PERSPECTIVAS SOCIOCULTURAIS NO USO DA CANÇÃO NO ENSINO DE FÍSICA: UTILIZANDO O ROCK PARA DEBATER QUESTÕES INERENTES ÀS MISSÕES ESPACIAIS E AOS PARADOXOS TEMPORAIS.
Emerson Ferreira Gomes, Luís Paulo De Carvalho Piassi, Jéssica Fernandes
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Ciência, Cultura E Arte
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PERSPECTIVAS SOCIOCULTURAIS NO USO DA CANÇÃO NO ENSINO DE FÍSICA: UTILIZANDO O ROCK PARA DEBATER QUESTÕES INERENTES ÀS MISSÕES ESPACIAIS E AOS PARADOXOS TEMPORAIS.
Emerson Ferreira Gomes 1 , Luís Paulo Piassi , Jéssica Fernandes 2 3
1 Universidade de São Paulo/Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, emersonfg@usp.br
- 2 Universidade de São Paulo/Escola de Artes, Ciências e Humanidades, lppiassi@usp.br
- 3 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, jessica.fernandes@usp.br
## Resumo
A música como uma linguagem que possibilite atividades de ensino-aprendizagem nas aulas de ciências é um tema que vem sendo debatido em alguns trabalhos de eventos e em publicações da área. Esta pesquisa pretende contribuir com esse diálogo entre arte e ciência, especificamente no que tange ao uso do rock em sala de aula. Analisaremos uma situação em sala de aula, ocorrida na disciplina Ciências da Natureza, do Ciclo Básico dos cursos de graduação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Nessa situação, o assunto abordado eram os paradoxos temporais, decorrentes da Teoria Especial da Relatividade. Sendo assim, foi utilizada a canção '39', do conjunto inglês Queen, em que essa temática estava implícita no discurso da música. Dessa forma, utilizando os referenciais socioculturais, especialmente a abordagem comunicativa estabelecida por Mortimer e Scott (2003), identificamos elementos no discurso dos estudantes que estabeleçam relações entre a ciência com a sua epistemologia e história.
Palavras-chave : Abordagem Comunicativa, Arte e Ciência
## Introdução
A música como uma linguagem que possibilite atividades de ensinoaprendizagem nas aulas de ciências é um tema que vem sendo debatido em alguns trabalhos de eventos e em publicações da área de Ensino de Ciências, temos identificado trabalhos que utilizam essa interface como: uma forma de refletir historicamente sobre a relação entre arte e ciência (MOREIRA e MASSARINI, 2006); uma forma de aproximar a cultura científica e a cultura popular (PUGLIESE e ZANETIC, 2007; BERNARDO, ANTONIOLI e QUEIROZ, 2010); um instrumento estimulador de aprendizagem (RIBAS e GUIMARÃES, 2004).
Entendemos que o uso de um produto cultural, como uma canção no ensino de ciências, além de permitir avaliar o conhecimento conceitual do estudante permite contextualizar as questões epistemológicas e histórico-sociais inerentes ao conhecimento científico. Por conta disso utilizaremos referenciais socioculturais que levem em conta: a relação entre linguagem, pensamento e interação (VIGOTSKI, 2001), e a análise da fala (MORTIMER; SCOTT, 2003).
No caso deste trabalho, analisaremos uma situação em sala de aula, em que, foi utilizada a canção '39', do conjunto inglês Queen, em que temáticas relacionadas aos paradoxos temporais, decorrentes da teoria da relatividade, estão implícitas no discurso da música.
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## Uma metodologia de análise, a abordagem comunicativa
A abordagem comunicativa, estabelecida por Mortimer e Scott (2003, p. 33), estabelece uma abordagem sociocultural para analisar a fala em sala de aula. Para os autores, este método fornece a perspectiva de como o professor trabalha com as intenções e o conteúdo do ensino por meio das diferentes intervenções pedagógicas. Essa abordagem possui quatro classes: Interativo/ dialógico, em que o professor e os estundantes 'consideram e trabalham diferentes pontos de vista'; Não-interativo/dialógico: em que há reconsideração da fala por parte do professor; Interativo/ de autoridade: cujo 'ponto de vista específico ' é conduzido pelo docente; e Não interativo/ de autoridade, em que o professor apresenta um ponto de vista específico.
Os autores complementam ainda que, o discurso entre os estudantes e o professor possui padrões de interação que podem ser exemplificadas por tríades IR-F, em que I é a iniciação do professor; R é a resposta do estudante; e F é a avaliação ou feedback (reelaboração da fala) do professor. Além disso, outros padrões podem aparecer:
Por exemplos, em algumas interações o professor apenas sustenta a elaboração de um enunciado pelo aluno, por meio de intervenções curtas que muitas vezes repetem parte do que o aluno acabou de falar, ou fornecem um feedback para que o estudantes elabore um pouco essa fala. Essas interações geram cadeias de turnos não triádicas do tipo I-R-P-R-P... ou I-RF-R-F.... onde P significa uma ação discursiva de permitir o prosseguimento da fala do aluno e F um feedback para que o aluno elabore um pouco mais sua fala (MORTIMER; SCOTT, 2002, p. 288).
Essa metodologia norteará a análise do discurso da fala dos estudantes, identificando de que forma o processo dialógico no uso da canção ocorre em sala de aula. Dessa forma, utilizaremos a abordagem comunicativa para verificar de que forma ocorrem as interações entre grupos de estudantes, identificando os pressupostos vigotskianos de trabalho em colaboração entre os estudantes.
## A canção '39' e sua instância de produção
A canção que foi utilizada neste trabalho foi lançada em 1975, no álbum 'A Night At The Opera', pelo conjunto de rock inglês Queen. Conforme relata o astrônomo e educador estadunidense Andrew Fraknoi (2006, p. 12), tal canção trata de uma 'expedição interestelar' submetida a velocidades relativísticas.
A melodia da canção remete à sonoridade da canção country, estilo que, segundo Friedlander (1996, p. 36), possuía em suas letras temas típicos eram relacionados ao 'cotidiano do homem simples' em viagens, andanças, problemas, amores, etc. No caso desta canção, podemos identificar que as temáticas relacionadas às viagens, andanças e um clima de saudosismo, está presente no enunciado da canção. No entanto, os personagens são caracterizados como 'bravas almas', denotando heroísmo em seus atos. Outro ponto que podemos identificar é que a letra não explicita a viagem espacial, e sim, uma expedição voluntária, remetendo inclusive ao passado, das grandes navegações. Esses pontos serão discutidos com os alunos posteriormente.
- O álbum que contém a canção demonstra de diversos gêneros musicais. Além do country, estilos como o blues, a ópera, a música de concerto, o experimentalismo e o burlesco aparecem nas diversas canções.No entanto, a
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canção '39' é a única que apresenta um som mais acústica, que remete a uma sonoridade rural, como a do country ou do blues. Além disso, é válido notar que esses gêneros são tradicionalmente associados aos Estados Unidos da América. O que nos leva a seguinte questão. Os Estados Unidos não fizeram expedições com navegantes voluntários, afinal eles não participaram das grandes navegações. O que nos leva ao contexto histórico em que a canção foi lançada.
- O momento histórico na metade da década de 1970 coincide com a consolidação estadunidense na corrida espacial, com o final das missões Apollo para a exploração lunar (LEVINE, 1994, p. 203). Nessa época, é possível observar diversos artistas que tratavam de temas relacionados à exploração espacial em suas músicas, canções e até nas capas de seus discos (MACAN, 1997, p. 82). No caso desta canção do Queen, a sua melodia remete a um estilo tipicamente estadunidense, país em que as navegações por 'outras terras', ocorreram em suas missões espaciais, que de forma implícita justifica a escolha desse gênero musical para a canção.
Quanto aos conceitos relativísticos evidenciados na canção, podemos identificá-los nos versos 'Oh, tantos anos se passaram/Embora eu tenha envelhecido pouco mais do que um ano' e 'Você não ouviu meu chamado?/Embora você esteja muitos anos longe' (MAY, 1975). Neste caso, é descrito o fenômeno de dilatação do tempo. Tal fenômeno, demonstrado pela teoria especial da relatividade de Einstein, ocorre quando corpos atingem velocidades próximas à da luz. Neste caso o tempo de um corpo em movimento - no caso os tripulantes em suas naves espaciais - passa mais lentamente quando comparado com o tempo de um corpo em repouso -representado pelos habitantes do planeta Terra, incluindo evidentemente os familiares e descentes dos voluntários em missões espaciais.
Um fato que não pode ser desconsiderado, que foi levado em sala de aula, é a formação do compositor dessa canção, o guitarrista e vocalista Brian May. Esse músico possui formação de astrônomo (FRAKNOI, 2006, p. 12) e defendeu seu doutorado em astrofísica em 2007. Essa formação repercutiu na presença constante da temática espacial e astronômica nas canções do Queen.
## A situação em sala de aula
Esta pesquisa foi realizada com estudantes ingressantes nos cursos de graduação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, localizada no campus USP Leste. Os ingressantes devem cursar determinadas disciplinas pertencentes ao Ciclo Básico, que caracterizam aspectos multidisciplinares às graduações, e a disciplina de 'Ciência da Natureza' é uma das que compõe a grade curricular do Ciclo Básico. No caso do curso em questão, iniciado em fevereiro de 2012, o tema escolhido pelo docente foram questões relacionadas à exploração especial, identificado de que forma a física e a astronomia contribuíram para a evolução e consolidação das missões espaciais e sua relação com a sociedade. Para isto, o docente utilizou diversos produtos culturais - que eram objetos de pesquisa do docente e de seu grupo de pesquisa - como filmes, canções e textos literários que realçavam esse diálogo.
Até o momento dessa atividade, os temas relacionados à Teoria Especial da Relatividade haviam sido tratados com a leitura de trechos de obras literárias. No entanto, até então, não houve uma oportunidade de uma atividade dialógica durante a interação entre o professor e os estudantes. A situação foi iniciada pelo docente -
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representado pela letra P -, respondida por um grupo de estudantes (ou algum aluno não identificado pelo vídeo), representados pela letra A:
- P: Antes de falar da música, ou seja, antes de eu falar da letra da música, eu queria perguntar uma coisa para vocês. A melodia dessa música lembra que tipo de música?
- A: Country
- P: Country, né?! Não exatamente rock, country né?! Que é um pouco diferente de rock, certo? Existe um contexto sócio histórico que está associado ao rock. O country é uma música urbana ou rural?
- A: Rural
- P: E ela possui uma localização geográfica, num lugar, de origem, país?
- A: Estados Unidos
- A: Sul dos Estados Unidos
- P: No sul dos Estados Unidos. Essa banda é do sul dos Estados Unidos?
- A: Não.
- P: Hã
- A: Inglesa, britânicos
- P: Essa é uma banda britânica, e ela é uma banda de origem rural ou urbana?
- A: Urbana
- P: Então tem uma certa dissonância entre o que é dito, ou seja, o que é dito através da melodia e a própria origem da banda. Será que isso tem alguma coisa a ver com essa história ou não?
- [...]
- P: Então eu quero que vocês se reúnam em grupo e tentem interpretar essa história, e depois cada grupo vai falar um pouquinho sobre ela para mim, tá bom
Verificamos neste trecho que ao iniciar a sua atividade o professor conduz a situação em padrões de tríades I-R-F (Iniciação-Resposta-Feedback) e nesse feedback conduz seus estudantes a chegarem num ponto de vista específico, que caracteriza uma abordagem interativa/de autoridade. O professor inicialmente contextualizou a instância de produção, identificando a banda, o ano e o compositor da canção e após os estudantes ouvirem a canção, estabelece uma interação triádica de modo que os estudantes situem o contexto que a canção possa evocar. Após esse momento, estabelece como objetivo que os estudantes estabeleçam relação entre o tema da canção e o contexto histórico.
Os estudantes foram divididos em grupos o professor solicitou para que eles interpretassem a letra e expusessem seus pontos de vistas acerca da canção. Os grupos estão numerados e o nome dos estudantes é fictício:
- P: Conclusões?
- A: Sim.
- P: Quero ouvir as conclusões. E aí, de repente, um falando o outro vai complementando. Quem vai falar primeiro?
- A: Alfredo.
- P: Alfredo?
- A1 (Alfredo): Não, deixa para outro grupo.
- P: Não não, faço questão.
(Grupo 1)
José: Nosso grupo chegou a conclusão de que 39 não é um ano certo.
Cláudio: Não é um ano qualquer.
José: Tipo, 2039 é o futuro. Ele fala aqui também que voluntários saíram e que as terras eram poucas. Então um estava com uma escassez de recursos naturais e eles foram para o espaço para buscar novos recursos.
Alfredo: Eles viajaram no tempo. Olha só (lê a letra da canção) 'tantos anos se passaram, embora eu tenha envelhecido pouco mais do que um ano'.
José: Buscar vida fora da Terra.
- P: Vida fora da Terra?
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Cláudio: Vida não, acho que é mais um... Lucas: Buscar novos planetas. Cláudio: Um lugar habitável. Cíntia (integrante do grupo 2): Eu não concordo.
P: Mas isso está escrito nessa história aí? Quem concorda com isso?
P: Cíntia, discorde então, vamos ouvir, ou o grupo.
Neste excerto de aula, o professor inicia a discussão com os estudantes, de forma que os estudantes estabeleçam suas conclusões a respeito da letra e um grupo - formado por José, Cláudio, Alfredo e Lucas - inicia sua exposição. O debate inicial entre os estudantes forma um padrão de interação I-R-F-R-F, em que José inicia com suas hipóteses, tentando situar temporalmente a canção e Alfredo complementa, lendo o trecho da canção, em que aparece o a hipótese sobre a viagem no tempo. Em seguida, José conclui que os personagens da canção estavam à procura de vida fora da Terra. Até esse momento, os estudantes consideram e trabalham seus pontos de vista, em que se verifica uma abordagem interativa/dialógica entre os estudantes. Ao professor questionar a hipótese de 'buscar vida fora da Terra', elaborada por José, o feedback dado por Cláudio e por Lucas ressaltam uma abordagem interativa/de autoridade, tendo em vista que o professor conduziu os estudantes e refletirem e reconsiderarem suas hipóteses. Em seguida observa-se a interação entre os diferentes grupos:
(Grupo 2)
Cíntia:Fale aí Luana
Luana: A gente fez um paralelo com um soldado, voltando lá na Segunda Guerra Mundial, e o paralelo que a gente faz é com os americanos porque na questão de não olhar para trás, não ter medo, não chorar, essa soberania que eles acham que eles tem, e que na verdade não tem, e a gente fez esse paralelo entre a viagem até a Lua e a guerra. As coisas de bom e de ruim que ficaram, tanto de uma coisa quanto de outra. E como se ele tivesse ido a Lua e voltado e encontrou a Terra na época da guerra, cinza, velha, com muito sofrimento, corações pesados.
P: Então para vocês isso aí é uma metáfora. Eles - apontando para o grupo 1 propuseram que é uma metáfora de viagem espacial em busca de outros planetas, e vocês, que isso está falando da aventura americana no espaço e da hegemonia deles, uma coisa desse tipo. E os outros grupos, o que pensaram?
Ao dar voz ao outro grupo, Luana sintetiza a visão de seu grupo. Nas conclusões desse grupo, verifica-se um discurso relacionado às questões ideológicas envolvidas na corrida espacial e as recentes incursões do exército estadunidense em países árabes, tentando estabelecer a sua soberania. Percebemos em seu discurso uma crítica à essa política estadunidense. Nessa situação, observamos que a partir do momento que esse grupo apresenta o seu ponto de vista, verifica-se uma abordagem não interativa/de autoridade. O docente neste caso, sintetiza as diferentes posições dos grupos e direciona as questões para o restante da sala. Continuemos com a análise da situação em sala de aula:
(Grupo 3) João: A gente já imaginou que a questão da música implica em quando a cultura americana dominou, venceu a guerra fria né... E num futuro, em 39, em algum belo futuro, o mundo está saturado e esses voluntários partem para descobrir um novo mundo. P: Um novo planeta, fora da Terra? João: Sim, e aí quando eles voltam, parece ser no mesmo ano, só que tá tudo envelhecido mais ainda. Alfredo (do Grupo 1): Mas aí entra a Teoria da Relatividade né?!, Porque eles viajaram, passou o tempo e eles veem os netos lá... P: Como é o negócio da teoria da relatividade aí? Como? Eles encontraram os netos, é isso?
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20 a 25 de janeiro de 2013
Alfredo: Isso! - neste momento vários estudantes, dos diferentes grupos, começam a concordar sobre a viagem no tempo.
João: Eles foram para o futuro para levar os outros daqui para a Terra que os próprios netos já conheceram.
Alfredo: Eles falam que eles envelheceram pouco mais que um ano só que no verso de cima eles falam que tantos anos se passaram.
Carlos (Grupo 4): Tantos anos se passaram e eles envelheceram um ano só.
Milena (Grupo 5) - lendo a letra da canção: 'Os olhos de sua mãe, através dos seus, choram por mim'. Quer dizer que ele sente algo assim, 'olha, sua mãe já foi, agora é você', só que ele é do tempo da mãe dela.
P: Ah, então parece que ele viajou para o futuro e quando ele voltou...
João: Encontrou a filha velha.
P: É isso?
Francisco: Sim, ela envelheceu muito, era a filha, velha, parecida com a mãe.
Nesse excerto, verifica-se que grupo 3, assim como o grupo 2, associa o tema da canção às questões sociopolíticas. No entanto, ao estudante Alfredo, reafirmar as hipóteses do grupo 1, e contextualizar com a Teoria da Relatividade, promove um debate entre os outros estudantes, de forma que a maioria deles concorda que foi realizada uma viagem no tempo e que a teoria da relatividade possui relação com a canção. É válido ressaltar que na aula em análise, não havia sido explicitado pelo professor que o tema da canção estava relacionado à teoria da relatividade, sua intenção seria a de que os estudantes identificassem os fenômenos relativísticos implícitos no texto da canção. Por conta dessa interação dialógica entre os grupos, verifica-se nessa situação uma abordagem interativa/dialógica, sendo que devida à colaboração entre parceiros, os estudantes chegam a um consenso sobre a viagem no tempo e a presença da Teoria da Relatividade na canção.
P: Será que a história está falando da teoria da relatividade, então? - se dirigindo a um grupo - Vocês acharam isso também? (Grupo 6)
Marcos: A princípio, professor, a gente imaginou que fosse a colonização estadunidense, a gente imaginou que fossem as famílias que colonizaram a América, por isso essa noção de navegação, que tem também uma semelhança com a navegação espacial. Só que a gente não encontrou o espaço e nem o 39, 1639, 1739.
P: Certo. Então, interessante quando você começa a olhar, e como essa música ela faz uma sacanagem com a gente, ela joga o ano logo de cara, mas não fala qual. Mas é em 39! Quando ela coloca esse 39 ela situa você pontualmente num lugar no tempo, mas não fala qual é o século. E aí teve gente que jogou no futuro, né... que é uma possibilidade. Teve gente que tentou jogar no passado, como foi o caso deles, encontrou uma inconsistência, vocês encontraram uma inconsistência. E elas conseguiram encontrar alegorias que são figurações indiretas, porque 39 está ligado com a Segunda Guerra, e aí tem todo o contexto da Guerra Fria e da conquista do espaço e tudo mais. Só que o problema é você conseguir fechar as informações, né?! Uma com a outra. As informações são consistentes? Em que elas são consistentes?
O grupo 6, estabeleceu conexões históricas com a canção, especialmente às grandes navegações, que remete ao passado, e a partir disso o professor associou as questões relacionadas à temporalidade da canção. Neste caso, ele situa o '39' da canção ao ano de 1939, em que se iniciou a II Guerra Mundial, e contextualiza a canção com o período em que ela foi produzida, época de Guerra Fria e Corrida Espacial. Nesta situação verifica-se uma situação não interativa/de autoridade, sendo que o docente apresenta seu ponto de vista, iniciando um novo turno de fala com seus estudantes, esse turno irá coincidir com o discurso da seguinte estudante:
Milena: Professor?
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P: Oi?
Milena: Aqui no fim ele fala assim - lendo a letra da canção - 'Você não ouviu meu chamado? Embora você esteja muitos anos longe, você não me ouviu te chamando? Todas as suas letras na areia não podem me curar como a sua mão, pois minha vida à frente me dá pena.'. A impressão que dá é que ele foi para o futuro, quer dizer, ele fez uma viagem que para ele durou um ano e que para as pessoas que ficaram o tempo durou muito mais, a impressão que dá é que ele deixou cartas, cartas que nunca foram enviadas porque era para o espaço, elas não sabem enviar. Então, quando ele volta, ele lê essas cartas, só que o futuro para essa pessoa que voltou, que tá dizendo aqui, que voltou para a Terra, é um futuro que dá pena, porque aquelas pessoas com quem ele conviveu não existem mais. Essa é sensação que dá esse trechinho final. Porque a mão que escreveu a carta não está mais ali para curar, mas deixou de existir, né?!
Podemos verificar que a partir do momento em que o professor direciona a sala para reconsiderarem as suas conclusões a estudante Milena considera as questões sobre a viagem no tempo, estabelecendo conexões com os paradoxos temporais da teoria da relatividade. Neste momento, verifica-se uma abordagem interativa/dialógica pois a estudante, construiu esse enunciado ao dialogar com seus pares. A partir desse momento o professor, busca estabelecer as questões finais sobre a canção, reconsidera a sua fala, diferencia as interpretações, estabelecendo um sentido único para o texto, buscando elidir as dissonâncias que a letra da canção poderia ter:
P: Então deixa eu contar aqui para vocês, a pessoa que escreveu essa história é o Brian May, ele é do grupo Queen, o que ele é?.
A: Físico!
P: Ele é um astrofísico, pra quem não sabe.
[...]
Agora, o que ele faz? Ele vai produzir uma letra com uma certa dissonância. Qual é a dissonância? Olha só, porque a letra remete a que? Ao passado. Quando você vai e coloca o country, ele remete ao passado, então ele te joga para o passado. Ele te dá essa primeira sensação, e ele joga o espaço para os Estados Unidos, ele tá falando dos Estados Unidos.
## [...]
Olha só, tem várias coisas que ele deixa ambíguas para a gente ficar pensando, por exemplo, aqui na segunda estrofe, naquele verso - consulta a letra da canção 'Navegaram pelos mares leitosos', aí você vê no inglês, 'sailed across the milky seas', esse milky lembra o que?
## A: Milky Way?
P: Milky Way. Quer dizer, ele está falando do que? Do mar. Mares leitosos parece Via Láctea, mas não está escrito, você tem que interpretar, mas será que é viagem na maionese isso ou não? Aí você tem que encontrar outras coisas ao mesmo tempo que vão ter a ver. Ah, Milky Way, Via Láctea, então, espaço. Então, de qualquer maneira, espaço fora da Terra. Americanos navegando para fora e buscando outros lugares, só que existem nesse contexto de qualquer maneira, certo? Então é assim, os americanos só navegaram para outros territórios nas missões espaciais.
O docente considera nessa situação o contexto e a instância de produção da canção, caracterizando o autor da canção e sua relação com a ciência. Além disso, ele utiliza as hipóteses de navegadores do passado, a dificuldade de situar o ano de 39, a o relato da viagem espaço-temporal e destaca o fato dos estadunidenses explorarem o espaço e não a Terra. Por conta dessa reconsideração da sua fala a partir das conclusões dos estudantes, podemos identificar uma abordagem comunicativa não-interativa/dialógica.
## Considerações Finais
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Podemos verificar que na sequências da aula apresentada apresentam a seguinte sequência: interativa/de autoridade (I/A); interativa/dialógica (I/D); interativa/ de autoridade (I/A); não interativa/de autoridade (N/A); interativa/dialógica (I/D); não interativa/de autoridade (N/A); interativa/dialógica (I/D);e não interativa/dialógica (N/D). Essa situação entra em consonância com os ciclos de abordagem comunicativas elaborado por Mortimer e Scott (2002, p. 303). No caso do trabalho desses pesquisadores, numa atividade experimental em que os estudantes evoluíram de suas hitpóteses cotidianas sobre o processo de formação da ferrugem para hipóteses científicas. Já no caso deste trabalho não se tratou de uma atividade experimental sobre um fenômeno científico, mas de uma atividade de interpretação da relação entre letra, música, contexto histórico e científico em uma canção. Entendemos que os estudantes não partiram de uma hipótese ingênua para uma única conclusão e sim que o espaço dialógico em sala de aula permitiu que os estudantes, sob a mediação do profressor, estabeleceram uma hipótese que relaciona os conceitos relativísticos envolvidos numa viagem espacial, os paradoxos envolvidos e as questões sociais, históricas e políticas envolvidas nas situações.
Não foi o objetivo deste trabalho esgotar a análise do uso da canção '39' em sala de aula. Mas sim, estabelecer alguns critérios socioculturais de análise e coleta de dados da fala em sala de aula que permitam verificar o conhecimento científico tanto em nível conceitual, quanto num processo histórico-cultural.
## Referências Bibliográficas
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FRAKNOI, A. The Music of the Spheres in Education: Using Astronomically Inspired Music. In: Astronomy Education Review , vol. 5, p. 139-153, nov. 2007.
FRIEDLANDER, P. Rock and Roll: uma história social. Rio de Janeiro: Record, 2010.
LEVINE, A. J. The Missile and Space Race . Westport: Praeger, 1994.
- MAY, B. 39 In: Queen: A Night at the Opera . London: Parlophone, 1975. LP. Faixa 5.
- MACAN, E. Rocking the classics: English Progressive Rock and the Counterculture. Oxford University Press, 1997.
- MOREIRA, I. de C; MASSARANI, L.: (En)canto científico: temas de ciência em letras da música popular brasileira. In: História, Ciências, Saúde - Manguinhos , v. 13 (suplemento), p. 291-307, outubro 2006.
MORTIMER, E. F; SOCTT, P. H. Atividade discursiva nas aulas de ciências: uma ferramenta sociocultural para analisar e planejar o ensino. In: Investigações em Ensino de Ciências , v. 7 n. 3 , p. 283-306, 2002.
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- PUGLIESE, R. M; ZANETIC, J. A música popular como instrumento para o Ensino de Física. In: XVII Simpósio Nacional de Ensino de Física . MA: UFMA, 2007.
- RIBAS, L. C; GUIMARÃES, L. B. Cantando o mundo vivo: aprendendo biologia no pop-rock brasileiro. In: Ciência e Ensino , n. 12, Campinas, p. 4 - 9, dez. 2002.
- SILVEIRA, M.P; KIOURANIS, N.M.N. A Música e o Ensino de Química. In: Química nova na escola , São Paulo, n. 28, p. 28-31, maio 2008.
VIGOTSKI. L. S. A Construção do Pensamento e da Linguagem. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo. Editora Martins Fontes. 2001.
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