TEMAS DE ASTRONOMIA NA ESCOLA BÁSICA: investigação de cenários em duas regiões do Rio Grande do Sul
Sonia Elisa Marchi Gonzatti, Andréia Spessatto De Maman, Eliana Fernandes Borragini, Julia Cristina Kerber, Maria Helena Steffani
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 24/01/2013
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## TEMAS DE ASTRONOMIA NA ESCOLA BÁSICA: investigação de cenários em duas regiões do Rio Grande do Sul
## Sônia Elisa Marchi Gonzatti , Andréia Spessatto De Maman , Eliana Fernandes 1 2 Borragini , Julia Cristina Kerber , Maria Helena Steffani 3 4 5
1 Centro Universitário Univates, lagonzatti@bewnet.com.br
2 Centro Universitário Univates, andreiah2o@tefem.com.br
3 Centro Universitário Univates, borragini@yahoo.com.br
## Resumo
Este trabalho apresenta alguns dos indicadores obtidos em um projeto de pesquisa sobre Educação em Astronomia, desenvolvido em parceria entre o Centro Universitário Univates/RS e o Planetário da UFRGS. O projeto, intitulado 'Perspectivas e cenários do ensino de Astronomia na escola básica - um estudo transversal com escolas da região metropolitana e do Vale do Taquari', investiga quais são os temas de Astronomia abordados nos currículos do ensino fundamental, as principais estratégias metodológicas utilizadas para abordar tais temas e as principais dificuldades de ordem teórico-metodológica apontadas pelos professores investigados. A partir do levantamento destas demandas, pretende-se desenvolver ações de formação docente e oficinas para estudantes, visando contribuir significativamente para a melhoria da prática dos professores. Como o projeto foi aprovado e implantado em 2012, o seu desenvolvimento encontra-se em fase de análise de dados e, neste artigo, são apresentados os principais resultados detectados até o presente momento, entrecruzando-os com os resultados de vários trabalhos já realizados na área de Educação em Astronomia.
Palavras-chave : ensino de Astronomia, formação de professores, estratégias metodológicas.
## Apresentação
O Centro Universitário UNIVATES já vem desenvolvendo atividades de extensão em Astronomia desde 2009. À época, teve-se o apoio do CNPq, através do edital 63/2008, e desde então, as ações voltadas à Educação em Astronomia, tanto no âmbito formal quanto no não formal, foram se consolidando em nível institucional e regional. As ações de extensão permitem um contato amplo com um público variado e este é um cenário fértil para identificar as curiosidades, as demandas e as eventuais deficiências de conhecimento relacionadas à área. A partir do projeto de extensão, verificou-se a necessidade de desencadear ações sistemáticas de pesquisa em Educação em Astronomia, mo maneira esporádica. No entanto, no âmbito das ações de extensão, não dispúnhamos de estrutura financeira para realizar tais pesquisas.
Em final de 2011, é aberto um edital para novas pesquisas no Centro Universitário UNIVATES (Edital 02/2011). Aproveitou-se a oportunidade e, após todo o trâmite previsto, o projeto intitulado 'Perspectivas e cenários do ensino de
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Astronomia na escola básica - um estudo transversal com escolas de ensino fundamental da região metropolitana e do Vale do Taquari' é aprovado pela Câmara de Pesquisa. A equipe local, que já vinha com um trabalho sistemático em Ensino de Astronomia, é integrante deste projeto, que conta com a parceria do Planetário Prof. José Baptista Pereira, da UFRGS, para a sua execução.
- O projeto tem como foco de pesquisa duas questões básicas. A primeira delas pretende identificar quais são os principais temas vinculados à Astronomia que estão contemplados nos planos de Estudos das escolas de Educação Básica. Essa questão é relevante para mapear os temas mais abordados e analisar se há uma unidade entre as diferentes escolas e professores. Além disso, permite avaliar em que medida os planos de trabalho das escolas investigadas estão observando os temas sugeridos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais. A segunda questão envolve a identificação das principais estratégias metodológicas aplicadas pelos professores para ensinar tópicos de Astronomia. A partir do reconhecimento das principais formas de trabalho dos professores, a meta dessa pesquisa participativa é propiciar o contato com formas alternativas de trabalho com a Astronomia, incluindo principalmente práticas observacionais.
Considerando que essa pesquisa iniciou neste ano de 2012, até o presente momento foi realizada uma rodada de entrevistas com os professores participantes e um encontro de formação, ocorrido no mês de maio. Neste trabalho será apresentada uma análise parcial envolvendo duas das questões investigadas na pesquisa.
A primeira delas pretende identificar os principais temas vinculados à Astronomia que estão contemplados nos planos de estudo das escolas de Educação Básica. Essa questão é relevante para mapear os temas mais abordados e analisar se há uma unidade entre as diferentes escolas e professores.
- A segunda questão envolve a identificação das principais estratégias metodológicas aplicadas pelos professores para ensinar tópicos de Astronomia. A partir do reconhecimento das principais formas de trabalho, a meta dessa pesquisa participativa é propiciar o contato com formas alternativas de trabalho com a Astronomia, incluindo principalmente práticas observacionais.
## Justificativa
- É consenso entre a comunidade de pesquisa da área em ensino de Ciências e Astronomia que os temas astronômicos trabalhados nas escolas, em geral, são muito limitados e ainda tratados de forma inadequada, muitas vezes acompanhados de significativos erros conceituais. Portanto, o nível de conhecimento em temas de Astronomia básica ainda está aquém do considerado desejável.
No âmbito deste trabalho, também foram feitas essas constatações, principalmente a partir do contato sistemático com alunos, escolas e professores que procuram as atividades em Astronomia. Ainda, em um estudo local realizado a partir de dados coletados nos cursos de extensão oferecidos em 2010 e 2011, nota-se que, no geral, não se relaciona conhecimentos observacionais básicos do cotidiano com o movimento e a configuração dos astros (GONZATTI et al. 2011). Por exemplo, metade dos alunos investigados acredita que o Sol incide a pino na latitude de Lajeado, RS ( GLYPH<31> 30ºS), pelo menos uma vez ao ano.
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Ainda, diferentes estudos já desenvolvidos em nível nacional sinalizam para a deficiência do Ensino de Astronomia na educação básica, sustentado pela formação insuficiente dos professores e pela inadequação da linguagem e dos livros didáticos que abordam tópicos de Astronomia. (NARDI E CARVALHO, 1996; CANALLE et al, 1997; LANGHI E NARDI, 2004, 2009; LEITE E HOSOUME, 2007, LANGHI, 2011). Portanto, os indícios iniciais detectados nas escolas pesquisadas, parecem estar de acordo com os resultados já consolidados nesses estudos com reconhecido valor teórico e metodológico. Nesse sentido, revela-se pertinente desenvolver um estudo mais sistematizado sobre o cenário do Ensino de Astronomia no âmbito regional, visando contrastá-lo com o âmbito nacional e desenvolver ações potenciais de mudança.
Cabe destacar, no entanto, que os cenários lentamente vêm se alterando. Há um esforço nacional em prol do Ensino de Astronomia, concretizado em iniciativas de mobilização das escolas, professores e pesquisadores, como a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBAA), o Simpósio Nacional de Educação em Astronomia (SNEA), que já teve a sua segunda edição em 2012, a Comissão de Ensino da Sociedade Astronômica Brasileira, os Encontros Regionais de Ensino de Astronomia (EREAs), entre outros. Com este projeto, espera-se contribuir regionalmente para o processo de transformação e inovação no Ensino em Astronomia.
## Desenvolvimento do trabalho
Na fase inicial deste trabalho, foram realizadas reuniões de articulação com as redes públicas de ensino e com as escolas que manifestaram interesse preliminar em participar da pesquisa. A amostra envolve 10 escolas e 13 professores, distribuídos conforme Tabela 1:
Tabela 01: Distribuição da amostra investigada
A segunda fase da pesquisa consistiu na realização de entrevistas semiestruturadas com os professores participantes, com o objetivo de identificar elementos que contribuíssem para a análise das questões de pesquisa propostas. Após essa fase, procedeu-se à categorização inicial dos dados, seguindo os passos propostos por Bardin (2002). Nesta etapa, foram priorizadas questões voltadas aos tópicos de Astronomia e às estratégias metodológicas utilizadas pelos professores em suas aulas. É essa análise parcial que compartilhamos nessa seção do artigo.
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## I - Tópicos de Astronomia mais trabalhados pelos professores
Os principais tópicos de astronomia desenvolvidos pelos professores estão organizados na Tabela 2. Os temas foram divididos em quatro categorias: Movimentos da Terra e suas consequências; Sistema Solar; Universo e sua formação e Outros Temas. Nesta última, foram enquadrados os assuntos que não se relacionam diretamente com as demais categorias.
Tabela 02: Principais temas abordados durante as aulas nas escolas participantes.
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Na primeira categoria, os temas mais abordados são os movimentos de rotação e translação da Terra, os dias e as noites e as estações do ano. É evidente, neste caso, a influência dos materiais didáticos mais citados pelos professores, que incluem os livros didáticos, na organização do trabalho docente. Esses tópicos estão nos PCN's e, portanto, são contemplados na maioria dos livros. Na medida em que os professores não tiveram formação específica para ensinar Astronomia, há uma correlação entre os conteúdos desenvolvidos e os materiais mais utilizados como apoio às suas aulas.
Na segunda categoria, os temas mais apontados são o Sistema Solar, os planetas e as fases da Lua, em ordem decrescente do número de citações. O Sistema Solar inclui os planetas, mas os professores sinalizaram como dois tópicos distintos, argumentando que, ao estudar os planetas, enfatizam as peculiaridades de cada um e as similaridades entre eles.
É possível perceber que os conteúdos de Astronomia trabalhados nas escolas são bastante diferentes, não há uma unidade, o que possivelmente está relacionado ao fato de não haver uma orientação específica para o que se deve ensinar em Astronomia. Os professores evidenciaram que trabalham os temas com os quais tiveram algum contato em seus cursos de formação inicial, ou que lhes parecem mais acessíveis quando precisam estudar e aprender por conta própria para depois ensinar, isso evidencia que a falta de formação especifica para o ensino de Astronomia também interfere na escolha dos temas a serem trabalhados em aula. Nesse sentido, o trabalho de Leite e Hosoume (2007) sinaliza que 'não é surpreendente que os professores do ensino fundamental tenham receio de levar astronomia para a sala de aula, sentindo-se incapazes de suprir as expectativas tanto suas quanto de seus alunos' (p.48).
## II - Principais estratégias metodológicas utilizadas
A questão proposta aos professores foi a seguinte: 'Fale um pouco sobre as metodologias e as estratégias que você utiliza para trabalhar os conteúdos apontados'. As respostas obtidas foram sintetizadas nas Tabelas 3 e 4.
Na Tabela 3 aparecem os recursos mais utilizados pelos professores para desenvolver aulas sobre Astronomia. Na Tabela 4, são apresentadas as categorias que essencialmente se relacionam com formas de trabalho, ou seja, metodologias de ensino. No conteúdo dessas falas, é possível perceber que o principal modelo de aula adotado são as aulas expositivo-dialogadas, discutindo as curiosidades levantadas pelos alunos e usando vários recursos audiovisuais. No entanto, é preocupante a pouca referência ao uso de práticas observacionais, usando o céu como um laboratório didático. São apenas três professores que mencionaram a realização de observações, especialmente indiretas, como a projeção de sombras, conforme exemplificado abaixo:
Sujeito 9: alguma coisa de observação da natureza a gente faz também, sombra, posição do sol, fases da lua, desenha como estava.
Esse resultado leva a uma reflexão fundamental: a compreensão da Astronomia exige conhecimentos espaciais, que geralmente não são trabalhados nas escolas, nem mesmo nas pesquisas em ensino de Astronomia, que pouco exploram a tridimensionalidade dos objetos celestes e do espaço (LEITE e HOSOUME, 2007). A ausência marcante de práticas observacionais, por um lado,
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revela que o próprio professor não domina essas relações espaciais. Isso é uma decorrência da falta de formação, aliada ao fato de que os principais materiais de apoio que utilizam envolvem recursos e aspectos bidimensionais. Por outro lado sinaliza que é preciso propiciar, inicialmente aos professores, mas também aos alunos, a vivência de situações que exijam e desenvolvam noções de espacialidade para favorecer a compreensão dos conteúdos de Astronomia.
Tabela 03: Principais recursos metodológicos utilizadosTabela 04: Principais modelos de aula utilizados pelos participantes
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## CONSIDERAÇÕES FINAIS
De maneira geral, percebe-se que o cenário local, a partir dos indicadores até agora levantados, não difere do cenário nacional (LEITE e HOSOUME, 2007; LANGHI, 2011), no qual a inserção de tópicos de astronomia ainda é incipiente, sendo a falta de formação dos professores para trabalhar na área um dos obstáculos identificados. Destaca-se também que, como a pesquisa que gerou este trabalho está em andamento, o aprofundamento da análise e novas publicações serão necessários para consolidar os indicadores levantados até então. É possível afirmar que, no cenário regional, também é preciso desencadear ações integradas de apoio à formação de professores, pois essa é uma das maneiras mais eficientes para que a inserção da Astronomia ocorra de maneira mais sistemática e coerente nos currículos das escolas de Ensino Fundamental. Outro ponto fundamental é continuar desenvolvendo propostas de ensino não-formal, atendendo a comunidade em geral e as escolas, pois percebe-se que esse tipo de atividades contribuem para o interesse e a apropriação dos conhecimentos de Astronomia, que mobilizam a humanidade desde seus primórdios.
Referências
BARDIN, L. Análise de conteúdo. Edições 70: Lisboa, 2002.
CANALLE, J.B.G.; TREVISAN, R.H.; LATTARI, C.J.B. Análise do conteúdo de Astronomia em livros de Geografia do 1º Grau. . Cad. Bras. Ens. Fis., v. 14, n.3, pp. 254-263, dez. 1997.
GONZATTI, S.E.M. et al. Concepções Prévias sobre Astronomia em um Curso de Extensão. In: VI ENCUENTRO IBEROAMERICANO DE COLECTIVOS ESCOLARES Y REDES DE MAESTRAS Y MAESTROS, 2011, Cordoba, Anais... Córdoba: 2011. P. 1-7.
LANGHI, R. Educação em Astronomia: da revisão bibliográfica sobre concepções alternativas à necessidade de uma ação nacional. Cad. Bras. Ens. Fis., v.28, n.2, pp. 373-399, ago/2011.
LANGHI, R.; NARDI, R. Um estudo exploratório para a inserção da Astronomia na formação de professores dos Anos Iniciais do ensino fundamental. In: IX EPEF Encontro de Pesquisa em Ensino de Física. Jaboticatubas, MG, 2004.
LANGHI, R.; NARDI, R. Ensino de Astronomia: erros conceituais mais comuns presentes em livros didáticos de ciências. Cad. Bras. Ens. Fis., v.24, n.1, pp. 87-111, ab/2009.
LEITE, C.; HOSOUME, Y. Os professores de Ciências e suas formas de pensar a Astronomia. Revista Latinoamericana de Educação em Astronomia - RELEA, n.4, p. 47-68, 2007.
NARDI, R.; CARVALHO, A.M.P. Um estudo sobre a evolução das noções de estudantes sobre espaço, forma e força gravitacional do planeta Terra. Investigações em Ensino de Ciências, v.1, p. 132-144, 1996.
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