FÍSICA E CULTURA: A IMAGEM DE UMA CIÊNCIA PARA A VIDA
Milton Antonio Auth, Débora Coimbra, Adriano Luiz De Queiroz, Pedro Henrique Pereira, Renato Medeiros Guimarães, Wanderson Acássio Gomes
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 23/01/2013
- Linha de pesquisa
- Ciência, Cultura E Arte
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FÍSICA E CULTURA: A IMAGEM DE UMA CIÊNCIA PARA A VIDA
Milton Antonio Auth 1 - auth@pontal.ufu.br; Débora Coimbra - deborac@pontal.ufu.br; 2 Adriano Luiz de Queiroz - adrianolqueiroz@hotmail.com; Pedro Henrique Pereira 3 4 pedro210590@gmail.com; Renato Medeiros Guimarães - rtomedeiros@fis.pontal.ufu.br; Wanderson 5 Acássio Gomes - wandersonrf@yahoo.com.br 6
1, 2, 3, 4, 5 e 6 - Universidade Federal de Uberlândia, auth@pontal.ufu.br
## Resumo
O presente trabalho tem como base a relação da Física com a Cultura, no contexto escolar e social, e a exploração da literatura que faz jus a este tema. Foram realizados estudos, reflexões, investigações e produções de Unidades Curriculares e Planos de Atividades sobre o tema, em disciplinas pedagógicas do curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública da região do Triângulo Mineiro. Para a produção dos dados da pesquisa foram questionadas pessoas que já concluíram o ensino médio, sobre como foi o ensino-aprendizagem que tiveram durante seu período escolar, referentes a conhecimentos de Física e à relação dos mesmos com a cultura vigente, bem como avaliadas as produções realizadas pelos licenciandos. Essas ações nos levam ao entendimento de que, por um lado, a formação básica dos investigados foi muito precária em termos da elaboração conceitual da Física e do estabelecimento de relações Física-Cultura e, por outro, de que é possível ensinar Física fora da mesmice de sempre, ou seja, não restrita ao quadro e às expressões matemáticas, de modo que as pessoas sejam constituídas nos conhecimentos físicos e compreensões científicas e tecnológicas da atualidade.
Palavras-chave : Ensino de Física; Cultura; Contexto Escolar.
## Introdução
A Física é considerada uma área de conhecimento relevante para a sociedade contemporânea, mas seu estudo escolar não tem despertado o interesse da maioria dos estudantes. A experiência escolar vivenciada ao longo de anos faz com que muitos dos egressos da educação básica a considerem como se fosse simplesmente aplicação de fórmulas matemáticas que o indivíduo precisa saber e de dados para substituir nas equações, culminando em problemas resolvidos. Apesar de muitas pessoas não perceberem, fatos do cotidiano, desde simples atos, como o acordar e o deitar, aos mais complexos, como a prática de esportes e a própria eletricidade utilizada em nossas casas, podem ser interpretados à luz das teorias e conceitos físicos.
Compreensões distorcidas e limitações quanto ao ensino de Física estão presentes desde o início da constituição da escola como instituição de ensino. Dentre essas, podemos citar a carga horária exígua; aplicações práticas do conhecimento como uma área quase inexplorada; desinteresse pelo tema que é tratado tanto por parte dos discentes quanto dos docentes; falta de incentivos e condições físicas e financeiras para fomentar essa importante área do conhecimento. Neste panorama, fazemos a seguinte pergunta: O ensino de física
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20 a 25 de janeiro de 2013
hoje, na educação básica, pode ser considerado como um fator que contribui para a cultura do estudante?
Segundo Zanetic (2009), a Física é cultura e pode ser um fator importante para enculturar as pessoas, as quais vivem numa sociedade amplamente influenciada pela Ciência e Tecnologia. A partir disso e da concepção sociocultural de que a aprendizagem pode ser entendida como um processo de enculturação (TRINDADE e REZENDE, 2010), cada indivíduo cultiva sua própria cultura e a modifica, de acordo com sua maneira de pensar, já que a cultura não é algo estático, mas impulsionada pelas transformações da sociedade. Entretanto, acontece geralmente nas escolas, um ensino de física predominantemente descontextualizado e, por isso, um ensino que não atende às necessidades e/ou não está voltado para a maioria da população. A física não deve ser ensinada apenas com memorização de fórmulas e substituição de dados numéricos nas mesmas, mas, principalmente, com a adoção de metodologias que focalizem a parte conceitual, fenômenos e exemplos de aplicações práticas do cotidiano, assim, contribuindo para com o desenvolvimento cultural dos estudantes.
Além da falta de investimentos voltados ao sistema educacional e o crescente número de alunos nas salas de aula, as escolas atuais ainda permanecem com outro grande desafio, o qual, segundo Pernambuco (2009, p. 99-100), consiste em 'repensar os conteúdos e a forma de ensinar física na Educação Básica, a partir da compreensão de sua relação com as outras produções da cultura'. Contudo, para se pensar e/ou fazer o ensino-aprendizagem nessa perspectiva, precisamos 'readequar também a mensagem, não apenas os meios' (ZANETIC apud PERNAMBUCO, 2009, p. 100). Fica a crítica sobre a forma majoritariamente transmissiva como ela é tratada no contexto escolar, criando e alastrando ideias equivocadas em universidades, escolas, nos alunos, pais, professores, gestores da educação, políticos, entre outros. É clara a importância da formação continuada dos educadores, focando em abordagens que valorizem o aluno como sujeito de sua própria aprendizagem e o professor como mediador, em um trabalho coletivo envolvendo todos. No entanto, quando observamos o sistema de ensino em escolas da nossa região, verificamos que o ensino de Física ainda está voltado à utilização do quadro, de giz ou pincel, aulas nas quais a interação entre professor-aluno é incipiente e, quando ocorre a utilização de métodos de ensino diversificados, estes constituem ações pontuais, usualmente visando ao ingresso dos estudantes no ensino superior. Esse quadro está de acordo com Martins (2009, p. 101), quando afirma que 'nas salas de aulas da escola, ainda predomina o ensino do que chamamos de ciência morta - livresca e descontextualizada -, que não está voltado para a maioria da população'.
Esse panorama evidencia a dificuldade de ensino e compreensão da Física, chegando até mesmo a rotulá-la como sendo muito difícil e que apenas aqueles que possuem aptidão (um dom natural) conseguem realmente alcançar o conhecimento proveniente dessa ciência, aptidões essas entendidas como as características de um cientista ou profissões afins, como os engenheiros. Logo, pode-se dizer que o ensino de Física é constituído de
[...] regrinhas e receituários; questões pobres para prontas respostas igualmente empobrecidas; uso indiscriminado e acrítico de fórmulas e contas em exercícios reiterados; tabelas e gráficos desarticulados
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ou pouco contextualizados relativamente aos fenômenos contemplados; experiências cujo único objetivo é a 'verificação' da teoria [...] Enfim, atividades de ensino que só reforçam o distanciamento do uso dos modelos e teorias para a compreensão dos fenômenos naturais e daqueles oriundos das transformações humanas, além de caracterizar a ciência como um produto acabado e inquestionável: um trabalho didático-pedagógico que favorece a indesejável ciência morta. (DELIZOICOV apud PERNAMBUCO, 2009, p. 101).
Entretanto, há propostas na literatura da forma como o desenvolvimento e aprendizagem da ciência em sala de aula podem vir a ocorrer:
As ciências naturais são vistas como suporte para o progresso e como modelo para uma construção eficaz do conhecimento. As ciências naturais que surgem e/ou se fortalecem no período são desafiadas a seguirem o que era considerado como o modelo das ciências naturais (PERNAMBUCO, 2009, p. 102).
Neste trabalho exploramos a articulação da Física com a Cultura, com a vida das pessoas, baseado em atividades sistemáticas (estudos, produções, questionário e entrevistas). Parte desse processo consiste no estudo das implicações e, consequentemente, das linguagens (cotidianas e científicas) adequadas para essa necessária articulação.
## Metodologia
A partir de estudos e reflexões sobre o processo de ensino-aprendizagem da educação básica na disciplina de PIPE (Projeto Integrado de Prática Educativa), tendo Física e Cultura como tema central, constatações foram elucidadas, derivando em elaborações de Unidades Curriculares e Planos de Atividades. A compreensão da problemática foi um dos primeiros passos para o desenvolvimento de ações que pudessem dar visibilidade aos licenciandos sobre o ensino de Física escolar atual e possibilidades de intervenções/mudanças.
Para auxiliar na compreensão da problemática, realizamos um estudo exploratório que teve como instrumento de pesquisa a aplicação de um questionário semi-estruturado a quarenta e quatro egressos do ensino médio do município de Ituiutaba/MG, alguns dos quais não deram continuidade aos estudos, distribuído em média por gênero e faixa etária não delimitada, oriundos em 95% dos casos de escolas públicas. O foco principal consistia em, através da indagação, verificar se conseguem ou não perceber fenômenos que ocorrem no seu cotidiano a articulação destes aos fenômenos físicos, assim como o que permaneceu de relevante sobre o estudo de Física realizado ao longo da educação básica. As questões abertas solicitavam respostas discursivas e, eventualmente, outros desdobramentos faziamse necessários para melhor elucidação da resposta.
As três perguntas iniciais, complementares entre si, objetivavam levantar as impressões dos entrevistados sobre a Física escolar, indicando a série em que a
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mesma passou a integrar os conteúdos escolares, bem como a impressão qualitativa da contribuição do ensino de Física para a formação. As quarta e quinta questões solicitavam a catalogação de aspectos positivos e negativos das aulas de física, respectivamente, passando pela impressão quanto à formação docente na sexta questão e sobre o conhecimento ou não acerca das metodologias alternativas para o ensino de Física, na sétima questão. As duas últimas questões esboçavam articulações entre o conhecimento físico e a sociedade, perguntando sobre interesses e fontes de informação. As respostas escritas constituem a essência do corpo de dados desse trabalho e são apresentadas e analisadas na sequência.
## Resultados
Além dos estudos e reflexões sobre Física e Cultura, para ter uma ideia de como a física é vista por egressos da Educação Básica, analisamos qualitativamente as respostas ao questionário, verificando as opiniões dos entrevistados e suas impressões sobre a disciplina física. De início, já pudemos ter uma ideia da deficiência da inserção e visibilidade do ensino de Física nas escolas, pois, para 50% dos entrevistados a resposta é que a Física só é abordada no ensino médio, 40% apontaram o início do estudo de Física na oitava série e 10% na quinta série. Alguns deles tiveram dificuldades em lembrar em qual época começaram a estudar física, o que pode ser um indicador de que a física não teve grande significado para os mesmos, ou que possuíam dificuldades de relacionar os conhecimentos científicos por áreas. Em particular, um deles afirmou ter começado a estudar física na quinta série, o que lhe proporcionou facilidades no ensino médio, bons conhecimentos para sua vida e grande interesse pela Física, diferentemente da maioria das demais respostas obtidas.
A experiência pouco expressiva e/ou frustrante no ensino de Física da escolarização básica faz com que o conhecimento físico, a priori, não seja muito valorizado pela sociedade, pois 80% manifestaram impressões que podem ser caracterizadas como negativas. Isto fica muito claro quando um deles faz a seguinte afirmação:
Parecia uma realidade distante, criava a imagem de um laboratório super equipado com experiências cinematográficas e resultados semelhantes a efeitos especiais. E que era um assunto restrito a gênios .
Essa visão maniqueísta da Física, em geral muito relacionada aos tradicionais mecanismos de transmissão, centrada na fala do professor e recepção pelos estudantes, passivamente dispostos em suas carteiras escolares, só contribui para que os últimos não se considerem inteligentes o suficiente para compreender os fenômenos e eventos abordados, o que gera um profundo desinteresse pelo assunto. Essa ideia errônea propaga-se de aluno para aluno ao longo da vida escolar, caracterizando a física como sendo para gênios e loucos, como citado por um dos entrevistados, em referência a seu ex-professor. Apesar da fama da disciplina, somente 40% disseram que gerou 'preconceito' (na linguagem dos autores desse). Pudemos notar que alguns se interessam, em geral, por assuntos que se mostram, a princípio, complexos. Isto é exemplificado pela afirmativa (presente nas respostas de um dos pesquisados):
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Interesse sim, porque queria saber de que se tratava esse bicho de sete cabeças que é a física.
Não se pode deixar de salientar que, muitas vezes, o desinteresse pelo assunto surge nas situações de sala de aula e não somente por ter ouvido citações negativas a respeito. O despreparo de professores, más condições das instituições, falta de laboratórios e de aulas práticas, ênfase em memorização, destacam-se como alguns dos fatores causadores de desmotivação mais manifestados.
Em relação ao que ficou do ensino da Física escolar, mais de 90% afirmaram ter sido 'quase nada'. Nos comentários redigidos, podemos aferir que, o pouco que conseguiram trazer para suas vidas estaria relacionado a interesses particulares, como certo conteúdo que tinham mais afinidade ou observações que puderam constatar no seu cotidiano. Em contraste com essa situação, vale citar o comentário do entrevistado que iniciou o estudo da Física na quinta série:
[...] para a minha formação, a Física representou e ainda representa uma fonte riquíssima de informações, pois tudo ao nosso redor está relacionado com fenômenos físicos.
Seria muito mais empolgante se mais egressos pudessem tecer esse tipo de afirmativa, de forma justificada. Com base em Vigotski (2001), entendemos que é na escola que são formadas, de forma intencional, capacidades mentais que permitem às pessoas a tomada de consciência e de decisões (com discernimento) sobre situações concretas da vida e, desencadeando a compreensão das mesmas. Estudos sistemáticos dos conhecimentos e a relação com o cotidiano das pessoas tornam a Física parte de suas vidas.
Das pessoas a se posicionar se gostavam de algo nas aulas de física, evidencia-se dos 60% que responderam afirmativamente, 24% citam que gostavam de aulas experimentais e 18% de aulas que tinham explicações voltadas para seu cotidiano, ou seja, foram aulas que tinham significação para suas vidas e/ou de caráter empírico. Uma aula experimental, cujo objetivo fosse comprovar a teoria, foi considerada como fator que demanda maior participação ativa dos estudantes, do que as aulas mais tradicionais, alicerçadas na tríade: exposição da teoria de forma sucinta no quadro, resolução de exercícios e repetição dos mesmos nas provas. Mesmo alguns que afirmaram não gostar de quase nada nas aulas, comentaram as aulas no laboratório, ratificando que a prática é um chamariz para o estudante.
Há também quem nos faz refletir sobre a responsabilidade e o comprometimento de um professor ao entrar em uma sala de aula, quando manifesta comentários como
Gostava de conversar, por que não fazia sentido aprender aquilo.
Como pode um professor de física não apresentar o sentido do aprendizado da disciplina para o aluno? Entendemos que é na escola, um espaço de aprendizagem por excelência, que as pessoas se inserem na cultura científica, através de processos intencionais e sistemáticos de ensino-aprendizagem, conforme já salientado anteriormente. Isso pode ser entendido, inclusive, a partir do posicionamento dos que participaram da investigação realizada, uma vez que 67% explicitou a crença na boa formação de seus professores para uma boa aprendizagem. Existem profissionais mais ou menos comprometidos, tanto no
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campo de ensino como em qualquer outra área e tanto na rede pública quanto na particular. Por exemplo, um dos indivíduos respondeu a esta pergunta da seguinte forma:
Sim. Principalmente os professores que ministram aulas em escolas particulares e estão comprometidos com o seu trabalho por meio da motivação e interesse de que seus alunos aprendam o conteúdo abordado.
Em contraste, vejamos a manifestação de uma participante que não revela pontos positivos quanto ao ensino de física:
Eles até tentavam, porém era algo muito abstrato. Não traziam tanto exemplo mais concreto para facilitar o entendimento.
Apesar de 55% dos entrevistados informarem que tiveram aulas com foco na significação de conceitos, houve muitos comentários no sentido de que estas foram exceções. Isto reflete o fato de que as aulas ainda eram baseadas na resolução de exercícios, como citado por outro dos entrevistados:
[...] foram poucas as aulas visando o estudo dos conceitos, o objetivo do professor na maior parte das vezes era resolver principalmente os exercícios.
Não por acaso, 60% disseram que detestavam fórmulas, seja por terem que decorar ou por não entenderem seu significado, em concordância com a desmotivação relacionada ao processo transmissivo, como mencionado anteriormente. Somente 10% informaram não achar os cálculos difíceis e 90% afirmaram querer aprender melhor os conceitos físicos, mas não o conseguiam por encontrar dificuldades, aparentemente não faltando interesse por parte das pessoas. Cabe ressaltar que as pessoas respondem à questão segundo seu modo de pensar atualmente e não como refletiam no início de sua vida escolar.
A maioria dos entrevistados desconhece o estado atual da pesquisa em ensino de física, uma vez que, alguns estão há alguns anos fora do ambiente escolar, além do fato de que muitas vezes esses resultados não chegam à sala de aula. Mesmo em número muito reduzido, alguns mostraram-se conscientes de tal fato, que não relativo à física especificamente, mas à educação como um todo, como citado:
[...] tenho percebido que a educação, em geral, tem sofrido com o descaso do governo e os agentes externos aos muros escolares (família e a sociedade), que deveriam envolver-se, estão apáticos, quando não, contrários a um ensino sério e mais rigoroso.
Expressões relativas à importância da Física para a vida e para a sociedade nos deixaram esperançosos quanto a um futuro mais permeado de significados físicos para a população, devido à maturidade com que foram dadas algumas respostas. Sendo 90% os que afirmaram que a física é importante para a sociedade, e se estes conseguirem passar adiante suas ideias, sejam para seus filhos, amigos ou a comunidade em geral, a física poderá realmente fazer parte, de forma expressiva, da cultura do povo, quebrando barreiras e ampliando o arcabouço
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cultural da sociedade. Mesmo uma respondente desinteressada pela física durante sua escolarização básica se expressou com a seguinte frase:
Hoje consigo entender a importância do ensino de física (apesar de não dominar a área) na escola regular. Pois, não só ela, mas como (sic.) as outras disciplinas têm uma grande relação na vida cotidiana. Um exemplo é o trabalho do pedreiro, só na construção de um muro acredito que daria para dar uma boa aula de física.
As pessoas buscam o conhecimento físico quando estão envolvidas em alguma problemática, outras simplesmente não o fazem por falta de interesse. Tivemos, também, manifestações de egressos que gostariam de estar interados às novidades que envolvem assuntos científicos e tecnológicos, a exemplo de Astronomia, pois acham importante se manter atualizados nos assuntos, especialmente os difundidos pelos meios de comunicação do escopo dessas áreas. Com o decorrer dos anos do aluno como mero expectador dentro da sala de aula, é perceptível, no comportamento da maioria, o desinteresse sobre a física escolar. No entanto, também é revelado que a grande maioria dos participantes desse processo mostra interesse pelos fenômenos e por explicações que deveriam ser veiculadas nas atividades escolares relacionadas aos conhecimentos de física, o que nos faz pensar em novas e mais eficazes maneiras de exploração do processo de ensinoaprendizagem.
Esse aspecto foi contemplado com revisão bibliográfica e estudos sobre a relação Física e Cultura, a exemplo de Martins (2009), Zanetic (1989 e 2009); Pernambuco (2009), Vaz (2009), Vilches e Gil-Perez (2007), no componente curricular PIPE. Além disso, foram produzidas Unidades Curriculares e Planos de Atividades, tendo como foco a relação Física e Cultura e/ou Cotidiano, tais como: 'A Física na Cozinha'; 'Física nos Esportes'; 'O som e a música'; 'A Física numa Máquina Térmica'. Estas produções, ainda preliminares, visavam proporcionar aos licenciandos vivenciar na sua formação inicial formas alternativas ao processo de ensino-aprendizagem e seu detalhamento não é possível no presente trabalho em função da limitada extensão do mesmo. O acompanhamento sistemático desse processo permitiu afirmar que, dentro do possível, esses professores em formação inicial possam influenciar a educação escolar, estreitando as relações entre Física e Cultura.
## Considerações
Este estudo não representa somente a opinião de egressos do Ensino Médio que tiveram boas e más impressões diante do ensino de Física: ele exemplifica a imagem distorcida que se faz da Física como disciplina escolar e, ao mesmo tempo coloca em evidência interesses e possibilidades em novos patamares. Sendo assim, vemos a necessidade de grandes mudanças no processo de ensino-aprendizado de Física, e que já vem acontecendo de forma sistemática no curso de licenciatura, embora ainda tímida ou limitada, conforme indicado ao final do tópico anterior.
A aproximação da ciência com o cotidiano traz significados que fórmulas extensas não conseguem explicar. Logo, é preciso que a sociedade entenda que a ciência está presente na nossa vida, mas tudo depende do modo como a vemos. Conforme Pino (2000), a educação tem a função de construir visões de mundo,
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culturalmente dependentes, individuais ou coletivas, mas construídas socialmente. Isso significa que se construa o conhecimento científico junto às pessoas, que é necessário proporcionar oportunidades de compreensão da física (e de qualquer outra ciência) de modo diferente de elementos exclusivos a laboratórios sofisticados e a gênios. É preciso construir a ciência junto à sociedade, para que esta a entenda e torne-a parte de sua cultura. Com as atividades desenvolvidas foi possível perceber e afirmar que há maneiras diferentes e mais eficientes de organizar o processo de ensino-aprendizagem, saindo da rotina maçante de quadro, fórmulas e exercícios reiterados. A utilização de recursos diversos para a elaboração e realização das aulas, se mostra mais atrativa da atenção e participação dos alunos, fazendo com que eles interajam entre si, com o professor e com os instrumentos, possibilitando a compreensão e interpretação dos fenômenos físicos.
Entendemos, com este trabalho, que a população, de um modo geral, está ciente da existência de uma 'cultura física', porém, em geral, a tratam como algo literalmente invisível, imperceptível e/ou distante de sua capacidade de compreensão. Isso ocorre por falta de informação, desinteresse, má formação escolar ou outros fatores que as impeçam de enxergar a física como algo crucial para o entendimento da natureza, e principalmente, para auxiliar nas mais variadas situações da vida.
## Referências Bibliográficas
MARTINS, André F.(Org.). Física ainda é cultura? . São Paulo: Editora Livraria da Física, 2009.
PERNAMBUCO, Marta M. C. A.. Escola hoje e o ensino de Física. In: MARTINS, A. F.(Org.), Física ainda é cultura? . São Paulo: Editora Livraria da Física, 2009, p. 99112.
PINO, Angel. O social e o cultural na obra de Vigotski. Educação & Sociedade , ano XXI, nº 71, Jul, 2000.
TRINDADE, Márcio; REZENDE, Flávia. Novas perspectivas para a abordagem sociocultural na educação em ciências: os aportes teóricos de John Dewey e de Ludwig Wittgenstein. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias vol. 9, nº 3, p. 487-504, 2010.
VAZ, Arnaldo. Nem sábios, nem Tolos: apaixonados pela Física na contra corrente de culturas vigentes. In MARTINS, A. F.(Org.). Física ainda é cultura? . São Paulo: editora Livraria da Física, 2009.
VIGOTSKI, Lev S. A Construção do Pensamento e da Linguagem . Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
VILCHES, A.; Marques, L.; Gil-Pérez; Praia, J. Da Necessidade de uma formação científica para uma educação para a cidadania. In, Anais do I Simpósio de Pesquisa em Ensino de História de Ciências da Terra e III Simpósio Nacional sobre Ensino de Geologia no Brasil . Campinas/SP, 2007.
ZANETIC, João. Física também é cultura. Tese de Doutorado. FEUSP - São Paulo, 1989.
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20 a 25 de janeiro de 2013
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