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PRODUÇÃO DE LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA: RELAÇÕES ENTRE CULTURA ESCOLAR E MERCADO EDITORIAL

Alisson Antonio Martins, Nilson Marcos Dias Garcia

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
23/01/2013
Linha de pesquisa
Educação, Política E Sociedade
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PRODUÇÃO DE LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA: RELAÇÕES ENTRE CULTURA ESCOLAR E MERCADO EDITORIAL

## Alisson Antonio Martins 1* , Nilson Marcos Dias Garcia 2**

1

UFPR-PPGE, alimartins@gmail.com

2 UTFPR-DAFIS/PPGTE e UFPR-PPGE, nilson@utfpr.edu.br

## Resumo

Apresenta uma reflexão sobre a produção de livros didáticos de Física no Brasil, tomando como base investigações de referência no campo educacional. Estabelece uma relação entre elementos da legislação educacional e das políticas públicas de distribuição de livros didáticos, com o intuito de identificar como o ensino de Física foi sendo conformado historicamente. Identifica os livros didáticos de Física conforme sua dupla natureza, como produtos culturais, resultantes de uma determinada seleção e organização do conhecimento e como mercadorias, que mobilizam interesses de diversos agentes, entre eles editoras e Estado. Analisando o período histórico compreendido entre fins do século XIX e os dias atuais, identifica três grandes momentos em que a produção dos livros didáticos de Física sofre influências internacionais específicas, marcados por pressupostos filosóficos bem específicos. Estabelece uma reflexão sobre os fundamentos do ensino de Ciências em articulação com estas influências e com a produção cultural mais ampla. Coteja estes elementos através de uma análise preliminar dos dados referentes ao Programa Nacional do Livro Didático de 2012, ressaltando a importância do Programa não apenas para os alunos e professores da Educação Básica, mas também para as editoras.

Palavras-chave : livro didático de física, produção cultural, mercado editorial

## Introdução: as pesquisas sobre livros didáticos

Os livros didáticos de Física estão presentes no cotidiano escolar brasileiro desde o século XIX (LORENZ, 2010, p. 223), porém sua presença, massiva, nas escolas públicas só ocorre a partir de programas governamentais de distribuição de livros na primeira década do século XXI. O caráter mais recente desta distribuição massiva não impede, no entanto, compreender como se deu a produção de livros didáticos por todos estes anos, colocando importantes questões à pesquisa educacional.

De acordo com Garcia (2009, p.3), apesar de os livros didáticos estarem presentes nas escolas brasileiras por todo o século XX, as investigações que os tomam como objeto de estudo têm início apenas na década de 1950. Analisando-se os estudos que se tornaram referências fundamentais para o campo, verifica-se que as pesquisas sobre os livros didáticos se dividem em dois grandes grupos: por um lado, têm-se aquelas que estabelecem relações com a sociedade mais ampla, considerando o livro didático como o resultado de uma determinada seleção cultural de conhecimentos, sendo identificado como um 'produto de grupos sociais' (CHOPPIN, 2004, p. 553), um 'artefato cultural' (MARTINS, 2006, p. 125), um 'produto cultural' (BITTENCOURT, 2004, p. 477), uma 'mercadoria' (APPLE, 1985,

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20 a 25 de janeiro de 2013

- p. 82). Por outro, pensando nas relações estabelecidas diretamente com a escolarização formal e com suas instituições específicas, algumas pesquisas abordam os livros didáticos como 'suportes do conhecimento escolar', 'mecanismo de seleção e organização dos conteúdos e métodos de ensino' (FERREIRA e SELLES, 2004, p. 63), 'responsáveis pela transposição do saber' (FORQUIN, 1993).

No caso particular do livro didático de Física, torna-se interessante compreender como ele tem sido abordado nas pesquisas educacionais, em articulação com as formas assumidas pela organização da educação escolar sob influência da realidade social. Da mesma forma, é necessário entender a produção desses livros didáticos no movimento mais amplo de produção de obras didáticas.

Compreender a dinâmica das políticas públicas educacionais voltadas à produção e distribuição desses livros didáticos em face da legislação educacional vigente, com o objetivo de traçar um paralelo com outros períodos do ensino de Física surge como um desafio que justifica o presente trabalho. Nesse sentido, analisando três grandes momentos da produção de livros didáticos desta disciplina, estabelece-se um paralelo com os fundamentos do ensino de Ciências que tiveram expressão no cenário educacional brasileiro nesse período, ressaltando a produção cultural mais ampla, problematizando o livro didático como um produto cultural e uma mercadoria, cotejando a análise com alguns dados relativos à compra de coleções didáticas de Física no Programa Nacional do Livro Didático de 2012.

## Produção de Livros Didáticos: Políticas Públicas e a LDB 9394/96

O Estado brasileiro tem cumprido um importante papel na produção dos livros didáticos, destacando-se em sua história educacional a criação da Fundação Nacional de Material Escolar (FENAME), com a responsabilidade de produzir e distribuir materiais didáticos às escolas públicas. Entretanto, por não contar, na década de 1970, com organização administrativa e recursos financeiros para esta produção e distribuição, a FENAME foi reestruturada, passando a desenvolver atividades de co-edição de obras didáticas. Estas atividades permitiram a criação de um mercado seguro para as editoras, dado o interesse do governo na obtenção destas obras, cuja destinação gratuita às escolas públicas era de sua incumbência (HÖFLING, 2006, p. 22).

Mais recentemente, desde 1985, a produção, a seleção e a distribuição de livros didáticos para o Ensino Fundamental têm ocorrido no âmbito do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), um dos maiores programas de distribuição de livros didáticos do mundo, sem que, no entanto, o Estado participe da co-edição das obras, característica existente num período de atuação da FENAME.

Embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei 9394 de 1996, previsse a distribuição de materiais didáticos aos alunos do Ensino Médio, estes passaram um longo período sem serem assistidos por estes programas. Apenas oito anos após a publicação da lei, em 2004, foi lançado, enquanto projeto-piloto, o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM) e, somente em 2008, os livros didáticos de Física foram incorporados ao programa, chegando às escolas em 2009.

Com a institucionalização da compra de livros didáticos pelo Estado brasileiro junto às editoras, através do PNLD, criou-se um complexo sistema de avaliação e seleção de livros - sem equivalente em outros países (SILVA, GARCIA,

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GARCIA, 2010, p. 2) - que devem atender determinados editais que normatizariam a sua produção. Após a avaliação por uma equipe técnica, as coleções didáticas selecionadas comporão o Guia do Livro Didático, que deverá ser objeto de análise e consulta dos professores da Educação Básica, para que, na sequência, possam fazer a seleção de pelo menos duas coleções, sendo que uma delas poderá ser adotada pela escola em que lecionam.

Percebe-se assim que o PNLD mantém estreita relação com as políticas públicas educacionais que passaram a vigorar a partir da década de 1990, e cuja maior expressão é a publicação da Lei de Diretrizes e Bases nº 9394, de 1996. Esta legislação passou a normatizar a educação nacional, estabelecendo distinções entre os níveis de ensino (Fundamental, Médio e Superior). Dentre outros aspectos, previa-se as formas pelas quais o Estado deveria garantir o acesso e a permanência na educação escolar, através, por exemplo, da aquisição de material didáticopedagógico (Art. 70, item VIII), considerada como despesa específica para a manutenção e o desenvolvimento do ensino. Do mesmo modo, ao prever a 'progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao Ensino Médio' (Art. 4º, item II), e indicar que este nível de ensino pode preparar os estudantes tanto para o mercado de trabalho, quanto para a continuidade dos estudos no Ensino Superior, a LDB 9394/96 sinaliza o aumento de sua responsabilidade na garantia de fazer chegar a esses alunos o material didático-pedagógico necessário à consecução de seus objetivos.

## Livros didáticos: produtos culturais e mercadorias

De modo complementar às discussões sobre a relação entre as políticas públicas educacionais e os programas governamentais de distribuição gratuita, é necessário considerar a relação entre a autoria de livros didáticos e o mercado editorial. Bittencourt (2004) aponta que a autoria passou por profundas modificações nos últimos anos, cujas determinações estão reguladas pelo mercado editorial, principalmente pelo

retorno financeiro considerável que ele traz, sobretudo em países como o Brasil, com um expressivo público escolar e um mercado assegurado pelo Estado na compra e distribuição de livros para as escolas públicas. Nos últimos anos, o interesse de editoras estrangeiras, que tem se concretizado na compra ou associações com empresas nacionais, conduz a transformações que afetam o papel do autor do livro escolar. (p. 477)

Considerando que estas modificações acabam por marcar a produção de livros didáticos de Física, é pertinente e necessário estudá-los em base às relações estabelecidas entre autoria e mercado editorial, haja vista que esses artefatos fazem parte de uma produção cultural mais ampla.

Neste sentido, Williams (2000, p. 44-52), indica que há quatro fases de desenvolvimento da produção cultural, na qual os livros se inserem. Na primeira fase, a produção cultural ocorre de modo artesanal , em que o autor, ainda que dependente do mercado imediato, mantém sua obra 'sob seu controle em todas as etapas, e, nesse sentido, ele pode considerar-se independente' (WILLIAMS, 2000, p. 44). Na segunda, chamada de pós-artesanal , verifica-se que 'o produtor continua sendo um artesão, mas, agora, num mercado mais complexo e mais organizado, em que depende praticamente de intermediários' (p. 45), sendo que, de certa forma, o produtor continua ofertando uma obra terminada. As alterações que ocorrem nesta característica se dão na medida em que as relações entre produtor e intermediário

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se tornam normais, ou seja, o produtor pode passar a 'estar oferecendo seu trabalho para produzir obras de determinado tipo conhecido' (p.45). A terceira fase se caracteriza pela presença de profissionais de mercado , diferenciando-se da fase anterior pelo fortalecimento dos intermediários produtivos, isto é, os editores modernos, e, paralelamente, por uma maior profissionalização dos escritores. Williams aponta que os indicadores mais significativos desta fase são o copyright e o royalty , que regulam a nova relação de propriedade num período marcado pela reprodução ampliada das obras, sobretudo pelo uso da imprensa, devendo haver, sob exigência maior dos produtores, algum tipo de controle. Como expressão desta regulação da propriedade ( copyright ), surge uma nova forma de pagamento, 'relativo a cada exemplar vendido' (royalty) , em substituição à compra direta e de uma única vez junto ao autor (p. 46). A quarta e última fase identificada por esse autor configura-se pela complexidade ampliada das relações de mercado, persistindo a presença do profissional de mercado, porém, com a empresa ocupando o centro, surgindo um tipo de relação que prioriza o papel exercido pelo profissional empresarial . Se, na terceira fase era possível reconhecer a coexistência de obras produzidas originalmente pelos autores e obras encomendadas pelos editores, na fase empresarial, esta última tendência se torna hegemônica por existir 'um mercado extremamente organizado e plenamente capitalizado ' (p. 51) que, em última instância, determina o rumo da produção.

Estes elementos permitem compreender como tem ocorrido a produção de livros didáticos de Física no Brasil, pensando no papel assumido pelo Estado que, através de políticas públicas específicas, figura como seu principal financiador e, portanto, como responsável por assegurar o mercado para as editoras (BITTENCOURT, 2004, p. 477; HÖFLING, 2006, p. 26). Assim, acredita-se que os momentos pelos quais passou a produção de livros didáticos de Física se encontram mais fortemente relacionados com três das fases apontadas por Williams (2000), ou seja, a pós-artesanal, a dos profissionais de mercado e a empresarial.

Por outro lado, por apresentar propriedades que contribuem e até induzem na seleção e organização curricular de conhecimentos escolares específicos, o livro didático pode ser considerado um artefato da cultura escolar, entendida aqui, de acordo com Forquin, como

o conjunto dos conteúdos cognitivos e simbólicos que, selecionados, organizados, 'normatizados', 'rotinizados', sob o efeito dos imperativos de didatização, constituem habitualmente o objeto de uma transmissão deliberada no contexto das escolas. (1993, p. 167)

Estas considerações motivam o estudo dos livros didáticos de Física a partir de sua inserção em uma realidade socialmente determinada, marcada pelas formas assumidas pelas diversas organizações sociais. Constituem-se, assim, como elementos da cultura escolar podendo ser identificados como produtos culturais (BITTENCOURT, 2004, p. 477).

Entretanto, por serem distribuídos massivamente por programas de governo, apresentam-se hoje como um veículo de valor que comporta um amplo espectro de interesses econômicos, representados em agentes e instituições determinadas. Assumem, assim, o papel de mercadorias (APPLE, 1985, p. 82), pois possuem, por um lado, um valor de uso, inerente às suas especificidades relativas ao processo de ensino e aprendizagem de Física e, por outro, um valor de troca, cujo potencial deve ser realizado no mercado por distintos agentes, dentre eles as editoras e o Estado.

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## Desenvolvimento dos Livros Didáticos de Física no Brasil

A presença ampliada dos livros didáticos de Física nas escolas públicas coloca importantes questões para a pesquisa educacional, principalmente se pensarmos nos modos pelos quais o ensino desta disciplina foi se constituindo historicamente. Parte-se do pressuposto de que a produção e o consumo de determinados materiais didáticos influenciam decisivamente na constituição da cultura escolar e na conformação das características assumidas pelo ensino de Física praticado no cotidiano escolar.

Considerando o período compreendido entre o fim do Século XIX e início do Século XXI verifica-se que os livros didáticos de Física passaram por três grandes momentos em sua produção. Um primeiro momento, aproximadamente entre fins do século XIX e a década 1950, é marcado pela influência de livros didáticos de autores franceses, de cunho enciclopédico e propedêutico, que eram traduzidos e utilizados indiscriminadamente tanto por alunos quanto por professores (BARRA e LORENZ, 1986, p. 1970; GARCIA, 2007, p. 4), exacerbando a memorização e contribuindo para a pouca presença da experimentação nas salas de aula.

Num segundo momento, que se inicia em meados dos anos 1960 e se estende até a década de 1990, os livros didáticos de Física foram fortemente influenciados pelos projetos de ensino anglo-saxões (que tiveram algumas versões adaptadas à realidade nacional) (GARCIA, 2007, p. 6), centrados na resolução de exercícios e na realização de atividades experimentais simples. Uma característica marcante deste momento está na presença de livros destinados aos alunos e o guia do professor, superando os livros únicos, do momento anterior. O período é também marcado por uma concepção comportamentalista de educação, que reforça a instrução programada e concebe o aluno como um cientista em formação.

O terceiro grande momento, cuja influência internacional não se revela de modo tão claro como nos anteriores, diferencia-se pela tentativa de se apropriar das orientações legais que se pautam na pedagogia das competências, procurando inserir na cultura escolar, a exemplo do ocorrido no momento anterior, pressupostos presentes na produção industrial e no mercado financeiro. Este momento se inicia na década de 1990 e se estende até os dias atuais, caracterizando-se pela influência dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (BRASIL, 2000) e pela diferenciação entre livros didáticos destinados aos alunos e o livro didático acrescido do manual do professor. As obras didáticas de Física deste momento ainda são bastante marcadas pela organização curricular do momento anterior e, neste sentido, correspondem muito mais a uma interpretação livre da legislação educacional, diferentemente do período anterior, em que os livros didáticos estavam mais fortemente vinculados aos pressupostos educacionais vigentes (MEGID NETO e FRACALANZA, 2006, p. 165).

Estes três grandes momentos podem ser entendidos em função das diferentes formas que os fundamentos do ensino de Ciências foram sendo apropriados na educação brasileira. Para Amaral (2006, p. 107), estes fundamentos estão relacionados a movimentos educacionais pautados em determinados pressupostos filosóficos e com eles estabelecem uma forte relação.

Os dois primeiros momentos de produção dos livros didáticos de Física, de influências francesa e anglo-saxônica, são os que possuem a vinculação mais acentuada com o positivismo e o pragmatismo, respectivamente, tradições filosóficas

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oriundas, inclusive, daqueles países. O terceiro momento pode ser entendido, por sua vez, em função do movimento crítico em educação que, segundo Amaral (2006, p. 110) busca superar o ensino tradicional e o movimento tecnicista, característicos dos momentos anteriores. Para ele, o movimento crítico busca abrandar a influência clássica da psicologia deslocando-a para os campos da sociologia, da história e da cultura:

Com este deslocamento, passam a ganhar importância os critérios de relevância social e cultural na seleção dos conteúdos programáticos, bem como, entre outros elementos, o cotidiano, as experiências anteriores e os conhecimentos prévios dos alunos no processo de ensino-aprendizagem, com o progressivo desmonte dos pilares de sustentação do ensino tradicional e tecnicista (AMARAL, 2006, p. 111-112)

Produzidos nesse terceiro momento, os livros didáticos de Física da década de 1990 em diante, mesmo não rompendo completamente com uma concepção positivista de ciência, iniciaram um processo paulatino de incorporação das discussões presentes nas pesquisas em ensino de Física. Estas incorporações, mesmo em número reduzido, são expressões dos resultados das pesquisas em ensino de Física que, embora não se configurem como determinantes da produção didática, para elas contribuem de modo decisivo.

## Considerações finais: produção menor e comunidade científica

Apesar do crescimento verificado mais recentemente, as pesquisas acadêmicas sobre os livros didáticos de Física são, ainda, em número bastante reduzido, talvez pelo fato de o livro didático ser considerado uma produção menor , atribuindo-se à sua produção pouco ou nenhum reconhecimento. Entretanto, sob o ponto de vista do campo econômico, estas obras estão no centro da produção de várias editoras sendo, para algumas, as principais fontes de seus maiores rendimentos.

Considerando a dupla natureza dos livros didáticos de Física, como produtos culturais e mercadorias, é possível estabelecer importantes considerações sobre as formas assumidas pelas políticas públicas educacionais, especialmente aquelas relativas à sua compra e distribuição gratuita. Em articulação com estas políticas, a legislação educacional estabelece as diretrizes pelas quais o ensino de Física deve se pautar. Deste modo, é importante ressaltar que a produção dos livros didáticos de Física, em distintos momentos, esteve e está vinculada aos pressupostos educacionais e aos fundamentos de ensino de Ciências vigentes, com desdobramentos na organização desta disciplina, influenciando, assim a cultura escolar.

Atualmente, os livros didáticos de Física, cuja presença no cotidiano escolar brasileiro remonta ao século XIX, estão nas escolas públicas de maneira ampliada. Segundo dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), na última edição do PNLD foram adquiridos 9.475.737 livros didáticos de Física, quantidade superior aos 9.317.230 alunos atendidos no Ensino Médio (Regular e EJA) (FNDE, 2012). Esta quantidade representa um investimento do Estado no valor de R$ 80.645.397,88 na compra de livros didáticos de Física, ou seja, 9,13% de um total de R$ 883,5 milhões investidos em livros destinados aos alunos de ensino médio.

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Ainda segundo os dados do FNDE, verifica-se que seis editoras são responsáveis pela venda de livros didáticos de Física ao governo federal, sendo que três delas concentram mais de 75% das compras efetuadas. São necessários outros estudos, tais como o de Cassiano (2007) para que se possa inferir acerca da produção global destas editoras, reconhecendo-se, entretanto, a importância do PNLD não apenas aos alunos e professores da Educação Básica, mas também às editoras que tem neste programa a garantia de um mercado seguro.

Estas relações são necessárias para se compreender como se deram os distintos momentos de produção de livros didáticos de Física no Brasil, cujo financiamento esteve sob responsabilidade central do Estado. Desta forma, no período histórico considerado neste trabalho, no primeiro momento da produção, sob influência francesa, os livros didáticos eram comprados pelo Estado, sem critérios específicos norteando a sua produção. Os autores podiam escrever uma obra que estivesse ancorada em seus pressupostos, marcados hegemonicamente pelo positivismo, sem exigência de atendimento à determinada normatização, possuindo, assim, controle sobre sua obra, embora necessitassem de profissionais especializados na intermediação junto ao mercado.

O segundo momento, de influência anglo-saxônica, coincide com um período em que o Estado brasileiro passa a co-editar os livros didáticos. A presença do Estado na edição das obras dá condições a uma profissionalização maior da produção de livros didáticos de Física, ancorados nos pressupostos de uma educação voltada à qualificação técnica dos alunos. A influência dos projetos de ensino de ciências americanos e ingleses, de tradição pragmática, sobre as obras didáticas brasileiras expressou-se numa organização curricular que ainda hoje persiste nos livros didáticos de Física (MEGID NETO e FRACALANZA, 2006, p. 165). Esta influência sobre a cultura escolar brasileira tem sido evidenciada através dos modos de seleção e organização do conhecimento escolar de Física.

O terceiro momento da produção de livros didáticos de Física, embora não expresse claramente as marcas de uma influência internacional, não pode ser encarado como um produto com características puramente nacionais, dado que a produção deve ser entendida nos marcos de uma internacionalização dos capitais, expressão da fase empresarial identificada por Williams (2000, p. 51). A produção do livro didático de Física deste momento é marcada por uma relação em que as editoras ampliam sua influência através da garantia de um mercado assegurado pelo Estado. É necessário, entretanto, aprofundar as investigações sobre este momento, tendo em consideração a observação feita por Amaral (2006, p. 112) sobre a marca de um movimento crítico , que incorpora, de certo modo, diversas contribuições das pesquisas em ensino de Física, com possíveis influências sobre a cultura escolar.

## Referências

APPLE, M. Trabalho docente e textos: Economia Política das Relações de Classe e de Gênero em Educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985

AMARAL, I. A. do. Os fundamentos do ensino de Ciências e o livro didático. In: MEGID NETO, J.; FRACALANZA, H. (orgs). O Livro Didático de Ciências no Brasil. Campinas: Komedi, 2006

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BARRA, V., LORENZ, K. M. Produção de materiais didáticos de ciências no Brasil, período: 1950 a 1980. Ciência e Cultura , São Paulo, v. 38, n. 12, p. 1970-1983, 1986

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