Imagem da Ciência no cinema: um levantamento de produções cinematográficas comerciais produzidas no período entre 2000 e 2011
Lucas Mascarenhas De Miranda, Vitor Iotte Medeiros, Luzya Marxiellen Montan Oliveira, Cristhiane Cunha Flôr
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 23/01/2013
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Imagem da Ciência no cinema: um levantamento de produções cinematográficas comerciais produzidas no período entre 2000 e 2011 1
Lucas Mascarenhas de Miranda 1 (IC), Luzya Marxiellen Montan Oliveira (IC), 2 Vitor Iotte Medeiros (IC), Cristhiane Cunha Flôr (PQ). 3 4
## Resumo
As constantes transformações na Ciência e na Tecnologia, e as inúmeras possibilidades de leituras envolvendo esses discursos, nos fazem pensar em que tipo de imagem pública está sendo atribuída à Ciência, ao Fazer Ciência e ao Ser Cientista. Levando em consideração a posição deste estudo entre aqueles que pensam a linguagem e a formação de leitores na Educação Científica e utilizando a Análise de Discurso Francesa (AD) como embasamento teórico, faremos uso do cinema como principal meio de leitura. Sendo o cinema um meio com enorme potencial de construir, ou reforçar, visões sobre ciência e cientista, o presente trabalho buscará apresentar um levantamento de filmes comerciais que têm a ciência como foco, produzidos no período entre 2000 e 2011. Traz ainda, um panorama dos estudos que envolvem os temas do cinema e da imagem da ciência no cinema na área de pesquisa de Ensino de Física, Química e Ciências. Entre os resultados, percebemos que, enquanto a produção de filmes comerciais que tratam da ciência tem aumentado muito na última década, os trabalhos de pesquisa que visam estudar o impacto dessa produção no ensino de ciências ainda são muito escassos.
Palavras-Chave : Educação Científica, Cinema, Análise do Discurso
## Introdução
Em uma realidade na qual ciência e tecnologia estão em constante transformação, e cada vez mais, presentes em nosso cotidiano, precisamos pensar como essa ciência e tecnologia vem influenciando a sociedade que fazemos parte. As leituras que fazemos da ciência e da tecnologia influenciam fortemente nossa relação com o mundo a partir do momento em que incorporamos seus produtos em nosso dia-a-dia. Existem inúmeros textos a partir dos quais o discurso da ciência é incorporado em nossas vidas: jornais, revistas, livros didáticos, televisão, cinema e propagandas são apenas alguns deles.
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20 a 25 de janeiro de 2013
O presente trabalho encontra-se ancorado entre aqueles que pensam a linguagem e a formação de leitores na Educação científica e, tendo o intuito de traçar uma linha norteadora dentro dos estudos de linguagem, utilizamos como base teórica a Análise de Discurso Francesa (AD), baseada nas obras de Michel Pêcheux, que teve seu desdobramento no Brasil a partir dos trabalhos de Eni P. Orlandi. Temos como objetivo fazer um levantamento de alguns filmes que têm a ciência como tema e que foram produzidos no período de 2000 a 2012. Pensando a incorporação desse tema pela educação, visamos também observar como a área de Ensino, em particular a Educação Científica, tem abordado temas referentes ao cinema e à imagem da ciência no cinema. Este é um recorte de um estudo mais amplo, que pretende compreender os sentidos produzidos a respeito da ciência por estudantes de nível médio e também universitários, a partir do contato com os filmes comerciais aqui selecionados . 2
Os filmes que levantamos são tratados como textos pois, quando falamos em texto no âmbito da AD, não consideramos apenas mensagens ordenadas com frases e parágrafos. Imagens, propagandas, rótulos, músicas e cinema, por exemplo, também são leituras. Assim como Orlandi (1984), consideramos que um mesmo texto pode produzir significados diversos em diferentes pessoas e diferentes momentos, dependendo do contexto no qual está inserido ou da época em que é lido, por exemplo. Ao pensar o leitor como construtor de seu próprio histórico de leituras (baseado na sua vivência individual), pode-se inferir que este será responsável por produzir um, ou alguns, dos infinitos possíveis sentidos que uma interação com textos diversos nos possibilita a produzir.
É importante ressaltar que, ao assistirmos a filmes, realizando uma leitura destes, temos a oportunidade de pensar em diversos sentidos que são previstos para os mesmos. Mas, por mais que estudemos as obras cinematográficas, sempre haverá leituras possíveis, que fogem daquilo que foi previsto, e nem por isso são erradas, ou menos importantes. Ainda com Orlandi (1984, p. 8), podemos pensar, inclusive, numa dinâmica entre a leitura prevista e a leitura possível, que pode transitar entre um limite máximo e um mínimo, e cujo critério para se determinar esses limites, está na observação da história
Quantas vezes a escola não valoriza seus estudantes exclusivamente pelos acertos, da mesma forma que os reprimem pelos seus erros, geralmente impedindo a diversidade de sentidos? Muitas vezes, o erro não passa de um sentido possível, um olhar diferenciado do que fora previsto pelo professor, evidenciando inclusive a capacidade do aluno de pensar além, de ser criativo. Temos, pelos estudos de Ken Robinson (2009, p. 38) que, às vezes um erro é apenas um erro [não uma demonstração de criatividade], mas se não estivermos preparados para errar, nós nunca teremos uma ideia original. A partir de uma leitura, fílmica ou não, realizada por diferentes pessoas, em diferentes épocas e contextos, observaremos múltiplos sentidos produzidos, muitas vezes, influenciados por ideias anteriores sobre ciência. O professor pode ser um diferencial, deslocando olhares, incentivando a leitura, não só de textos didáticos, mas de literatura também.
Atualmente, grande parte da população tem acesso aos conteúdos divulgados através da internet e da televisão, estes acabam sendo os maiores
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difusores de informação, ou desinformação, representando muitas vezes a principal fonte de leitura para muitas pessoas. Quanto menos crítica for a leitura, mais influência as mídias terão sobre seus 'leitores'. Isso porque, muitas vezes, ao produzir um filme comercial, os estúdios privilegiam os discursos já sedimentados socialmente sobre os temas que trabalham. Porém, entre os sentidos dominantes, sedimentados social e historicamente, e os múltiplos sentidos possíveis, o sujeito se move. Promover uma leitura crítica então é, a partir de nossa perspectiva, levar o sujeito a compreender essa possibilidade de movimento entre os múltiplos sentidos, superando a ideia de que há uma única leitura possível.
Observando esses pontos, que permeiam a relação entre os estudantes e o cinema, podemos trabalhar algumas questões levando-os a pensar de forma crítica e problematizada os assuntos abordados na telona, ou apenas, deslocando olhares enraizados para outras possibilidades de entendimento. Trabalhar cinema como recurso de ensino tem um enorme potencial, quando se tem o devido cuidado de conduzir reflexões construtivas com os estudantes. Mostrar que são leitores (leitores de livros, de propagandas, de filmes, de situações cotidianas, leitores de mundo) e produzem sentidos que nunca estão errados, nem nunca estão certos, simplesmente, existem, e não excluem a possibilidade da existência de outros.
Estudos na área da Educação Científica e também Documentos Oficiais apontam a necessidade de trabalhar a leitura de diferentes fontes com os estudantes:
...é comum que crianças e jovens tenham acesso, pela televisão, a informações diversas que muitas vezes são fragmentadas, descontextualizadas, imprecisas, tendenciosas e até discriminatórias. Os alunos, embora ainda não tenham condições de compreendê-las plenamente, atribuem significado ao que vêem. Na escola, é possível provocar situações que permitam atribuir outros significados a esses conhecimentos e à construção de outros saberes a partir deles, assim como desenvolver atitude crítica frente aos conteúdos veiculados. (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998, p. 143).
Considerando o trabalho com textos diferenciados, nesse caso filmes comerciais, a realização desse estudo ancora-se em questões como: Quais os sentidos produzidos pelos estudantes para o discurso cinematográfico sobre ciência? Para pensar esta questão, é importante conhecer o que dizem as pesquisas já realizadas na área de Ensino/Educação Científica.
## O Estudo
A partir do estudo iniciado por Cunha e Giordan (2008), que aborda a visão de Ciência e Cientista retratada no cinema atrelada ao contexto histórico-científico do período entre 1902 e 2000, percebemos que os filmes possibilitaram povoar o imaginário das pessoas construindo imagens públicas da Ciência. Levando em conta tal estudo e com base no referencial teórico da AD, buscamos levantar alguns filmes nos quais o cinema se apropriou e difundiu ideias sobre a Ciência, o Fazer Ciência e o Ser Cientista, no contexto histórico científico compreendido entre 2000 e 2011.
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Para entender as relações existentes entre o Cinema e a Educação Científica, começamos a trabalhar realizando um levantamento bibliográfico de estudos que relacionam Ciência e Cinema a fim de que sirvam de aporte teórico para nossa pesquisa, dando uma ideia do cenário que se desenha para o tema em questão. A seguir partimos para uma seleção de filmes comerciais que, de alguma forma, abordem a imagem da ciência e do cientista. O passo seguinte - que corresponde a uma fase ainda em andamento do projeto - é apresentar alguns dos filmes selecionados numa turma de ensino médio e na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Em cada sessão, serão distribuídos questionários, além da realização de debates, para que possamos perceber como se deu a produção de sentidos dos alunos-expectadores. Embasados com a AD, iremos sistematizar as informações obtidas e estudá-las, tendo sempre em mente quais são as condições de produção de sentidos daqueles estudantes.
Tabela 1: Etapas do trabalho
A seguir, faremos um detalhamento das etapas 1 e 2, que foram realizadas no ano de 2011.
## Cinema e Educação Científica
Inicialmente, fizemos um levantamento bibliográfico buscando na literatura, estudos sobre cinema e educação científica a partir do ano 2000 até o ano 2011 (ano em que o trabalho iniciou). Pelo baixo volume de artigos encontrados, estendemos a busca para todos os artigos que abordassem cinema na educação.
Dos mais de 4000 artigos consultados, nas revistas científicas das áreas de ensino de Química, Física e Ciências, no período indicado, encontramos apenas 13 que tratassem de cinema na educação, ou da imagem da ciência no cinema.
Tabela 2: Revistas consultadas e, nos parênteses, número de artigos encontrados
A partir da leitura dos artigos encontrados, observamos que:
- Seis, abordam a possibilidade de uso do cinema na educação. Alguns mostrando o 'como fazer', outros mostrando o 'por que fazer', mas todos concluindo o potencial construtivo deste recurso. (ANDRADE, 2000; CUNHA e GIORDAN, 2009; MACHADO, 2008; MALUF e SOUZA, 2008; NAPOLITANO, 2003; OLIVEIRA, 2006).
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- Seis, tratam de relatos de experiências educacionais, de pesquisas empíricas, nas quais houve intervenção do pesquisador na sala de aula. Três destes envolvem a apresentação de um filme, e os outros três relatam sobre as possibilidades da utilização de instrumentos de uso cinematográfico, como auxiliar em mediações de sala em aulas de física. (ALMEIDA, 2000; OCCHIONI, LANÇA e ALMEIDA, 2001; SANTOS e AQUINO, 2011; XAVIER et al., 2010, ).
- Três deles desenvolvem uma análise de como são as imagens da ciência e do cientista veiculadas no cinema. Eles apontam as imagens sobre a atividade científica divulgadas em filmes de animação infantil, analisam essas representações associadas ao momento histórico que os filmes foram produzidos e descreve o cinema como veículo formador do imaginário social a cerca da ciência. (CUNHA e GIORDAN, 2009; OLIVEIRA, 2006; TOMAZI et al., 2009)
Esta quantidade de trabalhos mostra a necessidade da área de Educação se voltar também para esse tema, já que a formação de imagens públicas da ciência também passa pelo cinema e, para se fazer uma educação científica de qualidade, é necessário conhecer e lidar com essas imagens.
## Seleção dos filmes
- O movimento inicial foi selecionar todos os filmes, do período de 2000 a 2011, que evidenciassem a Ciência, o Fazer Ciência e o Ser Cientista e, como esperado, obtivemos uma quantidade de filmes, na casa das centenas. Prosseguimos com a criação de critérios ( C ) de seleção, com o intuito de reduzir o número inicial de filmes, tornando o projeto exequível.
- C1 : Com o objetivo de estudar filmes de grande alcance, optamos por aqueles que estivessem ligados a Hollywood;
- C2 : Pelo foco do trabalho em analisar o impacto destes filmes na produção de sentidos também por parte de estudantes do ensino médio, preferimos aqueles que tivessem censura menor de dezoito anos;
- C3 : Como queríamos discutir a abordagem científica dos filmes, escolhemos aquelas produções de entretenimento que retratassem uma visão explicita do Fazer Ciência, do Ser Cientista ou da Ciência e Tecnologia em seu âmbito geral.
Postos estes critérios, conseguimos, através de leituras das sinopses e resumos dos filmes, obter uma coletânea com 35 produções. As produções cinematográficas refletem estruturas de pensamento e de imaginário, que acompanham as transformações históricas, assim, passamos a considerar o contexto histórico-científico da época. Foram considerados os avanços tecnológicos oriundos da Ciência como um todo e os impactos desses avanços na sociedade, além das transformações naturais vivenciadas no Planeta neste espaço de tempo. Chegamos a quatro grandes eixos temáticos: Catástrofes/Fim do mundo, Relação Mente-Cérebro, Avanços Tecnológicos e Genética/Clonagem. Distribuímos os filmes nesses eixos e percebemos que muitos assuntos se repetiam. Escolhemos filmes que melhor representassem cada eixo e terminamos com um número de oito produções (Tabela 3).
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Tabela 3: Filmes selecionados
## Algumas Considerações
De acordo com as pesquisas realizadas, concluimos que pouco se fala a respeito de filmes comerciais na educação científica, ou mesmo da imagem de Ciência e Cientista que o cinema constrói, ou reforça. Percebemos então, o quão importante é o desenvolvimento deste estudo, tanto para o ensino de Ciências, quanto para a educação como um todo, uma vez que pesquisadores como Kosminsky e Giordan (2002); Reis e Galvão (2006); Zompero, Garcia e Arruda (2005), dentre outros, nos mostram em seus estudos, que os estudantes trazem uma imagem estereotipada do cientista, imaginando-o muito inteligente, velho, louco, cabeludo e despenteado, cujo principal local de trabalho é o laboratório, ou mais ainda, relacionando a ciência e as descobertas destes 'malucos' e 'solitários' cientistas como verdade. Ou melhor, a cientificamente comprovada, verdade.
É preciso deixar claro que o projeto do qual esse estudo é um recorte e encontra-se em fase de desenvolvimento, portanto não alcançamos o objetivo final, que consiste em observar como se dá a produção de sentidos a partir de filmes comerciais. Podemos dizer, no entanto, que alcançamos resultados parciais, apresentados nas etapas 1 e 2, que servirão de base para o futuro desta pesquisa.
Para a sequência da realização desse estudo, compreendemos que, ao pensar essas imagens estereotipadas que os estudantes podem fazer, o mecanismo de antecipação pode ser uma importante categoria de análise dos sentidos produzidos para a ciência pelos estudantes a partir da leitura dos filmes selecionados. Segundo Orlandi (2003), este surge da capacidade do sujeito de se colocar no lugar de seu interlocutor - neste contexto, o espectador - e dessa forma se antecipar quanto ao sentido que suas palavras produzem, 'regulando sua argumentação, de tal forma que o sujeito dirá de um modo, ou de outro, segundo o efeito que pensa produzir em seu ouvinte (IDEM, p. 39)'. Quando o estudante
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assiste a um filme de ficção científica o que ele espera, que sentidos antecipa? Ele vê apenas uma ciência e um cientista estereotipados? As relações de força, por sua vez, também podem se constituir como uma importante categoria de análise, uma vez que se estabelecem devido à hierarquização das relações sociais e permite estudar o lugar de onde o sujeito fala. Quando um sujeito fala, ele fala de um determinado lugar (no lugar de professor, de aluno, no lugar de diretor, de espectador, de crítico de cinema). Essas relações de força se sustentam no poder que cada um desses lugares possui sobre outros. Quando dizemos que um filme é de um diretor bem conceituado, produzido por uma empresa de nome, apoiada por emissoras de influência, vencedor de tantos prêmios de cinema, fornecemos ao discurso dessas produções, uma força e veracidade quase incontestáveis.
Por fim, diríamos, ancorados em Freire (2006, p. 22), que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Não é somente dizer que um filme mostra visões estereotipadas, é deixar que o estudante perceba que aquela é uma visão possível, não única. Não é unicamente dizer que as mídias são perigosas e exercem influências negativas, é mostrar que toda forma de leitura é válida, desde que seja pensada de forma crítica. Não é apenas ensinar, é ensinar a descobrir, a avaliar e a se perceber como leitor e produtor de sentidos.
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