O MUNDO PELAS COBRAS: VERISSIMO E A TIRA HUMORÍSTICA NO ENSINO DE FÍSICA
João Eduardo Ramos, Luís Paulo Piassi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 23/01/2013
- Linha de pesquisa
- Ciência, Cultura E Arte
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O MUNDO PELAS COBRAS: VERISSIMO E A TIRA HUMORÍSTICA NO ENSINO DE FÍSICA
## João Eduardo Fernandes Ramos 1 , Luís Paulo Piassi 2
- 1 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, joaoeframos@gmail.com
- 2 Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, lppiassi@usp.br
## Resumo
É possível rir com a ciência? Qual o papel do humor na sala de aula? Para pensar sobre estas questões buscamos a visão de educadores como a do espanhol, Jorge Larrosa sobre a presença no humor no ensino, juntamente com a visão do pedagogo Georges Snyders e sua visão da escola. Além disto, se observou a presença do humor e rua relação com a ciência na tira As Cobras de Luis Fernando Verissimo. Para a realização do estudo, foram utilizados os trabalhos de Sirio Possenti, José Luis Fiorin e Paulo Ramos sobre a linguagem e o humor na tira humorística. Como conclusão, observamos que existem diferentes formas de se utilizar a ciência no humor, tais como pano de fundo para outros temas como a política. Nosso próximo passo com a pesquisa é observar como este humor pode se fazer presente na sala de aula e analisar qual a contribuição do riso na aprendizagem.
Palavras-chave : Tira humorística, Riso, Humor,
## Introdução
Qual seria a relação entre o cômico e a física? Será que é possível rir com ela, ou, por ser uma ciência exata, ela não é engraçada o suficiente? Acreditamos que a física, e a ciência em geral, pode ser sim engraçada. Não é de hoje que se propõe o humor como uma ferramenta didática para o ensino, incluindo o ensino de astronomia.
Um dos primeiros trabalhos que apontam nesta direção é o do professor norte americano Ivars Peterson que já na década de oitenta apresentava sua experiência com o uso do humor nas suas aulas de física. O professor parte da premissa que para muitos alunos a física não se apresenta como algo compreensível, fato este que também é recorrente entre os estudantes brasileiros. Pensando nisso ele parte para a proposta de que a física também pode ser divertida e engraçada, por que não?
De acordo com Peterson (1980, p. 646): 'Se os conceitos e aplicações da física são abordados com senso de humor e com imaginação, então todo o trabalho duro envolvido irá parecer mais leve.'. É importante ressaltar, neste ponto, que a imaginação tem um papel fundamental na aula de Física, fato este que é embasado nas pesquisas de autores como Pietrocola (2004), que propõe a imaginação e a curiosidade como elementos centrais no processo de aprendizagem dos conhecimentos em um contexto escolar.
Tal visão reafirma a proposta de Paulo Freire de que a educação deve estimular a curiosidade epistemológica do aluno. Segundo o mesmo 'É a curiosidade metódica, exigente, que, tomando distância do seu objeto, dele se aproxima para conhecê-lo e dele falar profundamente.' (FREIRE, 1993, p. 116).
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20 a 25 de janeiro de 2013
Dessa maneira Peterson apresenta algumas formas de adicionar um pouco de humor nas aulas de física. Uma delas envolve o uso de tiras humorísticas, como as de Sidney Harris, um cartunista que dialoga com tópicos científicos. O professor utiliza de práticas como 'o desenho do dia' no qual afixa num local de muita movimentação, uma vez por dia, uma tirinha relacionada com a física. Além do mais a tirinha também pode ser utilizada para ilustrar pontos importantes de uma lição, para um introduzir um novo tópico, para indicar erros conceituais, como forma de avaliação, entre outros (PETERSON, 1980, p. 646).
Mas, porque falar do riso na escola? Sobre isto, o filósofo espanhol Jorge Larrosa é bastante crítico e afirma 'porque em Pedagogia se ri pouco. […] eu quase não me lembro de nenhum livro de Pedagogia em que exista algo de sentido humorístico.' (2006, p. 171). Ao tentar descobrir porque se ri pouco em pedagogia, ele apresenta duas hipóteses: 'A primeira é que, na Pedagogia, moraliza-se demasiadamente. […] A segunda hipótese é que o campo pedagógico é um campo constituído sobre um incurável otimismo.' (2006, p. 171).
Sobre esta moralização do ensino, Larrosa (2006, p. 172) é taxativo: 'Quanto mais moral é uma aula, menos riso nela existe.'. E ainda complementa:
E quanto maior o componente 'sagrado' - e não se deveria reduzir o sagrado ao religioso - também menos riso. Não se ri nas igrejas, mas tampouco em tribunais, ou nos lugares carregados de simbologias patrióticas (o túmulo de um herói da pátria, por exemplo; ou de um mártir da revolução), nem sequer se ri nos museus. […] E há momentos em que uma aula se parece com uma igreja, com um tribunal, com uma celebração patriótica ou com uma missa cultural. (LARROSA, 2006, p. 172).
Toda essa crítica o autor faz na tentativa de desconstruir a imagem da escola moralizadora em favor de uma escola profana, não num sentido ruim, mas num sentido de uma escola que vai contra as práticas enrijecidas. Neste sentido, observamos um diálogo com o também pedagogo George Snyders, defensor da alegria na escola.
Preocupado com a falta de alegria dos alunos na escola, uma vez que a mesma se apresenta aos alunos 'como um medicamento amargo' (SNYDERS, 1988, p. 12), Snyders propõe a renovação da escola a partir de uma transformação dos conteúdos culturais, que passa tanto pelos alunos quanto pelos professores. Para isso ele defende uma escola na qual esteja presente 'uma alegria que brota de um encontro com as obras de arte, desde os grandes poemas de amor até as realizações científicas e técnicas.' (1988, p. 13). Por fim, Larrosa apresenta um dos pontos que acreditamos ser de fundamental importância, para a prática do humor na sala de aula:
O riso mostra a realidade a partir de outro ponto de vista. Essa seria a função de desmascaramento do convencionalismo existente em todas as relações humanas. O riso isola esse convencionalismo, desenha-o com apenas um traço e o coloca à distância. O riso questiona os hábitos e os lugares comuns da linguagem. E, no limite, o riso transporta a suspeita de que toda linguagem direta é falsa, de que toda vestimenta, inclusive toda pele, é máscara. (LARROSSA, 2006, p. 178, grifo nosso).
Ou seja, em outras palavras, 'o riso destrói as certezas.' (2006, p. 181) e nos convida a refletir e repensar a realidade. Sobre isto Ritter ( apud ALBERTI, 2002, p. 12), tentando entender a essência do riso, afirma que o riso está ligado aos caminhos seguidos pelo homem para encontrar e explicar o mundo. No caso do ensino de física isto é particularmente importante uma vez que a física é uma ciência que busca compreender o universo e suas relações. Dessa maneira o riso pode
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contribuir para apresentar uma visão da física que vai além da razão científica, pois, 'o riso e o cômico são literalmente indispensáveis para o conhecimento do mundo e para a apreensão da realidade plena.' (ALBERTI, 2002, p. 12).
Dado este panorama sobre o riso e o humor no ensino e na sala de aula, a presente pesquisa, parte inicial de nosso projeto de doutorado, visa refletir sobre o humor na ciência a partir das tirinhas humorísticas das Cobras do cartunista e escritor, brasileiro, Luis Fernando Verissimo. Para tanto, selecionamos algumas tirinhas as quais apresentam um diálogo com a ciência. Nosso objetivo com isto é refletir sobre a questão de como se caracteriza o humor na ciência, ou seja, o que pode tornar a física e a ciência no geral, engraçada? E ao mesmo tempo, como o humor pode ser utilizado para abordar conceitos e temáticas da ciência?
Para tanto, adotamos como metodologia um levantamento bibliográfico inicial sobre o humor no ensino, o qual foi acompanhado, em seguida, de um levantamento sobre o uso de tirinhas humorísticas na sala de aula e no ensino de ciências. Após este estudo inicial, selecionamos as tirinhas a serem utilizadas nesta pesquisa e partimos para uma análise dos conteúdos abordados. Por fim, na tentativa de responder os questionamentos levantados, traçamos nossas conclusões preliminares levando em consideração a visão de estudiosos como Fiorin (2006).
## A Tirinha Humorística e sua presença no Ensino de Física
Bom, mas o que são tiras humorísticas afinal? De acordo com Paulo Ramos:
As tiras cômicas são um gênero que possui uma narrativa que leva a um desfecho humorístico. O final tem de ser algo inesperado, não previsto no curso narrativo, de modo a surpreender o leitor, o que leva ao humor. Elementos verbais, visuais e verbo-visuais são usados para a quebra de expectativa da história. (RAMOS, 2011, p. 136).
Além do mais, as tiras apresentam uma limitação física de espaço, a tendência é que não passem de quatro quadrinhos. Por isso, de acordo com Paulo Ramos (2011, p. 136), a tendência é que os autores optem por uma simplificação dos elementos verbais e visuais, simplificação esta que terminaria por facilitar o processo de leitura. Outra característica do gênero, também decorrente de sua brevidade, é a inferência. Assim, 'infere-se o que se passa entre um quadrinho e outro, inferem-se dados necessários para o processamento textual da tira, de modo a produzir o sentido pretendido.' (RAMOS, 2011, p. 136).
Definido o gênero, ainda que brevemente, e olhando para seu uso em sala de aula, vemos que as tiras apresentam um grande potencial para o ensino de física. Muito disto se deve a sua presença em diversas pesquisas e livros didáticos que propõem e utilizam as tirinhas. Entre os livros didáticos podemos citar, por exemplo, o primeiro volume do GREF, que trata de mecânica, (MENEZES et al ., 1998), que contêm diversas tirinhas, como as do Hagar (p. 109), do Garfield (p. 52, 57), das Cobras (p. 136), da Turma da Mônica (p. 13), entre outras; seja para exemplificar os mais diversos fenômenos da física ou para propor discussões em sala de aula de forma descontraída. Caminho este que também é seguido por outros livros didáticos como nos Fundamentos da Física (RAMALHO et al ., 1995), nos livros do Alberto Gaspar (2000a, 2000b), e mais recentemente no livro Guia Mangá de Física (NITTA e TAKATSU, 2010) que é construído em cima deste gênero de quadrinho japonês, entre outros.
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Em relação as pesquisas, observamos um leque variado de abordagens. Encontramos trabalhos que buscam refletir sobre aspectos práticos da sala de aula, tratando de questões sobre como trabalhar as tirinhas na sala de aula (PENA, 2003, p. 21; BRAZ e FERNANDES, 2009; TESTONI e ABIB, 2005); pesquisas que observam as tirinhas como divulgação científica (CARUSO et al ., 2002); além de pesquisas que apontam para uma categorização dos quadrinhos (TESTONI, 2010), segundo o qual as tirinhas podem apresentar um caráter ilustrativo, explicativo, motivador e instigador, quando trabalhos junto aos alunos.
Na questão de como se trabalhar as tirinhas na sala de aula, de acordo com estas pesquisas, as mesmas podem ser utilizadas para mapear concepções alternativas, para tornar a aula mais dinâmica, proporcionar debates, revisar conteúdos, introduzir um novo conceito, como exercício avaliativo, como motivação antes dos livros didáticos, como atividade onde os alunos criam suas próprias tiras, entre outros. A nosso ver, todas estas práticas são perfeitamente válidas. Entretanto, o que também se pode fazer presente além da análise dos conteúdos científicos e realizar uma reflexão sobre o motivo da tira ser engraçada, o que a leva ser engraçada, pois este questionamento colabora num momento de interpretação da tira.
## Verissimo e as cobras
Luis Fernando Verissimo é um escritor brasileiro, gaúcho de Porto Alegre, conhecido por suas crônicas e textos humorísticos. Textos estes, que sejam em formato de contos, crônicas ou histórias em quadrinhos, apresentam temas como a sátira de costumes. De acordo com Koschier (2005, p. 8):
Capaz de radiografar a alma humana como ninguém, ele escreve a respeito de quase tudo: gastronomia, economia, futebol, cinema, viagens, música, literatura, praticando aquilo que Manuel Bandeira chamou de 'puxa-puxa', ou seja, é capaz de elaborar um bom texto a partir de qualquer miudeza. Os rituais do namoro e do casamento, o sexo, as infidelidades, o choque das gerações, tudo isso constitui-se em prato cheio para o escritor.
Dentro de sua vasta produção, centramos nossa atenção nos seus cartuns e quadrinhos, mais especificamente nas tirinhas humorísticas das Cobras, que foram produzidas de 1975 a 1999, quando o escritor decidiu aposentá-las. A dupla de cobrinhas nasceu como ideograma, atestando a capacidade de síntese do autor, própria para as tirinhas dos jornais. Invariavelmente As cobras discutem máximas filosóficas, enquanto o autor aproveita para brincar com as angústias e as questões humanas: o universo, a solidão, Deus, entre outras (KOSCHIER, 2005, p. 19).
Entretanto, mesmo com uma vasta produção a obra de Verissimo é pouco estudada no campo acadêmico, como critica Koschier (2005, p. 8). Para ela, Verissimo merece um lugar entre o cânone literário brasileiro, e critica os historiadores literários. Segundo Koschier (2005, p. 98): 'Nossos historiadores literários privilegiam o passado e não se preocupam em analisar o presente, comprometendo o caráter crítico não só da geração atual, também das vindouras.'.
Mas porque cobras? De acordo com Verissimo: 'Cobra é muito fácil de fazer, só tem pescoço.' (2010, folha de rosto). Além do mais, de acordo com o escritor, 'era o tempo da censura, e muitas vezes se podia se dizer com desenhos o que não dava para se dizer com textos.' (2010, folha de rosto).
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Dentro deste contexto, selecionamos algumas tiras que representam o humor e a visão de Verissimo, através de seus personagens, sobre o Universo. Ao mesmo tempo, tentamos observar o que torna estas tirinhas engraçadas.
## Cosmologia, existencialismo, política e vida extraterrestre
Selecionamos seis tirinhas que a nosso ver podem ser classificadas de acordo com o assunto abordado. São tirinhas que tratam de cosmologia e existencialismo, ou seja, aborda as dúvidas e medo do homem diante do universo; de política, onde são realizadas críticas ao governo de forma geral; e questionamentos sobre vida extraterrestre.
No primeiro grupo, selecionamos os seguintes exemplos:
Figura 02: Cobra jovem questionando se as teorias sobre o Universo estão funcionando
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São tirinhas que de alguma maneira expressam o sentimento humano diante da grandeza do Universo. Sentimento humano que, para Verissimo, ao invés de maravilhamento é representado pelo desespero e pela dúvida.
- O segundo grupo, lida com tirinhas que relacionam temas da astronomia com a política:
Figura 03: Cobras dialogando sobre o custo para a 'construção' do Universo
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Figura 04: Cobras dialogando sobre a Terra diante da grandeza do Universo
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Dois exemplos que ilustram como, mesmo perante o Universo, alguns problemas não podem ser deixados de lado. Por fim, o terceiro grupo de tirinhas, os que tratam de vida extraterrestre:
Figura 05: Cobras dialogando sobre a existência de vida inteligente no universo
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Figura 06: Cobras dialogando com alienígenas
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Nestas tiras, Verissimo aborda um tema que é da curiosidade de muitos, se há vida inteligente fora da Terra. Ao mesmo tempo ele aproveita para abordar algumas das preocupações relativas a este tema, além de mostrar que, mesmo a vida na Terra não é tão inteligente assim.
## Explicando a piada...
O que faz um texto, ou uma tira, ser engraçado? Um texto pode ser engraçado pela forma como ele é construído. De acordo com Sírio Possenti (2010, p.104), utilizando a classificação proposta por Raskin, um texto para lidar com o humor precisa satisfazer algumas condições: (1) O texto é compatível completamente ou em parte, com dois diferentes scripts ; (2) Os dois scripts com os quais o texto é compatível, opõem-se de uma forma especial; (3) não se trata de uma comunicação bona fide ; (4) inclui um 'gatilho' que dispara a passagem de um script ao outro.
No primeiro ponto, vemos a necessidade de um texto apresentar dois possíveis roteiros, algo semelhante a um duplo sentido. Junto a isto, estes dois
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roteiros devem se opor, seja por uma oposição entre real e irreal, entre estados de coisas normais ou esperadas e anormais ou inesperadas, e entre uma situação possível e outra total ou parcialmente impossível. O terceiro ponto requer que não se trate de uma história real. E o último, que haja um gatilho, ou uma válvula, que permita a mudança de script .
Uma ideia semelhante para explicar o humor, se faz a partir do uso da isotopia discursiva. A isotopia 'é a recorrência de um dado traço semântico ao longo de um texto.' (FIORIN, 2006, p.113). Esta recorrência gera uma uniformidade de sentido, que estabelece a leitura que deve ser feita no texto. Por exemplo, por marcas textuais conseguimos diferenciar um enunciado de uma questão de uma receita de bolo.
O humor, no caso, decorre da presença de duas, ou mais, isotopias em um texto. Neste caso há dois planos de leitura desenvolvidos no texto que são unidos por um conector. Segundo Fiorin (2006, p.115), um conector de isotopias é um termo que possui dois ou mais significados, isto é, um termo polissêmico que possibilita sua leitura em dois planos distintos, permitindo assim a passagem de uma isotopia à outra. É importante notar que a isotopia não está somente vinculada a textos humorísticos uma vez que ela pode também aparecer em fábulas, poesias, entre outras.
Além do mais, outros fatores podem contribuir para a instauração do humor. Como saber que o texto a ser lido é humorístico, ou seja, situar o texto em um campo é um passo fundamental. De acordo com Possenti (2010, p.107), a partir do conhecimento do texto, 'um leitor/ouvinte decide se está ouvindo/lendo uma piada ou outro tipo de texto.'. Dessa maneira, ao nos depararmos com um texto de Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, já esperamos encontrar um texto com tons humorísticos e irônicos.
## A guisa de uma conclusão
Tendo observado as tiras de Verissimo selecionadas e a reflexões sobre como o humor é construído no texto, podemos tentar observar qual o papel da ciência na elaboração desde sentido humorístico da tira humorística.
No primeiro grupo de tiras, as que tratam de cosmologia e existencialismo, o humor se faz presente na oposição da certeza do discurso científico e as incertezas do homem diante da vida e do universo. Acaba ocorrendo, assim como aponta Possenti e Fiorin, dois níveis diferentes no texto. No segundo grupo, as tiras que lidam com a política também apresentam dois discursos. Como é o caso da figura 04, onde o humor surge pelo duplo sentido contido na frase 'imagina o que não gastaram'. Podemos pensar tanto num gasto de energia e partículas, quanto num gasto financeiro. Gasto este que se relaciona com a política monetária de países, como o Brasil, onde obras públicas são superfaturadas.
Já no terceiro e último grupo, o discurso sobre a vida extraterrestre surge como um convite para questionar a própria vida terrestre. Dessa forma, a oposição de scripts se dá pelo homem se achar um ser superior.
Assim, são tiras em que a ciência se faz presente através de um pano de fundo para se apresentar alguma ideia. Em termos de isotopia, é como se ocorressem dois discursos o científico e outro qualquer, político ou existencialista. Dessa maneira, como nos foi possível observar, é possível tornar a ciência
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engraçada. Os ganhos pedagógicos, se é que existem, da presença deste humor na sala de aula de ciências ainda serão investigados em pesquisas futuras.
## Referências
ALBERTI, V. O riso e o risível : na história do pensamento. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
FIORIN, J. L. Elementos da análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2006.
FREIRE, P. Política e Educação : ensaios. São Paulo: Cortez, 1993.
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KOSCHIER, J. Mata-me de prazer... A ironia verissiana em O clube dos anjos . Rio Grande: Universidade Federal do Rio Grande. 2005.
LARROSA, J. Elogio do riso. In: Pedagogia profana : danças, piruetas e mascaradas. 4 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
MENEZES, L.C.; HOSOUME, Y.; PIASSI, L. P. C.; COPELLI, A.C.; TOSCANO, C.; MARTINS, J.; TEIXEIRA, D.R.; PEREIRA, J.A.; PELAES, S.B.; DIAS, W.S. Leituras de Física: GREF . 1 ed. São Paulo: Instituto de Física da Universidade de São Paulo, 1998.
NITTA, H.; TAKATSU, K. Guia mangá de física : mecânica clássica. São Paulo: Novatec, 2010.
PENA, F.L.A. Como trabalhar com 'tirinhas' na sala de aula. Física na Escola , São Paulo, v.4, n.2, nov. 2003. p. 20-21
PETERSON, I. Humor in the physics classroom. The physics teacher . Dec. 1980, p. 646-650.
PIETROCOLA, M. Curiosidade e imaginação. In: CARVALHO, A. M. P. (org). Ensino de ciências : unindo a pesquisa e a prática. São Paulo: Thomson, 2004.
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RAMALHO, F.; FERRARO, N.; TOLEDO, P. Os Fundamentos da Física , São Paulo: Ed. Moderna, 1995.
RAMOS, P. Faces do humor : uma aproximação entre piadas e tiras, Campinas, SP: Zarabatana Books, 2011.
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TESTONI, L.A. Histórias em quadrinhos nos livros didáticos de física: uma proposta de categorização. In: XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2010, Águas de Lindóia - SP. Atas do XII EPEF , 2010.
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VERISSIMO, L.F. As Cobras : antologia definitiva, Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
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