Bandeira do Brasil: aula interdisciplinar de História, Filosofia e Ciência
Maria Helena Steffani, Claudia Vicari Zanatta, Kaléu Bioni Stéfano, Tamir Farina
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 23/01/2013
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Educação Não Formal
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## BANDEIRA DO BRASIL: AULA INTERDISCIPLINAR DE HISTÓRIA, FILOSOFIA E CIÊNCIA
Maria Helena Steffani , Claudia Vicari Zanatta , Kaléu Bioni Stéfano , Tamir 1 2 3 Farina 4
- 1 UFRGS / Instituto de Física, helena.steffani@ufrgs.br
- 2 UFRGS / Instituto de Artes, claudia.zanatta@ufrgs.br
- 3 UFRGS / Faculdade de Arquitetura, kaleubsg@gmail.com
- 4 UFRGS / Instituto de Artes, tamir.farina@hotmail.com
## Resumo
Espaços de educação não formal como museus, planetários, observatórios e centros de ciência são fundamentais para a difusão da ciência e da cultura. Nesses espaços informações científicas atualizadas são apresentadas em linguagem acessível tanto para a comunidade escolar quanto para o público em geral. Nos planetários é possível resgatar, especialmente para os urbanos, a visão do céu noturno, sem interferência da poluição luminosa e atmosférica das grandes cidades. Os recursos visuais de planetários podem reproduzir o céu observado a partir de qualquer ponto da Terra e em qualquer época do passado, presente ou futuro. Assim, é possível reproduzir o céu representado na Bandeira do Brasil, que corresponde ao do momento da Proclamação da República, às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de novembro de 1889, na cidade do Rio de Janeiro. Nossa bandeira, que foi idealizada pelo positivista Teixeira Mendes juntamente com Miguel Lemos e o professor de Astronomia Manuel Pereira Reis e cujo decreto de criação foi redigido por Rui Barbosa, é a única bandeira que apresenta uma profusão de estrelas e constelações. Lamentavelmente o povo brasileiro desconhece seus princípios e símbolos e, curiosamente erros conceituais persistem em livros didáticos e continuam sendo disseminados em sala de aula. Adicionalmente criamos, no Atelier de Cerâmica do Instituto de Artes da UFRGS, uma calota semiesférica em cerâmica com orifícios nas posições correspondentes às das estrelas da bandeira. A posição de cada orifício foi gerada a partir do software Blender 3D, que projeta a imagem plana sobre uma semiesfera facetada. Essa peça em cerâmica auxilia na compreensão do céu representado na Bandeira do Brasil - o céu visto do espaço - e é um recurso de expressivo valor didático especialmente na educação de deficientes visuais.
Palavras-chave : Astronomia, História, Positivismo, acessibilidade.
## Introdução
Em junho de 2012 as atenções do mundo voltaram-se para o Brasil, que sediou a que foi considerada a maior conferência sobre meio ambiente até então. Foram mais de 3.000 eventos disponibilizados para os cerca de 50 mil participantes. A presença de 94 lideranças mundiais pode ser um indicativo de que já houve o despertar de uma consciência da necessidade de tomadas de decisões abrangentes para o planeta como um todo. Mas, segundo a mídia internacional, a conferência privilegiou temas usuais como o aquecimento global e a economia verde e não houve avanço significativo para proteção dos oceanos, financiamento de políticas públicas de desenvolvimento sustentável e implantação dos objetivos do milênio. As
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20 a 25 de janeiro de 2013
questões ambientais envolvem muito mais do que decisões e tratados políticos. Envolvem principalmente uma reflexão do ser humano sobre si próprio e a natureza, mas num contexto muito mais amplo.
A Ciência é um dos pilares fundamentais para o entendimento das leis que regem a natureza e nos alerta contra os perigos introduzidos por tecnologias que alteram o mundo, especialmente o meio ambiente de que nossas vidas dependem. É, portanto, fundamental que a população tenha acesso à Ciência numa linguagem apropriada para sua faixa etária e nível de educação, sendo este um dos principais objetivos de atividades realizadas em espaços de educação não formal.
Walmir Thomazzi Cardoso (2010), presidente da Sociedade Brasileira para o Ensino de Astronomia, na apresentação do livro 'Educação em Astronomia experiências e contribuições para a prática pedagógica' escreve:
Ao encontrarmos um evidente interesse do ser humano pelo céu, talvez estejamos esquecendo que tudo isso é resultado de um complexo e maravilhoso conjunto de interações entre os homens e tudo o que os cerca. O céu está presente em todos os lugares do planeta, mas também a natureza próxima está em todos os lugares. Na realidade, céu e natureza são indistinguíveis em certas circunstâncias e na maior parte das condições. (CARDOSO, 2010)
O homem urbano já não tem contato com as belezas do céu noturno, devido, principalmente, à poluição luminosa nas grandes metrópoles. Planetários são espaços de educação não formal privilegiados, pois em suas cúpulas pode-se reproduzir o céu visto a partir de qualquer ponto da Terra e em qualquer data do passado, presente ou futuro. No Planetário da UFRGS, o equipamento óticomecânico Spacemaster, da Zeiss, reproduz com fidelidade científica um céu deslumbrante, como o daqueles lugares em que não há iluminação artificial. E esse contato com o céu desperta no expectador, independentemente da idade ou condição sócio-cultural, o encantamento pelo universo e a consciência de que a humanidade está viajando no espaço em uma bela e delicada nave - o planeta Terra.
Muito diversificados são os temas e atividades proporcionados pelos planetários brasileiros. Independentemente de sua localização geográfica, ou do tipo de equipamento utilizado, os programas de planetário privilegiam a abordagem interdisciplinar de temas científicos, especialmente astronômicos, através de uma linguagem apropriada para o público a que se destinam. Dentre estes temas destacamos o da Bandeira do Brasil, que é a única bandeira que apresenta uma profusão de estrelas e constelações. Um programa intitulado O Céu da Bandeira do Brasil foi produzido pela equipe do Planetário da Universidade Federal de Goiás em 2010 e distribuído para os planetários brasileiros (SOBRERA, 2010). Mas, apesar da beleza de nosso pavilhão nacional e da sua riqueza educacional, tanto em Astronomia quanto em conteúdos da área das ciências humanas, grande parte de seus simbolismos e significados ainda são desconhecidos por uma expressiva parte da comunidade escolar e do público geral. A aplicação de testes em professores do Ensino Fundamental e em entrevistas feitas no Planetário da UFRGS para o público em geral mostrou que a grande maioria das pessoas apenas relaciona a existência das estrelas aos estados brasileiros, desconhecendo os valores e conteúdos científico, histórico e cultural da Bandeira do Brasil.
As cores e elementos que compõem as bandeiras nacionais são símbolos que estão intimamente relacionados com a história e a cultura dos países e,
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portanto, trazem consigo muitos significados. Algumas bandeiras utilizam estrelas, mas sem correlação astronômica, como é o caso da bandeira dos Estados Unidos da América. Outras representam o Sol, como as bandeiras da Argentina e do Japão. A constelação do Cruzeiro do Sul, típica do hemisfério sul celeste, está presente em bandeiras como a da Austrália, Samoa Ocidental e Papua Nova-Guiné. A bandeira do Brasil é a única que exibe várias constelações e apresenta forte correlação com a Astronomia.
## Nossas bandeiras
A bandeira do Império do Brasil durante o Segundo Reinado apresentava, ao centro, a esfera armilar, a cruz da Ordem de Cristo e um círculo contendo estrelas, as quais representavam as províncias brasileiras (figura 1). Esse conjunto de símbolos era parcialmente emoldurado por um ramo de café e um de tabaco, principais culturas da época. À cima, a coroa real. As cores verde e amarela estavam relacionadas, respectivamente, à casa real de Bragança (da qual fazia parte o imperador D. Pedro I) e à casa real dos Habsburg (à qual pertencia a imperatriz Dona Leopoldina).
Figura 1: Bandeira do Brasil Império
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Em 15 de novembro de 1889, data da Proclamação da República, o Brasil passa a ter uma bandeira provisória, proposta pelo advogado Rui Barbosa (figura 2). Essa bandeira vigorou durante apenas quatro dias, quando foi vetada pelo Marechal Deodoro da Fonseca. Ela foi hasteada apenas na redação do jornal A cidade do Rio e no navio Alagoas , que conduziu a família imperial ao exílio, mas serviu de inspiração para bandeiras estaduais como as de Goiás, Sergipe e Piauí.
Figura 2: Bandeira provisória do Brasil República
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A onda anti-imperial, a filosofia positivista e a fuga a qualquer imitação foram os principais fatores que influenciaram a criação da nossa bandeira. O projeto foi idealizado por Teixeira Mendes e Miguel Lemos e sofreu influência de Benjamin Constant. A bandeira foi desenhada por Décio Vilares, mas foi o professor Manuel Pereira Reis o responsável pela configuração das estrelas.
- O significado dos símbolos da bandeira brasileira está descrito no documento Apreciação Filosófica escrito por Teixeira Mendes no Diário Oficial: a cor verde representa as florestas e a Casa de Bragança; a cor amarela, as riquezas e a Casa de Castela e de Lorena; a cor azul homenageia a história do Cristianismo e a Virgem Maria; a cor branca traduz os desejos de paz. A esfera corresponde a uma antiga representação de mundo, unindo Brasil a Portugal; o losango representa a mulher. O lema Ordem e Progresso , em nossa bandeira, tem origem na frase do filósofo positivista francês Augusto Comte, que tinha muitos seguidores no Brasil: O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim.
As constelações que estão representadas na bandeira correspondem ao céu do dia 15 de novembro de 1889, às 8h30min, na cidade do Rio de Janeiro: data, hora e local da Proclamação da República. Mas a representação da esfera celeste na nossa bandeira tem a Terra no centro, correspondendo assim ao céu visto por um observador localizado no espaço, fora da Terra. Isso acarreta uma dificuldade natural quando se comparam as constelações representadas na bandeira com as que vemos no céu. Por exemplo, a constelação do Cruzeiro do Sul, uma das mais facilmente identificadas no céu, parece estar invertida, como se fosse a imagem da constelação formada por reflexão em um espelho plano.
Cabe ressaltar que, ao identificar as estrelas da bandeira com as constelações, é importante salientar que uma constelação não é simplesmente um conjunto de estrelas que, vistas da Terra, parecem formar uma figura no céu. Em 1929, a União Astronômica Internacional dividiu todo o céu em 88 partes ou regiões - 88 constelações. Cada constelação corresponde, portanto, a uma área no céu, 'onde tudo o que estiver contido naquele determinado setor celeste deverá ser considerado como parte daquela constelação' (LANGHI, 2011).
Na bandeira, cada estrela representa um estado brasileiro, conforme ilustra a figura 3.
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Figura 3: Constelações representadas na Bandeira do Brasil e respectivos estados. (SANTIAGO et al, 2009)
- 1. Cão Menor (Amazonas)
- 2. Cão Maior (Mato Grosso, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins)
- 3.Carina (Goiás)
- 4.Virgem (Pará)
- 5.Hidra Fêmea (Mato Grosso do Sul, Acre)
- 6.Cruzeiro do Sul (São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo)
- 7.Oitante (Distrito Federal)
- 8.Triângulo Austral (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná)
9.Escorpião (Piauí, Maranhão, Ceará, Alagoas,Sergipe, Rio Grande do Norte, Pernambuco
## Metodologia
Além de contextualizar o momento filosófico e histórico que influenciaram a criação da nossa bandeira utilizamos um recurso didático criado no Atelier de Cerâmica do Instituto de Artes da UFRGS para facilitar a compreensão da representação das constelações da bandeira. Trata-se de uma casca semiesférica em cerâmica na qual foram feitos orifícios correspondentes às posições das estrelas. Assim, olhando através da superfície côncava (interna) da casca, o observador poderá ver as constelações como as vê aqui da Terra. Complementarmente, se o observador olhar através da superfície convexa (externa) da casca, verá as constelações como se estas pertencessem a uma esfera celeste cujo centro é a Terra e ele a observasse a partir de um ponto distante no espaço. Neste caso ele vê as estrelas e constelações como elas estão representadas na bandeira brasileira. Este recurso é significativamente didático para abordar essa representação na bandeira, a qual não é facilmente compreendida até mesmo por professores do Ensino Fundamental.
Outrossim, o manuseio tátil da casca esférica com orifícios nas posições correspondentes às estrelas representadas na bandeira permite que deficientes visuais percebam essas diferenças entre o céu visto por um observador aqui na Terra e por um observador localizado fora dela, supondo que as estrelas estão dispostas sobre uma esfera celeste.
Para gerar os orifícios na casca esférica de forma a preservar a distribuição espacial das estrelas que, na bandeira, estão dispostas sobre um círculo, foi necessário projetar a superfície plana do círculo azul da bandeira sobre uma superfície semiesférica. Com a utilização do software Blender 3D projetou-se a imagem do círculo em uma semiesfera facetada (Figura 4). Depois se utilizou o comando Unwrap para abrir a forma 3D de maneira que a imagem pudesse ser montada a partir de uma forma plana como um papel impresso (Figura 5).
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Figura 4: Tela do software Blender que projeta a imagem bidimensional em 3D.
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Figura 5 Imagem 3D projetada em papel para impressão e montagem.
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## Conclusões e comentários gerais
Segundo Sagan (1996), a maior dádiva da ciência talvez seja nos ensinar alguma coisa sobre o nosso contexto cósmico, sobre o ponto do espaço e do tempo em que estamos, e sobre quem somos nós. Esta reflexão ocorre naturalmente em planetários, espaços de educação não formal capazes de reproduzir, a qualquer hora do dia, as belezas do céu, sem interferência das condições climáticas ou da luminosidade e poluição nas cidades.
- A bandeira brasileira é um excelente recurso para uma discussão interdisciplinar envolvendo história, filosofia e ciência, que pode ser explorado em sala de aula de todos os níveis de ensino. Infelizmente os cidadãos brasileiros pouco sabem sobre o seu pavilhão nacional e, não raro, exibem conhecimentos equivocados sobre os elementos que o compõem, oriundos de erros em publicações de livros didáticos, principalmente do Ensino Fundamental.
- O recurso tátil apresentado neste trabalho pode auxiliar na apresentação e discussão desse tema com portadores de deficiência visual promovendo, assim, a inclusão social qualificada pelo conhecimento. Além de promover o aumento da autoestima pessoal, esta atividade desperta, no grupo, o interesse pela ciência.
## Referências
CARDOSO, Walmir Thomazzi. Apresentação. In: Educação em Astronomia: experiências e contribuições para a prática pedagógica. Organizador: Marcos Daniel Longhini. Campinas, SP: Editora Átomo, 2010.
LANGHI, Rodolfo. Aprendendo a ler o céu: pequeno guia prático para Astronomia Observacional. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2011.
OLIVEIRA FILHO, Kepler de Souza e SARAIVA, Maria de Fátima Oliveira. Astronomia e Astrofísica . Porto Alegre, RS. Ed. Universidade/UFRGS, 2.000.
SAGAN, Carl, O Mundo assombrado pelos demônios : a ciência como uma vela acesa no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
SANTIAGO, B. X. et al , Em casa, no Universo . Porto Alegre: UFRGS, 2009.
SOBRERA, P. H. A. et al , O céu da bandeira do Brasil - programa de planetário. Goiás, GO. 2010. http://www.ufg.br/page.php?noticia=5778. Acesso em 30/julho/2012.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.