelo Regime Militar houve uma continuidade dos esforços empreendidos na década anterior objetivando melhorias no ensino de Física e soma-se a esse fato o maior envolvimento do Ensino Superior que passou a desenvolver pesquisas concernentes aos aspectos do ensinar e aprender Física, bem como investigar os aspectos metodológicos empregados pelos professores de Física nas salas de aula.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar dos múltiplos esforços em aprimorar o ensino de Ciências e particularmente o ensino de Física nas escolas secundárias brasileiras durante o Regime Militar, poucos foram os avanços em relação ao envolvimento e interesse dos estudantes por essa área do conhecimento.
- A explicação do contexto histórico e educacional brasileiro quando da inserção da Física como disciplina escolar apontou elementos que nos permitem refletir sobre as razões que impediram a consolidação das melhorias no Ensino de Física em âmbito nacional, dentre as quais a precária formação dos professores nos cursos de licenciatura curta criados durante os anos 60 e 70 e o amplo acesso da população à escola sem que esta estivesse preparada para recebê-la.
Passadas mais de três décadas, o ensino da Física ainda suscita muitos desafios aos docentes da escola básica. Ainda que tenham intensificado-se as pesquisas em ensino de Física no Brasil e aumentado a quantidade de cursos de Pós-Graduação em ensino de Ciências, os resultados desses estudos ainda estão distantes das salas de aula. Precisam, de fato, ser acessados pelos professores nos cursos de formação para que conheçam os vários aspectos que envolvem o ensinar Física e as implicações decorrentes desse processo para sua prática pedagógica e consequentemente o aprendizado de Física pelos discentes.
## REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 5.692, de 11 de agosto de 1971.
DIOGO, R. C.; GOBARA, S. T. Educação e ensino de Ciências Naturais/Física no Brasil: do Brasil Colônia à Era Vargas. Revista Brasileira de
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Estudos Pedagógicos. Brasília, v. 89, n. 222, p. 365-383, maio/ago. 2008. Disponível em: http://www.rbep.inep.gov.br/index.php/rbep/article/viewfile/1293/1141. Acesso em 22 dez. 2010.
KRASILCHIK, M. O professor e o currículo das Ciências. São Paulo: EPU: Editora da Universidade de São Paulo, 1987.
NARDI, R. Memórias da Educação em Ciências no Brasil: a pesquisa em ensino de física. Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFGRS Investigações em ensino de Ciências - IENCI - ISSN 1518 - 8795, v. 10 n. 1. pp. 63 - 101. 2005. Disponível em: http://www.if.ufrgs.br/ienci/artigos/Artigo\_ID124/v10\_n1\_a2005.pdf. Acesso em 06 de jan. 2011.
PAVANELLO. R. M. O abandono do ensino de Geometria. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação 1989.
ROMANELLI, O. O. História da Educação no Brasil. 6. ed. - Petrópolis: Editora Vozes, 1978.
SAVIANI, D. História das idéias pedagógicas no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2007. (Coleção Memória e Educação).
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