NOÇÕES DE FORÇA GRAVITACIONAL DE ALUNOS DO ENSINO SUPERIOR NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA GENÉTICA
Luciano Pereira Luduvico, Júnior Saccon Frezza
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 24/01/2013
- Linha de pesquisa
- Processos Cognitivos De Ensino E Aprendizagem Em Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## NOÇÕES DE FORÇA GRAVITACIONAL DE ALUNOS DO ENSINO SUPERIOR NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA GENÉTICA
Luciano Pereira Luduvico 1 Júnior Saccon Frezza 1
1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Faculdade de Educação/PPGEDU/Porto Alegre, lucianoluduvico@yahoo.com.br, junior.frezza@ufrgs.br
## Resumo
O fenômeno de atração dos corpos, inferido especialmente na queda livre, é tão casual que às vezes não se dá a devida importância a ele, principalmente por muitos professores que cada vez mais se tornam reprodutores de conhecimento ao invés de construtores e interlocutores. Neste trabalho buscou-se, centrado nas bases da Epistemologia Genética de Jean Piaget, analisar a compreensão de alunos do Ensino Superior sobre fenômenos que envolvem a força gravitacional. Utilizando-se dos pressupostos do Método Clínico piagetiano para a coleta de dados, a partir das respostas apresentadas e principalmente da interpretação dos mecanismos mentais envolvidos frente às situações propostas, obteve-se diferentes noções de força gravitacional conforme os processos mentais elaborados pelos sujeitos. Entende-se que a compreensão das noções apresentadas pelos estudantes é de fundamental importância para a metodologia a ser empregada no ensino de Física. Esta investigação teve como sujeitos quatorze alunos regularmente matriculados na disciplina Física I-C, oferecida pelo Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS.
Palavras chave: Força Gravitacional; Epistemologia Genética; Método Clínico.
## Introdução
É nítida a dificuldade de sujeitos escolares frente a conteúdos de Física. Professores se queixam da falta de empenho de seus alunos, enquanto estes julgam que essa Física só pode ser aplicada a outro mundo, um mundo ideal de constantes e equações. Juntamente com a Matemática e a Química, a Física parece ser vista por muitos alunos como algo de difícil entendimento e que apesar de pretender explicar a natureza parece não haver vínculo algum com esta. Não obstante a isso, a Física parece exigir um elevado grau de formalização para seu entendimento, fonte de possíveis dificuldades de aprendizagem. Num primeiro momento isso pode parecer contraditório, já que a Física tenta entender fenômenos cotidianos. Contraditório porque entender o real não deveria necessariamente estar ligado a um formalismo, já que se trata de fenômenos empíricos. Porém, mesmo se tratando do estudo destes fenômenos (e suas relações) há necessidade do sujeito construir modelos explicativos para sua interpretação e estes, por sua vez, não provêm dos fenômenos empíricos.
Baseando-se teoricamente na Epistemologia Genética de Jean Piaget, procurou-se investigar os processos de pensamento que constituem noções de força gravitacional em sujeitos do Ensino Superior. Este trabalho dá continuidade e complementa a pesquisa feita sobre a queda livre dos corpos (LUDUVICO; FREZZA & SILVA, 2009), onde, como resultado, obteve-se, perante sujeitos das mais variadas idades, noções relacionando a massa dos objetos com o tempo de queda dos mesmos quando soltos da mesma altura (frente a um Referencial Inercial) e ao
mesmo instante de tempo. No trabalho sobre a queda livre dos corpos analisou-se, por meio de dois corpos de massas diferentes, visualmente idênticos, largados ao mesmo tempo de uma mesma altura, qual dos corpos colidiria primeiro ou se ambos colidiriam com o solo ao mesmo tempo. Unanimemente os sujeitos afirmaram que o de maior massa colidiria primeiro. Efetuando-se o experimento proposto, alguns conseguiram abandonar este modelo explicativo conseguindo construir um modelo baseado não mais em seu senso comum, mas em pressupostos baseados em uma nova realidade. Outros, porém, não conseguiram assimilar o fenômeno de que dois corpos, mesmo possuindo diferentes massas, poderiam chegar ao solo ao mesmo tempo. Isso nos evidenciou o caráter ativo do real frente à assimilação pelo sujeito.
Por conseguinte, neste trabalho, dando continuidade ao primeiro, buscou-se analisar como e porquê estes corpos caem quando largados a certa altura dentro da compreensão dos alunos do ensino superior.
## Aporte Teórico
A questão que nos motiva a investigar as noções de força gravitacional é buscar analisar e explicitar que, assim como estes, todos os conhecimentos são construídos pelos alunos. Pensar em conhecimento acabado é, de certa forma, acreditar na transferência de conhecimento pronto para o aluno, algo que não se concretiza no dia a dia escolar. Por outro lado, é inconcebível pensar que um aluno ao ingressar na sala de aula, esperando que o professor ministre uma aula, possua conhecimento algum frente ao que será abordado.
Neste artigo optou-se por analisar os dados coletados utilizando-se do processo de Tomada de Consciência elaborada por Jean Piaget. Piaget diferencia, na obra intitulada A tomada de consciência (1977), o processo de Tomada de Consciência do insight , este muito difundido pelo senso comum. Em paralelo com a construção do conhecimento, que é um processo, a passagem do inconsciente ao consciente não se dá de forma abrupta e simples. Esta passagem não pode ser entendida como mera iluminação, mas, como afirma Piaget (1977, p. 11), '[...] sob o ponto de vista psicológico, constitui um processo bem mais complexo do que uma simples percepção interior e ainda precisam ser analisadas as leis da conceituação que ele supõe em todos os casos'. Nesta citação, Piaget diferencia o insight do processo que ele chama de Tomada de Consciência pois, esta, '[...] trata-se, na realidade, de uma verdadeira construção, que consiste em elaborar, não, 'a' consciência considerada como um todo, mas seus diferentes níveis enquanto sistemas mais ou menos integrados' (PIAGET, 1977, p. 9).
Para analisar melhor este mecanismo, entende-se como necessária a diferenciação entre os conceitos de forma e conteúdo na teoria piagetiana. Sobre o conceito de forma , existiria alguma semelhança com o estádio operatório formal? Sim e não. Afirmativo, pois neste estádio do desenvolvimento têm-se formas de pensamento bem definidas, porém não necessariamente esgotadas ou finalizadas, já que os estados finais de equilíbrio são relativos, mesmo podendo, a um dado nível, separar-se de seu conteúdo . Negativo, pois não é somente neste estádio (operatório formal) que existem estas formas, porque se a estrutura cognitiva do sujeito tende ao pensamento reversível, correlativamente a um estado de maior equilíbrio cognitivo, as formas de pensamento têm também uma gênese. Esta gênese, como de todo o desenvolvimento, está na ação (mental ou física) do sujeito. Piaget (1971, p. 344) afirma que '[...] existe complementaridade total entre o conteúdo e a forma do pensamento, com o conteúdo consistindo nos dados do
mundo tal como ele é percebido e a forma consistindo o único dispositivo que permite passar do estado T deste mundo para o estado T-1, ou seja, tornar a realidade reversível pelo pensamento'.
Distinguidos os conceitos de conteúdo e forma, pode-se retornar ao processo de Tomada de Consciência e buscar distanciar a teoria piagetiana de más interpretações. O mecanismo da Tomada de Consciência possibilita compreender como as formas de pensamento que, construídas inconscientemente, podem vir à luz da consciência e possibilitar a compreensão de algo que se fazia com êxito . Ou seja, em aspectos cognitivos, não são os conteúdos que se tornam conscientes pelo processo da Tomada de Consciência, mas sim, as formas de pensamento que podem ou não estarem relacionadas aos conteúdos que as deram origem.
## Método de coleta de dados
Buscou-se utilizar o Método Clínico piagetiano por duas razões: a primeira porque o presente trabalho se fundamenta teoricamente na Epistemologia Genética de Jean Piaget; e a segunda razão porque consideramos um método que possibilita perseguir o pensamento do sujeito. Mais do que coletar as respostas finais dos sujeitos frente aos problemas propostos, está-se interessado nos processos de que derivam tais respostas. Assim sendo, qualquer protocolo de perguntas deve ser extremamente flexível para dar conta das inúmeras variáveis que surgem ao longo da entrevista. Isto, por sua vez, exige uma organização muito rápida das hipóteses e do pensamento do pesquisador que tem como objetivo compreender o pensamento do sujeito.
Para este trabalho, criou-se um equipamento constituído de duas bolinhas (esferas de vidro e isopor), uma garrafa de vidro transparente e um aparelho capaz de retirar os gases contidos na garrafa. Abaixo segue um esquema deste equipamento:
Figura 01: Esquema do equipamento utilizado nas entrevistas
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Além disso, elaborou-se também um protocolo de perguntas básicas que norteou as entrevistas. Abaixo seguem algumas das perguntas realizadas: Se eu soltar este corpo (bolinha de vidro) desta altura, o que acontece? Por quê?; De onde vem essa força (ou gravidade, dependendo da resposta anterior)?; Há alguma diferença entre eu soltar este corpo (bolinha de vidro) na Lua ou na Terra? Por quê?; Se eu colocar este corpo (bolinha de vidro) dentro desta garrafa e, por meio deste aparelho, retirar todo o ar de dentro da mesma, o que acontecerá? Por quê?; O que você constatou? Como você explica o ocorrido?
Esta investigação teve como sujeitos quatorze alunos regularmente matriculados na disciplina Física I-C, oferecida pelo Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS para alunos das Engenharias, Química e Ciência da Computação. A escolha por alunos do Ensino Superior se julgou interessante para analisar as noções de força gravitacional que eles trazem consigo e que, agora no Ensino Superior, mais do que nunca se faz necessária para
a construção do conhecimento no que se refere aos conteúdos abordados na disciplina.
## Análise dos dados
A questão principal consiste em analisar as possíveis relações da força gravitacional com a massa dos objetos (Terra, Lua e/ou bolinha de isopor ou vidro) e a pressão atmosférica. Com os dados coletados elaborou-se três noções de força gravitacional, constituindo, cada uma, níveis de compreensão sobre os problemas propostos. A seguir expõem-se trechos das entrevistas realizadas que, por análise das inferências dos processos mentais, findam-se em noções de força gravitacional.
Noção I: A força gravitacional está relacionada com a existência de ar.
Ali: Se eu pegar essa bolinha e soltar de certa altura, o que acontece? Ela vai cair. Porque ela cai? Por causa do campo gravitacional que existe na Terra. E porque existe esse campo gravitacional? Porque existe uma força, chamada força peso, que a tendência de toda massa é ser puxada para baixo, pelo fato desta gravidade. Existe essa força porque tem um campo gravitacional, ou tem um campo gravitacional porque existe essa força? Existe esta força porque tem um campo gravitacional. E de onde surge este campo gravitacional? Ele se encontra no centro da Terra. Porque ela atrai todas as massas para baixo. Então qualquer coisa que estiver pendurada em qualquer lugar, sempre vai ser atraída para o centro da Terra. Vamos supor que seja um ímã que puxe tudo para baixo. Agora se eu pegar esse mesmo objeto e soltar na superfície da Lua, o que aconteceria? Esse objeto iria flutuar pelo fato da gravidade da Lua ser muito menor que a gravidade da Terra. Porque a gravidade da Lua é menor que a da Terra? Pelo fato de não ter...humm...é pela falta de oxigênio. Mas tu falaste que a gravidade vinha do centro da Terra. Sim...ãn...posso mudar de opinião? Então se a gravidade vem do centro da Terra então na Lua a gravidade será menor, porque este corpo estará muito mais distante da Terra. E se a massa da Terra fosse menor, a gravidade continuaria a mesma ou mudaria? Tem nada a ver. Teve um outro aluno meu que ele afirmou o fato de existir um campo gravitacional por causa da existência de ar. Segundo ele o ar faria uma pressão no corpo das pessoas, que empurrariam elas para baixo. Mas essa pressão exercida pelo ar é por causa da gravidade. Não por causa do ar que faz a gravidade. É a gravidade que faz com que o ar permaneça aqui embaixo. (Sobre o experimento). Ela vai flutuar. Porque vai tirar o ar, e a gravidade vai ficar menor. Mas tu falaste que a gravidade tinha nada a ver com o ar. Hum...eu não sei... (Faz-se o experimento). Como você explica isso? Hum...não sei. Eu achava que iria flutuar. Hum...mas se a gravidade vem do centro da Terra, então não tem o porque ser afetada pela ausência de ar. Então ela não flutua.
O sujeito Ali julga corretamente a existência de um campo gravitacional, assim como de uma força gravitacional e a dependência deste com aquele. Ao responder ' Esse objeto iria flutuar pelo fato da gravidade da Lua ser muito menor que a gravidade da Terra', poder-se-ia inferir que ela relaciona a massa da Lua com a intensidade da ação gravitacional, mas logo afirma que ' Tem nada a ver '. Julga que o campo gravitacional vem do centro da Terra e limita a esta como o único corpo capaz de ' atrair todas as massas para baixo '. Assim sendo, confirma a ideia de que, para Ali , a força gravitacional independe da massa do corpo considerado.
É interessante como Ali muda de opinião ao longo da entrevista. Ao afirmar que na Lua a gravidade seria menor, primeiramente ela a julga pela falta de
' oxigênio '. Posteriormente julga pelo fato do objeto, estando próximo da superfície da Lua, estar muito distante da Terra (que para Ali é a fonte do campo gravitacional). Cabe buscar explicar tal efeito e para isso pode-se levantar duas hipóteses: a primeira, que tal efeito foi resultado de uma sugestão do entrevistador, como se, de alguma forma, a pergunta influenciou Ali a dar tal resposta; e a segunda, que buscaremos provar e para isso diferenciar da primeira hipótese, de que Ali tomou consciência de um conflito entre duas justificativas não coerentes entre si para o mesmo problema.
A intervenção do entrevistador (que estamos analisando se foi ou não causa da mudança na justificativa de Ali ) foi 'Mas tu falaste que a gravidade vinha do centro da Terra'. Esta intervenção é o que se chama de contra-argumentação. Ao se aplicar o Método Clínico, o entrevistador pode se valer do uso de contra-argumentos para verificar a estabilidade e confiança da resposta do entrevistado. Porém, esta contra-argumentação é oriunda justamente da resposta anterior da Ali . Então realmente houve uma mudança na sua justificativa ou simplesmente para casos isolados ela se utilizava de explicações diferentes? Notamos que Ali explicita esta mudança de justificativa para resolver um problema proposto e compreendido como tal. Então a primeira hipótese levantada para explicar a mudança de justificativa na entrevista pode ser descartada, não sendo ela a causa para tal efeito.
É possível, e neste caso provável, que Ali , ao se deparar com os mais variados problemas, buscava explicações baseadas em duas premissas: no vácuo a aceleração da gravidade é nula (g = 0); e que a força gravitacional é proveniente, e somente proveniente, do planeta Terra. Ou seja, para diferentes problemas se utilizava de diferentes explicações e isto não a causava contradição já que, para tal efeito, seria necessário um determinado problema que confrontasse estas duas explicações e, como explicação final, nem uma nem outra satisfariam. Nesta situação, por mérito também do Método Clínico, muitos dos sujeitos, em especial Ali , puderam compreender o problema proposto e agir em busca de uma solução, mesmo que esta não tenha sido atingida.
O que há em comum nas entrevistas de Ali e nos demais sujeitos que têm esta noção, é que há uma implicação entre a força gravitacional e o ar, como se a ausência deste acarretaria na anulação daquela. Porém, um grande avanço se faz presente em Ali , no sentido em que, agindo sobre o problema, se vê frente a uma impossibilidade daquilo que até então tinha como verdadeiro (no caso o fato da força gravitacional vir do centro da Terra). Vê-se isso como uma etapa necessária para a mudança de sua explicação frente ao problema proposto.
Noção II: Início da diferenciação entre a ação da massa de um corpo celeste e existência de ar como causa da força gravitacional.
Ric: Se eu pegar essa bolinha e soltar de certa altura, o que acontece? Vai bater no chão. Por quê? Por que vai ter a fora da gravidade puxando para baixo. E de onde vem essa gravidade? Vem da atração que o núcleo da Terra faz na bolinha. É a força que a Terra tem. Agora se eu pegar esse mesmo objeto e soltar na superfície da Lua, o que aconteceria? Vai cair também, mas mais lento porque a força da gravidade é menor, eu acho. Porque a massa da Lua é menor que a da Terra. Teria alguma relação com o fato de na Lua não ter ar? Acho que tem nada a ver, porque o ar faria uma força dissipativa, teoricamente seria que nem no vácuo, ela cairia mais rápido. (Sobre o experimento). Ela vai flutuar. Por quê? Porque não vai ter coluna de ar sobre ela né...não vai ter pressão atmosférica...eu acho. (Fazse o experimento). O que tu observaste? Não era o que esperava. Como tu me explicas? Não tenho nem idéia... porque ainda assim teria uma força da
gravidade atuando sobre ela. Mas tinha me falado sobre pressão, não? É, mas teoricamente...tem uma coluna de ar que empurra a gente para baixo. Mas agora não tem coluna de ar, e as bolinhas continuam para baixo. Pois é, deve ser a gravidade que é mais forte. Porque lá na Lua a gente cai mais lento, porque a gravidade é menor. E não tem ar. Se lá na Lua não tem ar e a gente cai mesmo assim, é porque existe uma força da gravidade.
Nota-se que Ric compreende que a Terra possuiria uma propriedade capaz de atrair outros corpos, cuja causa seria a gravidade e esta ' Viria da massa da Terra, do centro da Terra' ou ' da atração que o núcleo da Terra faz na bolinha. É a força que a Terra tem'. Apesar de Ric falar sobre uma atração do núcleo da Terra com a bolinha, afirma a Terra como agente desta atração como se, de alguma forma, talvez até misteriosa, a Terra teria esta propriedade. Quando indagado sobre a situação na superfície da Lua, Ric afirma que a gravidade(g) seria menor, implicando tal justificativa com o fato da massa(M) da Lua ser menor (g Æ M). Isto fica claro quando afirma ' Porque a massa da Lua é menor' e ' porque a força da gravidade é menor, eu acho. Porque a massa da Lua é menor que a da Terra' . Porém, mesmo Ric respondendo a contra-argumentação sobre uma possível relação com a ausência de ar e a diminuição da gravidade, afirmando ' Acho que tem nada a ver, porque o ar faria uma força dissipativa, teoricamente seria que nem no vácuo, ela cairia mais rápido.', acaba por, frente ao experimento, afirmar que as bolinhas vão ' flutuar '.
Entende-se, então, que em um plano hipotético (experimento na superfície da Lua) os sujeitos implicam g → M, porém, frente ao experimento proposto acabam implicando a gravidade com a existência de ar (a), ou seja g Æ a. Para estes sujeitos, analisando-se as duas situações isoladamente, as implicações g Æ M e g Æ a são coerentes, isso porque respondem aos problemas propostos. A contradição se faz presente quando, frente ao experimento, nada acontece com as bolinhas que estão dentro da garrafa de vidro. Ou seja, experimentalmente coloca-se um novo problema em que a implicação g Æ a não explica os fatos da realidade. Há, então, a necessidade de superar tal conflito entre o que se esperava e o que realmente acontece experimentalmente. Com isso, após o experimento, os sujeitos buscam dar uma explicação para o fenômeno inesperado visando mais do que dar uma resposta ao experimentador, mas sim, construir uma resposta que seja coerente e aceitável para ele próprio. Isso fica evidente na fala de Ric quando busca uma explicação: ' Porque lá na Lua a gente cai mais lento, porque a gravidade é menor. E não tem ar. Se lá na Lua não tem ar e a gente cai mesmo assim, é porque existe uma força da gravidade'. Ressaltando que no início de sua entrevista Ric afirma que a gravidade vem do ' núcleo da Terra', poder-se-ia concluir que ele visa a generalizar, mesmo que somente para as duas situações apresentadas, a implicação g Æ M.
Noção III: Diferenciação completa entre a massa de um corpo celeste e a existência de ar como causa da força gravitacional. Compreensão da atração mútua de corpos físicos.
Mau: Se eu pegar essa bolinha e soltar de certa altura, o que acontece? Vai cair. Porque ela cai? Por causa da gravidade, da força gravitacional. E de onde vem essa gravidade? Da atração do centro da Terra com o centro de massa da bolinha. Os centros de massa dos objetos se atraem, no caso. Agora se eu pegar esse mesmo objeto e soltar na superfície da Lua, o que aconteceria? Provavelmente cairia mais devagar. Porque a gravidade da Lua é menor, porque a massa dela é menor. É que a gravidade depende da
massa né... (Sobre o experimento). Acho que elas não vão se mexer, vão ficar paradas. Porque vai continuar com a gravidade normal da Terra né... Mas teve um colega teu que disse que essa bolinha flutuaria. Não, no caso elas estão sobre a gravidade da Terra, tu só retiraste o ar.
Neste nível, diferentemente dos anteriores, tem-se uma evolução frente à noção de força gravitacional. Neste sentido, pode-se perceber que há algumas semelhanças entre as falas dos sujeitos deste nível com as dos anteriores. Porém, detenhamo-nos às características que as diferenciam, possibilitando concluir este nível como o que responde uma maior gama de problemas da Física. Desta forma, não vemos os nível anteriores, I e II, como refletindo um pensamento errôneo dos sujeitos, até porque todo pensamente é coerente frente a uma totalidade já constituída pelo sujeito, mas sim um pensamento proveniente de uma estrutura cujas implicações limitam a responderem poucos problemas da Física que envolvam tais conteúdos. Buscando compreender o processo pelo qual as respostas são entendidas como uma etapa final, mesmo que relativa, pode-se perceber a evolução das respostas dos sujeitos comparando os diferentes níveis de raciocínio empregados para a resolução dos problemas propostos. Diferente dos sujeitos dos níveis I e II, Mau afirma que a bolinha cai em direção à Terra por causa da 'atração do centro da Terra com o centro de massa da bolinha. Os centros de massa dos objetos se atraem, no caso'. Pode-se notar que os sujeitos deste nível buscam uma explicação perante uma atração entre os corpos envolvidos, como se a ideia de força gravitacional somente seria coerente se esta fosse relacionada dentro de um sistema constituído por, no mínimo, dois corpos.
Um dos aspectos interessantes em se analisar as entrevistas dos sujeitos deste nível é o quão estável são as implicações que visam dar significado e coerência às situações propostas. Quando indagado sobre o experimento, Mau explicita: 'Acho que elas não vão se mexer, vão ficar paradas. Porque vai continuar com a gravidade normal da Terra né...'. Antecipa corretamente o que acontecerá experimentalmente, restando, após efetuar o experimento, apenas comprovar tais antecipações. Mau resume com clareza a todas as contra-argumentações feitas pelo entrevistador: 'Não, no caso elas estão sobre a gravidade da Terra, tu só retiraste o ar.' Nota-se que, mesmo frente a contra-argumentações, os sujeitos deste nível não as vêem como coerentes frente às suas explicações para os problemas propostos. Isso mostra a estabilidade da implicação Fg Æ Mm, ou seja, a força gravitacional(Fg) implicando atração mútua entre dois corpos(Mm) de massas M e m.
## Conclusões
Pode-se compreender que, frente aos dados coletados, mesmo que quantitativamente insuficientes para generalizarmos, os sujeitos, independentemente de terem ou não sido expostos ao ensino formal, tem noções que visam explicar e dar coerência aos problemas propostos ou postos pela realidade. Nesta amostragem, o número de sujeitos que apresentaram as Noções I, II e III são, respectivamente, 3, 4 e 7, mostrando que mesmo sujeitos cursando o nível superior apresentam noções não aceitas cientificamente, e isso independentemente de seu pensamento ser formal ou não.
Partindo destas noções, é inconcebível um professor, ao preparar uma aula sobre qualquer assunto, não ter a consciência de que não necessariamente, após a
exposição dos conteúdos por ele, todos os alunos irão passar a pensar da forma que ele gostaria ou almeja. Entendendo o conhecimento como uma construção individual, porém compartilhada no meio social por transmissão de informações, é função do professor conhecer ou buscar conhecer as possíveis noções que seus alunos tem sobre o que se procura ensinar. O problema é como, frente às noções que se encontrou nos dados coletados e analisados, o professor poderá trabalhar problemas relacionados à força gravitacional à luz da construção do conhecimento.
Pode o professor simplesmente ignorar tais noções e buscar ensinar o que é certo (vinculado ao saber aceito pela comunidade científica) reprimindo, ou buscando reprimir ou extinguir, os saberes errôneos (compreendido assim pelo professor quando se compara este conhecimento com a da comunidade científica). Ou o professor pode, com posse do conhecimento das noções dos seus alunos, propor situações onde as noções I e II, menos elaboradas e menos gerais, começam a ser questionadas quanto a sua validade. Ou seja, o professor proporia situações que possibilitasse o sujeito agir sobre seu conhecimento, modificando sua noção na busca da construção de uma totalidade mais equilibrada, mais estável frente às perturbações, consequentemente mais geral, possibilitando uma aproximação gradativa e coerente do conhecimento aceito pela comunidade científica. Gradativa, pois o conhecimento é um processo de construção, logo mediato, envolvendo as peculiaridades do que se busca assimilar e os esquemas já construídos pelo sujeito. Desta forma, pensa-se que o professor deve, além de, necessariamente, dominar o conteúdo que busca ensinar, conhecer que o aluno aprende não por transferência dos conhecimentos, mas por uma construção que, sendo um processo ativo do sujeito, exige do professor conhecer ou buscar conhecer as noções que os alunos já construíram. Assim exerce-se o papel de professor, contribuindo para aprendizagem de seus alunos visando à autonomia, aspecto fundamental para se viver e aprender em sociedade.
## Referências
LUDUVICO, L. P. ; FREZZA, J. S. & SILVA, J. A. . A Epistemologia Genética na Física: uma análise sobre as operações mentais envolvidas na interação com o fenômeno da queda livre de corpos. In: XVIII SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA, 2009, Vitória - ES. Anais do XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física, 2009., 2009.
PIAGET, J. & INHELDER, B. (1971) O desenvolvimento das quantidades físicas na criança: conservação e atomismo . Rio de Janeiro: Zahar.
PIAGET, J. (1977) A tomada de Consciência. São Paulo: Melhoramentos/Edusp.
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