A Mediação em Espaços Não Formais: O que pensam os Mediadores de um Centro de Ciência sobre os seus papéis?
Fernanda Bassoli, Denise Leocádio, Marcillene Ladeira, Marcela Toledo, Júlio Almeida
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Educação Não Formal
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A MEDIAÇÃO EM ESPAÇOS NÃO FORMAIS: O QUE PENSAM OS MEDIADORES DE UM CENTRO DE CIÊNCIAS SOBRE OS SEUS PAPÉIS?
## Fernanda Bassoli 12 , Denise Leocádio , Marcillene Ladeira , Marcela Toledo, 2 2 Júlio Almeida 2
1 Universidade Federal de Juiz de Fora/Departamento de Ciências Naturais/C.A. João XXIII, fernanda.bassoli@ufjf.edu.br
2 Universidade Federal de Juiz de Fora/Centro de Ciências
## Resumo
Neste trabalho objetivamos investigar as concepções dos mediadores de um Centro de Ciências sobre o seu papel na instituição e sobre as atividades que desenvolvem, de modo a subsidiar as ações de capacitação e formação continuada. Para tal, foi aplicado um questionário cujas questões foram avaliadas por meio da análise de conteúdo. Os resultados evidenciam a predominância de uma visão do mediador enquanto transmissor de informações e realizador de experimentos com os visitantes, o que destoa da proposta da instituição alicerçada na popularização da ciência e valorização dos saberes dos visitantes. Esses dados apontam a necessidade premente de implantação de um programa de formação dos mediadores, baseado na experimentação de diferentes formas de mediação, na valorização dos saberes construídos em sua prática e na problematização de conceitos chave para a educação em espaços não formais como: mediação, papel dos mediadores, contextualização histórica e objetivos dos museus e centro de ciências e popularização da ciência.
Palavras-chave : Educação não formal. Espaços não formais. Centros de Ciências. Mediação. Formação de Mediadores.
## Introdução
O número de Centros e Museus de Ciência vem crescendo exponencialmente no Brasil, acompanhando, mesmo que tardiamente, uma tendência mundial. Em levantamento realizado pela Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência em 2005 havia 110 destas instituições. Em 2009 este número subiu para 190, de modo que acreditamos que atualmente já tenhamos mais de 200 instituições, concentradas principalmente nas regiões sudeste e sul (ABCM, 2009).
Tendo em vista a qualidade das relações estabelecidas com o público, a mediação humana tem papel central e vem sendo destacada por vários autores. Cada museu ou centro de ciências adota uma filosofia particular, bem como estratégias diferenciadas para a mediação e a capacitação dos mediadores - ou mesmo opta por não incluir em sua dinâmica um profissional que realize a mediação entre o museu/centro e o público. Da mesma forma vários nomes são atribuídos aos mediadores: guia, facilitador, bolsista, monitor, estagiário, explicador, animador, anfitrião, entre outros (MASSARANI et al , 2007; MASSARANI; ALMEIDA, 2008). Optamos por utilizar o termo mediador, por considerarmos que este reflete a
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principal função deste profissional, que é ser uma ponte entre a instituição (e os conhecimentos por ela veiculados) e o público, sendo considerado por Marandino (2008) a 'voz da instituição'.
## A Mediação e o Papel dos Mediadores
Os estudos produzidos pelos museus e centros de Ciência, intimamente ligados às discussões do campo da educação científica, tem se pautado na perspectiva sociocultural segundo a qual a mediação é um conceito-chave para o entendimento da ação humana (NASCIMENTO, 2008). Nesta perspectiva, a mediação é entendida como 'uma nova relação entre o sujeito e o objeto, em que o sujeito é capaz de promover um agir produtivo, reflexivo e finalizado de criação de objetos que descrevem o mundo. Porém, novos objetos exteriorizados transformam a própria constituição do sujeito sociohistórico'. Nesse contexto, o mediador é o sujeito que interfere nas relações entre o objeto de conhecimento e o aprendiz, 'auxiliando-o no processo intra e interpsíquico de criação de objetos que descrevem o mundo' (LENOIR, 1996 apud NASCIMENTO, 2008).
Moraes e colaboradores (2007) trazem o conceito de mediação para o contexto de ação dos museus e centros de ciências:
A mediação constitui processo de qualificação da interatividade nos museus e centros de ciências, correspondendo a uma ampliação do diálogo dos visitantes com os experimentos expostos por meio do desafio e da problematização, a mediação com fundamento na linguagem ocorre principalmente a partir da interação entre seres humanos envolvidos na experiência de visitação. (...) Mediar não é informar e fornecer respostas aos visitantes, mas promover diálogos que possibilitem a todos avançarem naquilo que já conhecem, sempre com a ajuda de alguém que conhece mais (MORAES et al . 2007, p. 56).
Em consonância com o conceito de mediação explicitado acima, é preciso discutir o papel dos mediadores de centros e museus de ciência. Segundo Gomes da Costa (2007, p. 31) o papel do mediador é motivar em vez de explicar, questionar em vez de responder, desafiar em vez de apresentar soluções, indo na mesma direção ao exposto por Lindegaard (2008), que destaca ainda o aspecto lúdico dos centros de ciência.
De acordo com esta autora, o principal papel do mediador é o de facilitar um processo educativo que seja significativo e resulte em uma aprendizagem para o visitante de modo a motivar o 'aprender a aprender' , integrando a aprendizagem ao entretenimento (aprender brincando, fazendo, manipulando e experimentando) e a estimular os sentidos, a curiosidade, a dúvida e a elaboração de perguntas, convidando a interagir e despertando o interesse por investigar.
Além desses aspectos, Hakas (2008) ressalta o papel do mediador enquanto um 'sensor' que possibilita uma retroalimentação de informações fundamentais sobre o público acerca da concepção das mostras, design de experimentos e das exposições, construção e manutenção de equipamentos, entre outras atividades para as demais pessoas que trabalham nos museu. Além de receber do público ideias para a elaboração de novos equipamentos e atividades, informações sobre temas não tratados ou tratados de maneira insuficiente ou inadequada, críticas e inquietações (HAKAS, 2008). Segundo Rodari e Merzagora (2007), 'os mediadores são o único 'artifício museológico' realmente bidirecional e interativo', tendo em vista
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que nenhuma exposição interativa ou ferramenta multimídia pode realmente ouvir os visitantes e responder às suas reações.
Tendo em vista o importante papel atribuído ao mediador, torna-se necessário discutir o conjunto de saberes necessários à sua prática, segundo os pressupostos que discutimos nesta seção.
## Os Saberes da Mediação
Segundo Queiroz e colaboradores (2002), há três grandes categorias de saberes que marcam a mediação museal: os saberes da construção do conhecimento (saber disciplinar, saber das concepções dos visitantes, saber do diálogo, saber da linguagem, saber da transposição didática, saber da interação com professores); os saberes da ciência (saber da história da ciência, saber das visões de ciência e seus conceitos) e os saberes relativos aos museus (saber da história da instituição, saber da história da humanidade, saber da concepção da exposição, saber das conexões entre temas e roteiros, saber da expressão corporal, saber da manipulação dos equipamentos/experimentos, saber da ambientação).
Ribeiro e Frucchi (2006) também apontam os conhecimentos essenciais à prática da mediação, que correspondem, de certa forma, aos categorizados por Queiroz et al . (2002), são eles: conteúdo temático do museu; conhecimento do patrimônio representado pelo acervo do museu e sua contextualização histórica; conceitos que embasam a proposta da instituição e o tipo de abordagem das exposições; treinamento em comunicação com diferentes tipos de público; estudo de público (faixa etária, escolaridade, nível de interesse/motivação, principais demandas, tipos de abordagem mais adequados).
Além destes conhecimentos, as autoras destacam a importância do compromisso social e do gosto pelo trabalho compartilhado; o bom relacionamento com a equipe do museu e com o público; o desenvolvimento da criatividade e recursos para situações imprevistas; o exercício da avaliação e da reflexão como práticas cotidianas (RIBEIRO; FRUCCHI, 2006).
A partir dessa complexidade de saberes, é primordial que os profissionais dos espaços não formais tenham consciência da importância social da mediação e da responsabilidade que ela implica, de forma a engajarem-se em um processo permanente de formação. Do mesmo modo, os gestores dos espaços não formais devem investir na formação dos seus mediadores - problematizando a realidade da instituição, estimulando a reflexividade, a pesquisa e a mudança de postura e de atitudes, de modo garantir a efetividade das ações junto ao público e a coerência entre estas ações e a proposta da instituição.
Nessa pesquisa tivemos como intuito investigar as concepções dos mediadores de um Centro de Ciências sobre o seu papel a fim de subsidiar um programa de formação continuada de mediadores.
## Metodologia da Investigação
Esta pesquisa, de cunho qualitativo, foi realizada junto aos mediadores do Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), através da aplicação de um questionário durante as atividades de formação e planejamento
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realizadas no início de 2012. O questionário foi respondido anonimamente pelos 27 mediadores presentes, cujas falas foram identificadas com nomes fictícios.
- O questionário continha questões abertas de forma a investigar as concepções dos sujeitos sobre o seu papel e atividades que desenvolve. As respostas às questões foram analisadas, por meio da análise de conteúdo a partir da criação de categorias a posteriori (BARDIN, 1979).
## Resultados e Discussão
Ao investigarmos as concepções dos mediadores acerca do seu papel (Quadro 1), as seguintes categorias foram mais recorrentes: 'realizar experimentos/atividades com os visitantes'; 'transmitir conhecimentos' e 'mediar', Com menor frequência foram ainda citados: 'auxiliar/orientar os visitantes'; 'planejar atividades'; 'estimular a investigação'; 'despertar a curiosidade' e 'passar uma visão melhor sobre ciência'.
Quadro 01 : Papel dos mediadores do Centro de Ciências.
Estes dados evidenciam uma concepção muito simplista sobre a função do mediador, visto preponderantemente enquanto 'executor' de experimentos ou transmissor de conhecimentos (BASSOLI et al ., 2012). No primeiro caso está subjacente a ideia do 'aprender fazendo', negligenciando a necessidade de haver um envolvimento, não só físico (' hands-on ') como também intelectual (' minds-on ') e afetivo (' hearts-on ') por parte do visitante (PAVÃO; LEITÃO, 2007). No segundo caso é evidente uma concepção escolarizada e conteudista do espaço não formal, segundo a qual o visitante deveria sair com o maior número possível de conhecimentos passados pelos 'explicadores' (GOMES DA COSTA, 2007).
Segundo Mora (2007), até recentemente o mediador era visto como um transmissor de esquemas estabelecidos, cuja principal função era dar explicações aos visitantes, vistos como receptores passivos, para que pudessem compreender as ideias contidas nos objetos e exibições. No entanto, de acordo com a autora, as ideias atualmente vigentes sobre a divulgação da ciência nos museus consideram que o mediador deverá 'levar em conta as diversas facetas do desenvolvimento intelectual dos visitantes' e, para o caso dos museus de ciência, ele deve ainda transmitir uma visão de ciência como atividade em construção a qual tem formas peculiares de abordagem, longe de ser um corpo estático de conhecimentos. De
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acordo com ela 'somente com esse olhar o guia poderá colocar o visitante numa situação de interrogação e descoberta perante os objetos e equipamentos do museu' (MORA, 2007, p. 25).
Algumas respostas fornecidas pelos mediadores investigados como: 'mediar', 'popularizar a ciência' e 'passar uma visão melhor sobre a ciência', precisam ser problematizadas, visando uma maior apropriação por estes dos saberes da mediação descritos por Queiroz et al. (2002) e Ribeiro e Frucchi (2006). Segundo Falash e Soler (2010), além da exposição dos resultados científicos é interessante mostrar a figura do cientista, sua atividade, seus problemas e suas perspectivas, reforçando a visão de que a ciência é um produto social e de que o cientista é um agente na sociedade e não uma 'entidade' isolada em laboratórios e experimentos mirabolantes.
Em contrapartida, alguns mediadores explicitaram em suas falas uma concepção sobre a sua função mais coerente com a proposta da instituição e com os conceitos de mediação discutidos neste artigo:
Meu papel é de servir de ponte, de intermediar o que está no Centro de Ciências (...) (Renata).
Estimular a curiosidade e o aprendizado dos visitantes (Bruno).
Ao analisarmos os dados sobre as atividades que os mediadores desenvolvem (Quadro 2), novamente fica explícito o papel de 'executor' e 'explicador', evidenciando que a quase totalidade dos mediadores não tem uma compreensão global sobre o papel social do Centro de Ciências e sobre o seu próprio papel neste espaço. Da mesma forma, quando os mediadores citam 'popularização e divulgação da ciência' como atividades por eles realizadas, estas palavras aparecem novamente como algo banalizado.
Quadro 02 : Atividades desenvolvidas pelos mediadores do Centro de Ciências.
Silva e Oliveira (2011) encontraram dados semelhantes aos da presente pesquisa ao caracterizar o papel dos mediadores de um centro de ciências durante as visitas escolares: mediar o conhecimento, explicar os conceitos científicos envolvidos nas exposições, apresentar os espaços temáticos, receber e organizar os visitantes, zelar pelo espaço físico e integridade física e moral dos visitantes, complementar o ensino escolar dos visitantes e difundir conhecimento científico. Dentre estes dados, destaca-se a preocupação desses mediadores em zelar pelo local de trabalho e pelas pessoas que lá, o que não foi citado por nenhum dos sujeitos investigados nesta pesquisa.
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Segundo Brito (2008), a formação de profissionais na área de popularização da ciência no Brasil encontra-se em processo de construção, de modo que entre as novas profissões e especializações que vem surgindo, a mediação deve ser considerada como uma das mais relevantes a se constituir. Entretanto, atualmente a função de mediador está embebida de uma série de contradições, conforme relata esta autora:
A exigência que recai sobre o mediador, seja do público ou da instituição, é excessiva e contraditória, quando pensamos na importância que essa atividade tem para as instituições, no tempo de formação oferecido aos alunos, na complexidade dos temas, que, por vezes, estão muito distantes de suas áreas de estudo, e nos baixos valores das bolsas oferecidas (BRITO, 2008, p. 41).
## Considerações Preliminares
Esta pesquisa evidenciou uma compreensão limitada de grande parte dos mediadores investigados acerca do seu papel - reduzido a transmitir conhecimentos e a realizar experimentos com os visitantes. Consideramos que esta visão fere a proposta da instituição, pautada pelo estímulo à curiosidade, espírito crítico e experimentação e também por levar os visitantes a perceberem a importância da prática de investigação científica.
Tendo em vista que o papel dos mediadores é determinado pelos objetivos que atribuímos a um centro de ciência, a explicitação da proposta da instituição e definição do papel do mediador deve ser o ponto de partida para a implantação de um programa permanente de formação - baseado na reflexão sobre a prática educativa e alicerçado pela bibliografia sobre os saberes da mediação que se amplia a cada dia. Nesse sentido, este trabalho reafirma o desafio de contribuir para a formação dos mediadores de espaços não formais, juntamente com a necessidade de maior valorização profissional destes agentes de transformação.
## Referências
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