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CLUBE DE CIÊNCIAS: UMA PROPOSTA DE INOVAÇÃO E CRIAÇÃO DE PRÁTICAS DISCURSIVAS INVESTIGATIVAS PARA O ENSINO DE FÍSICA

Eder Dias Da Silva, Carlos Eduardo Porto Villani

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
21/01/2013
Linha de pesquisa
Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## CLUBE DE CIÊNCIAS: UMA PROPOSTA DE INOVAÇÃO E CRIAÇÃO DE PRÁTICAS DISCURSIVAS INVESTIGATIVAS PARA O ENSINO DE FÍSICA

## Eder Dias da Silva , Carlos Eduardo Porto Villani 1 2

- 1 PUC-MG/Mestrado em Ensino de Física, atomicoeletrico@yahoo.com.br
- 2 UFMG/Departamento de Física/Colégio Técnico, carlosvillani@ufmg.br

## Resumo

Neste trabalho, investigamos a influência de uma atividade de ensino não formal, produzida num contexto de ensino de ciências por investigação, na prática discursiva de duas salas de aula. Para isto, elaborou-se uma sequencia de atividades de investigação para serem realizadas em duas turmas de segundo ano do ensino médio de uma escola privada da cidade de Patos de Minas. A hipótese que guiou esta investigação é que a participação de integrantes do 'Clube de Ciências' nas classes regulares da escola altera as características das práticas discursivas produzidas pelos alunos destas classes. O objetivo geral do presente trabalho foi, portanto, evidenciar o potencial que os Clubes de Ciências possuem em influenciar as práticas discursivas em classes regulares na escola. Neste trabalho buscamos compreender a importância das atividades de investigação que são regularmente realizadas no 'Clube de Ciências' para alunos que não participaram diretamente delas. Consideramos que este estudo possa contribuir para um melhor entendimento do papel que as atividades de investigação realizadas em espaços não formais podem desempenhar no processo formal de ensino de ciências. O corpus desta pesquisa é constituído pelas fitas de áudio e vídeo que registraram as práticas discursivas produzidas nas duas classes investigadas: a primeira, que continha alguns alunos participantes do 'Clube de Ciências' e a segunda que não continha alunos que participavam deste clube. Os resultados desta investigação apontam a necessidade de se realizar estudos longitudinais para verificar a influência das atividades realizadas em espaços nãoformais de ensino nas práticas discursivas produzidas em classes regulares de uma escola. Além disso, destacamos que os alunos integrantes do clube conseguiram instigar seus colegas a uma postura mais questionadora e investigativa sobre os assuntos abordados pelo professor na sequência de ensino por investigação proposta aos alunos que participaram das atividades.

Palavras-chave : Atividades Investigativas, Ensino de Física, Práticas Discursivas, Clubes de Ciências, Perguntas dos Alunos.

## Introdução: a problemática, a hipótese e o objetivo geral da pesquisa.

Componentes curriculares como a disciplina Física não são bem aceitos por uma parcela considerável dos alunos do ensino médio. De fato, parece prevalecer uma imagem idealizada da Física como uma disciplina de difícil entendimento, cujo conteúdo se encontra muito distante do cotidiano destes estudantes. Assim, a Física passa a ser vista como uma disciplina desinteressante com poucas implicações para a vida dos cidadãos comuns.

Nesse contexto, a Física restringe-se a um pequeno grupo de possíveis cientistas e engenheiros, o que confere a ela um papel distorcido em relação a uma perspectiva de 'ensino de ciências para todos'. Tendo em vista diminuir esse desinteresse e fazer com que as aulas de Física não se tornem cansativas e

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20 a 25 de janeiro de 2013

monótonas para a maior parte dos alunos, alguns professores procuram alternativas para tornar o aprendizado desta disciplina mais dinâmico, atual e efetivo. Muitas vezes, o caminho percorrido para a solução deste problema extrapola o contexto da sala de aula. Alguns professores exploram situações tais como visitas a museus de ciências e também a realização de feiras de ciências como forma de superar o aparente desânimo e a falta de motivação dos alunos com relação à Física.

Outra preocupação é a expectativa de inserção dos alunos em uma 'cultura científica' com a valorização da aprendizagem tanto dos produtos da ciência (conceitos, leis, princípios, etc.) quanto dos seus processos (métodos de investigação, construção de hipóteses, comunicação de ideias, formulação de argumentos científicos, etc.). A enculturação dos alunos também seria, na visão de pesquisadores em ensino de ciências, uma condição necessária para a formação de cidadãos críticos e criativos na sociedade moderna.

A existência de um ambiente de discussão, de estudo e debate da ciência, afastado da rigidez da sala de aula é de fundamental importância, pois o domínio da cultura científica é instrumento indispensável à participação política e cidadã. Não há como participar de uma sociedade, como agente de transformação, sem uma ciência básica. Trata-se de uma condição essencial para formar pessoas criativas e participativas, capazes de atuar na sociedade (SILVA, BRINATTI e SILVA, 2009).

Entretanto, a efetividade de tais situações para a melhoria da qualidade do ensino de Física ainda carece de estudos científicos que forneçam argumentos convincentes da sua importância para a educação em ciências. Tendo em vista a necessidade de amenizar a deficiência na aprendizagem de temas tratados na sala de aula de Física, pelos alunos do ensino médio, destacamos neste trabalho a investigação da eficácia de uma atividade não formal de ensino que extrapola os limites das paredes das salas de aula: o 'Clube de Ciências' realizado em uma perspectiva de investigação científica. Nesse Clube, seus integrantes são levados a refletir sobre o contexto ambiental, social, político e econômico no qual eles estão inseridos. Além disso, esta situação de aprendizagem propicia aos membros do Clube oportunidades de exposição de ideias, formulação de hipóteses e a busca de respostas através de propostas de investigação de problemas científicos advindos dos contextos escolares e cotidianos que os alunos vivenciam.

Assim, neste trabalho investigaremos a influência do 'Clube de Ciências' para a melhoria da qualidade do ensino de Física da escola privada, localizada na cidade de Patos de Minas e que atende a uma clientela de alunos advindos da classe média desta cidade. A hipótese que irá guiar nossa investigação é que a participação de estudantes do ensino médio nos Clubes de Ciências altera a frequência, o tipo e a estrutura das perguntas que os alunos formulam em classe modificando assim as práticas discursivas da sala de aula.

O objetivo geral do presente trabalho foi, portanto, evidenciar o potencial que os Clubes de Ciências possuem em influenciar as práticas discursivas em classes regulares na escola. Para isto, acompanhamos as aulas de duas turmas de segundo ano do ensino médio sendo que somente uma delas possuía alunos pertencentes a um Clube no qual os seus membros trabalham em uma perspectiva de 'ensino de ciências por investigação', e investigamos um aspecto específico do discurso estabelecido nestas turmas: as perguntas dos estudantes, visando identificar indícios da influência que os membros do Clube exercem na dinâmica discursiva de uma classe regular.

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Consideramos que este estudo possa contribuir para um melhor entendimento tanto do papel que as atividades extracurriculares, tais como os Clubes de Ciências, desempenham no processo de ensino de ciências, quanto para o entendimento das possibilidades, dos desdobramentos e das perspectivas do uso de atividades investigativas na escola regular.

## O 'Clube de Ciências' numa perspectiva de ensino por investigação

As ideias de se formarem Clubes de Ciências vem crescendo a cada dia. Em geral, a criação de 'Clubes de Ciências' nas escolas tem como finalidade sanar alguma deficiência existente nos processos de ensino e de aprendizagem que ocorrem nas salas de aula. Aqueles que já se encontram em funcionamento parecem produzir resultados satisfatórios para o crescimento dos alunos e consequentemente do professor e da escola. Para SILVA E BORGES (2009) os 'Clubes de Ciências' tornam o aprendizado dos conteúdos das Ciências Biológicas e da Física mais efetivos e rápidos. Em seu artigo, estes autores destacam o potencial da experiencia proporcionada pelos Clubes de Ciencias para a formação de futuros professores. Já SILVA, BRINATTI E SILVA (2009) acreditam haver uma grande contribuição para o processo de ensino e de aprendizagem também para alunos da escola básica que se beneficiariam destas atividades para efetivar seu aprendizado. Entretanto, estas impressões ainda carece de estudos para que possamos compreender melhor os diferentes papeis que eles podem desempenhar na escola.

O 'Clube de Ciências' montado na escola conta exclusivamente com alunos voluntários do ensino médio que possuem interesse em aprender a Física de uma maneira alternativa aquela com que esta disciplina é oferecida em salas de aula mais 'tradicionais'. As atividades de investigação propostas no clube são uma estratégia de ensino, entre outras, que o professor pode utilizar para diversificar sua prática no cotidiano escolar. Essa estratégia pode englobar quaisquer atividades sejam elas experimentais ou não, desde que elas sejam centradas no aluno, propiciando o desenvolvimento de sua autonomia e de sua capacidade de tomar decisões, avaliar e resolver problemas, ao se apropriar de conceitos e teorias das ciências da natureza (SÁ, LIMA e AGUIAR; 2009).

No 'Clube de Ciências' da escola, os alunos são instigados a produzirem problemas a partir de suas vivências e encontram condições materiais adequadas para planejar os métodos de investigação e encontrar as soluções dos problemas que eles produziram. Os temas e problemas levantados pelos integrantes do clube são discutidos juntamente com o professor coordenador do projeto. Este fica presente durante todos os encontros para auxiliar a preparação de materiais e supervisionar a execução dos trabalhos de investigação científica propostos.

A presença de integrantes do 'Clube de Ciências' nas classes regulares de física contribui para a quebra de um paradigma educacional segundo o qual o professor é o único detentor do conhecimento. Em seu lugar surge a figura de um aluno agente, capaz de investigar cientificamente e de buscar respostas aos seus questionamentos. Além disso, ao entender que as dificuldades encontradas pelos alunos fazem parte integrante do processo de construção do saber, todas as experiências já vivenciadas pelo professor passam a permear o conhecimento, aproximando-o da realidade dos alunos (SILVA, BRINATTI E SILVA, 2009).

Finalmente, consideramos que a participação dos integrantes do 'Clube de Ciências' nas classes regulares altera a dinâmica discursiva da sala de aula

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deslocando o discurso de autoridade, muito comum em salas de aula tradicionais de ensino de física, para um discurso mais dialógico no qual são considerados outros pontos de vista que não apenas o ponto de vista de autoridade da ciência.

O clube altera o comportamento dos alunos em classe fazendo, surgir também neste último ambiente, perguntas que estimulam a curiosidade dos outros alunos da turma, aumentando a probabilidade da ocorrência de um debate entre os colegas e o professor. O discurso da sala de aula passa a alternar momentos de autoridade - do discurso científico a ser transmitido - e de dialogia onde os estudantes parecem buscar novas perguntas que possam ser transformados em problemas a serem investigados. Como consequência disso, a participação dos alunos no discurso da sala de aula aumenta e estes passam a exercer um papel mais ativo no processo de aprendizagem dos conteúdos desta disciplina que antes era associado à mera transmissão de conceitos e teorias que estavam expressas como verdades inquestionáveis no livro ou nas apostilas do curso. Neste trabalho, partimos da premissa segundo a qual os integrantes do clube propiciam o surgimento de um contexto que estimula todos os alunos da turma a incorporarem um papel mais ativo diante das suas respectivas classes regulares ao legitimarem a importância do diálogo entre eles e o professor e entre eles e seus pares, prática esta vivenciada cotidianamente com naturalidade no clube.

## Metodologia da Pesquisa

Neste artigo apresentamos uma descrição contextual de uma sequencia e ensino planejada em uma perspectiva investigativa. Tendo em vista uma análise qualitativa das aulas ministradas fizemos opção pelo o uso de duas filmadoras digitais para registrarmos o contexto do discurso produzido. As fitas foram arquivadas no gabinete do segundo autor deste arquivo e serão destruídas após a trancrição dos demais episódios dos interesses de nossa pesquisa. Fizemos os registros em áudio e vídeo de uma sequencia de ensino de três aulas distintas ministradas em duas turmas: uma primeira turma que continha alunos integrantes do Clube, e uma segunda turma, que não possuía alunos integrantes do 'Clube de Ciências'. As gravações foram realizadas no contexto de turmas de segundo ano do ensino médio. As turmas eram compostas por cerca de 20 alunos cuja faixa etária se encontra entre 15 e 16 anos. A maioria destes alunos vem concluindo cada série juntos desde o maternal nessa mesma escola.

Realizamos filmagens de três tipos de aulas todas ministradas numa perspectiva de investigação científica: uma aula expositiva, um debate e uma aula experimental. As duas câmaras ficaram posicionadas da seguinte forma: a primeira sempre localizada no fundo da sala focalizando o professor, e a segunda câmera situada na lateral da sala, operada por um aluno para que ele pudesse registrar as reações e falas dos outros alunos que participaram diretamente do discurso nas aulas investigadas.

A sequência de ensino de três aulas teve como tema o conteúdo 'ondas sonoras'. Nesta sequencia propusemos uma primeira aula expositiva, onde foi apresentada a teoria sobre ondas sonoras e, ao seu final, foi solicitado que os alunos realizassem uma tarefa na qual eles deveriam fazer uma pesquisa sobre o funcionamento dos instrumentos de sopro. Na segunda aula, com os alunos de posse das suas pesquisas, planejou-se a realização de um debate no qual os alunos estabeleceram um diálogo em sala de aula onde o professor os instigou a

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explicarem o funcionamento de um instrumento musical específico que funcionasse como um tubo sonoro: a marimba. Finalmente, foi proposta uma terceira aula realizada no laboratório de física da escola, onde se buscou explorar o estudo da acústica em tubos sonoros produzidos pelos próprios alunos. Nessa aula, os alunos foram desafiados a construir, afinar e tocar uma música com o instrumento construído (a marimba). Para isto eles deveriam aplicar os conhecimentos aprendidos ao longo da sequência das três aulas deste assunto.

## Análise e discussão dos resultados

No ambiente de investigação produzido ao longo das três aulas correspondentes a sequência de ensino sobre ondas sonoras, os alunos da turma que continha participantes do Clube de Ciências se sentiram a vontade e começaram a imaginar situações e propor hipóteses a respeito do funcionamento dos instrumentos de sopro. Eles se sentiram motivados tanto em propor uma metodologia para investigar os problemas propostos quanto em registrar os passos de sua investigação em um relatório no qual explicitaram a solução encontrada para cada um dos problemas investigados. Na sequência de aulas surgiram algumas perguntas que oportunizaram, na maioria das vezes, situações de ensino nas quais o professor 'mostrava apenas a estrada enquanto os alunos experimentavam a sensação de caminharem sozinhos até obterem um resultado satisfatório'. Este procedimento se mostrou natural aos demais alunos da turma que se envolveram mais com as tarefas propostas na sequencia de ensino do que os alunos da turma que não contiha participantes do clube.

Iniciamos a transcrição do discurso das alulas gravadas descrevendo minunciosamente o contexto das aulas e decidimos destacar e investigar a forma e o tipo das perguntas produzidas pelos alunos nas duas turmas investigadas. Assim, destacamos e fizemos uma transcrição fina dos trechos das fitas que continham perguntas formuladas pelos estudantes. Além disso, utilizamos as fitas para atribuir os significados do contexto no qual cada pergunta foi produzida. As perguntas formuladas pelos alunos das duas turmas (A e B) investigadas neste trabalho se encontram sucintamente agrupadas e destacadas nos quadros 01 e 02 que se seguem.

Quadro 01: Perguntas da Turma A (que contém integrantes do Clube de Ciências)

- - Em uma banda temos vários tubos sonoros e todos os formatos. Essa diferença que eles possuem em suas estruturas é que muda o som emitido por eles?
- - E a presença de furos no instrumento, quando tampados por um flautista, por exemplo, muda o som emitido. De que forma isso acontece?
- - A tuba é um instrumento de sopro e por sinal mais grosso que um trompete. Porque ocorre a diferença de som emitido por ambos?
- - Podemos também classificar o berrante como um instrumento de sopro. Quando este emite um som, há modificação da velocidade de propagação das ondas emitidas?
- - Todo instrumento de sopro emite notas musicais sem importar com a intensidade do sopro?
- - Se eu tiver dois flautins com duas densidades diferentes e peças bocais diferentes, o som seria o mesmo?
- - Se o flautim tivesse um compartimento de água, você poderia controlar a quantidade de água nesse compartimento através do sopro?

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Quadro 02: Perguntas da Turma B (que não fazem parte do Clube de Ciências)

Comparando as perguntas destacadas no quadro 01 com as perguntas destacadas no quadro 02, podemos perceber uma nítida diferença entre suas estruturas, suas possibilidades de investigação e as expectativas de respostas que elas suscitam. As perguntas produzidas pelos alunos da Turma A (5 delas feitas por integrantes do Clube) possuem uma estrutura mais complexa, sendo a metade delas composta por duas frases. Estas perguntas apresentam também uma explicitação do contexto ao qual se aplicam. Além disso, as perguntas destacadas no quadro 1 (Turma A) remetem a possibilidade concreta de realização de testes experimentais simples que viabilizariam sua solucão. Além disso, nessas perguntas foram mencionados instrumentos diversos (Flauta, Tuba, Trompete, Berrante) o que evidencia uma preocupação com a aplicação do conceito de tubos sonoros aos diversos instrumentos de tubo que eles conhecem em suas experiências fora da escola.

Já as perguntas produzidas pelos alunos da turma B possuem uma estrutura mais direta onde não há uma preocupação com o contexto na qual elas foram produzidas. Em geral trata-se de uma proposição simples com um sujeito gramatical um verbo e o predicado. Além disso, a resposta que se espera deve ser obtida em textos didáticos ou textos de divulgação científica previamente conhecidos. Tais perguntas dificilmente promoveriam a possibilidade de realização de testes experimentais simples. Há também uma pergunta cuja resposta é uma simples escolha. (O trompete é um instrumento de tubo aberto ou fechado?). Apenas um instrumento foi destacado nas perguntas (o trompete) que são estruturalmente menores e mais objetivas que as perguntas da turma A tendo apenas uma frase. Também são usadas majoritariamente perguntas que utilizam o verbo 'ser' em sua formulação (três em cinco) o que demonstra uma preocupação em se declarar um conhecimento já conhecido (1- O trompete é um instrumento de tubo aberto ou fechado? 2- Como o som é produzido em um tubo? e 3- Porque o som no tubo aberto é diferente do tubo fechado?).

Desta forma, as principais diferenças entre as perguntas formuladas pelos alunos das duas turmas são (1) a possibilidade de realização de testes experimentais simples e seus possíveis desdobramentos, (2) a generalização dos diversos exemplos de instrumentos destacados nas perguntas, (3) a relação de proximidade com outras experiências e vivências dos alunos e (4) a objetividade, o tamanho e a forma de elaboração das perguntas.

Observando o vídeo da turma que não faz parte do Clube de Ciências (Turma B), percebemos que os alunos dessa turma não se sentiram instigados a realizar o experimento e tocar a música com a marimba construída na terceira aula. Acreditamos que eles parecem não saber por onde começar a desenvolver o problema proposto. Nesta turma, não obtivemos resultados satisfatórios com relação

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à autonomia dos estudantes em realizarem tarefas mais investigativas. Além disso, os alunos pareceram satisfeitos com a construção do instrumento mesmo sem conseguirem tocar uma música com ele. Acreditamos que este comportamento se deve a uma rotina escolarizada na qual o que mais interessa é executar instruções previamente estabelecidas pelo professor e cumprir as tarefas mesmo que de forma exclusivamente burocrática.

Já a turma que continha alunos integrantes do Clube de Ciências, teve mais facilidade na montagem da marimba e na condução de todo o processo de investigação. A divisão dos grupos no laboratório foi feita pelo professor, tomando sempre o cuidado de deixar pelo menos um aluno integrante do 'Clube de Ciências' em cada grupo para que ele pudesse auxiliar os seus colegas. Durante a execução da atividade prática, ficou nítido o papel que os integrantes do clube desempenharam como mediadores na condução da tarefa. Eles atuaram como incentivadores da realização do experimento e fizeram com que a aula ficasse mais interessante para todos os alunos da turma. Durante a montagem da marimba, os alunos realizaram várias investigações, mudando o experimento, adequando as variáveis do problema e fazendo suas análises, sempre relacionando a construção do instrumento com os conteúdos abordados em sala nas aulas anteriores. Como o assunto era sobre tubos sonoros, e o desafio era tocar uma música, ou uma parte de uma música com a marimba construída, os alunos dessa turma só consideraram a tarefa de construir a marimba cumprida quando conseguiram tocar uma musica com o referido instrumento. Além disso eles realizaram posteriormente uma apresentação para toda a escola tocando uma música com a marimba por eles construída.

## Considerações finais e conclusão

Com base na análise da sequencia das aulas investigadas, apresentamos algumas evidências da contribuição de um 'Clube de Ciências' para a melhoria da qualidade das aulas de física em uma escola da rede particular de ensino da cidade de Patos de Minas. A presença de alunos integrantes do Clube auxiliou o engajamento dos demais alunos da turma em propostas de ensino mais inovadoras, tais como a sequencia de ensino numa perspectiva mais investigativa como a que propusemos neste trabalho. A turma que continha alunos integrantes do Clube de Ciências produziu um discurso mais complexo e contextualizado. Além disso, a estrutura das perguntas formuladas por eles evidencia uma influencia das atividades desenvolvidas no Clube no discurso que emergiu em suas classes regulares. Entretanto, estes alunos integrantes do clube monopolizaram as falas produzidas na classe, ocasionado uma diminuição significativa das vozes dos demais alunos da turma. Mesmo assim, nesta turma, observou-se um maior engajamento de todos os alunos que assumiram um papel mais ativo na realização das tarefas propostas. Por outro lado, na turma que não continha alunos integrantes do Clube, observamos uma atitude mais apática dos alunos o que pode ser interpretado como uma certa resistência que os estudantes oferecem a propostas de ensino mais inovadoras. Este resultado corrobora com o trabalho de SÁ, LIMA e AGUIAR; 2009 que apresenta a necessidade de se incorporar uma atitude ativa para a realização de propostas de ensino numa perspectiva mais investigativa. Consideramos que os alunos do Clube de Ciências atuaram como mediadores entre a tarefa de investigação proposta pelo professor e o conhecimento físico envolvido na atividade favorecendo assim, a criação de um ambiente mais propício ao ensino de física em uma perspectiva de investigação científica.

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Ao longo da nossa pesquisa nos questionamos sobre os benefícios que podem ser gerados para os alunos quando eles fazem perguntas em sala de aula. Quando eles formulam suas próprias perguntas, percebemos que eles estão a procura de algo novo e que se sentem mais interessados pelos conteúdos disciplinares trabalhados, relacionando suas experiências vividas como os conhecimentos previamente adquiridos na escola. Além disso, como exemplificado nos debates das duas turmas, quando os alunos participam da aula realizando perguntas, eles parecem instigar os outros alunos a se integrarem e se engajarem mais na realização das atividades propostas. Entretanto, consideramos necessário realizar estudos longitudinais para verificar se também aumenta a probabilidade de se alterar a forma e a frequência com que os outros alunos da turma passariam a formular novas perguntas e a se engajarem mais nas tarefas propostas. Fazendo perguntas, o aluno pode estimular, com frequência, seus colegas a partilharem ou a contestarem suas ideias e argumentos, criando novas soluções e considerando os problemas escolares de outros pontos de vista. Nas perguntas formuladas pelos alunos do clube houve uma expectativa concreta de se investigar novos problemas que, muitas vezes extrapolam o contexto dos livros didáticos. Os demais alunos da classe podem passar então a considerar a possibilidade de obterem respostas confiáveis a partir da realização de testes experimentais realizados nos contextos escolares que estão estudanto. Tais elementos são fundamentais para o desenvolvimento da autonomia dos estudantes que passariam a se sentir mais confiantes para aprender conteúdos cada vez mais complexos capacitando-os ao exercício de sua cidadania.

Finalmente podemos dizer que os Clubes de Ciências são mais que um meio de divulgação da ciência, de seus métodos e de sua influência no dia a dia do cidadão. A presença dos alunos integrantes do Clube em classes regulares da escola alterou a rotina e abriu a possibilidade de se modificar a forma de pensar dos demais alunos que passaram a reconhecer outras perspectivas de ensino como naturais aumentando assim a probabilidade de aumentarmos a efetividade dos processos de ensino e de aprendizagem dos alunos da educação básica (SILVA, BRINATTI E SILVA, 2009) a partir da criação e manutenção de Clubes de Ciências nas nossas escolas .

## Referências

SÁ, Eliane Ferreira de, LIMA, Maria Emília Caixeta de Castro, AGUIAR, Orlando Gomes de. A CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS PARA O TERMO ENSINO POR INVESTIGAÇÃO NO CONTEXTO DE UM CURSO DE FORMAÇÃO - VII Enpec Encontro Nacional de Pesquisas em Educação em Ciências - Florianópolis - Novembro de 2009.

SILVA, Jeremias Borges da, BORGES, Christiane Plhilippini Ferreira. CLUBES DE CIÊNCIAS COMO AMBIENTE DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE PROFESSORES - XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física - SNEF 2009 Vitória, ES.

SILVA, Jeremias Borges da, BRINATTI, André Maurício, SILVA, Silvio Luiz Rutz da. CLUBES DE CIÊNCIAS: UMA ALTERNATIVA PARA MELHORIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS E ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA NAS ESCOLAS - XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física - SNEF 2009 - Vitória, ES.

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