CRITÉRIOS PARA A SELEÇÃO DE CONTEÚDOS DE FÍSICA NA EJA: DISCURSOS DE LICENCIANDOS
Andréa Cristina Souza De Jesus, Roberto Nardi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 21/01/2013
- Linha de pesquisa
- Seleção, Organização Do Conhecimento E Currículo
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## CRITÉRIOS PARA A SELEÇÃO DE CONTEÚDOS DE FÍSICA NA EJA: DISCURSOS DE LICENCIANDOS
## Andréa Cristina Souza de Jesus , Roberto Nardi 1 2
- 1 UNESP/Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência/andreacristtina@hotmail.com
## Resumo
Neste trabalho analisamos as justificativas dadas por futuros professores de Física para a escolha de determinados conteúdos de Física no ensino médio. A ideia é investigar as justificativas dos licenciandos quanto à seleção de conteúdos, evidenciar discursos comuns e fazer uma leitura tendo em vista as características especificas da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Pois, este trabalho é um recorte de uma pesquisa que teve como objetivo investigar quais as especificidades consideradas por futuros professores de Física ao prepararem e desenvolverem em sala de aula uma sequência didática para uma classe de jovens e adultos. A primeira etapa da pesquisa constituiu a aplicação de um questionário, que denominamos 'Questionário Exploratório'. O objetivo da utilização deste instrumento foi investigar o imaginário dos licenciandos sobre alguns temas relevantes ao pensarmos numa proposta didática para a EJA, dentre elas, a necessidade do professor dessa modalidade realizar uma seleção de conteúdos tendo em vista o perfil dos alunos e a carga horária do curso, que é bastante reduzida se comparada ao chamado ensino regular. Utilizamos a Análise de Discurso numa perspectiva francesa visando problematizar as respostas dos sujeitos e buscar indícios de suas condições de produção. Destacamos dois importantes critérios apontados pelos licenciandos: o primeiro é a realização da seleção a partir de conteúdos conceituais e voltados para o cotidiano. Já o segundo critério, pautado no vestibular, deve ser pensado com cuidado, tendo em vista os objetivos e as necessidades dos jovens e adultos com relação à escola. Os discursos também indicam dificuldades dos licenciandos em realizar a seleção ou em incluir temas contemporâneos no conteúdo programático.
Palavras-chave : Seleção de Conteúdos; Ensino de Física; Educação de Jovens e Adultos.
## Introdução
Este trabalho é um recorte de uma pesquisa que teve como objetivo investigar quais as especificidades consideradas por futuros professores de Física ao prepararem e desenvolverem uma sequência didática para uma classe de jovens e adultos. Uma das etapas desta pesquisa constituiu-se na aplicação de um questionário, que denominamos 'Questionário Exploratório, cujo objetivo foi investigar o imaginário dos licenciandos a respeito de alguns temas relevantes ao pensarmos numa proposta didática que atenda às especificidades da Educação de Jovens e Adultos (EJA), dentre eles, questionamos sobre os critérios utilizados para selecionar os conteúdos a serem abordados em sala de aula. Essa discussão é importante para a EJA, tendo em vista o perfil dos alunos e a carga horária do curso, que é bastante reduzida se comparada ao chamado ensino regular. No entanto, entendemos que esta discussão é também necessária a todos os níveis de ensino se considerar os seguintes pressupostos:
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20 a 25 de janeiro de 2013
- I) Compreender que os conhecimentos estão sempre em processo de reconstrução e desenvolvimento, tornando-se necessário uma constante atualização dos conteúdos abordados em sala de aula. A seleção se faz necessária para que os currículos não fiquem sobrecarregados e/ou desatualizados;
- II) A extensa gama de conteúdos propostos pelos livros didáticos - que se tornou o principal controlador do currículo educacional. Segundo Rosa e Rosa (2005, p.02) 'o professor precisa selecionar quais os conteúdos que irá abordar diante do complexo da obra didática, tendo que, muitas vezes, pincelar tópicos desconexos, simplesmente por que é necessário contemplar os itens do livro didático'.
- III) E os diferentes contextos escolares vivenciados pelos docentes, onde é preciso considerar desde o número de aulas semanais até as características dos alunos e da escola onde atuam.
Dessa forma, apresentamos no tópico seguinte um breve levantamento sobre as discussões encontradas na literatura educacional sobre este assunto.
## Sobre a Seleção de Conteúdos
De acordo com Pedra (1993), o currículo é um 'recorte intencional' ou ainda uma 'seleção de conhecimentos, atitudes, valores e modos de vida, presentes na cultura de uma determinada sociedade, considerados importantes para serem transmitidos às gerações sucessoras'. O autor sugere que a seleção de conteúdos deve ser organizada em torno de três conjuntos: 'seus destinatários, o estado do conhecimento científico e a realidade cotidiana da cultura.' (PEDRA, 1993, p. 32).
Para Souza e Freitas (2001) as escolas têm se preocupado mais com a metodologia utilizada para transmitir o conteúdo que em discutir e questionar os clássicos conteúdos abordados na escola. Segundo os autores, mesmo com um currículo dado, os professores acabam introduzindo outros conteúdos no programa. Tais escolhas revelam suas 'visões de mundo, suas ideias, suas práticas, suas representações sociais e seus símbolos' (SOUZA, FREITAS; 2001, p.01).
Assim, a seleção de conteúdos a serem contemplados em sala de aula não é um processo neutro, pois sofre influências de diferentes interesses da sociedade na sua construção. Algumas investigações (ROSA; ROSA, 2005; SOUZA; FREITAS, 2001) apontam a excessiva influência que o vestibular provoca na ação do professor ao realizar a seleção de conteúdos. No entanto, além da ênfase no vestibular direcionar para um ensino memorístico e descontextualizado, o ingresso no ensino superior nem sempre faz parte dos objetivos dos estudantes como também não garante uma boa preparação para que o estudante curse uma graduação.
Daí a importância de haver uma relação bastante dialógica entre educandos e educador, pois facilita a este último a elaboração de uma ação pedagógica que considere as aspirações, necessidades e dificuldades dos primeiros. Freire (1987), que se tornou uma importante referência quando pensamos em educação de adultos, propõe que a escolha dos conteúdos a serem abordados se realize junto dos educandos, a partir das reflexões sobre a situação vivenciada. Caso contrário, haveria um desrespeito pela visão do mundo particular de cada sujeito, como uma espécie de 'invasão cultural' (FREIRE, 1987). Segundo o autor, os temas escolhidos devem se aproximar da realidade concreta vivenciada pelos educandos e propor desafios a partir de situações existenciais.
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Em relação ao Ensino de Ciências, Nascimento e Alvetti (2006) fazem referência à estabilidade de determinados conteúdos da Ciência clássica no currículo do ensino médio (EM). No caso da Física, conteúdos da Mecânica Clássica, Óptica Geométrica e Eletrostática, por exemplo, predominam nas aulas. Os autores sugerem a inserção de tópicos da ciência moderna e contemporânea como forma de contextualizar os conceitos de ciências com as discussões no mundo atual, permitindo que os alunos saibam se posicionarem frente às discussões que envolvam ciência e tecnologia. Contudo, a introdução de temas atuais para serem trabalhados em sala de aula não deve ser pensada como a elaboração de novas listas de tópicos de conteúdos escolares, mas principalmente deve propor novas dimensões para o ensino de Física, promovendo um conhecimento contextualizado, de acordo com os diferentes perfis de estudantes e com as problemáticas locais (BRASIL, 2000a). Diante destas considerações, destacamos a importâncias dos professores desenvolverem saberes e competências quanto à questão da seleção de conteúdos de ensino.
## Sobre a Educação de Jovens e Adultos
Podemos entender o campo da EJA como uma área que, apesar de possuir uma longa história no país, ainda não está consolidada. As tentativas de configurar especificidades para este campo se tornou uma das principais características da EJA, que tem sido vista como uma educação marcada por 'indefinições, voluntarismo, campanhas emergenciais, soluções conjunturais' (ARROYO, 2006, p. 20). Para Arroyo (2006) é possível verificar tais indefinições em relação à formação de professores que lecionam nesse campo, pois muitos não possuem especialidade para atuar nestas classes, e o que se tem visto é a improvisação e sentimentos de boa vontade. Segundo o autor, os próprios professores afirmam que existe preconceito neste campo de trabalho, que é considerado como de "segunda linha". Para Lopes (2009) existe uma forte ideia que qualquer professor é automaticamente um professor de jovens e adultos.
Diversas pesquisas têm apontado a necessidade de uma formação específica do professor que atua na EJA. No entanto, estas pesquisas estão bastante voltadas para o professor de alfabetização e dos anos iniciais do ensino fundamental. São poucos os trabalhos que discutem a questão do professor de ensino médio que atua em classes de jovens e adultos. Concordamos com Vilanova e Martins (2008), ao afirmarem que o número pesquisas referentes ao ensino de ciências para jovens e adultos ainda é muito escasso na literatura, além das discussões possuírem um caráter bastante incipiente; especialmente trabalhos voltados para o ensino de Física (LOPES, 2009).
## A Pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida com 17 alunos, de faixa etária entre 21 e 29 anos, do último ano de um curso de licenciatura em Física de uma universidade pública paulista, ao longo da disciplina Estágio Supervisionado. A abordagem qualitativa utilizada justifica-se pela realidade dinâmica e complexa em que se insere o fenômeno educacional, sendo praticamente impossível isolar as variáveis envolvidas neste processo ou apontar especificamente quais são os motivos responsáveis por determinado efeito (LÜDKE; ANDRÉ, 1986).
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A primeira etapa da pesquisa constituiu-se na aplicação de um questionário, que denominamos 'Questionário Exploratório'. O objetivo da utilização deste instrumento foi investigar o imaginário dos licenciandos sobre alguns temas relevantes ao pensarmos numa proposta didática para a EJA, tais como os critérios utilizados pelo futuro professor para selecionar o conteúdo, a abordagem em sala de aula, suas considerações sobre o perfil dos alunos e sua opinião sobre a questão da evasão escolar.
Neste trabalho será apresentada a análise das respostas dos licenciandos para a seguinte questão presente no questionário: ' Supondo que você esteja atuando como professor de Física no ensino médio (EM), e que por algum motivo, você tenha apenas metade do tempo para trabalhar conteúdos que, normalmente, seriam abordados ao longo de um ano letivo. Como você iria elaborar o conteúdo programático? Que conteúdos você selecionaria? Por quê?'. Esta questão visou investigar as justificativas dos licenciandos quanto à seleção de conteúdos, evidenciar discursos comuns e fazer uma leitura tendo em vista as características especificas da EJA.
Nota-se que, num primeiro momento, optamos por não citar o termo 'EJA' nas questões, aumentando as chances dos licenciandos exporem suas ideias e concepções sobre os assuntos abordados no questionário, sem se anteciparem frente ao termo 'EJA' e elaborarem as 'respostas que gostaríamos de ouvir'.
Para a análise dos dados, consideramos os aportes teóricos da Análise de Discurso (AD) numa corrente francesa, nos apoiando principalmente na noção de imaginário. Eni Orlandi (1999) define discurso como o efeito de sentidos entre locutores, tendo em vista que a ocorrência de um discurso não se trata apenas da transmissão linear de uma informação. Para a autora, a perspectiva da AD nos permite problematizar as diferentes manifestações da linguagem, partindo de pressupostos como a não transparência, a não neutralidade e a multiplicidade de sentidos. Sendo assim, o estudo da linguagem não pode estar desvinculado de suas condições de produção na sociedade, pois os processos que a constituem são histórico-sociais, sendo a linguagem lugar de conflitos e de confrontos ideológicos.
Já o conceito de imaginário pode ser entendido como um mecanismo que 'produz imagens dos sujeitos, assim como do objeto do discurso, dentro de uma conjuntura sócio-histórica' (ORLANDI, 1999, p.40). Ou seja, o imaginário dos sujeitos, constituídos historicamente, interfere no funcionamento do discurso e, consequentemente, na produção de sentidos sobre o objeto do discurso. De acordo com Orlandi (1999), a AD nos permite atravessar o imaginário que condiciona os sujeitos, e explicitar o modo como os sentidos estão sendo produzidos, o que nos permite compreender melhor o que está sendo dito.
## Interpretação dos Discursos
Destacamos nessa análise os discursos comuns nas respostas dos licenciandos, buscando compreender como tais discursos foram construídos relacionando-os com a literatura da área e verificar se trazem considerações relevantes ao pensarmos em classes de jovens e adultos.
Um primeiro discurso bastante presente nas respostas dos sujeitos foi a elaboração de um conteúdo programático pautado numa Física conceitual e que se relacione com o dia-a-dia dos alunos. A abordagem conceitual pode ser entendida
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como uma forma qualitativa de tratar os conteúdos de Física, a compreensão dos fenômenos físicos é o principal objetivo, ficando as equações matemáticas num segundo plano. Segue alguns exemplos das respostas dos sujeitos:
Eu destacaria os conteúdos que mais estão relacionados no dia a dia. [A2]
Eu elaboraria o conteúdo programático focando em conceitos, como uma Física Conceitual, abordando situações do dia-a-dia do aluno, para que eles se identifiquem com a matéria. [A3]
Penso que em uma série no 1º ano do Ensino Médio, seja primordial abordar os conceitos de mecânica, pois estes são mais próximos da realidade dos alunos, e poderão ser melhores absorvidos. [A6]
Iria elaborar o conteúdo programático focando a matéria nos conceitos. [A14]
As afirmações dos licenciandos revelam uma preocupação em trazer elementos do cotidiano para serem relacionados com os conteúdos escolares. Ao proporem um ensino que enfoque mais os conceitos, também há uma intenção de desvincular o ensino de Física de uma abordagem que enfatize a ferramenta matemática. Estes discursos vão ao encontro do que as pesquisas em Ensino de Física sugerem. Conforme apontado por Fracalanza, Amaral e Gouveia (1987), a ideia de valorizar o cotidiano dos alunos vem sendo discutido há algumas décadas na área de ensino de ciências e parece que este discurso já se encontra incorporado nos cursos de formação de professores. O Grupo de Reelaboração do Ensino de Física - GREF, por exemplo, tem uma proposta de Ensino de Física bastante divulgada nos cursos de licenciaturas do país e busca oferecer 'condições de acesso a uma compreensão conceitual e formal consistente' (GREF, 2002 p.19). As atividades propostas pelo grupo são pautadas em situações e elementos do cotidiano, amplamente acessíveis para a maioria dos alunos.
- O critério de seleção de conteúdos pautado no dia-a-dia dos estudantes também é bastante citado na literatura específica para o contexto da EJA. Pois as trajetórias escolares dos sujeitos desta modalidade são, em geral, marcadas por momentos de exclusão e evasão, podendo haver dificuldades dos educandos na compreensão dos formalismos que o ensino escolar exige, e a aproximação com o cotidiano pode facilitar essa relação.
Outro critério apontado nos discursos é a seleção pautada nos tópicos abordados pelo vestibular, como se nota nos trechos abaixo:
[abordaria] principalmente o conteúdo de mecânica e elétrica, pois são os que mais caem no vestibular. [A1]
Deixaria alguns conceitos de fora, e me preocuparia com os mais importantes para o vestibular. [A13]
Se fosse para a segunda série do ensino médio, eu abordaria mais dinâmica, já que é o que mais cai no vestibular. [A10]
- O critério de seleção pautado no vestibular deve ser visto com cautela na preparação de uma aula para a EJA, tendo em vista que, na maioria das vezes, o ingresso no ensino superior pode não fazer parte dos principais objetivos dos alunos dessa modalidade. Além disso, a preocupação em trabalhar exercícios de vestibulares em sala de aula acaba ocorrendo em detrimento de discussões voltadas para o cotidiano dos alunos, e que contribuam de fato para uma formação pautada em aspectos humanos, sociais e éticos (ROSA; ROSA, 2005), elementos essenciais para a modalidade. Contudo, como a questão realizada não especificava a
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modalidade EJA, possivelmente os licenciandos focaram seus imaginários na população adolescente.
Um dos possíveis motivos para a questão do vestibular se encontrar bastante presente no imaginário dos licenciandos pode ser o fato dos sujeitos falarem a partir de uma universidade pública e terem esta instituição como referência, cujo processo de seleção é realizado através do vestibular. Além disso, se tomarmos como indício o perfil jovem dos licenciandos, que já se encontram no último ano da licenciatura, podemos inferir que o ingresso no ensino superior foi um dos objetivos desses sujeitos quando estiveram no ensino médio e que os licenciandos remeteram a suas próprias histórias de vida, se colocando na posição de educandos, para pensar o que pode ser considerado essencial quanto a seleção de conteúdos. Assim, o processo seletivo para o ingresso no ensino superior se torna um dos principais critérios para priorizar os conteúdos que os futuros professores pretendem ministrar.
Em relação aos os principais conteúdos apontados, diante da necessidade de seleção, os licenciandos priorizam a Física Clássica uma vez que apontam tópicos de Mecânica, Eletricidade, Termodinâmica e Ondulatória, não sendo citados temas de Física Moderna e Contemporânea. Fazendo uma leitura tendo em vista o campo da EJA, ressaltamos que a inserção de tópicos atuais se faz necessária como fator de motivação e também para cumprir seu papel de manter o cidadão atualizado sobre discussões contemporâneas, dando-lhe o direito de se posicionar criticamente perante tais assuntos. Este papel está alinhado com a função de formação permanente, um dos pilares da EJA de acordo com o Parecer CNE/CEB nº. 11/2000 (BRASIL, 2000b) e que tem como base o caráter incompleto do ser humano e a constante busca pelo conhecimento. Contudo, este critério constituiu-se em um 'não dito' no discurso dos sujeitos.
Continuando a análise, notou-se que alguns licenciandos manifestaram dificuldades ou discordaram que deva haver uma seleção de conteúdos, conforme as afirmações abaixo:
Seria difícil escolher o conteúdo pois poderia deixar de fora algum conteúdo importante para o aluno. [A14]
Eu não excluiria nenhuma parte, e sim sintetizaria os conteúdos ou já passaria a matéria em apostilas ao invés de perder 50% do tempo na lousa. [A7]
Eu não cortaria nada, eu iria exigir do aluno a parte que falta como tarefa e correria com a matéria, pois acho que todos os tópicos são importantes. [A16]
Nestes casos são sugeridos resumos, apostilas e trabalhos para serem realizados em casa, como forma de cumprir todo o conteúdo. Todavia, nem sempre os alunos da EJA, em sua maioria trabalhadores ou pessoas à procura de um emprego, têm essa disponibilidade extra-classe para atender as exigências da escola. Dessa forma, é preciso cautela por parte das escolas e professores para que não se distanciem das reais condições de vida dos educandos, causando novamente a exclusão do sistema escolar, resultado em evasão (ARROYO, 2006).
De um modo geral, destacamos a presença de um discurso autoritário nas falas dos licenciandos. De acordo com Orlandi (1999), discurso autoritário é aquele que procura impor um só sentido. No caso das respostas dos licenciandos, os sujeitos apresentaram o ponto de vista do professor como o único possível como critério de seleção de conteúdo, não havendo em suas falas considerações em ouvir ou dialogar com o educando sobre suas necessidades. Esta interpretação pode ser
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visualizada no seguinte fragmento: ' … os conteúdos pelos quais eu consideraria mais relevantes dos alunos saberem' [A2]. Freire (1987) destaca que a preparação dos conteúdos programáticos deve ser realizada no encontro de educador com educandos, a partir da valorização da realidade vivenciada destes últimos. Ao contrário do educador bancário que não se questiona sobre o conteúdo do diálogo, e sozinho organiza 'seu' programa, e escolhe o que irá dissertar para os alunos.
Contrapondo esta ideia, foi possível notar a presença de discursos que relacionam a seleção de conteúdos de acordo com as características da classe na qual se irá trabalhar, evidenciando alguma consideração pelo contexto e perfil de aluno encontrado.
Isso depende, depende da sala em que estaria, das situações que surgeriam. Depende de como seria o trabalho e o relacionamento com a sala. [A11]
É difícil dizer quais conteúdos são menos importantes, tudo vai variar conforme a região onde estiver lecionando, o conhecimento dos alunos, entre outras coisas. [A15]
Discussões sobre a diversidade dos sujeitos e o respeito às características individuais dos estudantes vai ao encontro das propostas na área de EJA, já que trata-se de um contexto marcado pelo encontro de pessoas com diferentes saberes e trajetórias de vida.
## Algumas Considerações
A partir das respostas dos licenciandos para a questão realizada, foi possível identificar ao menos dois importantes critérios presentes em seus imaginários sobre a seleção de conteúdos. O primeiro critério busca realizar a seleção a partir de conteúdos conceituais e voltados para a realidade cotidiana dos educandos, esta consideração está de acordo com as discussões sobre as características e necessidades dos alunos jovens e adultos. Esta ideia também vai ao encontro das propostas das investigações em Ensino de Física, indicado a presença de resultados de pesquisas no curso de licenciatura considerado. Já o segundo critério, pautado no vestibular, deve ser pensado com cuidado, tendo em vista os objetivos e as necessidades dos jovens e adultos com relação à escola. Este aspecto indica que, em um primeiro momento, os licenciandos focam seus imaginários na população adolescente.
Reforçamos a importância de discussões sobre os critérios utilizados para a seleção de conteúdos de Física, diante da dificuldade manifestada no discurso dos licenciandos em realizar esta seleção ou em incluir temas contemporâneos no conteúdo programático. Pois, apesar de termos realizado uma leitura sob o ponto de vista da EJA, entendemos que esta reflexão é necessária para as demais modalidades de ensino.
## Referências
ARROYO, M. G. Educação de jovens-adultos: um campo de direitos e de responsabilidade pública. In: SOARES et al (Org.). Diálogos na Educação de Jovens e Adultos . 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. p. 19-50.
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ORLANDI, E. P. Análise de Discurso : Princípios e Procedimentos. 4ª. ed., Campinas: Pontes Editores, 1999, 100p.
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VILANOVA, R.; MARTINS, I. Educação em Ciências e educação de jovens e adultos: pela necessidade do diálogo entre campos e práticas. Ciência e Educação . Bauru, vol.14, n. 2, 2008.
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