DISCURSOS DE PROFESSORES DE FÍSICA E FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA: CONCEPÇÕES E PROPOSIÇÕES DOCENTES.
José Ricardo Da Silva Alencar, Licurgo Peixoto De Brito
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 24/10/2008
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DISCURSOS DE PROFESSORES DE FÍSICA E FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA: c concepções e proposições d docentes .
## PHISICS TEACHERS DISCOURSES AND F FORMATION TO THE CITIZENSHIP: t teachers' ' conceptions e proposasals .
José Ricardo da Silva Alencar1 r1 , Licurgo Peixoto de Brito 2 .
1SEDUC -PA/A/EEEFM Luiz Nunes Direito, jrsalencar@ig.com.br 2 UFP A/A/Faculdade de Física, licurgo@ufpa.br
## Resumo
AnAnalisamos as concepções e proposições sobre a formação para a cidadania no conteúdo de discursos de professores de Física . Tomamos como referência a educação científica e o movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade . De um grupo de trinta professores de Física, três foram escolhidos como sujeitos desta pesquisa com base na demonstração de comprometimento com a inovação no ensino desta disciplina. Os docentes foram entrevistados e, em em suas falas, foi empregada a metodologia conhecida como Análise Qualitativa de Texto cuja aplicação em entrevistas auxilia na construção de material empírico e analítico. o. Como resultados destacam -s -se que: i) O ensino de Física é compreendido, pelos professores, como um fator importante na vida de um cidadão, devido ao seu caráter explicativo, utilitário e avaliador; ii) A crença que exista uma intensa relação entre a contextualização dos conhecimentos científicos com a formação de senso crítico do cidadão e sua possível tomada de decisão diante de situações sociais; iii) certo nível de aproximação entre os discursos destes docentes e os existentes nas as novas bases de Educação Científica; iv) a ineficácia da formação docente inicial para prática de docente que torna impraticável propostas e estratégias alternativas para formação cidadã .
Palavras -chave: Educação Científica; Ciência, Tecnologia e Sociedade; Formação para a Cidadania; Concepções e Proposições Docentes
## Abstract
This research investigates the content in teachers' discourse about formation of citizenship with focus on their ideas and teaching proposals. It analyzes their ideas from the perspective of science education based on the approach of Science, Technology and Society. It chose three physics' teachers who revealed the commitment to innovation in physics teaching. So, the teachers were interviewed and, in his words, used as a method of Qualitative Analysis Test. The conclusions indicates: i) the physics teaching is comprehended, by teachers, as a main factor in the life of a citizen, because of its character explanatory, utility and of assessment; ii) the belief that there is an intense relationship between the contextualization of scientific knowledge with the formation of critical thinking of the citizen and his possible decision making in social situations; iii) a approach between the speeches of these teachers and the new ideas of the Science Education; iv)the inefficacy of initial formation of these teachers fofor teaching practices that makes impracticable proposals and alternative strategies to the citizen formation.
Keywords: Scientific Education; Science, Technology and Society; Citizen Formation; Teachers ' conceptions and proposals .
## 1. Sobre a Formação da Cidadania e a presente Pesquisa
A formação para a cidadania tem sido objeto de pesquisa e atenção no contexto pedagógico ao longo dos últimos anos. As Leis e os Parâmetros Educacionais oficiais para a Educação em Ciências, bem como a pesquisa em Educação em Ciências , convergem para a proposição de formação de cidadãos críticos e participativos. Estas características de cidadãos permeiam o discurso escolar, influenciando os protagonistas da práxis educativa. Assim, investigamos sobre as concepções e proposições de docentes de Física no que diz respeito à Formação para a Cidadania. Refletimos sobre suas idéias quanto ao Ensino de Física voltado para a formação de cidadãos, de maneira que, trazemos a pauta tal tema de investigação nos discursos de professores de Física.
Devido a mudanças ocorridas na estrutura social nos últimos anos, foi necessário fazer uma reforma educacional em todos os níveis da educação. Tal reforma foi amparada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9.394/1996) a qual norteou definições legais . Também, foram elaborados os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCN ' s) que mesmo sem força legal, direcionam o ensino das disciplinas (BRASIL, 1996). Diante das concepções presente nos documentos supra-citados, textotos como recursos didáticos, foram questionados quanto às suas estruturas clássicas. Assim, questionados, não pudemos permanecer no estilo tradicional, pois a estrutura clássica é descontextualizada da realidade imediata dos alunos, sobretudo na Região Amazônica em que alunos convivem com situações peculiares. Portanto, adotamos alguns novos preceitos educacionais na elaboração desta proposta didática.
Dialeticamente relacionadas, CiCiência e Tecnologia (C&T) nos proporcionam numerosos benefícios e malefícios , alguns imprevisíveis - - como adivinhar que uma das mais belas teorias do século XX poderia produzir a bomba atômica? Nesse contexto, é que nasceu, em países desenvolvidos, um movimento contestatório dos rumos que a sociedade, dita tecnocrática, havia tomado. Emergiu o denominado movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) (AIKENHEAD, 2003; AULER; BAZZO, 2001). Este Movimento deu-se também como proposta de Educação Científica. Destarte, a educação o científica proposta no Brasil teve como base alguns resultltados teóricos deste movimento (AULER, 1998).
- O Movimento CTS atuou em diversas frentes, pois desde o final do século passado , uma gama de educadores vevem discutindo intensamente sobre as mudanças de paradigmas na Educação Científica (CAVALCANTE, 1999) , visto ser o conhecimento científico um fator importantíssimo na formação de indivíduos e em uma sociedade e que demande participação democrática (SANTOS, 2002; SANTOS; SCHNETZLER, 2003). Desta forma, entendemos que a participação social se concretizará à medida que a alfabetização científica envolver a compreensão do impacto da C&T na vida pública, que embora dependa de um conhecimento da Ciência, não se reduz a isso (AULER,1998).
Um aspecto formativo a considerar é a a preparação do cidadão para tomar decisões . Isto deve ser parte do processo de Educação Científica para a ação social responsável. Esta educação propõe, conforme Santos e Mortimer (2001), desenvolver um senso de responsabilidade nos estudantes para os problemas
sociais e ambientais. Consideramos pertinente o objetivo majoritário de se preparar indivíduos para ra tomarem decisões para uma ação social responsável.
Esta formação para a cidadania deve, portanto, promover habilidades e competências individuais e sociais, permitindo lidar com problemas de caráteter científico -t -tecnológico e, também, alcançar o pensamento crítico e a independência intelectual. Destarte, a idéia de formação para a cidadania parece-nos das mais interessantes nas discussões sobre a Educação Científica, pois envolve tanto a formação quanto a produção e utilização da Ciência na sociedade .
Neste contexto, ensinar Ciências tendo em vista a alfabetização científica nos termos do movimento CTS, implica num processo de repensar o ensino de Ciências para dar algumas respostas significativas às mudanças sociais atuais e, por conseguinte, à discussão dos problemas enfrentados cotidianamente pelos sujeitos da aprendizagem. SANTOS (2002) postula que o movimento CTS no ensino de Ciências pode propor uma Educação Científica de maneira diferenciada, contribuindo para a formação educacional vista como instrumental para a formação da cidadania e transformação da sociedade em função dos interesses populares.
A apropriação de conhecimento científico contextualizado é condição necessária, mas não suficiente para educação para a cidadania. A Educação Científica é apenas uma pequena parcela da formação cidadã, não se reduzindo à simples transmissão de valores ou de conhecimentos. É mister a construção ininterrupta de meios intelectuais, de saberes, de competênc ias que são fontes de autonomia, de capacidade de se expressar, de negociar, de mudar o mundo, mas aí não se encerra (PERRENOUD, 2005). Não basta ser culto para ser ético, nem ter o conhecimento científico para ser honesto. Infelizmente, o saber especializado não garante sensibilidade, nem s solidariedade com os injustiçados. Uma educação para a cidadania requer uma forte ampliação da Educação Científica, a qual tenha como meta formar um bom cidadão, capaz de compreender as leis, votar, de desenvolver um papel ativo e responsável na comunidade. Uma Educação Científica cidadã deve ter em sua essência uma educação para a solidariedade. É preciso, portanto, educar para cooperar, r, conviver. É necessário educar para viver nas diferenças e diante de conflitos, sem a a u utilização da violência para resolver os problemas.
Procurando possibilitar a formação crítica e mais significativa dos conceitos científicos, a formação cidadã deve vir acompanhada de três fatores interdependentes: prática da cidadania crítica, conhecimento científico contextualizado e valores , utopias e desejos. Desta forma, o aluno pode compreender a dimensão de se tomar decisões tendo um vista um conjunto de situações que envolvam os conhecimentos científicos adquiridos ao longo da vida escolar, Permitindo ao aluno, já na formação Básica, a vivência de estar numa situação cujo julgamento de suas ações seja quesito de aprendizagem. . Igualmente, o ensino de ciências para a ação social responsável, conforme preconiza o movimento CTS, implica, então, considerar aspectos relacionados ao axiológico e o atitudinal e, não só o gnosiológico. Uma tomada de decisão responsável, com base em senso crítico racional, é caracterizada por uma explícita consciência dos valores que a orientou (GIL-PÉREZ; VILCHES, 2005).
De modo geral, assumimos que ser cidadão é ter direitos e deveres. Mas antes destes direitos e deveres serem letra morta, eles devem levar o sujeito à libertação das ideologias, devem levar o sujeito a protagonizar a caminhada a utópica sociedade de iguais. O O direito principal que o cidadão possui deve ser o direito à vida, ou seja, às condições materiais de vida digna, à liberdade, que podem
ser traduzidos em direitos civis justos. O dever principal deve ser a convocação a ser partícipe no destino da sociedade em que está inserido, ou seja, votar e ser votado, anunciar as utopias e denunciar as ideologias. Portanto, a participação nas decisões tomadas pela comunidade, assumindo conseqüências de suas escolhas, deve estar presente na educação formal e informal dedeste indivíduo. Os valores humanos que dignificam a vida devem ser fomentados na escola desde a mais tenra idade.
Entendemos que este cidadão necessita de uma visão crítica dos fatos que a Educação Científica pode fornecer. Desde que esta educação seja pautada em movimentos que, como o CTS, auxiliem na construção de uma sociedade mais justa . Pressupomos que a Educação Científica deve estar a serviço da justiça social e da efetiva democracia em nosso País. Assim sendo, a formação de cidadãos deve fomentar, em todos os níveis educacionais, tais características políticas.
Face ao exposto, o currículo de Física se insere no bojo desta discussão visto ser esta disciplina uma das mais f fortemente ligadas ao analfabetismo o científico. Pesquisadores brasileiros vêm se dedicando à à formação para a cidadania de de forma adequada à sociedade atual. Para orientar nossa pesquisa nessa linha, formulamos a pergunta: QuQue concepções e proposições de Educação para a cidadania estão presentes nos discursos de professores de Física d do Ensino Médio?
## 2. Escolhendo o olhar método -e -epistemológico
Relatamos uma investigação sobre as concepções e proposições de docentes para uma formação de melhor qualidade. Refletimos sobre suas idéias quanto ao ensino de Física voltado para a formação de cidadãos e, desse modo, potencialmente fornecemos elementos formativos aos futuros professores desta e de outras disciplinas, tendo em vista uma formação diferenciada mais voltada para a Educação Científica do século XXI. Pesquisamos sobre prática docente de Física em escolas do Nível Médio em Belém do Pará, efetivamente nas escolas em que os professores tem a intenção de renovação do Ensino de Física e trabalham na perspectiva de formação de cidadãos críticos. Estabelecemos um foco de pesquisa, a saber, um aporte qualitativo baseado no discurso de docentes de Física na cidade de Belém, no Estado do Pará. Tal abordagem investigativa se justifica na medida em que é mais adequada à análise de idéias e concepções presentes na fala docente, pois nos possibilita explicitar conceitos do discurso construído para responder às questões feitas pelos pesquisadores. Também, porque não pretendemos testar hipóteses para comprová-las ou refutá-las ao final da pesquisa; a nossa intenção é a compreensão de concepções e proposições docentes.Assim, para a natureza desse tema a pesquisa qualitativa é necessária para aprofundar a reflexão o acerca da questão norteadora desta pesquisa.
Escolhemos três professores de Física com base em critérios que destacassem certo comprometimento com a inovação no ensino desta disciplina. O critério principal adotado para a seleção foi a prévia identificação de professores que experimentam, ainda que pontualmente, uma renovação no Ensino de Física e, quando possível, intentam nesse processo a formação para a cidadania. Neste sentido, definimos como critério inicial a escolha de professores que tivessem em seu discurso a intenção de modificar o processo de ensino e aprendizagem que preterissem o ensino clássico da forma como vem sendo praticado comumente nas escolas de Belém e utilizassem estratégias ou discursos cujo mote fosse a crítica diante das situações ou dos problemas da sociedade.
Os seguintes procedimentos metodológicos foram usados no processo de seleção e posterior investigação qualitatitiva dos professores: i) questionário acerca da prática educativa e seleção para a parte qualitativa da pesquisa; a; O questionário foi aplicado a trinta professores de Física que atuam em Belém-PA. As questões tiveram a finalidade de fazer um levantamento preliminar de suas práticas docentes . Procuramos identificar algumas estratégias de ensino e avaliação utilizadas pelos professores para protagonizar o processo ensino-aprendizagem e suas ações para formação de cidadãos. Foram selec ionados três professores a partir de uma análise das respostas ao questionário. Foi então o possível iniciar uma primeira troca de idéias e depois as entrevistas . Em suma, o questionário foi utilizado como enlace para as primeiras interlocuções que levaram a duas etapas de entrevistas : uma para aprofundar aspectos relativos ao questionário e iniciar uma discussão sobre a formação para cidadania no ensino de Física e a outra para focalizar nas concepções e proposições para a formação de cidadãos.
A técnica de análise de entrevistas deveria tornar os discursos mais coesos e, com isso, de leitura mais fluente e agradável. Essa busca revelou-nos a técnica conhecida como Análise Qualitativa de Textos, cujos procedimentos vêm sendo aprimorados, no Brasil, por Moraes (2003; 2005). Basicamente, consiste em dois momentos: o de textualização e o processo de análise dos dados coletados. Tal técnica de análise pode ser compreendida como um processo auto-o-organizado de construção de compreensão em que novos entendimentos emergem a partir de uma seqüêncncia recursiva de três componentes: desconstrução dos textos do corpus, a unitarização; estabelecimento de relações entre os elementos unitários, a organização; e o captar do novo emergente em que a nova compreensão é comunicada e validada, a comunicação.
Tal metodologia de pesquisa qualitativa nos remeteu à discussão de aspectos como as conceituações que os sujeitos investigados têm de cidadania, que relação estes depreendem entre o ensino de Física e a formação para a cidadania, bem como de fatores que influenciam ou poderiam influenciar para uma alteração no modo de conceber uma efetiva Alfabetização Científica. Com isso, inferimos as seguintes categorias dos discursos dos sujeitos pesquisados: : i) Categoria A - Cidadania e Ensino de Física: esta categoria procura aglutinar as idéias que relacionam o conceito sobre cidadania e o Ensino de Física. Além do conceito de cidadão que cada docente procura relatar no tópico "Ser cidadão é...", inferimos dos discursos dos sujeitos investigados a relação entre o Ensino de Física e formação cidadã, bem como a função da contextualização dos conceitos científicos neste processo formativo, respectivamente, nos tópicos "O Ensino de Física na formação educacional do cidadão" e "A contextxtualização e a formação cidadã"; ii) Categoria B - Aspectos da realidade docente na formação cidadã: esta categoria foi construída à medida que os professores investigados reportavam-s-se a fatores que fazem com que suas práxis de alguma forma sejam restritas, ou melhor, eles consideravam em suas falas as situações ou fatos que de certa forma os impedem ou limitam quando procuram inovar o ensino de Física para uma formação mais
- crítica.
## 3. A relação entre o Ensino de Física como Alfabetização Científica e a Formação para a Cidadania.
## 3.1 C Categoria A: Cidadania e Ensino de Física
É -nos tácito que o conceito de cidadania de cada docente influencia na Educação Científica destinada a seus respectivos alunos. Além do conceito de cidadão, inferimos dos discursos dos sujeitos investigados a relação entre o ensino de Física e a contextualização dos conceitos científicos tratados na escola com a formação para a cidadania. A Física é concebida, pelos professores pesquisados , como um fator importante na vida de um cidadão, devido ao seu caráter explicativo, utilitário e avaliador, pois, respectivamente, dá conceituações científicas aos fenômenos, é um saber que pode ser mobilizado na execução de tarefas diárias e é utilizada como critério de verdade em situações sociais que demandem julgamento crítico; bem como crêem numa relação entre a contextualização dos conhecimentos científicos com a formação de senso crítico do cidadão e sua possível tomada de decisão diante de certas situações . Também acreditam na a aproximação de seus discursos e os existentes nos novos PaParâmetros de Educação Científica. Entretanto, existem aspectos que demandam uma preocupação por parte das Instituições Formativas de docentes, como é o caso da discussão sobre o que é ser cidadão no mundo de hoje. A não clareza no conceito de cidadania indica-a-nos uma possível falta de foco no processo de ensinar e aprender para a cidadania. A característica de um cidadão que, conforme Santos e Schnetzler (2003), é tomar decisões e participar criticamente na sociedade.
Destarte, podemos questionar até que ponto o educando estará sendo preparado para o exercício de sua cidadania. Dois dos três professores relacionaram diretamente a cidadania com a questão dos direitos e deveres do indivíduo. Tal concepção ganhou grande importância a partir desta revolução e da ascensão da democracia capitalista (WELMOWICKI, 2004). Um dos professores relacionou a consciência do cidadão ao conhecimento a respeito de conceitos sobre política, economia e mundo do trabalho. Tal professor, porém, não explicitou em momento algum de sua entrevista sobre a concepção da cidadania como de caráter atitudinal ou axiológico, mas tão somente gnosiológico. Podemos supor uma identificação maior com a idéia de que o conhecimento basta para levar uma melhoria na qualidade de vida. Tal concepção é é próxima da lógica linear que mais ciência, necessariamente levará a mais desenvolvimento social. De outra forma, neste professor permeia a visão de uma ciência iluminadora, uma ciência, por assim dizer, iluminista, pois o conhecimento clareia as idéias e isto torna a pessoa um cidadão.
Em níveis diferentes de concepção, os professores pesquisados acreditam que o senso crítico esteja conectado a um conjunto de características do cidadão. Um deles chegou a vincular com os aspectos éticos e outro com aspectos atitudinais. Este discernimento também é sugerido pela base de formação de um cidadão conforme as idéias de Santos e Schnetzler (2003) e Gil-l-Pérez e Vilches (2005) quando defendem a formação mais crítica, bem como nos PCN's quando defende que é condição de cidadania o desenvolver do saber matemático, científico e tecnológico.
Várias são as razões que os professores apontam para a pertinência da disciplina Física na formação do cidadão. Por exemplo, tal disciplina é importante porque é útil à vida do aluno, , diz um dos professores investigados, pois permite ao aluno estar inserido no processo de negociar com o mundo. De certa forma, este
professor acredita que o conhecimento físico não pode ser descartado, pois permite compreender o entorno, os objetos doméstiticos, os aspectos regionais, problemas sociais e tecnológicos e, assim, poder entender as situações que o rodeiam. Assim, a escola, ao fazer uso desta disciplina em seu currículo, tem como justificativa o caráter instrumental para a ação no mundo. Outra, papara os professores a Física auxilia os alunos a não serem somente expectadores, ou, meros utilitários ou, simplesmente, consumidores das tecnologias ou situações produzidas. Para eles, o conhecimento científico, devido o caráter explicativo, auxilia na tomada de decisões frente a situações que envolvam o indivíduo diariamente. Conhecer alguns aspectos que envolvam uma tecnologia baseada em conhecimentos em Física possibilita ao indivíduo o julgamento de determinado produto tecnológico tecnologia que deseja adquirir. Assim, o conhecimento em Física se justifica para um professor entrevistado o na medida em que é utilizado para se viver em sociedade. Esta assertiva tem semelhanças com a proposta CTS, quando esta defende a formação do cidadão que é crítico, toma d decisões e participa da construção da sociedade.
Considerando que a cidadania tem em sua gênese a participação de todos, conforme Santos e Schnetzler (2003), torna-s-se importante a disponibilidade de informações que afetam o cidadão. O conhecimento em Físic a se enquadra nessas condições. Com o avanço tecnológico da sociedade, há tempos existe uma relação de dependência muito grande com os conhecimentos e tecnologias da Física. Essa dependência vai desde a utilização diária de conhecimentos ou artefatos modernos, até às inúmeras influências e impactos no desenvolvimento das sociedades.Embora já existam argumentos que coadunam com o movimento CTS, encontramos nos discursos aspectos tradicionais como é o caso de um professor que justifica papel utilitário da disciplina. Desse modo, para este docente, o conhecimento em Física se tornará benéfico na medida em que, num momento posterior à formação escololar, o estudante utilizará os conhecimentos específicos em sua profissão futura. O ensino desta disciplina, para este docente, é destinado a todo o universo de alunos, sem diferenciações ou reservas, pois o ensino de Física é algo universal, ou seja: independente da profissão ou da vida na comunidade, de alguma forma, ainda não definida, o estudante usará os conhecimentos adquiridos em Física. A função utilitária do conhecimento em Física explicitado por este referido docente se relaciona com, de acordo com Bazzo (1998), o papel de legitimação do conhecimento científico, pois este professor defende que neste mundo contemporâneo o argumento só se legitima quando passa pelo crivo científico.
Das falas destes três professores, dizemos que o lema educacional da LDB (BRASIL, 1996) que aponta para a formação do cidadão-trabalhador-estudante já se encontram nos os discursos que eles elaboraram. Consideramos, também, ainda de acordo com este documento, que a aprendizagem deve incluir, além dos conhecimentos específicos de cada profissão, a ética, a autonomia intelectual e a compreensão dos processos científicos e tecnológicos envolvividos na produção de bens e tecnologias, como é a idéia da formação para a cidadania. Os PCN's (BRASIL, 1996, p.23), por sua vez, afirmam que o "novo paradigma emana da compreensão de que, cada vez mais, as competências desejáveis para o pleno desenvolvimento humano aproximam-s-se das necessárias à inserção no processo produtivo".
A análise qualitativa das entrevistas nos permitiu identificar que, na visão dos professores, a contextualização do conhecimento científico é um fator curricular de grande importânciaia. Estes professores acreditam que, de modo geral, para
formar cidadãos é preciso ensinar os conceitos científicos de forma a estarem relacionados com a realidade no entorno dos alunos. Desde o advento dos PCN e o desenvolvimento da pesquisa em ensino de ciências no Brasil, o conceito da contextualização do conhecimento científico vem ganhando forte ressonância no discurso escolar. Podemos então afirmar que ela está nos princípios curriculares de formação para a cidadania (SANTOS, 2002).
Para um dos professores a contextualização acontece e na medida em que o conhecimento em Física for utilizado para auxiliar a vida do aluno. SeSeja na melhor escolha de um aparelho doméstico, seja na emissão de opiniões em debates sobre o desarmamento ou sobre o fornecimento de energia elétrica ao país ou, ainda, sobre as questões que envolvem a região brasileira onde vive o aluno. Este professor acredita que os conceitos científicos da Física podem contribuir para inserir seus alunos no debate público. Outro professor aponta a contextualização como um artifício para superar as dificuldades matemáticas dos alunos. Este docente relata que procura direcionar suas aulas para abordar o que ele chama a "parte física"a", propriamente dita. Este docente relaciona esta dita "parte física" a" com a "parte teórica" desta Ciência. Entendemos, portanto, que ele compreende que os conceitos enunciados na língua materna e exemplificados em fenômenos da natureza é esta "parte Física". Este professor ainda acrescenta que assim age porque a sua disciplina ficou historicamente ligada à disciplina de Matemática quanto à utilização de fórmulas, ou melhor, equações. Isto representa para ele uma dificuldade, pois, esta associação resulta na pouca compreensão que os estudantes demonstram em suas aulas. Complementando, os PCN's (BRASIL, 1996) orientam que é desnecessário memorizar conhecimentos que foram superados , ou cujo acesso é facilitado pela tecnologia, pois o educador deve buscar priorizar o desenvolvimento de "habilidades e competências" básicas do cidadão e não o acúmulo de algoritmos para a resolução de problemas. O terceiro professor apresenta a contextualização dos conhecimentos científicos quando comenta sobre os exercícios que utiliza durante suas aulas. As situações que este docente elenca tem relação com o cotidiano de seus alunos. Ele acredita que ao abordar os assuntos desta maneira, em forma de exercícios, o aluno poderá utilizar os conhecimentos em Física, que porventura, daí advirem em outras situações de leitura, como é o caso de jornais e revistas. Ele acredita, ainda, que ao contextualizar o conhecimento em Física, poderá evitar, de alguma maneira, o analfabetismo científico.
Ressaltamos que aspectos axiológicos e de práxis cidadã como bases educacionais não são explicitados pelos docentes investigados, mesmo quando instigados reiteradamente para tal. Acreditamos que uma formação docente centrada em conteúdos científicos fragmentados e um contexto profissional com poucas possibilidades de uma alfabetização científica mais global impossibilitou-os de fazerem tal relação da contextualização do conhecimento científico com as outras bases educacionais supracitadas durante a pesquisa. Em geral, todos tenderam mais fortemente relacionar a disciplina que lecionam com seu caráter explicativo.
Reiteramos: A tendência em relacionar a Educação Científica apenas como caráter explicativo limita a possibilidade de educar para incertezas, educar para conflitos, educar para debates públicos. Educação esta tão necessária para o mundo moderno tão cheio de desventuras. Uma vez que nada garante que mesmo sabendo a causa de uma dada situação a pessoa poderá fazer valer seus direitos , educar na ciência, para nós, é educar valores para ação, na prática da ação de ser cidadão.
Compreendemos, portanto, que existe um desafio presente na formação cidadã, a saber: é preciso associar o ensino de conceitos, leis e teorias como constituintes da explicação do mundo e a formação na socialização dos alunos. Entendemos socialização como sendo a vivência com valores e práticas de transformação da sociedade, transformação para melhor.
## 3.2 C Categoria B: Aspectos da realidade docente na formação cidadã
A existência de questões formativas da prática docente que auxiliam na inviabilização de propostas e estratégias alternativas, por parte destes professores, quanto à formação cidadã. Procuramos inferir sobre a realidade em que os professores estão inseridos. Temos em mente que o professor protagoniza um papel essencial como, conforme Moraes e Mancuso (2004, p. 91), com sua fala exerce uma "liderança da comunidade argumentativa que se estabelece em sala de aula na medida em que seleciona, propõe e desenvolve atividades com os alunos". Nisto se dá a importância dos objetivos que este tem quando considera a Educação Científica com novas bases foformativas, pois possuem subjacente concepções de Ensino de Ciência e, assim, apóiam as escolhas de estratégias de ensino que vislumbrem atingir tal Educação.
Todos os professores apontaram para uma formação tradicional, tanto no nível Médio quanto no Superior o qual, segundo os próprios docentes, só aborda os assuntos com nível matemático diferente sem, no entanto, mudar a concepção ensino a qual se torna hermética a tal ponto de não fomentar qualquer diálogo com os professores formadores durante o curso de e Licenciatura. Os professores investigados se referiram às disciplinas específicas de Física e as disciplinas pedagógicas nos seus cursos de licenciatura como separados ambientes formativos. Eles utilizaram palavras como "ambiente", "mundo", "lá do outro lalado" e "universo diferente" para demonstrar quão diferentes são as aulas específicas de Física e Matemática das pedagógicas. Ele faz isto a tal ponto que representa metaforicamente a separação espacial 1 existente para os locais de aula. Assim também, de modo geral, entendemos que as práticas e os discursos dos docentes pesquisados apontam para uma formação docente inicial insuficiente para implementar a Formação para a Cidadania como uma realidade imediata. Visto que os professores ainda demandem a superação de diversas necessidades formativas, como apontadas no capítulo anterior.
Durante a formação inicial o professor fica a mercê de um ensino tradicional que mais se desenvolve pela pressão de ser aprovado nas disciplinas do que pela oportunidade de aprender o ofício que escolheu seguir. Tal tipo de formação mais que formar para a docência crítica, só fornece sobrecarga de informações e dá pouca possibilidade de preparar um profissional crítico e em constante formação quanto ao processo educacional. Num curso, como foi o caso do freqüentado por estes professores investigados, conforme percebemos quando das entrevistas, em que pouco lhes foi permitido resolver problemas, mas somente decorar soluções ou, ainda, pouco lhes foi permitido dizer o que pensa, o que sonha ou anseia, mas somente ouvir as idéias acadêmicas, é muito provável que estes professores tenham grandes dificuldades em assumir uma mudança de paradigma formativo diferente do racionalismo -técnico.
É importante ressaltar que a atualização do currículo não pode ser desvinculada da preocupação com a formação inicial e continuada de professores. Não basta introduzir novos assuntos que proporcionem análise e estudos de problemas mais atuais, se não houver uma preparação diferenciada dos licenciandos para esta mudança e se o profissional em exercício não tiver a oportunidade de se atualizar. Um dos professores, apesar de querer, não se sentia preparado para atuar de forma inovadora . Ora, os professores precisam ser os principais agentes no processo de mudança curricular, pois, serão eles que as implementarão na sua prática pedagógica. Nesse sentido, Carvalho e Gil-Pérez (2003) mostram ainda que necessidades formativas tais como a ruptura com visões simplistas da ciência, conhecimento da matéria a ser ensinada, análise crítica do ensino tradicional e preparação de atividades capazes de gerar uma aprendizagem efetiva, devem fundamentar as bases necessárias para uma formação plena. Isto de de certa forma representa uma mudança epistemológica e pedagógica na formação docente .
Baseados os nestas análiseses, destacamos a importância de se buscar uma atualização curricular para a formação da cidadania que seja mais adequada tanto ao educando quanto ao professor. Um dos professores também apresenta a questão do isolacionismo que existe quando tenta implementar novas abordagens na disciplina que leciona. A inovação do ensino não se dá, portanto de modo global o que, para ele, provoca limitação em sua prática docente na formação para a cidadania. Percebemos aqui as características do ensino fragmentado que é freqüente nas escolas tanto nas ações docentes quanto nos assuntos abordados nas disciplinas.
Outro professor comenta sobre a necessidade de formar para concursos vestibulares. Como atua em escolas particulares, este professor assevera que tais estabelecimentos têm orientação para os programas curriculares de processo seletivo - o Vestibular. A empresa obriga os funcionários a sua filosofia de mercado - - a produtividade é a aprovação no vestibular, pois a manutenção do emprego é terminar o programa. Outros aspectos como pouca autonomia do trabalho docente, condições adequadas de trabalho, violência e indisciplina nas escolas também foram apontadas como limitantes de uma formação para a cidadania.
Assumindo que o ensino deva ser direcionado mais para contextualização dos conceitos de Física, temos que priorizar a quebra de um obstáculo didático enraizado na estrutura educacional, de certa forma presentes nos discursos destes professores, qual seja: a dificuldade de assumir que a forma com que se educa e que a relação professor-aluno são decorrentes de uma atitude didático-o-pedagógica não mais condizente com as necessidades de formação atual. Estes professores apresentaram em níveis diferentes consciência de suas limitações, no entanto, apenas um mostrou-se mais firme e lúcido na escolha de uma nova abordagem educacional. Disto, podemos refletir que o o docente deverá primar em sua prática por uma tomadada de decisão c consciente a favor, dentre alternativas, da abordagem CTS e participar das tentativas de superar r o ensino tradicional fragmentado e descontextualizado que só informa .
## 4. Considerar é preciso.
Mais do que conclusões prentendemos refletir sobre os resultados. Conforme antecipamos a nossa intenção foi a compreensão de concepçpções e proposições docentes. Desta maneira, as categorias analisadas nos trouxe várias
constatações como a persistente existência de problemas na formação docente, há tempos apontadas pela bibliografia especializada, ainda permeando o discurso docente. Isto to nos remete a uma necessidade urgente de uma renovação dos projetos político-o-pedagógicos das Licenciaturas que ainda se pautam na formação tradicional, deve-se promover uma melhor formação docente quanto aos aspectos constituintes do fazer ciência, bem comomo do ensinar ciências . As As reformas educacionais devem comprometer-se com a construção de uma escola dirigida aos setores mais amplos da sociedade.
Outra temática a ser debatida tanto na escola quanto nos cursos de formação docente é a necessidade de empreender um esforço coletivo para vencer as barreiras e entraves que inviabilizam a construção de uma escola que eduque para o exercício pleno da cidadania. Seja esta escola um espaço em que se aprenda a aprender, a conviver e a ser com e para os outros, contrapondo-se ao atual modelo gerador de desigualdades e exclusão social . Definida a sua postura libertadora, a escola vai trabalhar no sentido de formar cidadãos conscientes, capazes de compreender e criticar a realidade, atuando na busca a da superação das desigualdades .
Percebemos que os os professores procuram na contextualização dos conhecimentos científicos uma forma de superar, pelo menos em parte, as dificuldades que os alunos apresentam com relação à disciplina Física. Além disso, mencionamos o caráter explicativo e avaliador que eles percebem nesta ciência , o que nos fez inferir que é preciso fomentar um costume e em sala de aula, a saber: contextualizar é preciso, quer seja para melhorar as condições de aprendizagem frente à abstração das linguagens científicas, quer seja para conectar os conteúdos científicos com os conceitos científicos, ou ainda, para promover uma aprendizagem significativa dos alunos-cidadãos.
Subjacente à idéia de alfabetização científica para formação de cidadãos críticos, não devemos os ver um desvio para tornar acessível a Ciência à generalidade dos cidadãos, mas antes uma reorientação do ensino inteiramente necessária para os futuros cientistas e cidadãos; necessária para modificar a imagem deformada da ciência hoje socialmente aceita. A melhor formação científica que pode receber seja um aprendente, seja um cientista, é integrado no conjunto dos cidadãos críticos. Assim, faz -s-se necessário uma impregnação dos estudantes numa cultura científica.
Destarte, baseados em nossa análise, os resultados desta pesquisa nos leva a depreender que para uma efetiva implementação da Educação Científica visando a formação para a cidadania em escolas de nível médio, é preciso uma tomada de posição, por parte dos professores e de todos os atores da Educação, que promova uma ruptura maior e melhor com o Ensino Tradicional e um reposicionamento epistemológico e pedagógico do ensino de Física. Além disso, incluir no Ensino de Física a formação para uma práxis cidadã embasada em conhecimentos científicos, éticos, bem como uma prática de tomada de decisão e ação social.
A premissa básica do Movimento CTS é que, quanto mais pertinente for a Ciência para a vida dos estudantes, mais se motivarão e se interessarão por tal saber r e, assim, trabalhar com mais afinco para "dominá-la". A educação CTS tornase mais profunda e efetiva se este desafio for vencido pelos atores educacionais . Entendemos, pois, que precisamos investir na idéia de que é possível educar em conhecimentos científicos, valores pessoais e práticas socociais .
Os sujeitos desta investigação apontatararam a Física como uma disciplina de grande importância na formação do cidadão, seja o caráter explicativo, seja o utilitário, seja o avaliador. Deste modo, parece-nos que a idéia de se formar cientistas tomou novo significado, qual seja: os indivíduos são educados cientificamente na medida em que de posse destes conhecimentos científicos são capazes de compreender o mundo (fenomenológico, tecnológico) a sua volta e, assim, possam escolher que ação executar. A Fís ica ganha um status de instrumento para a vida cidadã. Aceitamos que esta é uma visão interessante, mas outros fatores precisam estar presentes no processo educacional, quais sejam: crenças, valores, atitudes e práticas de intervenção cidadã. Não basta apenas conhecer, é preciso agir e ter como fundamento elementos não comensuráveis como a solidariedade e a ética. A escola precisa promover tal ação, na prática.
Portanto a pesquisa reforça a idéia de que mesmo dentre os docentes que possuem um interesse diferenciado em aplicar novas tendências para o ensino de física a na escola, a a prática e a formação docente ainda precisam avançar muito no sentido de fomentar novas abordagens de ensino voltado para formação de cidadãos críticos. O que enseja a necessidade de investimentos e pesquisas nessa área, bem como mais experiências voltadas para este ensino diferenciado .
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