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POESIA E FÍSICA: MULTIPLICANDO A BELEZA DAS COISAS

Paulo Roxo Barja

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
22/01/2013
Linha de pesquisa
Ciência, Cultura E Arte
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## POESIA E FÍSICA: MULTIPLICANDO A BELEZA DAS COISAS

## Paulo Roxo Barja 1

1 UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba) / Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento (IP&D), barja@univap.br

## Resumo

A ligação entre Física e Poesia tem raízes históricas e vem sendo apontada mais modernamente a partir de Richard Feynman, prêmio Nobel que dava grande importância ao ensino de Física básica. Neste trabalho, apresentamos diversos poemas elaborados durante e/ou a partir de aulas de Física e selecionados em função de seu potencial aproveitamento em sala de aula, inclusive no Ensino Fundamental e Médio. O objetivo deste trabalho de fusão entre Poesia e Física é estimular a sensibilidade e aumentar a receptividade dos alunos a temas fundamentais de Física, buscando um ensino conceitual que não perca de vista a ludicidade e seja capaz de superar uma visão puramente matemática da ciência. Após as aulas, sugere-se que os alunos sejam incentivados a trabalhar criando novos poemas. Este tipo de prática permite uma forte interação entre os professores de Ciências e de Língua Portuguesa/Literatura, ao mesmo tempo em que apresenta, mesmo a alunos universitários, a possibilidade de construção e exercício conjunto de um conhecimento integrado e lúdico.

Palavras-chave : Arte, Ciência, Física, Literatura, Poesia

## Introdução

Em sua autobiografia, Richard Feynman comenta, com bom humor, a crítica recebida de um amigo artista, segundo o qual os cientistas matam a beleza das flores ao explicar tudo em termos de átomos e moléculas (FEYNMAN, R.; LEIGHTON, R., 1987). Feynman argumenta que o cientista pode, na verdade, ver a beleza multiplicada, aliando lirismo à apreciação científica da natureza.

Feynman não está sozinho: hoje é possível encontrar diversas obras de divulgação científica apontando essa potencial ligação entre Física e Poesia (MARCH, R., 2002; LEDERMAN, L.M.; HILL, C.T., 2010; LOGAN, R.K., 2010). E esta proximidade tem raízes milenares: basta citar como exemplo o texto clássico de Lucrécio, De Rerum Natura (LUCRECIO, T., 1985). Vemos então que a aproximação entre Arte e Ciência - e, em particular, entre Poesia e Física - não pode ser chamada de artificial: na verdade, artificial é a separação.

Antes de saber de tudo isso, e à medida que temas e conceitos de Física me eram apresentados, ao longo da graduação e da pós-graduação no Instituto de Física Gleb Wataghin , na Unicamp, fui aos poucos produzindo uma série de pequenos poemas inspirados nos tópicos vistos em sala de aula (tocando inclusive em questões matemáticas ligadas à Física). Havia nesta prática o desejo, nem sempre consciente, de evidenciar a ligação percebida (ou 'pressentida', talvez) entre Poesia e Física.

Tendo trabalhado previamente com a ponte entre Matemática e Poesia (BARJA; LOPES, 2006ª; BARJA; LOPES, 2006 b ), recentemente (re)descobri estes "Poemas Físicos", que foram utilizados na concepção de uma performance artística apresentada fora do âmbito acadêmico, na qual um bailarino "dançava" os poemas.

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20 a 25 de janeiro de 2013

Neste artigo, apresentamos alguns destes poemas baseados em aulas de Física, selecionados em função de seu potencial aproveitamento em sala de aula, inclusive no Ensino Fundamental e Médio. O objetivo deste trabalho de fusão entre Poesia e Física é estimular a sensibilidade e aumentar a receptividade dos estudantes a temas fundamentais de Física, buscando um ensino conceitual que não perca de vista a ludicidade e seja capaz de superar uma visão puramente matemática da ciência.

Após as aulas, sugere-se que os alunos sejam incentivados a trabalhar criando novos poemas. Este tipo de prática permite uma forte interação entre os professores de Ciências e de Língua Portuguesa/Literatura, ao mesmo tempo em que apresenta, mesmo a alunos universitários, a possibilidade de construção e exercício conjunto de um conhecimento integrado e lúdico.

## Poemas comentados: a Poesia da Física

Apresentamos aqui uma seleção dos poemas produzidos ao longo da graduação e da pós-graduação em Física, a partir de diversos temas estudados em sala de aula. Procuramos agrupar os poemas selecionados conforme a área da Física a que se referem. No entanto, é importante deixar claro que esta não é uma divisão unívoca, uma vez que diversos dos textos poéticos transitam entre diferentes temas; assim, sugere-se que o professor reagrupe os poemas a seu critério, de modo a atender melhor interesses didáticos específicos.

## Mecânica

Para a área de Mecânica, selecionamos exemplos variados, que vão de poemetos bem humorados à poesia visual. Inicialmente, vejamos um pequeno poema que pode ser aplicado a experimentos para determinação de atrito.

## Criando e Medindo Atrito em Laboratório

Isso é o que eu chamo de fricção científica!

A seguir, um poema feito para apresentar a definição de Momento.

## Criação de Momento

integre-se a Força e pronto:

em relação ao Tempo temos um Momento

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A Figura 1 apresenta um poema visual que pode ser aproveitado no Ensino Médio: fala sobre o Movimento Circular Uniforme.

Figura 01: 'Movimento Circular Uniforme', um poema visual para Ensino Médio.

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Finalizando a parte sobre Mecânica, seguem dois poemas: 'Questão de Física', composto durante o encontro 'Ciência &amp; Arte', realizado em 2006 no Rio de Janeiro, e 'Lei de Kepler' (composto durante a graduação em Física na Unicamp).

## Questão de Física

Duas partículas

que ignoravam a existência

uma da outra

de repente se encontram,

colidem e mudam

suas trajetórias.

Esse encontro ocorreu num segundo.

Não é justo dizer

que este segundo

deu novo sentido

às suas vidas?

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## Lei de Kepler

até os planetas são mais lentos quando estão longe do Sol

## Termologia

Em Termologia, durante a graduação foram compostos vários poemas sobre mudanças de estado da matéria. Destes, dois são aqui apresentados (incluindo um poema visual, na Figura 2), sugerindo-se aproveitamento no Ensino Médio.

Figura 02: 'Convicto', poema visual sobre o fenômeno da convecção.

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## Tudo que é Sólido Desmancha no Ar

Sim a baixa pressão em pleno vôo sublim e

ação

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Também foram compostos poemas vinculados a princípios e Leis da Termodinâmica, como apresentamos a seguir.

## Paradoxo Termodinâmico

AMOR: dois corpos

à mesma temperatura

...e ainda trocando calor

## Segunda Lei da Termodinâmica

construções

são devastadas pelo tempo

rochas

convertem-se em líquido negro

estrelas colapsam

reservas acabam

envelhecemos

a erosão da terra

atinge tudo

:

para o caos

caminhamos

## Ondas

Um poema lúdico, para aproximar os alunos da 'natureza ondulatória' da matéria:

## Nós também temos natureza ondulatória

I - o ser

humano

oscila

II - todo encontro representa interferência

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## Eletricidade / Eletromagnetismo

Um poema bem humorado brinca com uma possível e insuspeita possibilidade dos alunos em sala de aula: será que a Física explicaria a atração afetiva? Em seguida, um poema apresenta a relação entre carga, campo e corrente.

## Atração (cantada elétrica)

Você deve ter prótons sobrando

e eu , elétrons . . . !

## Eletromagnetismo

CARGA

gera CAMPO ;

CAMPO

gera CORRENTE

gera CAMPO

gera CORRENTE

gera...

(ad libitum)

## Mecânica Quântica

Não é segredo para ninguém que a Mecânica Quântica é terreno fértil para a interface entre Física e Poesia, tendo sido explorada até mesmo por Gilberto Gil, nas canções do cd 'Quanta', lançado pelo ex-ministro. Aqui, apresentamos diversos poemas curtos compostos a partir de aulas de graduação e pós-graduação. Estes poemas podem ser explorados em cursos introdutórios da graduação em Física ou mesmo no Ensino Médio, como possível 'porta de entrada para o mundo quântico'.

## Princípio da Incerteza

Sabemos o momento

Com tanta precisão

Que não sabemos mais

a posição

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## Da Falência da Causalidade (ou 'Como diria Born')

essa história

de causa e efeito

tem lá seus defeitos

## Dúvida Quântica

Toda rosa tem spins ?

## Quantum Mechanics (Schrödinger's Cat)

Figura 03: O 'poema-equação conceitual' Quantum Mechanics (Schrödinger's cat)

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## Conclusão (ou não)

Para encerrar, inspirado na bem humorada 'Cantada', de Ferreira Gullar, mais um poema sobre o fascínio dos alunos de Física pela Mecânica Quântica, ansiosamente aguardada desde o início da graduação - e que, na estrutura curricular da imensa maioria dos cursos de Física, aparece apenas na parte final do curso, como uma espécie de 'sobremesa' ou 'prêmio' aos que chegaram até ali.

## Cantada Física

Você é mais bonita que um eclipse

à meia-noite;

você é mais bonita que o Movimento Harmônico Simples

do pêndulo

de um relógio antigo;

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você é mais bonita que laser;

que um monte de holofotes num estádio;

que um centro de pesquisas iluminado;

você é mais bonita que um arco-íris

no fim do expediente;

você é mais bonita que a parábola

descrita num lançamento de dardo;

mais bonita que a atração dos corpos à distância

prevista na lei de Newton;

mais bonita que Isaac Newton;

que a lua cheia vista de uma cidadezinha do interior; olha,

você é tão bonita quanto o pôr-do-sol em setembro

e quase tão bonita

quanto a Física Quântica!

## Referências

BARJA, P. R; LOPES, L. Matemática e Literatura: um roteiro interdisciplinar de atividades. In: CIÊNCIA &amp; ARTE, 2006, Rio de Janeiro. Ciência &amp; Arte - Cad. Resumos . Rio de Janeiro: Fund. Oswaldo Cruz, 2006a, p.62.

BARJA, P. R; LOPES, L. Sonetos: uma análise estatística. In: CIÊNCIA &amp; ARTE, 2006, Rio de Janeiro. Ciência &amp; Arte - Cad. Resumos . Rio de Janeiro: Fund. Oswaldo Cruz, 2006b, p.85.

FEYNMAN, R.; LEIGHTON, R. Surely You're Joking, Mr. Feynman! (Adventures of a Curious Character). NY: W. W. Norton &amp; Company, 1987. 352p.

. NY:

LEDERMAN, L. M.; HILL, C. T. Quantum Physics for Poets Prometheus Books, 2010. 338p.

LOGAN, R. K. The Poetry of Physics and the Physics of Poetry .

Singapore: World Scientific Publishing Company, 2010. 340p.

LUCRÉCIO, T. Da Natureza. In: EPICURO et al. Antologia de textos.

Coleção Os Pensadores . 3a.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

MARCH, R. Physics for Poets . 5ªed. NY: McGraw-Hill Science/Engineering/Math, 2002. 304p.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.