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OLHARES DE TRABALHADORES-ESTUDANTES E PROFESSORES DO PROEJA SOBRE A FÍSICA NO TRABALHO E NA ESCOLA

Guilherme Andre Dal Moro, Nilson Marcos Dias Garcia

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
23/01/2013
Linha de pesquisa
Educação, Política E Sociedade
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## OLHARES DE TRABALHADORES-ESTUDANTES E PROFESSORES DO PROEJA SOBRE A FÍSICA NO TRABALHO E NA ESCOLA

## Guilherme Andre Dal Moro 1* , Nilson Marcos Dias Garcia 2

1 UTFPR-PPGTE, guilhermedalmoro@gmail.com

2 UTFPR-DAFIS/PPGTE e UFPR-PPGE, nilson@utfpr.edu.br

## Resumo

São apresentados os resultados de uma investigação realizada em cursos da modalidade PROEJA em uma instituição de educação profissional da cidade de Curitiba. Seu objetivo principal foi identificar e estabelecer as relações entre os saberes que os estudantes adquirem no trabalho e os saberes de cunho científico e teórico, principalmente os de Física, aos quais tiveram acesso na escola. Desenvolvida no âmbito de cursos técnicos de Edificações e Eletromecânica, foi dada atenção especial às bases dos conhecimentos do campo da construção civil e da produção industrial identificados com as práticas laborais dos trabalhadores das áreas investigadas, sejam eles acadêmicos e escolares ou práticos e tácitos. Da pesquisa, de natureza qualitativa, participaram alunos e professores, e os dados foram obtidos através de entrevistas semiestruturadas. A análise dos resultados foi realizada tomando-se como categorias centrais de análises as relações entre a Física no trabalho e a Física escolar, no olhar dos professores; e as impressões dos estudantes sobre os assuntos da Física, a partir de suas experiências laborais. Os resultados apontaram que os saberes conquistados na prática, tácitos, se aproximam daqueles escolares, teóricos, e permitem aos trabalhadores maior possibilidade de articulação dos conhecimentos.

Palavras-chave : PROEJA, Relações trabalho-educação, Física no trabalho, Ensino de Física.

## Introdução: os saberes no contexto das relações de produção

Na década de 1970, pela necessidade de reflexão e desenvolvimento de projetos educacionais mais democráticos e includentes, surgem no Brasil novas temáticas de estudos realizados sobre as relações entre as categorias trabalho e educação. Na trajetória deste campo de investigação, variadas linhas de pesquisas emergiram com o intuito de esclarecer dimensões específicas inseridas no universo das relações entre o mundo do trabalho e da escola. Dentre essas, chama-se atenção, neste trabalho, àquelas que se referem às relações entre os conhecimentos escolares, em sua maioria transposições dos conhecimentos provenientes da ciência, e os conhecimentos práticos, conquistados pelos trabalhadores em suas práticas laborais.

A validade destas relações se sustenta no pressuposto que os conhecimentos de natureza cientifica, em especial no campo da Física, se desenvolveram fortemente vinculados não somente à necessidade humana de aprimorar seus meios produtivos e econômico-social, mas à própria evolução desses meios. Conforme Kuenzer (2003), a atividade prática humana, transformadora do mundo, está colocada no centro das relações produtivas e sociais, e apresenta

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20 a 25 de janeiro de 2013

profundo impacto nas formas de conceber os processos de produção do conhecimento (p. 54).

De acordo com Landes, (1994), no desenvolvimento histórico da ciência, percebe-se que as necessidades comerciais e econômicas estiveram sempre atreladas à evolução dos conhecimentos científicos. Dessa forma, afirma o autor, o incremento destes conhecimentos esteve muito em função das preocupações e conquistas tecnológicas, havendo, até meados do século XIX, um fluxo de ideias e métodos consideravelmente menor no sentido inverso, (p. 69).

Corroborando tais colocações, Braverman (1987) apresenta maiores detalhes sobre o processo no qual, no modo de produção capitalista, os conhecimentos e as técnicas provenientes das necessidades práticas humanas solidificam os fundamentos da ciência moderna. Conforme o autor, na época da Revolução Tecno-científica, estas ofereceram algumas condições para o advento da Revolução Industrial, mas ainda de forma indireta,

'(...) devido ao importante fato histórico de que a técnica desenvolveu-se antes e como um requisito prévio para a ciência. Assim, em contraste com a prática moderna, a ciência não tomou sistematicamente a dianteira da indústria, mas frequentemente ficou para trás das artes industriais e surgiu delas' (BRAVERMAN, 1987, p. 138).

Fundamentado nos pressupostos acima, sobre as relações entre os meios produtivos e os conhecimentos científicos da Física, Garcia (2000) publicou resultados de uma pesquisa realizada em uma indústria montadora de produtos do setor de linha branca, na qual é discutida a presença de assuntos escolares da Física no ambiente produtivo, bem como a aproximação destes conteúdos àqueles próprios da produção industrial. De acordo com o autor, os assuntos escolares de Física que têm maior presença nas práticas laborais dos trabalhadores são aqueles considerados mais básicos, que, em sua grande maioria, descrevem aspectos macroscópicos da natureza. Desse modo, 'a sua identificação e o reconhecimento dos mesmos por parte dos trabalhadores como sendo assuntos vistos na escola, vêm confirmar parte de nossa tese sobre a existência, no processo produtivo da indústria pesquisada, de assuntos de Física normalmente propostos para serem desenvolvidos em sala de aula (...)' (2000, p. 100, grifos do autor).

Trevisan (2003), por sua vez, descreve como encanadores e eletricistas, cujos serviços caracterizam-se basicamente por trabalhos manuais, apropriam-se de conhecimentos que se fundamentam em pressupostos científicos e a importância que teriam a escolaridade e os cursos técnicos, enfatizando-se assuntos da Física, na formação destes trabalhadores. Para ele, o desenvolvimento da tecno-ciência é realizada não somente pelos cientistas, mas por aqueles que constroem os equipamentos e por outros, ainda, que se apropriam e produzem conhecimentos tácitos e técnicas em seus trabalhos. No mesmo sentido, de acordo com o autor, a pesquisa evidencia uma significativa diferença entre os trabalhadores que tiveram melhores condições de estudo e aqueles que aprenderam quase que exclusivamente no dia a dia, revelando que a posse de conhecimentos teóricos e científicos qualifica a prática e a ação profissional desses trabalhadores manuais um sinal da aproximação dos saberes.

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## Metodologia e instrumentos da pesquisa

Nessa mesma concepção, buscou-se identificar neste trabalho o que o trabalhador, já inserido no mundo do trabalho, ao retomar os estudos, traz de suas experiências vividas para as salas de aula e como essas experiências, e os saberes delas adquiridos, se relacionam aos saberes escolares. Dado esse contexto, procurou-se investigar quais relações são estabelecidas entre o saber fazer e o saber científico e escolar, em especial os da Física, por trabalhadores-estudantes de cursos técnicos do PROEJA no seu processo de escolarização.

Para a realização da pesquisa, optou-se pela metodologia qualitativa de natureza interpretativa e, como instrumento para a coleta dos dados, a entrevista semiestruturada, individual, realizada com professores e estudantes dos Cursos Técnicos do PROEJA.

A opção pela realização da pesquisa no PROEJA (Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos) deve-se a algumas características particulares deste programa e de seus cursos. Primeiramente, o Programa oferece cursos técnicos de nível médio para jovens e adultos, constituindo-se, assim, como um local onde se encontram trabalhadores-estudantes. Em segundo lugar, possui cursos técnicos vinculados às áreas específicas de atuação profissional, atraindo trabalhadores que já exercem profissões afins aos cursos. Em terceiro, integra disciplinas da base comum às disciplinas técnicas, facilitando a apreensão das relações investigadas entre a disciplina de Física aos saberes próprios das práticas profissionais em seus trabalhos.

Dentre inúmeras instituições federais e estaduais de ensino que oferecem a modalidade PROEJA na cidade de Curitiba, foi selecionada uma que oferta os cursos técnicos de Eletromecânica e Edificações. Tal opção, não casual, apoiou-se no fato de que a base de conhecimentos práticos e teóricos dos participantes da pesquisa teria uma boa aproximação com os assuntos da Física.

Buscando aprofundar as relações entre o conhecimento prático laboral e o conhecimento teórico escolar, com ênfase à Física, foram ouvidos treze estudantes e quatro professores das disciplinas técnicas destes cursos, bem como o professor de Física, que leciona a disciplina para ambos os cursos.

As entrevistas realizadas com os estudantes de ambos os cursos (Edificações e Eletromecânica) foram estruturadas com o objetivo geral de identificar aproximações entre conhecimentos adquiridos prática e tacitamente, nas experiências profissionais, e conhecimentos teóricos, em especial os de Física, estudados nos cursos investigados. Os roteiros utilizados nas entrevistas com os estudantes, de ambos os cursos, continham um total de 15 questões, contemplando quatro principais temas: a sua trajetória, o aprendizado profissional e elementos gerais do exercício do trabalho; as ambições e pretensões dos estudantes com o curso do PROEJA; as relações entre os saberes práticos, trazidos das experiências laborais, com os conhecimentos formais dos cursos; e as relações da Física às práticas profissionais.

Os professores das disciplinas técnicas foram entrevistados com o intuito de identificar as aproximações entre os conhecimentos da(s) disciplina(s) técnica(s) ministrada(s) aos conhecimentos da disciplina de Física e aos conhecimentos trazidos pelos estudantes de suas práticas profissionais. As entrevistas realizadas

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com esses professores também continham um total de 15 questões. Explorou-se, dentre outros elementos, a estrutura de conteúdos e assuntos das disciplinas ministradas por esses professores e as articulações observadas e efetuadas com a disciplina de Física.

Com a entrevista realizada com o professor de Física, buscou-se compreender como os conhecimentos dessa disciplina subsidiam as práticas profissionais dos estudantes e os conteúdos das demais disciplinas técnicas. Procurou-se, ainda, compreender a importância da Física para os trabalhadores nas áreas profissionais dos cursos oferecidos pela instituição.

Tendo-se em vista a natureza subjetiva dos dados coletados na pesquisa, optou-se pela análise de conteúdo nas transcrições das entrevistas realizadas com os estudantes e professores. Para a análise das entrevistas realizadas com os participantes desta pesquisa, foram tomadas duas categorias de centrais de análise: as relações entre a Física no trabalho e a Física escolar, no olhar dos professores; e as impressões dos estudantes sobre os assuntos da Física, a partir de suas experiências laborais.

Nestas categorias, analisa-se a relação da Física com a prática e teoria das áreas de estudo e trabalho dos entrevistados. Nesse caso, investigam-se as relações identificadas pelos professores entre as disciplinas técnicas, as práticas profissionais nas áreas afins aos cursos e a disciplina e assuntos da Física. A partir das entrevistas dos estudantes, foram avaliadas as impressões que tiveram no contato com a disciplina de Física, estudada nos três primeiros semestres do curso de Edificações e nos quatro primeiros no de Eletromecânica. Incluem-se também os assuntos identificados pelos alunos, da disciplina, em suas respectivas práticas profissionais e laborais, além da importância desses conhecimentos, quando identificados.

## Olhares dos estudantes e professores sobre a Física

Tendo-se encerradas as pesquisas de campo, foi obtido um total de 18 entrevistas, distribuídas em cinco grupos:

Quadro 01: Grupos de participantes da pesquisa

Estudantes do curso técnico de Edificações ( E-Ed ) - 7 pessoas;

Estudantes do curso técnico de Eletromecânica ( E-Em ) - 6 pessoas;

Professores do curso técnico de Edificações ( P-Ed ) - 2 pessoas;

Professores do curso técnico de Eletromecânica ( P-Em ) - 2 pessoas;

Professor de Física dos cursos de Edificações e Eletromecânica ( P-Fis ) - 1 pessoa.

Sobre os estudantes, a maioria é do sexo masculino: 12 homens (92%) e uma mulher (8%). É importante ressaltar que o sexo não foi um critério de seleção dos estudantes e que os alunos dos cursos de Edificações e Eletromecânica são predominantemente do sexo masculino. A idade média dos estudantes é de 33,4 anos - a menor 20 e maior 56 - sendo que a maioria dos estudantes possui idade entre 20-29 e 30-39 - 5 pessoas em cada intervalo. Dois estudantes possuem idades entre 40-49 e apenas um possui idade entre 50 e 59 anos.

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Seguindo a tendência apresentada na amostra de estudantes, os professores são majoritariamente do sexo masculino - 80% de homens. Com relação à idade, são em geral professores jovens, no início de carreira, com idades na faixa dos 25 e 30 anos, com exceção de um dos professores, e apresentam idade média de 33,2 anos, a mesma que os alunos participantes da pesquisa.

Sobre os cursos superiores realizados pelos professores, somente o professor de Física é de fato habilitado por curso de licenciatura para o trabalho docente. Quanto aos demais, possuem formação técnica em cursos de tecnologia e engenharia. Além da falta de formação adequada ao trabalho docente, ressalta-se que três dos cinco professores entrevistados não são concursados, possuem contrato de trabalho temporário (precário) e foram selecionados pelo Processo Seletivo Simplificado (PSS).

Sobre a relação entre os assuntos da Física aos conteúdos e disciplinas técnicas dos cursos investigados, de acordo com os professores a Física aparece, tanto para a construção civil quanto para a eletromecânica, como uma ciência central em diversas áreas e profissões relacionadas aos cursos.

A professora P-Ed1 1 ressalta a importância da lógica dedutiva, base do desenvolvimento teórico da Física e da Matemática, em especial à disciplina de instalações prediais e resistência dos materiais. Aponta, ainda, que a Física possui o papel de definir e de mostrar de onde surgem as grandezas, como pressão, vazão, temperatura, utilizadas na determinação das propriedades das instalações hidráulicas. De modo complementar, o professor P-Ed2 2 afirma que os assuntos e grandezas da Física, estudados em cursos de nível médio técnicos, são bases para os projetos estruturais e para a teoria das estruturas, assuntos fundamentais para os estudantes do curso.

Quanto ao curso de Eletromecânica, observa-se nas falas do professor PEm1 3 , ao abordar a relação dos assuntos de termodinâmica aos conteúdos das disciplinas que leciona, que os conteúdos da Física são tratados com um objetivo introdutório. O objetivo principal é o ensino dos conteúdos e assuntos técnicos relacionados às suas disciplinas. Aspectos teóricos da Física, que tangenciam esses conteúdos, são trabalhados rapidamente, sobretudo pelo tempo restrito e pelo vasto conteúdo. Nota-se, então, que a relação entre os fundamentos teóricos e as aplicações práticas são realizadas a partir das interseções entre eles. Parte-se dos fundamentos teóricos e, desses, aprofundam-se os conhecimentos práticos - o que é possível, nas falas dos professores, uma vez que a disciplina de Física é lecionada nos semestres anteriores.

Todavia, de acordo com o professor de Física, para se atender às necessidades dos cursos técnicos profissionalizantes, a Física lecionada exige algumas modificações, não somente em seus conteúdos, mas também no 'estilo' e na estrutura, em relação à disciplina ensinada em cursos propedêuticos. Na instituição, ainda, a periodização disciplinar é semestral e em bloco, conforme as

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falas do professor, um outro diferencial em relação à disciplina ensinada nos colégios de ensino propedêutico.

Quanto ao enfoque dado à disciplina nos dois cursos, afirma o professor que os conteúdos lecionados são praticamente os mesmos, mas existe uma pequena diferença com relação ao aprofundamento dado nas diversas áreas da Física, objetivando ressaltar aspectos dessa ciência envolvidos com a área de interesse do curso - outro aspecto particular da integração curricular proposta pelo PROEJA.

O professor de Física afirma que além de maior ênfase dada a determinados conteúdos da disciplina, existem conteúdos imprescindíveis aos profissionais da área. No caso do curso de Edificações, a estática, e de Eletromecânica, a dinâmica, a eletricidade e o eletromagnetismo. De acordo com ele, mesmo que esses conteúdos da Física sejam muitas vezes abordados ou até mesmo revisados pelos professores das disciplinas técnicas, ele mesmo procura aproximar conteúdos dessas disciplinas à Física estudada disciplinarmente. É uma forma de atribuir maior significado aos conteúdos estudados na Física, contextualizando-os a partir da prática profissional e das disciplinas técnicas dos cursos.

As colocações do professor P-Fis apontam para uma necessária integração desses saberes, práticos e teóricos, em especial no que se refere à educação destes trabalhadores-estudantes. Quando questionado se os estudantes conseguem estabelecer essas relações, entre os conhecimentos práticos que trazem de suas experiências profissionais, ou aqueles estudados nas disciplinas técnicas do curso, com os conteúdos teóricos da Física, ressalta que a mediação provocada pela disciplina possibilita aos estudantes estabelecer essas relações, compreendendo melhor os processos técnicos de seus trabalhos e os porquês associados às suas rotinas laborais.

P-Fis . Consegue, uma coisa ele consegue. Eu já tive vários alunos perguntando, 'ah professor, dentro lá da empresa tem um negócio que funciona assim, assim, assado'. Ele já faz essa ponte, entendeu? Mesmo que a parte teórica fique ainda um pouco vaga, ele já faz essa ligação.

Sobre as impressões que os estudantes possuem da Física estudada nos cursos, a maioria afirmou que se trata de uma disciplina e uma ciência importante para seus respectivos trabalhos. Nesse sentido, o estudante E-Ed1, que trabalha como mestre de obra, apresenta que os conhecimentos da disciplina de Física são extremamente importantes em sua área e em sua função, e que a falta destes saberes formais, os quais busca em seu retorno à escola, é um fator de limitação em situações do seu dia-a-dia, conforme observa-se na transcrição abaixo:

E-Ed1. Da Física, na verdade, tem bastante conceitos que poderiam ser empregados que infelizmente eu não sei, não tenho um vasto conhecimento da área da Física. Mas se soubesse a matéria me ajudaria mais, porque eu uso bastante mesmo, o conhecimento até por lógica né ? Vê que alguma coisa não vai dar certo por questão de Física mesmo .

Quanto às relações entre a ciência e as práticas profissionais, estabelecidas a partir da solicitação de lembranças de conteúdos de Física, dos 13 estudantes entrevistados, nove lembraram-se de assuntos da ciência e os exemplificaram com situações práticas de suas profissões. Dentre essas respostas e exemplificações, percebem-se ainda variados graus de profundidade e clareza da relação entre a Física e o trabalho. Alguns, em seus exemplos, entraram em detalhes mais específicos dos assuntos da Física, relacionando-os detalhadamente com questões

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do dia a dia, enquanto outros somente mencionaram tais exemplos de modo mais superficial.

Confirmando as colocações do professor de Física, os estudantes se mostraram mais familiarizados com os assuntos da Física quando questionados sobre exemplos do dia a dia em que a disciplina aparece. Isto é, a partir de situações práticas, e do próprio saber prático que trazem de suas experiências, tiveram maior facilidade em relembrar e reconhecer espontaneamente os assuntos da Física ali tratados.

Sobre esses assuntos, a mecânica foi abordada em cinco entrevistas - quatro estudantes do curso de Edificações e um do curso de Eletromecânica - sendo que o principal assunto mencionado foi o equilíbrio de corpos extensos, a estática, considerado pelos próprios professores a área da Física de maior relevância à construção civil. Foram citados também, dentre os conteúdos de mecânica, assuntos relacionados às roldanas, à queda dos corpos e segurança no trabalho, às forças aplicadas em objetos (em prensas) para o modelamento, a resistência e a dureza dos materiais.

Os assuntos relacionados à dilatação térmica foram observados em três entrevistas, duas delas de estudantes de Edificações. O estudante E-Ed1 explicou que os diferentes coeficientes de dilatação dos materiais podem provocar diferentes 'trabalhabilidades' nas estruturas, comprometendo-as e o estudante E-Ed4 , também mestre de obra, abordou a dilatação térmica em placas de gesso em forros internos.

- O estudante E-Em4 , que trabalha como eletricista na instalação de redes elétricas, relacionou a dilatação térmica à tensão e comprimento dos cabos entre os postes. Outros assuntos da Física foram abordados pelos estudantes, como a hidrodinâmica, mencionada por dois deles. O estudante E-Em6 , por trabalhar com bombas de sistemas de saneamento relacionou os conceitos de vazão e pressão aos equipamentos que são construídos na empresa onde trabalha e o estudante EEm3 , atualmente mecânico de veículos de transporte de passageiros, trouxe como exemplo os sistemas de freios hidrodinâmicos dos veículos com que trabalha.

Além das impressões e identificações que os estudantes relataram acerca dos assuntos da Física, observaram-se ainda, nas transcrições, diversos conhecimentos da Física que são adquiridos pelos trabalhadores em seus próprios trabalhos e que são trazidos para a sala de aula, estabelecendo um diálogo com o saber escolar. O estudante E-Em4 , por exemplo, ressalta a importância dos 'cursos de especificações' que realizou juntamente a empresa onde trabalha, para aperfeiçoar os conhecimentos de eletricista:

E-Em4. Teve pelo fato de eu ter feito o outro curso de especificação lá, né. Que daí, lá eu já aprendi bastante coisa né. A lei de Ohm, que é utilizada na elétrica ali, pelo menos essa base assim eu já tinha. (...) Daí quando eu cheguei aqui já tinha... já tinha as noções já, né.

O mesmo estudante chama atenção à importância do conhecimento escolar como fundamento teórico às atividades práticas que realizam nas profissões. Em concordância às declarações do professor de Física, a disciplina, no contexto da educação no PROEJA, possibilita a esses estudantes integrarem os conhecimentos técnicos que trazem de suas práticas laborais aos saberes de cunho científicos, privilegiados no ambiente educacional:

E-Em4. É, o que eu aprendi mais ou menos sobre o transformador foi aqui, e não no serviço. No serviço, no caso, eu aprendi a montar. Aprendi como

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que montava e só... mais nada. Mas aqui, por exemplo, eu aprendi mais ou menos uma base assim. Por exemplo, assim... tem lá as bobinas lá. Tem umas que no caso, seis bobinas. Daí tem as bobinas de entrada e as bobinas de saída. Aqui nessa bobina aqui, por exemplo, tem 10 voltas, e nessa aqui tem 20 voltas. Se entrar tipo, por exemplo, 5 V aqui vai sair 10 V aqui. Ou o inverso né, depende das voltas das bobinas.

## Considerações finais

As declarações dos estudantes sobre a aproximação dos assuntos estudados na Física aos saberes de seus trabalhos são condizentes com as falas dos seus professores, quando apontam para a centralidade desta ciência nas áreas da construção civil e da produção industrial e nos respectivos cursos técnicos. Ademais, os estudantes pontuam que a Física se associa a um dos principais interesses que possuem nos cursos, o de ganhar maior autonomia e liberdade em relação aos superiores a partir do conhecimento dos princípios teóricos de seus trabalhos. Nesse sentido, apontam que o 'saber calcular' a partir dos procedimentos e das técnicas teóricas, aquilo que antes realizavam por intuição ou com base em conhecimentos reproduzidos, é extremamente necessário.

A Física, então, com seu acervo de princípios e teorias que fundamentam esse 'saber calcular', como colocado pelo próprio professor de Física, apresenta-se como base para o desenvolvimento dessas habilidades ensejadas pelos estudantes. Além disto, no que se refere à articulação entre os saberes tácitos e científicos, a Física aqui explorada se revela como um rico elemento para facilitar essa integração, por transitar, em diferentes níveis e de diferentes formas, nos diversos ambientes da prática e da teoria.

## Referências

BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista : a degradação do trabalho no século XX. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, c1987.

GARCIA, Nilson M. D. . Física escolar, Ciências e Novas Tecnologias de Produção : o desafio da aproximação. 2000. 277 f. Tese (Doutorado) -Universidade de São Paulo. Faculdade de Educação, São Paulo, 2000.

KUENZER, Acácia. Z. . Conhecimento e Competências no Trabalho e na Escola . Educação & Linguagem, Universidade Metodista - SP, v. 8, p. 45-68, 2003.

LANDES, David S. . Prometeu desacorrentado : transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa ocidental, desde 1750 até a nossa época. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

REIS, Mario N. C. . Articulação entre os conhecimentos tácito e científico na operação de sistemas digitais em plantas de refino : um estudo de caso. 2005. 104 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Paraná, Setor de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Curitiba, 2005.

TREVISAN, Nilo F. . A teoria e a prática no trabalho dos eletricistas e encanadores : um estudo sobre a apropriação do conhecimento. 2003. 189 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) - Centro Federal de Educação Tecnológica Federal do Paraná. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Curitiba, 2003.

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