ESTUDO DE RECEPÇÃO DE UM VÍDEO SOBRE O FUNCIONAMENTO DO MOTOR ELÉTRICO PRODUZIDO POR ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO
Marcus Vinicius Pereira, Luiz Augusto De Coimbra Rezende Filho, Américo De Araujo Pastor Junior
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Tecnologia Da Informação E Comunicação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ESTUDO DE RECEPÇÃO DE UM VÍDEO SOBRE O FUNCIONAMENTO DO MOTOR ELÉTRICO PRODUZIDO POR ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO
Marcus Vinicius Pereira , Luiz Augusto de Coimbra Rezende Filho , 1 2 Américo de Araujo Pastor Junior 3
- 1 Instituto Federal do Rio de Janeiro, marcus.pereira@ifrj.edu.br
- 2 Universidade Federal do Rio de Janeiro (JCNE/FAPERJ), luizrezende@ufrj.br
- 3 Universidade Federal do Rio de Janeiro, americoapj@gmail.com
## RESUMO
Este trabalho apresenta uma aproximação entre aportes teóricos dos estudos de produção e recepção audiovisual e o ensino de Física ao considerar especificidades da utilização do vídeo em sala de aula. Um vídeo produzido por alunos de ensino médio como uma atividade do laboratório didático de Física sobre o funcionamento de um motor elétrico foi analisado de acordo com o referencial da análise fílmica (Vanoye e Goliot-Lété). Foi então realizado um estudo de recepção deste vídeo tendo como referência o modelo multidimensional de Schrøder, uma ampliação do modelo de codificação/decodificação de Stuart Hall. Tal estudo foi realizado por meio de um grupo de discussão com seis alunos espectadores e o mediador. Os resultados mostraram que, em geral, os alunos privilegiaram em suas leituras os aspectos científicos apresentados no vídeo e deram menos relevância aos aspectos estéticos, tanto em relação à dimensão da compreensão quanto da discriminação. Sobre esta dimensão, um aluno se encontrou em posição de distanciamento e não-imersão. Estudos de recepção como esse podem trazer conhecimentos sobre as características e especificidades do ensino-aprendizagem com audiovisuais, uma vez que podem identificar dinâmicas existentes entre a apropriação e a resistência dos alunos ao material utilizado.
Palavras-chave : laboratório didático de física, estudo de recepção, produção de vídeo.
## INTRODUÇÃO
As pesquisas sobre o ensino experimental da física remontam ao meio do século passado, apontando suas potencialidades e problemas. Por outro lado, é comum que as atividades desenvolvidas no laboratório didático se deem da forma mais tradicional: geralmente os estudantes seguem um roteiro escrito e fechado que determina todas as etapas a serem seguidas a fim de encontrar os resultados e 'confirmar a teoria'. Esta prática ratifica a relação teoria-evidência implícita em muitas perspectivas epistemológicas que orientam o ensino da Física, além de reforçar o papel do professor como detentor do conhecimento e gerenciador do espaço do laboratório de forma disciplinar e estruturada. Por outro lado, deve-se ressaltar que as situações desenvolvidas no laboratório escolar podem também privilegiar a reflexão e a investigação por parte dos alunos, chegando até a um alto nível de complexidade e abstração (ARAÚJO e ABIB, 2003; ROSA, 2003). Podem ainda envolver formas de expressão e comunicação que não somente se limitem ao tradicional relatório escrito pelos estudantes, mas integrem também, por exemplo, a produção de vídeos.
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20 a 25 de janeiro de 2013
Nesta linha, encontram-se trabalhos (CONDREY, 1996; GIRAO, 2005; TANAKA, 2005; PÉREZ, 2009) que discutem a produção de vídeos pelos alunos como uma prática que permite explorar aspectos que decorrem do deslocamento do aluno do papel de sujeito passivo-receptor para ativo-receptor-produtor . Além disso, é recorrente a ideia segundo a qual o vídeo potencializa a motivação e o envolvimento do aluno nas atividades didáticas e no aprendizado dos conceitos.
No entanto, muitos destes estudos não têm atentado para algumas questões importantes para compreender como se dão as atividades didáticas envolvendo o vídeo. Tem resultado do conjunto dos trabalhos sobre o uso de recursos audiovisuais no ensino de ciências uma visão que se preocupa centralmente em legitimá-los como atividade didática, sem considerá-los em suas especificidades e limites. Assim, considera-se importante estudar, por exemplo, como as dinâmicas de resistência social, cultural e político-ideológica que podem envolver a exibição de um vídeo em sala de aula podem interferir e condicionar essas atividades.
## PROPOSTA PEDAGÓGICA
Uma estratégia para atividades no laboratório escolar de Física é a produção de vídeos pelos próprios estudantes (produtores), na qual eles podem planejar desde a concepção do próprio aparato a ser produzido para explicar determinado fenômeno, até as opções estéticas, formais e narrativas da linguagem do vídeo. Tal estratégia vem sendo implementada com regularidade desde 2008 em uma escola pública de ensino médio no Rio de Janeiro. Solicita-se que o vídeo, quanto à linguagem audiovisual, tenha sequência lógica, clareza de comunicação (oral, escrita e imagem), autonomia conceitual (autoexplicativo) e curta duração (da ordem de cinco minutos). Em outras palavras, foi dada autonomia aos alunos para escolherem como desenvolveriam o vídeo e quais recursos seriam usados.
A contribuição didática de tal estratégia foi investigada ao se analisar 22 vídeos sob dois enfoques: sua eficiência como atividade de laboratório (PEREIRA e BARROS, 2010) e sua concepção como relatório audiovisual que inclui a dimensão estético-cultural inerente ao próprio vídeo produzido (PEREIRA et al ., 2011). O presente artigo visa a ampliar estes resultados de pesquisa ao investigar um estudo de recepção de um desses vídeos, intitulado ' JN - Motor Eletromagnético '. Com esse estudo pode-se aprofundar a pesquisa e a avaliação sobre esta estratégia em uma direção ainda não explorada. O objetivo deste estudo é, portanto, analisar a atividade de recepção deste vídeo para obter informações sobre a especificidade da dinâmica envolvendo alunos espectadores que nunca participaram da produção de vídeos no contexto de uma atividade do laboratório didático de Física. Para isso, serão analisadas duas dimensões de um modelo multidimensional para o estudo de recepção audiovisual apresentado na seção a seguir.
## QUADRO TEÓRICO-METODOLÓGICO
A área de pesquisa em ensino de Física, que por muito tempo se apropriou de referenciais teóricos da psicologia, vem cada vez mais dando espaço a aportes teóricos de outros campos do conhecimento, como, por exemplo, a linguística e a sociologia, e de forma mais singela a comunicação. Como indicam Rezende Filho, Pereira e Vairo (2011), falta diálogo entre as questões relevantes para a área de
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Educação em Ciências e o conhecimento externo que poderia informar os estudos que abordem o audiovisual em uma perspectiva educacional.
Ao se estudar a exibição de um vídeo em uma sala de aula, deve-se conceber tal espaço como um espaço de recepção, no qual os alunos podem ser considerados espectadores. Para se estudar a recepção da obra audiovisual nos referenciamos no modelo multidimensional de Schrøder (2000), que incorpora e amplia o tradicional modelo de codificação/decodificação de Stuart Hall (2003). Hall, em meados da década de 1970, rompeu com um modelo de estudo da comunicação fundamentado na centralidade da transmissão da mensagem e na suposição segundo a qual esta detinha um sentido supostamente fixo em sua 'passagem' do emissor para o receptor. Levando em consideração o poder inerente à assimetria entre essas duas posições, Hall supõe uma circularidade entre produção e recepção, em que a codificação (produção) pode tentar controlar o sentido do texto em direção a uma decodificação (recepção) mais específica e fechada (significado preferencial), ao mesmo tempo em que o receptor pode subverter, resistir ou aderir a esse significado preferencial da codificação (HALL, 2003, p.361).
- É interessante notar que o modelo de Hall, mesmo levando em conta as diferentes atitudes de leitura do receptor e a não-determinação de um sentido único e fixo dado pelo produtor, pressupõe um tipo de relação de poder existente entre esses sujeitos ao ter como referência o posicionamento ideológico do espectador em relação a um significado preferencial. Já Schrøder (2000) amplia essa relação na medida em que propõe um modelo multidimensional para pensar a recepção, no qual se consideram dimensões específicas das atitudes de leitura. Schrøder propõe um modelo para além da unidimensionalidade do modelo de Hall (centrado na questão da interferência da ideologia na recepção) ao considerar dimensões específicas, que podem ser divididas em dois grupos:
- i. leituras : dimensões relativas aos processos da produção de sentido em um determinado contexto e por um determinado receptor, entre as quais as dimensões de motivação , compreensão , discriminação e posição ;
- ii. implicações : dimensões relativas ao significado social das leituras em sua potencialidade como recursos para a ação política, entre as quais as dimensões de avaliação e implementação .
Neste estudo, optou-se por analisar duas das quatro dimensões de leitura : a compreensão e a discriminação . A compreensão diz respeito à forma como os espectadores entendem o produto audiovisual, sendo condicionada tanto por fatores macrossociais (gênero, classe, etnia etc.) como por fatores microssociais (escolaridade, cultura etc.). As posições de leitura dessa dimensão alternam entre a divergência (polissemia total) e a convergência (monossemia total) do significado preferencial e dos significados efetivamente compreendidos em uma dada leitura. A dimensão de discriminação está relacionada à familiaridade do espectador com o gênero do produto audiovisual, com os processos de produção, estilos etc., ou seja, ao seu conhecimento técnico, estético e cultural. Nessa dimensão se investiga como e porque os espectadores podem ser esteticamente críticos ou não em relação ao material audiovisual, e sua análise pode se dar em dois eixos: distanciamento e não distanciamento; imersão e não imersão.
- A fim de indicar alguns significados e posicionamentos potenciais do vídeo, além de levantar hipóteses sobre seu significado preferencial, o vídeo foi analisado por meio do referencial da análise fílmica de Vanoye e Goliot-Lété (1994). A análise
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fílmica não pode centrar-se apenas no texto audiovisual, devendo levar em conta também o contexto no qual a obra foi produzida e buscar identificar as influências deste na composição do texto. Analisar um filme é desconstruí-lo em suas partes, em seguida reconstruí-lo e buscar a compreensão do todo da obra a partir da síntese das partes. Este todo do filme reconstituído pode subsidiar, no caso deste estudo, conclusões sobre o significado preferencial e estimativas sobre uma leitura preferencial do vídeo.
Por sua vez, identificar o significado preferencial do vídeo contribui também na identificação de resistências, apropriações e adesões a este significado, por meio de uma análise comparativa entre as leituras efetivamente feitas pelos espectadores e as conclusões levantadas a respeito do significado preferencial/análise fílmica.
## ESTUDO DE RECEPÇÃO
Segundo Morley (1996), um estudo de recepção demanda conhecer alguns aspectos do lugar social dos sujeitos pesquisados para que se possa entender, em alguma medida, como se dá a construção dos sentidos. É necessária, então, uma descrição sobre o contexto em que se dará o estudo. Nesta pesquisa, os sujeitos foram escolhidos aleatoriamente por meio de um convite feito aos alunos (já escolarizados ou em fase final de escolarização em Física) de uma escola de ensino médio no Rio de Janeiro com ampla experiência na realização de atividades de laboratório em disciplinas relacionadas às Ciências da Natureza. Essa escola realiza, há mais de dez anos, uma semana dedicada a atividades culturais com mostra de peças, danças, música, vídeos etc. No entanto tal instituição é tradicionalmente (re)conhecida por seu caráter técnico-científico, com cursos técnicos fortemente relacionados às disciplinas de Ciências da Natureza que possuem cargas horárias elevadas quando comparadas às das outras ciências.
Os alunos foram convidados apenas a participar de um estudo no qual assistiriam a um vídeo. Não foi dito de antemão que se tratava de um vídeo produzido por outros alunos. Dessa forma, a operacionalização do estudo envolveu o envio do convite por e-mail, a confirmação de participação dos mesmos na data agendada, e a realização da exibição do vídeo seguida de uma discussão em forma de grupo de discussão.
## Análise Fílmica
O vídeo aborda o funcionamento de um motor elétrico simples e tem duração aproximada de três minutos e meio, apresentando o conteúdo científico de maneira descontraída pelos alunos. Trata-se de uma paródia do Jornal Nacional, com alunos caracterizados de apresentadores e uma de repórter que entrevista um outro aluno que interpreta o cientista que inventou o motor, explicando-o do ponto de vista científico nos moldes de um vídeo tutorial passo-a-passo. O tom de humor pode ser percebido no início e no final do vídeo, enquanto um tom mais didático é dado na explicação de como funciona o motor. A produção é notadamente amadora. Por outro lado, o texto fílmico está estruturado da identificação do evento 'científico' no cotidiano, enunciação de uma 'verdade científica' pelos apresentadores e execução de um experimento por um cientista que comprova que tal enunciação se trata de uma verdade. A Figura 1 abaixo ilustra algumas cenas desse vídeo (em ordem cronológica da esquerda para a direita, de cima para baixo).
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Figura 1: Cenas do vídeo 'JN - Motor Eletromagnético'.
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Em termos de marcas formais, a linguagem fílmica parece sofrer duas influências. A primeira é a reprodução da linguagem de um telejornal, ainda que tal utilização esteja atendendo ao recurso da paródia, fazendo uso de planos médios e eventuais primeiros planos, com passagens de enquadramento entre os apresentadores. Os apresentadores e a repórter olham diretamente para a câmera a qual interpelam, falando diretamente ao espectador. A segunda é a do vídeo tutorial que conta com legendas que parecem querer 'didatizar' o vídeo. Após isso, o vídeo ganha um tom de 'dever de casa', ou melhor, de trabalho em grupo no qual os alunos parecem se preocupar em explicar (sem aparecer em cena) para o professor aquilo que entenderam. A imagem nesta parte do vídeo atua como mera ilustração da teoria a ser explicada.
Diante dessas características, o vídeo aparenta ter sido endereçado tanto para os estudantes como para o professor, resultando em um endereçamento um tanto ambíguo. Chama-se atenção que essa hipótese de endereçamento ambíguo necessita ser averiguada por um estudo de recepção com os espectadores potenciais do referido vídeo, a fim de se identificar um endereçamento único ou mesmo dual.
Ressalta-se que essas conclusões são hipóteses feitas com base em um olhar específico, e complementadas com o estudo de recepção apresentado a seguir. Um estudo holístico de produção-recepção audiovisual poderia iluminar tais hipóteses, por exemplo, com entrevistas dos produtores e observações feitas ao longo da produção da obra audiovisual (DEACON, FENTON e BRYMAN, 1999).
## Caracterizando os sujeitos da pesquisa
O grupo era constituído por três estudantes do sexo feminino e três do sexo masculino. É interessante mencionar que eles possuem em média três aparelhos de televisão em casa e pelo menos um computador pessoal, demonstrando que se trata de um grupo de estudantes privilegiado em termos de acesso à informação. Quatro
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sujeitos admitiram ter experiência em produção de vídeos, dos quais apenas dois a vivenciaram na escola. Quanto à experiência com vídeos educativos, todos admitiram já terem assistido e gostado, exemplificando com documentários veiculados nos canais de televisão por assinatura como Discovery Channel, History Channel e National Geographic . Apenas um aluno mencionou vídeos não veiculados na televisão. Quanto à experiência com práticas e experimentos no ambiente da escola, fica evidente a alta intimidade que esses alunos têm com aulas de laboratório, em especial na disciplina de Química, cuja média foi de 30 práticas realizadas por aluno até aquele momento dos anos de estudo na escola, enquanto que práticas de Física e Biologia foram realizadas em média cinco vezes.
## Análise das dimensões do modelo multidimensional
Para a análise das posições de leitura dos seis alunos espectadores em relação ao vídeo em se tratando das dimensões de compreensão e discriminação do modelo multidimensional de Schrøder, foi realizado um grupo de discussão, que durou aproximadamente meia hora, logo após a exibição do vídeo. O mediador indagou o grupo acerca das seguintes questões: (i) O que você compreendeu (ou não) do vídeo? (ii) Destaque pontos positivos e negativos. (iii) Você faria o vídeo de alguma forma diferente? Como? (iv) O que você acha do uso desse vídeo como recurso didático?
Dois alunos relacionaram, equivocadamente, o conteúdo do vídeo à indução eletromagnética, e um deles criticou a duração e encadeamento do vídeo. O Mediador indagou se a existência no vídeo da seção intitulada 'A Física explica' seria suficiente melhor compreensão, afirmativa refutada pelos participantes. É interessante, neste momento, a forte relação, para a maioria dos alunos, entre a compreensão do fenômeno envolvido com o funcionamento do motor e a necessidade de apresentação de uma equação matemática, como se isso fosse garantia de uma melhor compreensão do vídeo. Por outro lado, um aluno chama a atenção que os produtores fizeram opção pela realização de um vídeo de caráter mais qualitativo, chegando a citar um exemplo que é, rapidamente, criticado por ele mesmo e pelos outros participantes, já que o fato da voz over mencionar o que está acontecendo com a espira que rotaciona (mais rápido ou mais devagar) não é suficiente prova para que seja compreendido o que está acontecendo. Em tom de espanto, um aluno reconhece um elemento na imagem e o associa à compreensão, pois para ele o fato de que a espira girava mais rápido, como afirmado na narração, deveria estar relacionado a uma faísca mais evidente. No entanto, este e outro aluno reconhecem que o que é dito é suficiente para afirmar o que é correto, apesar do que é visualizado na imagem.
Dois alunos destacaram o humor na encenação como ponto positivo em contraste com o conteúdo científico formal, considerado difícil, chato, rígido e sério, como algo que em geral não dá lugar a um tom mais tranquilo, mais descontraído. Porém, outros dois alunos inferiram que o caráter positivo do humor no vídeo depende para quem ele está endereçado, quem é seu público-alvo, levando o grupo a debater ainda sobre a credibilidade das informações em função do tom humorístico da encenação e o uso da paródia do telejornal como tentativa de minimizar a não-credibilidade das informações veiculadas em um vídeo amador, mesmo os sujeitos considerando a qualidade boa, em especial para exibição na internet. A paródia foi vista pelo grupo como tentativa de não tornar o vídeo 'chato', como a maioria dos vídeos científicos segundo alguns sujeitos.
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Nesse momento o grupo debateu acerca do uso do telejornal, evidenciando a posição de distanciamento de um dos alunos, não somente pela paródia, mas pelo fato de o vídeo ter sido produzido por outros alunos, e a de não distanciamento para os outros cinco sujeitos por mais que reconhecessem a necessidade de um embasamento teórico para a compreensão. Quando indagados sobre os alunos produzirem o vídeo, o grupo esteve em imersão total , considerando que as práticas tradicionais do laboratório didático, das quais esses sujeitos têm ampla experiência, possuem menos vantagens quando comparadas a produção de um vídeo que mobilizaria outros aspectos.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando que a estratégia de produção de vídeos por alunos vem contribuindo para a reflexão sobre o papel do ensino experimental com o uso de tecnologias da informação e comunicação, a investigação sobre a produção e a recepção de vídeos pode trazer mais conhecimentos sobre as nuances e diferenças colocadas pelo ensino-aprendizagem com recursos audiovisuais, uma vez que podem identificar, por exemplo, dinâmicas existentes entre a resistência e a adesão/apropriação dos alunos ao material utilizado.
Mesmo o estudo de recepção tendo sido realizado com um vídeo que possuía um tom mais descontraído e humorístico, além de conter encenação e paródia, é marcante a componente científica no discurso dos sujeitos, seja quando relatam o que entenderam do vídeo, seja quando destacam aspectos de ordem técnica/estética, chegando a algumas vezes considerar que um vídeo 'científico' deveria excluir tais aspectos.
Os sujeitos já vivenciaram, em sua maioria, algum tipo de experiência de produção audiovisual, o que demonstra a inserção desses alunos em um mundo de informação e comunicação, com a democratização cada vez maior dos meios de produção e a valorização da produção independente, por meio de câmeras digitais e celular e repositórios de vídeo (como o YouTube e Vimeo ).
Nesse sentido, a recepção desse tipo de vídeo por alunos (espectadores) que possuem cada um seu repertório cultural marcado sociohistoricamente cria um espaço oportuno para se estudar a produção de sentidos, sobretudo para se tentar relacionar como jovens que atualmente produzem os mais diversos tipos de materiais (textos, imagens, vídeos etc.) e os publicam na web ( blogs , facebook etc.) veem, compreendem, refutam e/ou aceitam vídeos e mídias cada vez mais presentes na sala de aula do século XXI.
Considera-se que as etapas realizadas até agora permitem vislumbrar a importância de pesquisas que considerem as especificidades do audiovisual associadas ao campo da educação, sobretudo do Ensino de Ciências, ao trazer referenciais teóricos negligenciados em estudos de produção e/ou recepção de vídeos na sala de aula.
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## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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