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Videoarte como elemento motivador da aprendizagem: Um diálogo entre Física e Literatura

Beatriz Rocha, Maria Beatriz Fagundes

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
23/01/2013
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Educação Não Formal
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Videoarte como elemento motivador da aprendizagem: Um diálogo entre Física e Literatura

Beatriz Rocha¹, Maria Beatriz Fagundes².

1 Universidade Federal do ABC/CCNH, beatrizrrn@gmail.com

2 Universidade Federal do ABC/CCNH, mbeatriz.fagundes@ufabc.edu.br

## Resumo

Diante do atual cenário da educação no ensino médio, onde a falta de interesse dos alunos pela disciplina de física é comum, surgem novas propostas que visam tornar o ensino e a aprendizagem dessa disciplina mais atraente para os estudantes. O presente trabalho parte de uma pesquisa de iniciação científica em andamento, busca desenvolver e testar recursos educacionais como, por exemplo, resenhas eletrônicas nos moldes da videoarte, de forma a estimular os alunos do ensino médio para a leitura de obras de literatura e de divulgação científica que tratam de temas de física moderna e, consequentemente, para a aprendizagem da física.

Partindo do pressuposto de que a "Física também é Cultura" (ZANETIC, 1989) buscamos encontrar na relação entre física, literatura e videoarte elementos didáticos, científicos, estéticos, semióticos, lúdicos e emocionais com potencial para motivar alunos do ensino médio para a aprendizagem da física moderna. Acreditamos que o interesse crescente do público jovem por textos e outros recursos midiáticos de divulgação científica podem sinalizar que mais do que não querer aprender, os alunos quererem aprender de forma diferente.

Os vídeos desenvolvidos na perspectiva da videoarte são resenhas eletrônicas de obras literárias e de divulgação científica que tratam de temas e conceitos relacionados a teoria da relatividade de Einstein. As resenhas audiovisuais desenvolvidas e posteriormente apresentadas aos alunos devem motivá-los para a leitura das obras de referência e para a produção de um vídeo sobre o texto lido de autoria própria.

Com o objetivo de avaliar a receptividade e a ressonância da atividade será realizado um estudo qualitativo baseado na análise dos vídeos autorais dos alunos. O foco de interesse da pesquisa é identificar nos vídeos dos alunos indicadores de compreensão de conteúdos específicos de física, desenvolvimento de senso estético e coerência interna, utilização de elementos criativos e imaginativos e estabelecimento de veículos emocionais e pré-disposição para a aprendizagem de física.

Palavras-chave: Ensino de Física Moderna, Relatividade, Videoarte, Literatura.

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## Introdução

Na escola muitas vezes somos treinados a apreender o mundo de forma atomizada e a vivenciar a experiência do conhecimento diluída em um rol de disciplinas que dificilmente se comunicam entre si (SALÉM, 1986; FAGUNDES et al., 2011). Assim, não é de se surpreender que o ato de conhecer, quando limitado à fragmentação e a "coisificação" do objeto estudado (MORIN, 2010), se torne tão pouco atraente, principalmente para os adolescentes que estão expostos ao amplo espectro de estímulos oferecidos pelas atuais tecnologias da informação (BONETTI, 2008; SETTON, 2010). A falta de interesse generalizada pela escola é perceptível se lembrarmos das aulas de física, uma das disciplinas menos apreciadas pelos alunos (OLIVEIRA, 2009). Mas, se de um lado a "aula tradicional" não consegue cativar o estudante para a aprendizagem da física, de outro, o interesse crescente do público jovem por textos e outros recursos midiáticos de divulgação científica (HECKLER et al., 2007) pode sinalizar que mais do não querer aprender, trata-se de um querer aprender de forma diferente.

Demandas educacionais refletem mudanças de valores e de comportamentos sociais e culturais (PILETTI, 1996). A década de 1960 ficou conhecida na área de ensino de física como a "era dos grandes projetos" em decorrência dos impactos significativos que projetos como, por exemplo, Physical Science Study Committee (PSSC), Harvard Project Physics e Nuffield , provocaram nas propostas de inovações curriculares e metodológicas no Brasil (MOREIRA, 2000). Atualmente, documentos oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN e PCN+) para a área de ciências da natureza, matemática e suas tecnologias (BRASIL/MEC, 2002) mostram novas tendências para a educação básica, que destinada principalmente àqueles que não serão cientistas e terão na escola uma das poucas oportunidades de acesso formal ao conhecimento científico busca valorizar as dimensões social e cultural desse saber e articular a ciência e diferentes saberes concernentes a conteúdos diversificados (BRASIL/MEC, 2002).

Neste cenário contemporâneo, o ensino de física como cultura e possibilidade de leitura de visão de mundo torna-se não somente possível como também desejável. Partindo do pressuposto de que a "Física também é Cultura" (ZANETIC, 1989) buscamos encontrar na relação física-literatura elementos didáticos, científicos, estéticos, semióticos, lúdicos e emocionais com potencial para serem trabalhados no ensino médio na perspectiva da videoarte e de forma a desenvolver nos alunos o interesse para a aprendizagem da física moderna.

O presente trabalho é parte de uma pesquisa em desenvolvimento no âmbito e um projeto de iniciação científica que tem como principais objetivos: conhecer temas e metodologias de pesquisas atuais em ensino de física moderna; realizar um levantamento bibliográfico sobre obras de literatura e de divulgação científica que tratam temas de física moderna, em particular da teoria da relatividade; conhecer e aplicar ferramentas computacionais destinadas à produção de vídeos; produzir resenhas audiovisuais (vídeos) na perspectiva da videoarte com intuito de motivar alunos do ensino médio para a leitura de textos literários e de divulgação científica; apresentar e avaliar a recepção das resenhas audiovisuais pelos alunos; orientar os alunos para a produção de um vídeo autoral (nos moldes da videoarte) sobre o enredo de um texto selecionado para a leitura a partir do contato com as resenhas audiovisuais.

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A seguir apresentamos algumas reflexões referentes às etapas iniciais da pesquisa descrita anteriormente e após a produção da primeira resenha eletrônica desenvolvida a partir da leitura da obra 'O incrível mundo da Física Moderna' de G. Gamow.

## Justificativa

A física moderna, enquanto construção intelectual, tem se tornado cada vez mais complexa, abstrata e distante do senso comum. Em contrapartida, as aplicações tecnológicas e os veículos de transmissão de informação trazem os produtos dessa ciência para o nosso cotidiano (FAGUNDES, 2006). Como consequência deste movimento, muito se tem discutido no contexto educacional a respeito da necessidade de inserção de tópicos de física moderna na educação básica (ZANOTELLO e FAGUNDES, 2012). A inserção da física moderna no ensino médio implica, contudo, não somente alterações curriculares e metodológicas, mas também mudanças na cultura escolar, pois nenhum esforço nesse sentido se concretiza sem o engajamento dos alunos.

A complexidade matemática, a abstração da teoria e a necessidade de montagens experimentais sofisticadas dificultam a transposição das teorias da física moderna para a sala de aula, em contrapartida, a física moderna possui grande potencial educacional por suscitar a curiosidade, a imaginação e o interesse dos alunos (STANNARD, 1990). Os conceitos de espaço, tempo e espaço-tempo da teoria da relatividade, por exemplo, transcendem as fronteiras do conhecimento físico e, como temas motivadores, vão povoar o enredo de diversas obras literárias. Um belo exemplo disso são os contos 'Os sonhos de Einstein' de A. Lightman.

[imagine um mundo onde] o tempo flui mais lentamente nos pontos mais distantes do centro da Terra. O efeito é minúsculo, mas pode ser medido por instrumentos extremamente sensíveis. Assim que o fenômeno foi constatado, algumas pessoas, desejosas de permanecerem jovens, mudaram-se para as montanhas. Agora todas as casas são construídas no Dom, no Matterhoern, no monte Rosa e em outros pontos elevados. É impossível vender residências em outros locais [...] (LIGHTMAN, 1993, p.30)

Alinhados com alguns pesquisadores da área de ensino de física também vemos no "estranhamento" (PIASSI et al., 2007) experimentado pelo aluno/leitor, quando esse se depara com as noções de espaço e tempo vivenciadas por meio dessas "fantasias literárias", uma possibilidade didática para o estabelecimento de um diálogo frutífero entre a física e a literatura. Acreditamos que este diálogo pode se constituir em um elemento motivador para a aprendizagem da física.

Não é raro observar grandes escritores como H.G Wells (A máquina do tempo) e G. Gamov (O incrível mundo da física moderna) que dialogam com a física de forma associativa no contexto da literatura e redefinem os conceitos de espaço, tempo e espaço-tempo em suas imagens poéticas. Acreditamos que tais "metáforas físicas" (MECKE, 2004), se trabalhadas a partir de uma perspectiva dialógica (FREIRE, 1997), podem motivar os alunos do ensino médio para a aprendizagem da física moderna, predispondo-os emocionalmente para o estudo da física em geral.

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Entretanto, ao reconhecer o potencial das metáforas literárias no ensino dessa disciplina, reconhecemos também a necessidade de se desenvolver estratégias didáticas que já de início possam seduzir o aluno para torná-lo um leitor ativo. Com esse objetivo, propomos a utilização de um recurso educacional construído com base na vídeo-arte.

A videoarte (ELWERS, 2006) é uma forma de manifestação artística que surgiu nos anos 1960 com o desenvolvimento e o barateamento das tecnologias de vídeo móveis. Essa forma de expressão incorpora diferentes linguagens (fotografia, performances, esculturas, literatura etc.) em uma linguagem artística que tem a tecnologia e o vídeo como elemento central (ITAUCULTURAL, 2012). Como recurso didático a videoarte oferece possibilidades interessantes para a abordagem de temas da física moderna no contexto educacional, integrando ao processo de ensino e aprendizagem as dimensões cognitiva, estética, cultural, social, semiótica e lúdica.

## Desenvolvimento da pesquisa

Como mencionado na introdução, o presente trabalho é parte de uma pesquisa desenvolvida no âmbito de um projeto de iniciação científica no qual algumas das ações a serem realizadas são: o desenvolvimento de resenhas audiovisuais, na perspectiva da videoarte e a apresentação destas resenhas à alunos do ensino médio como um convite à leitura. Em outras palavras, propomos o desenvolvimento e apresentação de resenhas audiovisuais que incorporam elementos artísticos e científicos nas adaptações de obras literárias e de divulgação científica como uma "primeira leitura" destes textos. Acreditamos que a fruição do audiovisual pode tornar "o aprendizado mais alegre e saboroso" (BONETTI, 2008) e estimular os alunos para a leitura posterior do texto integral e, consequentemente, motivá-los para a aprendizagem da física moderna.

- O projeto de iniciação científica está estruturado nas quatro etapas descritas brevemente a seguir. A resenha audiovisual, cuja ficha técnica é apresentada no presente trabalho, foi desenvolvida na segunda etapa da pesquisa.

Etapa 1 - Levantamento, leitura e análise de obras literárias.

Nesta etapa foram realizados o levantamento e as leituras de obras literárias de escritores com veia científica e de cientistas com veia literária (ZANETIC, 2006). A partir destes estudos iniciais buscou-se identificar temas e conceitos de física moderna presente nos enredos das obras, observar aspectos do texto relacionados aos níveis semióticos (fundamental, narrativo e discursivo) e selecionar as obras com potencial para serem adaptadas para as linguagens da videoarte e, posteriormente, apresentadas aos alunos na forma de resenhas eletrônicas.

Etapa 2: desenvolvimento de um vídeo-arte a partir de obras literárias

Nesta etapa foram selecionadas as ferramentas e linguagens necessárias para a produção de audiovisuais nos moldes da videoarte. A partir das ferramentas selecionadas foram produzidos os roteiros e, posteriormente, as resenhas audiovisuais. Vale salientar que os vídeos foram produzidos com recursos de fácil

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acesso e baixo custo (materiais recicláveis, massa de modelar, recortes, desenhos e fotografias em papel) e somente com emprego de recursos simples de gravação e de edição (câmeras de telefones celulares, máquinas fotográficas digitais, câmeras de vídeo caseiras).

## Etapa 3: divulgação do material (videoarte) nas escolas

Nesta etapa as resenhas audiovisuais, desenvolvidas na fase anterior, serão apresentadas a um grupo de alunos do ensino médio de escolas públicas da região da grande São Paulo. As atividades com os alunos envolverão aulas introdutórias sobre a relatividade, sessões de vídeo e rodas de conversa de forma a motivá-los e orientá-los na para a leitura do texto integral de um das obras apresentadas como resenha eletrônica e, após a leitura, desenvolver um vídeo de autoria própria sobre a obra nos moldes da videoarte.

## Etapa 4: avaliação da ação

Com o objetivo de verificar a receptividade e a ressonância da atividade será realizado um estudo qualitativo baseado na análise dos vídeos autorais dos alunos. O foco de interesse da pesquisa é identificar nos vídeos dos alunos indicadores de compreensão de conteúdos específicos de física, desenvolvimento de senso estético e coerência interna, utilização de elementos criativos e imaginativos e estabelecimento de veículos emocionais e pré-disposição para a aprendizagem de física. Para a construção das categorias de análise nos apoiamos nos referenciais da pesquisa qualitativa, mais especificamente da pesquisa-ação e análise discursiva (BOGDAN e BIKLEN, 1994).

## Primeiros resultados

Dada a inviabilidade de disseminação dos vídeos produzidos, apresentamos a seguir somente a ficha técnica e alguns frames de uma videoarte com intuito de tornar os primeiros resultados da pesquisa mais concretos em termos de comunicação textual. A ficha técnica (figura 1) e os frames (figura 2) apresentados a seguir são extraídos da primeira videoarte, produzida a partir da leitura da obra 'O incrível mundo da Física Moderna' de G. Gamow.

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StoryLine

Durante uma palestra sobre a teoria da relatividade de Einstein um funcionário bancário (Sr. Tompkins) experimenta sensações interessantes ao imergir em um mundo fantástico, no qual os efeitos relativísticos de deformação do espaço e do tempo são perceptíveis nos fenômenos do diaa-dia

Figura 1: Ficha técnica da videoarte "O incrível mundo da física moderna".

Os frames apresentados na figura 2 também foram extraídos da videoarte "O incrível mundo da física moderna" e mostram o Sr. Tompkins, que ao adormecer na sala onde assiste a uma palestra, emerge em um mundo relativístico no qual observa fenômenos "estranhos" como, por exemplo, a distorção do espaço em função do aumento da velocidade com a qual um ciclista pedala sua bicicleta.

Figura 2: Frames da videoarte "O incrível mundo da física moderna".

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## Considerações finais

No contexto da educação científica as características plurais da linguagem audiovisual (FERRÈS, 1996) aplicadas às artes e a tecnologia, como explicitadas na videoarte, possibilitam a fusão de símbolos e signos; sons e movimentos; representações e construções ficcionais da realidade e ficção e, consequentemente, do "meio e mensagem" (Mc LUHAN, 1964). Não se trata, contudo, de supervalorizar o meio em detrimento da mensagem e nem de se atribuir ao conteúdo da mensagem um significado absoluto independente do meio, mas sim de valorizar a complementaridade meio/mensagem como uma possibilidade didática.

Assim, no cenário contemporâneo de uma educação científica para a cidadania, acreditamos que, como recurso didático, a videoarte pode fornecer

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interessantes possibilidades para a inserção da física moderna no ensino médio, integrando as diferentes dimensões: cognitiva, estética, cultural, social, semiótica e lúdica, ao processo de ensino e aprendizagem. Com esse intuito vislumbramos a continuidade desse trabalho com a apresentação das resenhas audiovisuais aos alunos do ensino médio, como um convite à leitura e a aprendizagem da física moderna, e a avaliação dessa proposta.

## Referências bibliográficas

BOGDAN, R.; BIKLEN, S. Investigação Qualitativa em Educação. Uma introdução à Teoria e aos Métodos . Lisboa: Porto Editora (Coleção Ciências da Educação), 1994.

BONETTI, M. C. A linguagem de vídeos e a natureza da aprendizagem , São Paulo. Dissertação de Mestrado (Ensino de Ciências, Modalidade Física) Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, Universidade de São Paulo, 2008.

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