Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

UMA POSSIBILIDADE DE LEITURA NO ENSINO DE FÍSICA: O TEMA BURACOS NEGROS ATRAVÉS DE UM LIVRO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Fernanda Marchi, Cristina Leite

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
24/01/2013
Linha de pesquisa
Linguagem E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2013

Texto completo

## UMA POSSIBILIDADE DE LEITURA NO ENSINO DE FÍSICA: O TEMA BURACOS NEGROS ATRAVÉS DE UM LIVRO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

*Fernanda Marchi 1 , Cristina Leite 2

1 Mestranda em Ensino de Ciências da Pós Graduação Interunidades da USP fernanda.marchi.oliveira@usp.br

2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, crismilk@if.usp.br

## Resumo

Dada a importância do estímulo ao hábito da leitura pelos professores em todas as disciplinas, neste trabalho propõe-se a análise de um texto de divulgação científica versando sobre o tema buracos negros, escrito por cientistas atuantes na área sobre a qual se propõem a divulgar. São fornecidos subsídios para sua análise, sendo considerados os objetivos e finalidades que podem ser alcançados através das atividades de leitura e as relações que podem ser estabelecidas entre leitores e textos, destacando-se aspectos destes que demonstram o interesse dos autores em instigar seus leitores, estimular sua imaginação, criatividade e abstração para a compreensão de um tema complexo e que povoa o imaginário e a curiosidade de muitas pessoas. Trata-se, também, de um tema de grande interesse no meio científico e presente no cotidiano das pessoas. A análise pauta-se nos objetivos que podem ser pretendidas por aqueles que propõem a leitura de um texto desta natureza no contexto escolar, sejam eles a busca de informações e compreensão do conteúdo científico, como também a fruição do texto ou o prazer da leitura da ciência, sentimento geralmente atribuído à leitura literária. Muito embora o texto selecionado seja, segundo seus autores, escrito para o público em geral, ou seja, composto por aqueles que não possuem o aparato matemático necessário à compreensão do conhecimento científico, esse apresenta uma densidade e complexidade de conteúdos, podendo ser utilizado como 'porta de entrada' para o conhecimento científico, estimulando a busca por outras fontes de informação e aprofundamento do conhecimento sobre o tema, elementos importantes na construção do sujeito leitor, o qual não deve limitar-se a um único texto, mas que, estimulado no ambiente escolar, deve ser levado a múltiplas leituras, promovendo a ampliação de seu conhecimento e instigado a aprender a aprender.

Palavras-chave : leitura, linguagem, divulgação científica, livros de divulgação científica, buracos negros.

## Introdução

A leitura, além de uma prática social escolarizada, também consiste em uma atividade que independe dessa instituição, uma vez que os indivíduos podem desenvolver habilidades de leitura e ler textos de variados gêneros sem que estes tenham ocorrido no ambiente escolar (PIETRI, 2007, p. 11). No contexto escolar, segundo Silva (1998, p. 01), através da leitura, tem-se como 'responsabilidade proporcionar condições para que seus alunos conheçam ou recriem o conhecimento em diferentes áreas' . Estudos sobre o ensino, o estímulo à leitura na escola e o desenvolvimento desta prática por professores das diferentes disciplinas, bem como a formação de sujeitos e alunos leitores no contexto escolar, têm sido temática de grande importância nas pesquisas em Ensino de Física e de Ciências (MARCHI, LEITE, 2010; FLÔR, CASSIANI, 2011). No entanto, para que ações desta natureza sejam postas em prática, tanto no ensino básico como na formação inicial e

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

20 a 25 de janeiro de 2013

continuada de professores, faz-se necessário pensar nas 'condições mínimas para que essas sejam efetivamente implementadas'. (FLÔR, CASSIANI, 2011, p. 75).

Como apontam algumas pesquisas no Ensino de Física, o trabalho com atividades de leitura não pode se resumir à simples inserção de materiais alternativos em sala de aula. Segundo Flôr e Cassiani, 'não basta mudar as fontes de leitura, pois o problema não é tanto o que o sujeito lê quanto a forma através da qual essa leitura lhe é possibilitada.' (p. 79). Sendo assim, uma percepção aprofundada sobre a leitura e seus objetivos formativos no ensino é importante para a introdução de atividades dessa natureza em qualquer disciplina. Deste modo, o presente trabalho consiste em uma abordagem sobre essa temática, indicando uma possibilidade de análise de um texto extraído de um livro de divulgação científica, pautado nas perspectivas dos elementos relacionados à leitura e atuação docente no intuito de que livros de divulgação científica escritos por cientistas possam ser pensados como materiais de leitura no ambiente escolar.

## A Leitura: objetivos, finalidades e a relação entre leitores e textos.

Em um contexto que não se restringe apenas ao âmbito escolar, Silva (1998, p.88-89) aponta como algumas finalidades da leitura a busca pelo conhecimento, o alargamento e adensamento de experiências, o refinamento da compreensão, a inteligência do mundo, a curiosidade, a imaginação e a fantasia, entre outras, redimensionando as percepções que o sujeito possui de suas experiências e do seu mundo. Segundo Solé (1998), os objetivos e finalidades da leitura são também variados:

[...] devanear, preencher um momento de lazer e desfrutar; procurar uma informação concreta; seguir uma pauta ou instruções para realizar uma determinada atividade [...]; informar-se sobre um determinado fato [...]; confirmar ou refutar um conhecimento prévio; aplicar a informação obtida com a leitura de um texto na realização de um trabalho, etc. (p. 22)

Geraldi (2003) aponta quatro possibilidades de estabelecimento de relações de interlocução entre os leitores e os textos, sendo elas: a leitura para a busca por informações; a leitura para o estudo do texto; a leitura como um pretexto para a realização de outras atividades e a leitura pela fruição do texto, pelo prazer de ler. Esta última, segundo o autor, é geralmente associada ao texto literário e realizada fora do espaço escolar:

À primeira vista, essa seria a forma de relação exclusiva com o texto literário, feita pelo cidadão comum (não-aluno, não-professor de língua, não profissional de linguagem). Vou um pouco mais longe: ela não é exclusiva do texto literário - por quê se lê jornal? Para se (manter) informar(do): a informação pela informação. A gratuidade da informação disponível de que podemos ou não fazer uso. É uma forma de interlocução distinta daquela que denominamos aqui 'leitura - busca de informações'. O 'para que' tem resposta circular: informa-se para informar-se pelo prazer gratuito de estar informado. (GERALDI, 2003, p. 98)

O estímulo ao prazer da leitura também pode estar presente nas aulas de física, uma vez que esta prática deveria ser desenvolvida em todas as disciplinas do currículo escolar, sendo aqui proposta a leitura de livros de divulgação científica. Comprometidos com a aproximação entre os produtores diretos da ciência e o público de não especialistas em ciência (o chamado 'grande público' ou 'público leigo'), identifica-se nessas obras a tentativa de utilizar-se de uma linguagem mais

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

acessível ao leitor, não se servindo, em geral, do aparato matemático através do qual a física se expressa. Neste sentido, utilizam-se de analogias, definições e exemplos que aproximam o leitor do conhecimento científico, estimulando, assim, sua criatividade e a imaginação, envolvendo-o com o texto e levando os a 'um processo de criação e descoberta dirigido ou guiado pelos olhos perspicazes do escritor.' (SILVA, 2004, p. 06).

Segundo Pietri (2007), o estabelecimento de objetivos para se ler um determinado texto não pode se realizar de maneira satisfatória se os motivos que levaram os autores dos livros a produzirem determinados textos não forem reconhecidos. Sendo assim:

Se a função da escola é formar leitores proficientes, isto é, aqueles capazes de estabelecer seus próprios objetivos de leitura, é preciso realizar na escola, leituras de textos com referências às condições em que foram produzidos e aos envolvidos em sua produção. É necessário conhecer quando formam produzidos os textos, onde, por quem, para quem, com que objetivos . A leitura, para se realizar satisfatoriamente, precisa se fundamentar nessas informações, que são encontradas em lugares diferentes em função das características dos diferentes gêneros. (p. 52).

## Divulgação científica e leitura

Diante do exposto anteriormente, a curiosidade que um tema incita nos indivíduos pode ser um dos primeiros elementos a ser levado em consideração quando se seleciona um material para leitura. Tal afirmativa pode ser corroborada pelos resultados da mais recente pesquisa sobre leitura no Brasil, 'Retratos de Leitura do Brasil', divulgada em março de 2012, a qual indicou que dentre os principais fatores que influenciam os entrevistados a escolher um livro para ler é o tema (65% dos entrevistados).

Algumas pesquisas em Ensino de Física que se dedicam ao estudo da divulgação científica impressa mostram o grande interesse na abordagem e publicação de temas relacionados à Astronomia. Como exemplo, Salém e Kawamura (1996), ao realizarem um levantamento entre 260 títulos de livros de divulgação científica com temas relacionados à Física e publicados em língua portuguesa, identificaram que 44% desses abordavam conteúdos de astronomia e cosmologia, demonstrando o interesse pela temática neste tipo de publicação. Em pesquisa mais recente, Sério (2010), ao analisar os temas abordados nas reportagens publicadas pela revista Scientific American Brasil, contemplando o período de junho de 2002 a dezembro de 2006, e tomando como parâmetro as áreas do conhecimento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), identificou a tendência de concentração de publicações em temas de Ciências Exatas e da Terra e de Ciências Biológicas na revista, ocorrendo um maior número de publicações referentes à primeira. Além disso, como concluiu em sua pesquisa que, dentre os temas das Ciências Exatas, pode-se perceber uma ênfase nos temas de Astronomia e Geociências.

Muito embora a divulgação científica seja uma temática de grande interesse nas pesquisas acadêmicas, Pinto (2007) assinala que a produção acadêmica das pesquisas em Ensino de Ciências 'parece se ater mais à divulgação científica na modalidade jornalística, aquela composta por artigos de jornais e de revistas de divulgação científica' (p. 24), de modo que os livros de divulgação científica ou outras modalidades de textos que divulgam a ciência ainda são pouco pesquisados. Sendo assim, a fim de contribuirmos com a ampliação dos olhares para os materiais

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

de divulgação científica impressos, selecionamos neste trabalho um texto de divulgação científica versando sobre o tema buracos negros, uma vez que este faz parte do imaginário popular, consistindo em um tema com possibilidades de incitar a curiosidade dos alunos. Como nos dizem Matsas e Vanzella (2008):

Hoje eles são a coqueluche na astrofísica, fonte de mistérios para físicos teóricos e arquétipo no imaginário popular. [...] no interior de seus domínios, protegem dos olhos curiosos dos cientistas as singularidades , verdadeiros abismos espaço-temporais, muito além de nossa compreensão atual. Decifrá-las pode revolucionar nossa própria visão de mundo . (p. 7-8, grifos nossos)

O texto selecionado é escrito por cientistas, especialistas da área sobre a qual sobre a qual se propõem a divulgar, sendo aqui analisadas suas potencialidades e limitações como material para atividades de leitura no ensino de física no que tange os objetivos e finalidades da leitura. Com esta análise e sob a perspectiva dos elementos de leitura expostos anteriormente, pretende-se fornecer subsídios, olhares ou ferramentas para a análise de materiais não didáticos, principalmente livros de divulgação científica, no intuito de incentivar o desenvolvimento da competência leitora e o contato dos alunos com diferentes fontes de informação científica.

## Análise do texto proposto : a curiosidade, a imaginação, o prazer de ler e a obtenção de informações em questão.

Diante dos objetivos e finalidades que podem ser alcançados através da leitura, tais como o estímulo à imaginação, a criatividade, o adensamento do conhecimento e a relação que pode ser estabelecida entre leitores e textos, neste trabalho analisa-se um texto de divulgação científica versando sobre o tema buracos negros. Este consiste em um capítulo extraído do livro 'O universo sem mistério: uma visão descomplicada da física contemporânea: do Big Bang às partículas', sendo este composto por uma coletânea de textos que tratam de temas bastante atuais nas pesquisas científicas. O capítulo selecionado, intitulado 'Buracos negros: uma viagem aos abismos do universo', e escrito por dois pesquisadores brasileiros, George Matsas e Daniel Vanzella, professores do Instituto de Física Teória da Unesp e do Instituto de Física da USP, origina-se de um ciclo de palestras com o intuito de divulgar o estado-da-arte da física contemporânea em uma 'linguagem acessível' para o público sem formação específica na área de ciências. A partir da análise da apresentação da obra por seus editores, identifica-se a intenção de se desmistificar algumas imagens e concepções que povoam as ideias dos 'sujeitos comuns', dando a estes a oportunidade de reverem e reconstruírem suas concepções através da leitura do conhecimento científico por eles divulgado.

Um dos objetivos iniciais que pode ser estabelecido para a leitura do texto proposto consiste na introdução dos alunos a um conhecimento científico que se caracteriza pelo mistério, curiosidade e fascínio que provoca nos indivíduos, como também a atualidade do tema. Além disso, dadas as características identificadas na elaboração do texto selecionado, pode-se pensar que este tipo de texto pode contribuir para a aproximação dos leitores e a ciência através da imaginação, da fantasia e da criatividade.

A partir da análise da introdução do texto selecionado, identifica-se a intenção de seus autores em guiar os leitores aos conhecimentos científicos sobre

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

os buracos negros, estimulando sua imaginação em um viagem a essas regiões consideradas as mais exóticas do cosmo através da espaço-nave 'Expresso aos Abismos do Universo'. Identifica-se, além disso, a intenção de instigar a fantasia dos leitores, envolvendo os buracos negros em mistério, medo, estranheza e características incomuns às quais estamos acostumados:

Em breve, começaremos nossa viagem aos abismos do universo: regiões de não-retorno, portais para novas regiões do cosmo, véus que escondem lugares até onde o tempo e o espaço perdem o significado. [...] As regiões exóticas que visitaremos não pertencem à nossa experiência cotidiana e, portanto, devemos estar preparados para nos depararmos com fenômenos de invulgar estranheza. (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 57, grifos nossos).

Desta última citação, podemos inferir que seus autores alertam para a densidade do conteúdo que envolve a compreensão desta temática, além de prepará-los para uma jornada que, embora seja virtual, será 'estritamente científica' , indicando-se aos leitores que esta fantasia baseia-se em 'teorias matemáticas bem testadas e precisas, e nunca em especulações subjetivas' . (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 57). Desta forma, antes de entrar na jornada proposta, de maneira informativa e sucinta, os autores introduzem os elementos científicos básicos para que os leitores possam acompanhar a futura jornada, sendo estes: a unificação do espaço e do tempo (espaço-tempo) e a medição de tais grandezas que passaram a depender de quem as medem a partir da formulação da relatividade especial; a velocidade da luz como uma constante, 'independente do movimento de quem a mede' e que ' toda partícula deve ter velocidade menor que a velocidade da luz, isto é, 1.079.252.849 km/h ' (p. 58-59), e a relatividade geral que 'generalizou a relatividade especial de 1905, levando em conta como a gravidade de corpos massivos influencia o espaço-tempo e vice-versa' , a qual também 'deve prever a existência de novos corpos celestes. Entre eles, sem dúvida, os mais impressionantes são os chamados 'buracos negros'' (p. 59, grifo nosso)

Também de maneira informativa e através de definições, os autores introduzem a natureza dos objetos celestes, destacando o interesse pelo colapso de uma estrela, uma vez que, dependendo da ordem de massas solares que esta possuir, seu colapso não cessa enquanto toda matéria não estiver se concentrado em uma região chamada de singularidade, que, segundo a definição dada pelos autores, trata-se de uma região em cuja proximidade ' até as noções de espaço e tempo perdem o significado' , devendo ser consideradas ' verdadeiros abismosespaço temporais' . (p. 60).

Além da imaginação proposta através da viagem em uma espaço-nave, o próprio tema em análise demanda a imaginação e a abstração do leitor, sendo estas inerentes ao conhecimento científico envolvido na compreensão dos buracos negros, como se vê no exemplo a seguir:

Quando o colapso da estrela leva à formação de um buraco negro a singularidade que se forma fica 'envolta' por uma fronteira chamada 'horizonte de eventos'. Trata-se de uma superfície imaginária - não material - que envolve a região de onde nada escapa.' (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 60)

Aliando as informações conceituais e características relacionadas ao mistério e perigos envolvidos com esses objetos cósmicos, conforme indicado anteriormente, a curiosidade do leitor é instigada a todo o momento ao longo do texto. Definições mais 'duras' são intercaladas com características misteriosas

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

atribuídas aos buracos negros, assim como esses mesmos entes cósmicos também são caracterizados como estruturas muito simples, como se vê nos exemplos a seguir:

[...] um buraco negro é uma região de puro vácuo no interior do horizonte de eventos que envolve a singularidade. [...] os buracos negros seriam estruturas indestrutíveis que 'canibalizam' toda forma de matéria que passasse por suas imediações, tornando-se, com isso, cada vez maiores. (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 60, grifo nosso)

O fato desse cenário um pouco assustador , o fato de os buracos negros serem formados de pura gravitação torna sua estrutura muitíssimo simples . [...] Já sabemos o suficiente para anteciparmos que tipos de perigos estão envolvidos em nossa jornada exploratória. (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 62, grifos nossos)

Outras propriedades dos buracos negros são abordadas de maneira sucinta, tais como sua massa, rotação, carga elétrica, a possibilidade de observação desses objetos, como também aspectos históricos e especulações sobre algumas propriedades dos buracos negros. Quanto à possibilidade de observação desses objetos, identifica-se uma antecipação dos autores e interação com seus leitores, que, curiosos, podem se questionar ' como é possível observar buracos negros se eles, diferentemente de astros e planetas, não devem emitir nem refletir luz alguma? '. (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 62). Identifica-se neste trecho, como em outros, questionamentos que caracterizam a antecipação, por parte dos autores, de dúvidas e possíveis reflexões dos leitores. Estas são respondidas com base nos conceitos, teorias e propriedades explicitadas no decorrer no texto. Vale ressaltar que, embora os conceitos sejam apresentados ao longo do texto, muitos são apresentados de maneira muito breve e superficial, demandando a atenção do leitor para este fato e motivando-o à busca de outros materiais, como os próprios autores sugerem, e que tratem do tema de maneira mais profunda.

Após a abordagem dos conceitos científicos necessários para a compreensão dos buracos negros, dá-se início à jornada até ' o mais sensacional buraco negro de nossa galáxia' (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 62, grifo nosso), o qual se localiza em seu centro. Desta forma, identifica-se como intenção dos autores prover seus leitores-viajantes dos conceitos necessários para a compreensão dos fenômenos que serão relatados através de uma viagem imaginária a um buraco negro localizado no centro da Via Láctea.

Ao se iniciar tal jornada, os autores estimulam a imaginação dos leitores para que tenham noção da distância a ser percorrida em sua viagem, ou seja, a distância entre a Terra e o buraco negro no centro da Via Láctea:

[...] a primeira questão que se coloca é: qual a distância entre a Terra e nosso destino final? Com efeito, ela é enorme. Para que se tenha ideia de sua magnitude, suponha uma fábrica que produza réguas que tenham o comprimento Terra-Sol, isto é, uma unidade astronômica. Se quiséssemos enfileirar essas réguas gigantes até o centro da galáxia, precisaríamos de 2 bilhões delas. (MATSAS; VANZELLA, 2003, p. 65, grifo nosso).

Neste exemplo, verifica-se a definição de uma unidade astronômica e o estímulo à imaginação do leitor para que este, através de um exemplo mais concreto, possa compreender ou perceber a distância ao qual ele é convidado a viajar. Entretanto, tal viagem levaria cerca de 30 mil anos terrestres para ser concluída. A fim de levar o leitor à compreensão de uma solução para este problema, conceitos de relatividade são introduzidos, motivando a imaginação do

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

leitor, tal como no exemplo: ' para entender como isso é possível, imaginemos um bastão de 1 metro medido por um observador, movendo-se ao longo da direção do bastão' ( p. 65, grifo nosso), explicando a contração do espaço e ressaltando que tal fenômeno não pode ser observado em situações cotidianas. Assim, ao proporem ao leitor a viagem em uma espaço-nave que atinge a velocidade da luz, tal situação torna-se possível nos limites da imaginação.

Neste trecho do texto, faz-se uso de ilustrações que ajudam os leitores na percepção dos fenômenos descritos, sejam eles a deformação do robô ao se aproximar do 'perigoso' horizonte de eventos, onde seu corpo se estica devido ao fato de seus pés estarem mais próximos do buraco negro, sofrendo com o efeito do intenso campo gravitacional, como também a descrição do retorno da espaço-nave à terra, o a qual deve utilizar-se do 'efeito Penrose' e se aproximar de uma região denominada 'ergosfera'. Neste último fenômeno, explica-se que a espaço-nave pode utilizar-se da energia de rotação da ergosfera e ser 'arremessado' de volta à Terra. A leitura de tal fenômeno, se devidamente acompanhada através da ilustração proposta, pode ter sua compreensão facilitada.

Pelo que se identifica, embora trate-se de um texto cuja intenção seja divulgar o conhecimento científico sobre um dos temas mais instigantes da ciência, os buracos negros, sua compreensão, pelo que se verifica ao longo de sua análise, demanda conhecimentos de física moderna bastante complexos, sejam eles a relatividade especial e geral, os quais proporcionam fenômenos como a contração do espaço e a dilatação do tempo e a explicação sobre o campo gravitacional, assim como noções sobre a evolução estelar, dentre outros. Tais conhecimentos são abordados de maneira superficial no texto, cuja intenção é desvendar aos leitores as propriedades desses objetos cósmicos, estimulando o contato com o conhecimento científico que envolve sua compreensão, sendo este tanto abordado de maneira descritiva e informativa, quanto através de exemplos que buscam estimular a imaginação do leitor e torná-los mais palpáveis àqueles que o leem. Trata-se de um texto com potenciais de introdução dos leitores ao conhecimento científico, e cujas limitações podem ser diminuídas através da indicação de outras leituras que aprofundem o conhecimento que envolve a temática proposta.

## Considerações finais

Consideradas as restrições de espaço e extensão do texto analisado, a profundidade do tema e os conhecimentos científicos envolvidos na compreensão do tema proposto neste trabalho, sendo este os buracos negros, os livros de divulgação científica, embora procurem a aproximação dos leitores através de uma linguagem que não se utiliza da matemática, não deveriam ser vistos como textos cuja leitura 'se esgota no próprio texto' (PIETRI, 2007, p. 78). Como parte do processo de formação do aluno/sujeito leitor, instigá-lo e orientá-lo à busca de fontes bibliográficas, tais como dicionários de astronomia, ou outros livros de divulgação científica que os abordem mais profundamente, pode contribuir para a formação do sujeito leitor dentro e fora do contexto escolar. Diante do conhecimento científico, astronômico, cosmológico e do universo, como afirma PIASSI:

Trata-se de uma motivação ligada a conhecer o mundo, a conhecer-se, de ir além e superar limites existenciais. [...] a ciência é associada com o conhecimento do cosmo e do ser humano, com a possibilidade de obtenção

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

de respostas existenciais para as buscas mais profundas da humanidade. (PIASSI, 2007, p. 03)

Levando-se em consideração tal afirmativa, ao se trabalhar um texto com a temática aqui proposta e considerando suas potencialidades de estímulo à compreensão do universo no qual os sujeitos estão inseridos, como também o estímulo ao aprofundamento dos conceitos científicos contemplados no texto, podese pensar que materiais dessa natureza propiciem aos alunos/sujeitos leitores a compreensão do contexto científico no qual estão situados, como também o desenvolvimento de sujeitos leitores proficientes, que, para além dos textos que são propostos, formam-se como leitores em busca de outras fontes bibliográficas, independentemente da multiplicidade de meios nos quais tais textos hoje estão disponibilizados.

## Referências

FLÔR, C. C.; CASSIANI, S. O que dizem os estudos da linguagem na educação científica. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , v. 11, n.2, p. 67-86, 2011.

GERALDI, J. W. Prática de leitura na escola . 3.ed. São Paulo: Editora Ática, 2002. MARCHI, F.; LEITE, C. A leitura no ensino de física no cenário dos periódicos nacionais. In: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2010, Águas de Lindoia.

Anais do XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física , 2010.

MATSAS, G.; VANZELLA, D. Buracos negros: uma viagem aos abismos do universo. In: NATALE, A. A.; VIEIRA, C. L. (Org). O universo sem mistérios: uma visão descomplicada da física contemporânea: do Big Bang às partículas. Rio de Janeiro: Vieira e Lent, 2003.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_ Buracos negros: rompendo os limites da ficção. io de Janeiro: Vieira e Lent, 2008.

PIASSI, L.P.; PIETROCOLA, M. De olho no futuro: Ficção científica para debater questões sociopolíticas de ciência e tecnologia em sala de aula. Ciência & Ensino , n. 1, número especial, p. 6-11, 2007.

PIETRI, E. Práticas de leitura e elementos para a atuação docente . Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.

PINTO, G.A. Divulgação científica como literatura e o ensino de ciências . Tese (Programa de Pós Graduação em Educação), Universidade de São Paulo: São Paulo, 2007.

SALÉM, S.; KAWAMURA, M. R. O texto de divulgação e o texto didático: conhecimentos diferentes? In : V Encontro de Pesquisa em Ensino de Física,

do XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física

Anais , 1996.

SÉRIO, A.L.A.P. A divulgação da ciência na revista Scientific American Brasil .

Dissertação (Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências - Instituto de

Física), Universidade de São Paulo: São Paulo, 2010.

SILVA, E. T. Elementos de pedagogia da leitura . 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

A produção da leitura escola : pesquisas x propostas. 2. Ed. São Paulo:

\_\_\_\_\_\_\_\_ Ática, 2004.

SOLÉ, I. Estratégias de leitura . 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.