TEXTOS FICCIONAIS NO ENSINO DE FÍSICA GERAL: UMA PROPOSTA CONECTANDO TÓPICOS DE MECÂNICA E ASTRONOMIA
Luciano Castro
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 23/01/2013
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## TEXTOS FICCIONAIS NO ENSINO DE FÍSICA GERAL: UMA PROPOSTA CONECTANDO TÓPICOS DE MECÂNICA E ASTRONOMIA
## Luciano Adley C. Castro 1,2
1 Instituto Federal Norte de Minas Gerais, luciano.adley@ifnmg.edu.br
- 2 Programa Interunidades em Ensino de Ciências - IFUSP, lucianoadley@yahoo.com.br
## Resumo
As narrativas ficcionais têm sido apontadas como um importante recurso didático para o ensino de ciências e, em particular, de Física. Entretanto, em nossos cursos universitários de física básica, tal recurso é ainda pouco explorado. No presente trabalho, apresenta-se uma proposta de texto narrativo ficcional como parte integrante da disciplina Física Geral I. A narrativa elaborada relata a viagem de dois astronautas, Isaac e Albert, que partem da Terra rumo a Júpiter. No correr do texto, esses personagens passam pela Estação Espacial Internacional e atingem o cinturão de asteroides, onde se dá o clímax da estória. Entremeando a narrativa, apresentam-se e são aplicados àquele contexto as leis fundamentais da mecânica newtoniana e noções de astronomia e astrofísica. Para produzila, empregou-se a proposta de estruturação de Labov, constituída de seis elementos estruturadores da narrativa, assim como elementos da Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud. Nossos primeiros resultados qualitativos, em concordância com o que aponta a literatura correlata, confirmam a potencialidade desse recurso.
Palavras-chave : Narrativa ficcional. Física Geral.
## Introdução
Em vários dos livros-texto que usualmente são utilizados como bibliografia básica para os cursos introdutórios de Física em nossas universidades, alguns já clássicos e por diversas vezes reeditados, ao ser tratado o tema da Gravitação Universal, apresenta-se a lei de Newton para a força de interação gravitacional entre duas partículas, obtém-se a partir dessa lei de força a expressão para a energia potencial do sistema por elas constituído e, como aplicação, faz-se o tratamento das órbitas de satélites e planetas, abordando-se em concomitância as leis de Kepler.
Em nossa experiência como aluno de graduação em Física, em meados da década de 1980, e também de docente, nos dias de hoje, temos testemunhado que sequenciamentos didáticos similares ao acima citado, classificados como tratamentos quasi-históricos (WHITAKER, 1979), assim como a reconstrução racional da história da ciência (LAKATOS, 1978), empregados por alguns autores no processo de didatização (FORATO; PIETROCOLA; MARTINS, 2011) dos temas de mecânica, presentes no currículo dos nossos cursos universitários de física básica, em muito contribui para que os alunos, além de um compreensível desapreço por esse componente curricular, perseverem na manutenção de concepções alternativas e de estéreis esquemas memorizados (LANGHI, 2011; PEDROCHI; NEVES, 2005).
Além disso, deve-se assinalar que, ao menos nos últimos cento e cinquenta anos, desde que Júlio Verne escreveu, em 1863, o livro Cinco Semanas em um Balão , o gênero da narrativa ficcional, contendo elementos especulativos contrafactuais (ECO, 1989) e permeado pelo discurso científico, tornou-se popular e
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20 a 25 de janeiro de 2013
profícuo nos meios literário e cinematográfico, incorporando-se definitivamente às formas de expressão cultural de nossa civilização, muito especialmente no chamado 'mundo ocidental'.
Tendo em conta tais experiências e indicações da literatura, elaboramos um texto narrativo, ficcional, cujo título é Isaac e Albert Perdidos no Espaço , com o objetivo de apresentar e explorar temas de astronomia e astrofísica no contexto da mecânica newtoniana, distintamente do que é comum nos livros-texto já citados, nos quais a Gravitação Universal é tratada como se fora um apêndice.
## Fundamentação Teórica
O estudo do potencial das narrativas ficcionais como recurso para o ensino de ciências, embora ainda fortemente ambientado nos níveis fundamental e médio de ensino, já aponta referenciais teóricos e elementos balizadores razoavelmente confiáveis para que se possam utilizá-las, também, nos cursos universitários,
Um desses referenciais, capaz, ao nosso ver, de guiar a estruturação de uma narrativa ficcional com fins didáticos, apontado por Ribeiro e Martins (2007), ampara-se nos trabalhos de William Labov, considerado o fundador da sociolinguística variacionista , disciplina que tem por objetivo determinar a estrutura da linguagem - suas formas e organização subjacentes - e conhecer o mecanismo e as causas da mudança linguística. O Quadro 01 seguinte sumariza os elementos estruturadores da narrativa ficcional, segundo Ribeiro e Martins (2007, p. 297).
Quadro 01 : Elementos Estruturadores de uma Narrativa.
Na concepção teórica de Labov, o abstract funciona como uma introdução e serve para indicar ao leitor, sucinta e superficialmente, a natureza e o conteúdo do texto narrativo que se seguirá, assim como para despertar-lhe o interesse por sua leitura. A orientação é a parte da narrativa que situa o leitor quanto ao tempo, pessoas-personagens, lugares e ambientação, necessários, segundo o narrador, para a compreensão dos eventos que serão por ele narrados. A complicação é o conteúdo em si da narrativa e materializa-se nos fatos acontecidos. A avaliação , comumente uma interrupção da narrativa propriamente dita, visa revelar a posição, manifestação opinativa ou reflexiva do narrador em face daquilo que está narrando, assim como pôr em destaque determinadas unidades narrativas. A resolução , por seu turno, traz a 'solução' para um 'conflito' ou 'impasse dramático' que foi tecido na narrativa. Por fim, na coda , elemento considerado opcional, o narrador reporta-se diretamente ao seu leitor, trazendo a temporalidade do discurso ao tempo presente e encerra a narrativa.
Mais especificamente, em se tratando da narrativa ficcional que tem uma intencionalidade didática definida e premeditada, na qual o atributo de ficção recairá somente sobre personagens e suas ações, devendo ser resguardado o teor
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científico que por meio dela se pretende facilitar o aprendizado, e entendendo que o estudante-leitor deverá ter a sua compreensão desafiada enquanto a lê, devemos considerar, também, além dos seis elementos (Quadro 01) que definem a espacialidade da superfície textual de tal narrativa, o campo conceitual , no sentido de Vergnaud, abrangido por ela, e os correspondentes conceitos que dotarão cada um dos seus elementos estruturadores das dimensões de localidade e profundidade.
Nesse sentido, segundo Moreira (2002), Vergnaud denota a noção de conceito como sendo um tripleto de três conjuntos C = (S, I, R) no qual: S é um conjunto de situações que dão sentido ao conceito; I é um conjunto de invariantes (objetos, propriedades e relações) sobre os quais repousa a operacionalidade do conceito, ou o conjunto de invariantes operatórios associados ao conceito, ou o conjunto de invariantes que podem ser reconhecidos e usados pelos sujeitos para analisar e dominar as situações do primeiro conjunto; R é um conjunto de representações simbólicas (linguagem natural, gráficos e diagramas, sentenças formais, etc.) que podem ser usadas para indicar e representar esses invariantes e, consequentemente, representar as situações e os procedimentos para lidar com elas.
## A estruturação da narrativa proposta
Guiando-nos pelos balizadores apresentados na seção anterior, estruturouse o texto que ora apresentamos sob forma de uma narrativa ficcional, contendo os seis elementos estruturadores de Labov e tendo por núcleo do seu enredo temático a viagem de dois personagens, Isaac e Albert, os quais, a bordo da nave denominada IA1, partem da Terra rumo a Júpiter.
Ao longo da narrativa, vamos inserindo os conjuntos S, I e R que, segundo Vergnaud, delineiam os conceitos de mecânica que pretendemos apresentar e construir. A versão final do texto, incluído o abstract , foi dividida em sete seções, as quais estão descritas no Quadro 02 a seguir.
Quadro 02 : Elementos estruturadores da narrativa proposta.
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- · Veículos Lançadores de Foguetes (VLS)
- · Análise da posição, velocidade e aceleração de uma nave espacial em uma condição real de lançamento (Nave Atlantis , em 11/05/2009).
- Seção 3: Isaac e Albert passam pela Estação Espacial Internacional (ISS) e observam o trabalho de alguns de seus tripulantes.
- · O equipamento Manned Maneuvering Unit (unidade de manobra operada pelo astronauta ou, abreviadamente, MMU).
- · Análise do movimento do centro de massa de um astronauta que se move por meio de uma MMU.
- · Relação entre a Terceira Lei de Newton e o Princípio de Conservação do Momento Linear .
- · Determinação do centro de massa de um sistema de partículas.
- · Problema de dois corpos : análise do movimento de um sistema com duas massas conectadas entre si por uma mola, no vácuo e em estado de imponderabilidade.
- · Caracterização de forças internas , e xternas , e impulsivas à luz da conservação do momento linear.
- · Estudo do movimento do centro de massa de um sistema de partículas .
- · O método da massa reduzida de um sistema de partículas.
## Seção 4: O perigoso cinturão de asteroides
- · Cálculo da propulsão em sistemas de massa variável (foguete).
- · Distância percorrida e velocidade instantânea de um foguete.
- · Diálogo entre Isaac e Albert sobre buracos negros .
- · Estudo de uma colisão bidimensional .
- · A ' força de empuxo' empregada nas áreas das engenharias aeronáutica e aeroespacial.
- · Propriedades físicas gerais de um buraco negro .
## Seção 5: Na volta à Terra, de três, uma!
- · Órbitas possíveis em um campo de força central .
- · Discussão das concepções 'operacional' e 'formal' de peso .
- · Caracterização do estado de imponderabilidade em face das expressões polissêmicas 'gravidade zero', 'zero g', etc.
- · Descrição da órbita elíptica e da segunda lei de Kepler a partir da equação polar geral das cônicas .
## Seção 6: Epílogo.
- · A velocidade no perigeu e trajetórias possíveis.
- · Satélites geoestacionários
.
## Seção 7: Aprofundamento.
- · Equações do movimento de uma partícula em um campo de força central, expressas em coordenadas polares .
- · A relação entre a segunda lei de Kepler e o momento angular de uma partícula.
- · Obtenção da segunda lei de Kepler para uma órbita elíptica .
- · Correção da expressão da terceira lei de Kepler via massa reduzida do sistema.
- · Medida da massa de um astronauta em órbita .
- · Mecanismo para a mudança de órbita .
- · Efeitos perturbadores da órbita de satélites artificiais.
Como parte da microestrutura das seções discriminadas no Quadro 02, em vários momentos da narrativa, abrimos espaço para que Isaac e Albert dialoguem, fazendo-o em tom bastante informal, quase caricato, no sentido de cativar a atenção do leitor e abrandar um pouco o rigor formal que é utilizado em outras partes do texto. Para ilustrar essa microestrutura, transcreve-se a seguir (diferenciado pela fonte Times New Roman ) um excerto da quarta seção de nossa narrativa, inspirado, em parte, nos textos de Castiñeiras et al (2006) e de Damasio e Pacheco (2009).
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## Complicação
## Avaliação
## Resolução
## Coda
## Um bate-papo sobre um 'buraco' muito especial
Tendo incrementado a velocidade da nave IA1, mas respeitando os limites de 'empuxo' e da taxa de exaustão de combustível que discutimos na subseção 3.1, Isaac e Albert ajustam o curso da nave rumo a Júpiter e acionam o seu 'piloto automático'. Podem, enfim, dedicar-se a um assunto pelo qual compartilham o mesmo gosto: gravitação e cosmologia.
Figura 01: Isaac, uma representação artística de um buraco negro e Albert.
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Nesse contexto, Isaac e Albert passam a discutir algumas hipóteses acerca dos buracos negros (Figura 01), os quais foram propostos teoricamente por Oppenheimer e Snyder, em 1939. Embora tenha um conhecimento básico sobre este tema, Isaac sente-se inseguro quanto a certos conceitos relativos a ele e não hesita em obter de Albert algumas explicações, uma vez que este, ao contrário do colega de viagem, é especialista nesse campo.
- · Albert, o que seriam os buracos negros?
- · Bem Isaac, vejamos. Imagine uma região do espaço tal que a força atrativa gravitacional seja tão intensa que qualquer raio de luz que dela se aproxime seja 'obrigado a descrever uma trajetória circular' e da qual nem matéria, nem radiação podem escapar e mais, com a qual, ou para a qual, não se poderia estabelecer qualquer tipo de comunicação, de qualquer espécie que seja... Esta região seria um buraco negro!
- · Estranho Albert, muito estranho, não é mesmo?
- · Sim, Isaac, de fato. As propriedades de tais estruturas do universo, digamos assim, fogem muito da nossa intuição ou do que 'vemos' nos domínios da nossa física clássica e cotidiana.
- Tanto mais quando consideramos que o espaço e o tempo 'encurvam-se' no campo gravitacional de corpos muito 'massivos' (de grande massa) e que esta curvatura acentua-se enormemente nas vizinhanças de um buraco negro.
- · E daí?! - pergunta Isaac.
- · Ora, a gravidade afeta todos os sistemas físicos de maneira universal!
- · Com isso, eu concordo, concordo mesmo! - intervém Isaac.
- · Desse modo - prossegue Albert - as medidas que pudessem ser feitas com qualquer relógio, seja atômico ou biológico, como a pulsação do nosso coração, e com qualquer tipo de régua ou compasso, indicariam que o 'tempo alentece' (passa mais devagar) e que os comprimentos ficam 'dilatados' nas vizinhanças de um buraco-negro.
- · É, não sei não, Albert... Essa coisa de espaço e tempo relativos me deixa muito, muito desconfortável... Prefiro aqueles corpos celestes mais bem comportados e sujeitos ao tempo e espaço absolutos, para os quais basta a lei de força atrativa com o inverso do quadrado da distância e com ela as propriedades de tais corpos ficam muito bem determinadas...
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- · Sim, meu amigo, mas lembre-se de que, pensando apenas desta forma, até hoje você não conseguiu resolver o problema da precessão do periélio da órbita de mercúrio, não é mesmo?
- · Tá, tá, tá certo - resmunga Isaac. Mas, e quanto à origem deles (dos buracos negros), qual seria?
- · Até agora, segundo as previsões da Teoria da Relatividade Geral (TRG), o mais plausível é que eles correspondam à fase final da vida de algumas estrelas. Lembremos que uma estrela, durante toda a sua vida, está submetida a dois 'esforços' contrários: a pressão térmica advinda do calor gerado pelas reações nucleares em seu interior, que as 'empurra para fora', e a sua própria gravidade, que tende a fazer com que se contraiam (Figura 02).
Figura 02: Sequência simplificada das etapas de formação de um buraco negro.
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- · Sim, parece razoável. Então, caro Albert, você está conjecturando que, em alguns casos, ao final da vida de determinadas estrelas, a força gravitacional acaba por vencer a 'força centrífuga' gerada pela pressão térmica de seu interior e faz com que elas sofram um colapso gravitacional e reduzam drasticamente o seu diâmetro? - afirma e, ao mesmo tempo, pergunta Isaac, em tom eufórico.
- · E quais são as estrelas mais qualificadas a se tornarem buracos negros?
- · Aquelas cuja massa seja mais do que o triplo da massa do nosso Sol, afirma Albert categoricamente. Tem sido frequente, inclusive no centro da Via Láctea, a identificação de Sistemas Binários de Estrelas, podendo uma delas 'ser' um buraco negro. O primeiro forte candidato foi localizado em Cygnus X-1. Trata-se de uma fonte variável de raios X, na constelação do Cisne, observada pela primeira vez em 1964.
Figura 03 : Sistema binário de estrelas e um buraco negro em rotação.
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Neste caso (Figura 03), a estrela supergigante HDE 226868, com cerca de trinta massas solares, faria parte de um sistema duplo que contém também uma 'estrela morta' (ou seja, que não emite luz por falta de combustível nuclear), com cerca de dez massas solares. A matéria da supergigante estaria sendo gradativamente 'sugada', formando-se, em decorrência, o que se chama 'disco de acreção' ao redor da companheira invisível, o suposto buraco negro. Enquanto a estrela supergigante emite luz visível, a região interna do disco de acreção emite raios X, devido às altas temperaturas que atinge.
- · E quanto ao tamanho de um buraco negro - questiona Isaac - como calculá-lo? Ah!... Já sei! Basta admitir que o buraco-negro seja esférico, de raio R, tendo massa M igual a três vezes a
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massa do Sol e considerar o fato de que a própria luz, mesmo tendo a velocidade 'c' que tem, não consegue 'escapar' do seu interior. Colocando-se tudo isso na expressão Eq.1 [apresentada na subseção 1.1], eu encontro o raio do 'raio do buraco', ou seja:
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- · Incrível, Albert - continua Isaac, em um estado de êxtase pela descoberta feita - uma massa gigantesca e concentrada em uma superfície com apenas 9 km de raio! É isso, não é? O meu resultado está corretíssimo, não concorda Albert?
- · Bem, Isaac, numericamente o seu resultado está correto. Este é um valor aceitável para o possível raio de um buraco negro e é denominado Raio de Shwarzschild, o qual definiria uma superfície esférica denominada Horizonte de Eventos do buraco negro; mas tenho que advertir: foi uma concordância 'acidental'! A mecânica newtoniana, da qual, aliás, você gosta muito, assim como a Eq.1, decorrente dela, não é aplicável em tais contextos. O valor que você encontrou é calculado de modo conceitualmente correto mediante a aplicação do formalismo da TRG, que é bem mais sofisticado que o das leis de Newton - provoca Albert.
- · E apoiado em muitas, muitas e muitas conjecturas, não é mesmo Albert? - retruca Isaac, lançando para o amigo um olhar bem ao estilo newtoniano...
## Primeiros resultados e expectativas decorrentes
O texto ficcional Isaac e Albert Perdidos no Espaço , descrito neste trabalho, foi utilizado, no primeiro semestre de 2012, por alunos de Física - Licenciatura em uma universidade pública, como apoio à disciplina Física Geral I, logo após a apresentação das leis de Newton, conforme o livro-texto para ela adotado.
Nessa utilização, inicialmente, apresentamos aos estudantes o nosso texto ficcional, solicitando deles uma primeira leitura exploratória, feita em duplas, e que, também, anotassem as dificuldades de compreensão encontradas na primeira leitura. Em um segundo momento, em seis aulas consecutivas, retomamos cada uma das seções em que se subdivide o texto e discutimos com os alunos as dúvidas que relataram, buscando esclarecer os aspectos conceitualmente mais difíceis abordados no texto (Quadro 02).
Por fim, na sétima aula destinada à exploração do nosso texto, abrimos espaço para que os estudantes, assumindo a condição de leitores de uma obra ficcional, opinassem livremente sobre indicadores relativos ao enredo que demos à trama, ao grau de acessibilidade vocabular do texto e, também, quanto ao nível de dificuldade do formalismo matemático nele empregado. Sobre esse último indicador, algo que já esperávamos, cerca de metade dos alunos considerou que as manipulações algébricas envolvendo o cálculo diferencial e integral 'estavam muito puxadas', no seu próprio dizer. Por outro lado, os dois primeiros indicadores obtiveram apontamentos bastante positivos, gerando afirmações como 'A estória foi bem bolada e prendeu a atenção até o final', e ainda: 'Professor, o senhor vai escrever outro texto pra gente estudar as outras matérias de Física I também'?
Embora sejam estes aqui relatados somente os primeiros passos de uma árdua caminhada, esta de buscarmos - audaciosamente diríamos - alternativas para a didatização de certos componentes curriculares da física básica em nossas graduações, tais passos nos tem convencido fortemente de que:
[...] é na leitura crítica que a irrealidade da ficção se torna realidade sociocultural, já que toda obra literária fala da experiência humana de forma
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legítima, travestindo a realidade em fantasia. Nesse sentido, permite colocar o estudante frente à obra ficcional como um leitor crítico e levá-lo a questionar sua própria experiência vivida com os conceitos da ciência no contexto da vida humana. (PIASSI; PIETROCOLA, 2009, p. 538).
## Referências
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FORATO, T. C. DE M.; PIETROCOLA, M.; MARTINS, R. DE A. Historiografia e natureza da ciência na sala de aula. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 28, n. 1, 2011.
HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentals of Physics . Nova York: John Wiley & sons, 1994.
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PIASSI, L. P.; PIETROCOLA, M. Ficção Científica e Ensino de Ciências: para além do método de encontrar erros em filmes. Educação e Pesquisa , v. 35, n. 3, 2009.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.