Ciência e Arte no Contexto do Ensino: concepções de professores de Física e de Literatura
Raquel Luana Cavalcanti Ferreira, Marcelo Gomes Germano
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Ciência, Cultura E Arte
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CIÊNCIA E ARTE NO CONTEXTO DO ENSINO: CONCEPÇÕES DE PROFESSORES DE FÍSICA E DE LITERATURA
## Raquel Luana Cavalcanti Ferreira , Marcelo Gomes Germano 1 2
1 UEPB/ Departamento de Física/ Estudante de Iniciação Científica/ rachell200@hotmail.com; 2 UEPB /Professor do Departamento de Física /mggermano@ig.com.br
## Resumo
São evidentes as diferenças entre o discurso didático preocupado com o ensino e a aprendizagem e o discurso científico especializado e ocupado com a pesquisa. Embora haja pontos de convergência, a especificidade dos objetivos aponta para horizontes distintos. Enquanto a ciência lança mão de alguns tipos de técnicas, metodologias e linguagens especializadas, sobretudo, a linguagem matemática, pressuposto fundamental para sustentação de seus argumentos, a comunicação didática da ciência terá que prescindir de parte desse formalismo para apoiar-se em outras linguagens e, a partir de imagens e modelos, recriar os conceitos da ciência, de modo a reencontrar o senso comum do qual foi obrigada a se afastar. Parte desse recurso do qual o ensino de ciências lança mão é próprio da literatura e das artes e, embora muitos cientistas não compartilhem com essa visão, é necessário reconhecer a importância de outras linguagens nos processos de comunicação da ciência. Neste artigo, que é parte de nosso trabalho de iniciação científica, procuramos identificar e discutir as opiniões de professores de Física e de Literatura de duas Universidades públicas paraibanas sobre as possibilidades e limitações de uma possível aproximação entre Ciência e Arte no contexto do ensino de Ciências. Para tanto, foram entrevistados oito professores de Física e de Literatura (quatro professores de cada disciplina) de duas Universidades Públicas paraibanas que através de uma entrevista semiestruturada, expuseram seus pontos de vista sobre uma possível interlocução entre Arte e Ciência no contexto do ensino.
Palavras chave: Ciência e Arte; ensino; interdisciplinaridade.
## Introdução
A atuação junto ao projeto de Iniciação Científica, Ciência e Arte no Contexto do Ensino: Concepções de Professores de Física e de Literatura nos permitiu o conhecimento de uma importante questão pouco discutida nos cursos regulares de formação de professores de ciências e, particularmente de Física. Trata-se do diálogo da ciência com outras manifestações culturais. Se a ciência influencia muitos outros ramos da cultura, como outras construções culturais podem influenciar a ciência?
Essa indagação é relevante, considerando nosso interesse em investigar as possibilidades e limitações de uma possível aproximação entre a ciência e outras manifestações culturais - destacando no presente artigo a Arte - que pode introduzir diferentes linguagens no meio científico, possibilitando uma melhor comunicação com a população que, do nosso ponto de vista, encontra-se numa posição de obediência e de muito pouca criticidade em relação aos avanços tecnocientíficos.
Conforme alerta Germano (2011), o conhecimento encontras-se em paradoxal conflito entre a disponibilização e o controle e, paralelo ao seu crescimento, também vai criando uma série de obstáculos no caminho de seu
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20 a 25 de janeiro de 2013
domínio e acesso. Não é exagero afirmar que, gradativamente, a situação da educação científica aproxima-se do limite da irreversibilidade e o abismo entre as culturas pode tornar-se intransponível.
Portanto, o auxílio de outros aspectos culturais diferentes do formalismo próprio da ciência que, muitas vezes, torna-se maçante para um indivíduo que não tem contato com aquela linguagem formal, pode, em muitos casos, ajudar na popularização da ciência e a utilização de linguagens diversas e mais atrativas seguramente contribuirá para uma aprendizagem mais prazerosa e significativa.
Neste artigo, que é parte de nosso trabalho de iniciação científica, procuramos identificar e discutir as opiniões de professores de Física e de Literatura de duas Universidades públicas paraibanas sobre as possibilidades e limitações de uma possível aproximação entre Ciência e Arte no contexto do ensino de Ciências. Para tanto, foram entrevistados oito professores de Física e de Literatura (quatro professores de cada área) que, através de uma entrevista semiestruturada, expuseram seus pontos de vista sobre uma possível interlocução entre Arte e Ciência no contexto do ensino.
## Arte e Ciências
O problema da acessibilidade ao conhecimento científico e da participação do cidadão comum em assuntos de ciência e tecnologia não é uma invenção do nosso século, nem muito menos resultado dos grandes avanços tecnológicos da atualidade. No entanto, com o crescimento em complexidade, o distanciamento vai se tornando cada vez maior e, ao que tudo indica, nem mesmo os cientistas, têm hoje um senso comum da ciência.
De acordo com Hobsbawm (2008) o século XX foi marcado por grandes avanços tecnológico-científicos, havendo uma explosão de teoria e prática da informação, em que esses novos avanços foram se traduzindo num espaço de tempo cada vez menor. Além disso, observa-se mais intensamente que o avanço da tecnologia, estabelece como prioridade objetivos comerciais, não exigindo qualquer compreensão dos usuários finais (operadores), pois isso torna-se desnecessário para fins práticos.
O cidadão não sente mais a necessidade de entender o mundo, pois, em sua versão tecnológica, parceira e aliada do mercado e da sociedade de consumo, a técno-ciência alimentou e proliferou a lei do menor esforço. As novas tecnologias resolvem os problemas e dispensam os homens de uma compreensão mínima dos novos aparatos que redefiniram o seu jeito de ser e estar no mundo.
No enfrentamento com essa questão, muitos educadores das ciências procuram democratizar o acesso ao conhecimento em um processo horizontal de compartilhamento e diálogo, em que se busca uma comunicação mais reflexiva da ciência com outras linguagens culturais, como as ciências humanas as letras e as artes.
Embora muito comum na atualidade, esta dicotomia não existiu em todas as épocas. Na antiga Grécia, por exemplo, o conhecimento científico era desenvolvido no contexto da filosofia, cabendo à chamada 'Filosofia da Natureza' investigar o mundo natural. De acordo com Pacheco (2003) a separação histórica entre a Arte e a Ciência aconteceu em fins da Era Medieval, quando o homem deixou de ser encarado como unidade física, psíquica e espiritual, para ser múltiplo, fracionado em diversos corpos que habitam um só. Mas, na opinião de Moreira (2002), embora a
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arte e a ciência estejam ligadas a domínios diferentes de conhecimento e valor, elas pertencem à mesma busca imaginativa humana. E neste particular concordamos com Snow (1995) no reconhecimento de que essa dicotomia entre as duas culturas produz enormes prejuízos educacionais para humanidade.
Segundo Zanetic (2006) é justamente por vivermos numa época em que o mundo é influenciado ou determinado pelas ciências naturais, tendo como papel de destaque a Física, que o ensino desta ciência não pode prescindir da presença da história, da filosofia e de sua ligação com outras áreas da cultura, como a literatura, música, cinema, teatro e artes em geral.
Para Bachelard, seria possível revelar os segredos do mundo, ou seja, construir conhecimento, não só através de conceitos científicos, mas também através de imagens poéticas e literárias (apud ZANETIC, 2006). Desta forma, a ciência deve ser assimilada juntamente com o conjunto de nossa experiência mental, e como parte integrante dela, e ser utilizada tão naturalmente como o resto (SNOW, p. 35, 1995).
## Metodologia
Trabalhamos com uma pesquisa de natureza qualitativa porque esta modalidade permite ao investigador conduzir os sujeitos a expressarem livremente as suas opiniões sobre determinados assuntos, privilegiando a compreensão dos comportamentos a partir da perspectiva dos sujeitos da investigação e recolhendo os dados a partir de um contato mais profundo com os indivíduos (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p. 17). De acordo com Minayo, (2001) esta forma de abordagem permite trabalhar com o universo dos significados, dos motivos, das crenças e dos valores, possibilitando uma investigação mais profunda das relações envolvidas no fenômeno.
A obtenção dos dados foi feita a partir de uma entrevista semiestruturada que, para Richardson (1999) se caracteriza como uma importante técnica de interação que permite uma aproximação face a face, possibilitando uma penetração mais profunda nas concepções dos entrevistados. Embora a entrevista tenha sido construída em torno de quatro questões, considerando as dimensões deste artigo, nos limitamos às duas primeiras questões que foram as seguintes:
Ciência e Arte são duas expressões culturais muito distintas. A primeira refere-se aos domínios da razão e a segunda pretende falar ao sentimento, ao coração. Você vê alguma possibilidade de diálogo entre esses dois mundos?
Por intermédio de obras literárias com seus enredos cativantes, alguns professores de ciências procuram envolver os alunos numa interlocução entre Ciência e Arte. Qual a sua opinião a respeito dessas iniciativas?
Conforme já foi mencionado, o projeto objetivava atingir professores de Física e de Literatura de Universidades públicas paraibanas. Nesse sentido foram entrevistados 04 professores de Física e 04 de literatura cujas respostas, depois de selecionadas nós apresentamos na próxima seção.
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## Resultados e Discussões
As questões propostas levaram os professores a apresentarem suas concepções de forma livre e com quase nenhuma interrupção do entrevistador. Os entrevistados argumentaram sobre cada indagação trazida nas questões, procurando sempre fazer uma correlação com experiências de vida e leituras anteriores.
Nesta seção apresentamos algumas discussões em torno das falas dos professores entrevistados, ressaltando que as entrevistas possuem um rico acervo de ideias que nos faz refletir sobre outras perspectivas nascidas de uma conexão entre Ciência e Arte no contexto do ensino.
No que se refere à primeira questão, em que procuramos identificar a concepção dos professores sobre a existência de possibilidades de diálogo entre Arte e Ciência, obtivemos respostas em unanimidade, que era possível sim, esse diálogo.
Para a professora de literatura, que chamaremos de Professora (A),
Com certeza!(...) Não há estudo que não possa ser feito dentro da perspectiva científica. Portanto, porque não haver, como o próprio Bakhtin dizia, um 'dialogismo'; um diálogo entre Arte e Ciência? Claro que é possível. E partindo, assim, do objetivo do (...) projeto, que é justamente (...) como colocar a arte dentro da sala de aula que possa levar o entendimento mais rápido, mais prazeroso, mais lúdico do aluno, principalmente se esse aluno é criança ou adolescente, então por que não trazer esse... O que vocês chamam aqui, justamente de diálogo'(...).
Segundo a professora (A) é possível sim esse diálogo, principalmente no contexto da educação básica, em que os aspectos lúdicos e prazerosos podem influenciar decisivamente na aprendizagem. Conforme a professora, que cita Bakhtin, esse 'dialogismo' tanto é possível quanto necessário.
O professor (B) que também atua no campo da literatura apresenta uma resposta bastante interessante que, em certo sentido discorda da própria colocação de nossa pergunta.
Sim. Certamente. Eu diria que não há nenhuma razão para que a ciência e a arte sejam encaradas como duas realidades antagônicas e inconciliáveis. No meu entendimento, a ciência e a arte são modalidades de conhecimento da realidade que, embora distintas e tenham as suas especificidades, mas elas dialogam entre si. Eu não diria nem mesmo que a ciência está com o polo da razão e a arte está com o polo apenas do sentimento, da emoção. Acho que há uma razão na arte e há uma razão na ciência; há uma emoção na arte e há também uma emoção na ciência. E, ainda mais, se nós pensarmos no espírito da inter e da transdisciplinariedade, que tem caracterizado o conhecimento na contemporaneidade. Então pensar em arte e ciência como guetos é um retrocesso absoluto.
Conforme o professor(B), apesar de ciência e a arte serem distintas, não são inconciliáveis e em seu favor chama a atenção para a interdisciplinaridade que é uma característica do conhecimento contemporâneo. Para ele seria um grande retrocesso separar esses dois aspectos culturais.
Podemos perceber na fala do professor(B) uma aproximação aos argumentos de Snow (1995) quando também reconhece que a separação entre as ciências humanas e as ciências naturais é desnecessária e apenas empobrece a
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ambas. Para Snow as duas culturas já não dialogam e esta falta de diálogo resulta numa mediocridade do debate de questões fundamentais que ambas as ciências tratam. Mas, para retornar este diálogo, é necessário eliminar as visões equivocadas e preconceituosas que cada ciência possui da outra.
Para o professor (B) ' há uma razão na arte e há uma razão na ciência; há uma emoção na arte e há também uma emoção na ciência'. Está é uma afirmação que encontra eco na fala do escritor e literato Euclides da Cunha ao defender-se da crítica de Veríssimo à utilização de termos técnicos em sua obra literária.
... o consórcio da ciência e arte, sob qualquer de seus aspectos, é hoje a tendência mais elevada do pensamento humano,' mas prevê que 'o escritor do futuro será forçosamente um polígrafo; e qualquer trabalho literário se distinguirá dos estritamente científicos, apenas, por uma síntese mais delicada, excluída apenas a avidez característica das análises e das experiências ( CUNHA apud VALENTE, 2009 p.125-141).
Depois de apresentar o depoimento de um literato envolvido com a ciência, vamos destacar a resposta de um Físico que, embora objetivo em suas respostas, também concorda com a possibilidade de diálogo entre ciência e artes.
Sim. Em diversas situações no contexto das Ciências Exatas temos a possibilidade de transcender a cadência natural (abordagem matemática, por exemplo) e buscar ideias e inspirações que provenham de nosso interior, de maneira abstrata, porém, coerente.
Para o professor (C), também há esse diálogo, que muitas vezes se expressa de maneira a utilizar-se da imaginação e fugir um pouco da linguagem mais utilizada nas ciências exatas que é a matemática. Contudo ele ainda adverte que essas abordagens advindas de inspirações e novas ideias devam ser coerentes.
Segundo Valente (2009) Euclides da Cunha não concorda com o uso de 'exageros estilísticos da literatura ultra-romântica', e acredita que tem que haver uma separação desse subjetivismo em excesso. Contudo, ver-se em sua famosa obra: 'Estrelas indecifráveis' que seu discurso está longe de ser uma afirmação da objetividade da ciência. Mesmo assim, Cunha acredita que a ciência possui uma crescente instabilidade e que nesse processo ativo ela encontra-se com a arte, pois é a partir da criatividade, da imaginação que há uma convergência.
Para o professor (D) outro representante da Física,
Na idade média, né? Usava-se muito a arte para expressar, para demonstrar a ciência também. As pinturas de Galileu de mostrar aquele... O heliocentrismo. Aquela questão toda. Ele fazia pintura para mostrar seus pensamentos. Então, tem uma relação entre arte e ciência fortemente. Entendeu? (...) Já se usava no renascimento uma noção de pintura bem detalhada; a noção de profundidade dos quadros, para demonstrar as reflexões de distâncias; usavam também simetria. Eles procuravam integrar muito a ciência...Realmente, tem que ter criatividade, observação, curiosidade.Tem essa relação entre ciência e arte.
Embora faça um pouco de confusão entre a idade Média e a idade Moderna, o Professor (D), semelhante aos outros colegas, confirma a existência desse diálogo trazendo fatos históricos e levando em conta que desde muito tempo essa interlocução já existia. Mais uma vez a imaginação e a criatividade aparecem na fala do professor como o ponto de aproximação entre a ciência e a arte. É na busca da
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verdade, nesse sentimento de busca de sentido que o poeta (artista) aproxima-se do pesquisador (o cientista), ou seja, é nesse lugar a que denominamos de imaginação, de criatividade, que o artístico e o científico se encontram. Por outro lado, podemos reafirmar a tese do entrevistado lembrarndo que as obras de Galileu, Bruno e muitos outros foram escritas na forma de diálogo com todos os requisitos das obras literárias.
Pra a segunda pergunta que faz alusão a iniciativas que alguns professores tem em procurar envolver os alunos com obras literárias, fazendo dessa forma, uma interlocução entre Ciência e Arte o professor (B) considera a iniciativa válida, mas aponta algumas preocupações que merecem ser destacadas.
Válidas. Válidas. É... Desde que a obra de arte não seja tomada como um pretexto para, supostamente, validar determinadas afirmações; porque quando acontece gera um problema chamado reducionismo, que é o de você encarar a obra de arte apenas como um pretexto para justificar tal ou qual ideologia, tal ou qual forma de conhecimento. Eu creio que é válida. É uma forma válida de você trabalhar com a arte, com a literatura com o aluno, tentando mostrar que ela dialoga sim, com a ciência e pode... Isso pode ser compreendido de uma maneira extremamente prazerosa por parte do aluno.
Conforme o pensamento do professor (B) as iniciativas são válidas e ajudarão num possível diálogo, mas adverte, que a arte não pode servir de pretexto para justificar uma forma de conhecimento em prejuízo da outra. Não se trata de colocar a arte a serviço da ciência, mas de aproximar as duas linguagens em benefício da educação e da humanidade. Na prática isso já acontece no cinema, no teatro, da literatura, nas artes plásticas, nas engenharias e na arquitetura. Porque não pode acontecer no ensino de ciências?
Embora ainda sejam raros os cientistas que se utilizam de uma linguagem literária e acessível para a comunicação da ciência, é importante reconhecer que à simples incursão em formas literárias pode cativar o leitor e o conduzir para os conceitos científicos de uma maneira mais compreensível e cativante (GALVÃO, 2006). De fato, conforme reconhece Sánshez Mora (2003), em processos de comunicação pública da ciência todo peso do formalismo terá que ser evitado para que o cientista possa apoiar-se principalmente na linguagem literária.
Embora a grande maioria dos entrevistados concorde com a presença da arte no ensino de ciências, observa-se um cuidado seguido de advertência como é expresso na fala do professor (C)... 'se tomar cuidado em relação ao abuso das analogias entre Ciência e Arte, acredito que esta interlocução possa ser extremamente proveitosa'.
Essa precaução é positiva e aparece tanto nas falas dos professores de Literatura como de Física. È justo que os cientistas cuidem para que não haja uma banalização da linguagem científica com uma excessiva subjetivação do conteúdo da pesquisa como também é oportuno que os humanistas se preocupem com a banalização e objetivação da arte em benefício de uma racionalidade técnica e de uma cultura unidimensional.
Nesse sentido, quem se compromete com os esforços de popularização e comunicação pública da ciência deve procurar se precaver dos exageros abusivos das analogias e tendo cuidado com simplificações e subjetivismos demasiados que podem desvirtuar tanto a Ciência como a Arte.
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## Considerações Finais
Embora haja pontos de convergência e encontros entre a linguagem científica e outras formas de linguagem a exemplo da literatura e das artes, a especificidade dos objetivos de cada uma parece produzir uma espécie de precaução na maioria dos entrevistados. Como, então, justificar essa aproximação tão flagrantemente paradoxal?
Inicialmente pela reconhecida necessidade de humanização da ciência que, conforme já adiantamos na introdução, deve tentar submeter os avanços técnicocientíficos a valores éticos e contrapor os grandes êxitos técnico-científicos aos danos ambientais e os riscos que colocam para humanidade. Em segundo lugar, porque em processos de comunicação pública da ciência, todo peso do formalismo característico da linguagem da ciência, terá que ser evitado para que o cientista possa apoiar-se principalmente na linguagem natural e, a partir de imagens e modelos, recriar os conceitos da ciência.
Sem dúvida, uma das maiores questões do século XXI é o de combater a fragmentação da cultura, integrando conhecimentos aparentemente inconciliáveis dentro de uma configuração de complementariedade. Nesta nova perspectiva, os conhecimentos objetivo e subjetivo seriam dois aspectos de uma mesma realidade quando identificada por observadores diferentes.
...assim nos andamos nós - do realismo para o sonho, e deste para aquele, na oscilação perpétua das dúvidas, sem que se possa diferençar, na obscura zona neutral alongada à beira do desconhecido, o poeta que espiritualiza a realidade, do naturalista que tateia o mistério (CUNHA apud VALENTE , p.125-141, 2009).
Desse ponto de vista, o esforço pela busca de aproxiação entre a cultura científica e a cultura humanista, é mais uma tentativa de trazer a ciência para perto do povo e para junto da vida, da beleza e da arte. É trazê-la de volta para o seio de uma cultura muito mais rica e complexa perante a qual ela deve curvar-se em sinal de reverência.
## Referências
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MOREIRA, Ildeu de Castro. Poesia na sala da aula de ciências? A literatura e possíveis usos didáticos . Física na Escola, v. 3, n. 1, 2002.
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RICHARDSON, Roberto Jerry. Pesquisa social : métodos e técnicas . Roberto Jarry Richardson; colaboradores. José Augusto de Sousa Peres, São Paulo: Atlas, 1999. UNESCO.
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ZANETIC, J. Física e Literatura: construindo uma ponte. História, Ciências, Saúde Manguinhos, Rio de Janeiro. v. 13 (suplemento), p. 55-70, outubro 2006.
ZANETIC, J. Física e Arte: uma ponte entre as duas culturas. Pro-posições, Campinas, SP, v.17, (1), pp. 39-58, 2006.
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