UMA PROPOSTA PARA SALA DE AULA SOBRE A FÍSICA NUCLEAR E A FÍSICA DE PARTÍCULAS
Henrique Santos Shiino, Giselle Watanabe Caramello, Cleide Matheus Rizzatto, Graciella Watanabe
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Alfabetização Científica E Tecnológica E Abordagem Cts No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UMA PROPOSTA PARA SALA DE AULA SOBRE A FÍSICA NUCLEAR E A FÍSICA DE PARTÍCULAS
Henrique Santos Shiino , Graciella Watanabe , Cleide Matheus Rizzatto , 1 2 3 Giselle Watanabe Caramello 4
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/Licenciatura em Física, henrique.shiino@gmail.com
2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física/Programa Interunidades em Ensino de Ciências, graciella.watanabe@usp.br
3, 4 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/ CCT-Física, cleide.rizzatto@ifsp.edu.br; gisellewatanabe@ifsp.edu.br
## Resumo
Esse trabalho apresenta uma proposta para sala de aula voltada ao tema energia nuclear, incluindo aspectos da Física de Partículas. Com ele busca-se discutir conceitos da Física tratados na escola básica, assim como suas aplicações tecnológicas e científicas vinculadas ao contexto socioambiental, político e econômico. A discussão central da proposta volta-se à questão energética, seus recursos, produção, consumo e implicações na sociedade. Para a pesquisa, no primeiro momento, consideraram-se as ideias dos alunos sobre a temática energia, analisadas por meio da Análise Textual Discursiva; para, então, no segundo momento, propor aulas para o Ensino Médio considerando os aspectos acima levantados. Dos resultados preliminares, visto que a sequência foi parcialmente aplicada na escola, observa-se que a proposta pode contribuir para promover reflexões e discussões sobre as implicações das ciências nucleares, dando espaço para que o aluno se posicione frente às questões de riscos. Além disso, visando uma segunda aplicação, esse trabalho mostrou a necessidade de se fazer alguns ajustes, como adequar os conceitos e tempo de aula à realidade da escola pública, para considerar as intenções iniciais dessa pesquisa.
Palavras-chave : Física Nuclear, Física de Partículas, Ensino de Física, questões socioambientais.
## Introdução
Tratar a questão da energia conduz a um debate que abrange tanto as esferas sociais quanto econômica, política e ambiental. Isso se deve à própria natureza do tema em questão que, por ser amplo, pode levar ao debate não somente sobre a demanda energética de um país como também sobre os interesses e investimentos feitos em ciência e tecnologia. Em outras palavras, tratar a questão energética abre espaço para discutir distintos assuntos que vão desde a busca pela obtenção de energia, visando manter o modelo social vigente, até a importância de se investir em ciência e tecnologia, a exemplo dos aceleradores de partículas como o Large Hadron Collider (LHC) e o Pelletron (acelerador de partículas instalado no Instituto de Física da Universidade de São Paulo). Assim, considerando-se que essa discussão deve pautar-se nos elementos da Física e nas questões que envolvem as esferas supracitadas, isso implica, a nosso entender, buscar uma formação na qual os alunos possam se posicionar frente às situações de sua realidade.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+) (BRASIL, 2002) também assinalam para a discussão da questão energética sob essa perspectiva abrangente. Nos PCN+ é clara a busca por promover um ensino de Física por meio de uma abordagem contextualizada e contemporânea, capaz de dialogar e articular com os outros campos das ciências e do conhecimento. Especificamente no contexto da Física, tomando como referência as diretrizes presentes nos PCN+ de Física do Ensino Médio (BRASIL, 2002), a questão energética comparece em
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diferentes temas estruturadores, a saber, 'Movimentos: variações e conservações'; 'Calor, Ambiente, Fontes e Usos de Energia'; 'Equipamentos Eletromagnéticos e Telecomunicações'; 'Som, Imagem e Informação; Matéria e Radiação'; e 'Universo, Terra e Vida'. Os temas estruturadores, segundo os PCN+, 'têm a função de promover competências que tornem um cidadão capaz de utilizar a visão e linguagem da Física para compreender e modificar o mundo que o rodeia'. Em particular, no tema 'Matéria e Radiação' estão assuntos como energia nuclear, os impactos ambientais e os perigos da exposição à radiação. Ainda nesse tema sugere-se discutir o funcionamento de usinas hidrelétricas e os diferentes processos que antecedem a utilização da energia elétrica (produção, armazenagem, etc.). No contexto das pesquisas em Ensino de Física discussões sobre a inserção dos conteúdos de Física Moderna são amplamente discutidos e defendidos sob as mais diversas perspectivas, no entanto, divergem em sua maioria para a importância da atualização curricular e do papel do conhecimento da Física Nuclear e de Partículas na ciência contemporânea (PINTO & ZANETIC, 1999; SIQUEIRA, 2006; GARCIA, 2009).
Diante do que foi exposto, nos parece fundamental levar para a escola discussões que abordem os conceitos e conteúdos científicos da Física articulados com os problemas advindos da realidade socioambiental. A nosso ver, isso significa promover um debate que considere as incertezas e riscos (BECK, 1997), implicando avaliar as relações que se estabelecem no contexto social, político, econômico e ambiental no qual a questão está inserida. Ou seja, significa buscar um posicionamento crítico no qual diferentes olhares sejam explicitados, de modo que o aluno tenha condições de tomar decisões que influenciarão sua vida. A partir dessas considerações, esse trabalho tem o objetivo de propor e discutir uma sequência de ensino para o Ensino Médio sobre a temática energia nuclear e de partículas, tomando como referência a produção, demanda e riscos que as envolvem.
Como forma de organização, em um primeiro momento, discutem-se as ideias dos estudantes sobre a temática energia nuclear e aceleradores de partículas; em seguida, apresenta-se a proposta levada para a sala de aula e, por fim, discutem-se as futuras ações e encaminhamentos desse trabalho. Note que esse trabalho é fruto de reflexões iniciais e ainda necessita de aprofundamentos e outras intervenções em sala de aula. Durante a aplicação da proposta alguns 'ajustes' ao longo de sua implementação foram realizados; nesse sentido, as considerações aqui feitas terão a intenção de explicitar as possíveis alterações na sequência de ensino, visando a viabilidade de implementação futura.
## As ideias dos alunos sobre Energia Nuclear e Aceleradores de Partículas
As experiências relatadas nesse item foram desenvolvidas numa escola pública do estado de São Paulo. Contou com a participação de vinte e oito alunos do 3º ano do Ensino Médio regular e da modalidade jovens e adultos (EJA), e com as contribuições do professor de Física dessa escola. O docente responsável é formado em licenciatura em Física e especializado em Física Médica. Ele buscou uma parceria com os pesquisadores desse trabalho, contribuindo de forma a modificar e aprimorar a sequência de ensino.
Antes de produzir a sequência sobre a temática energia, foi feito um levantamento por meio de um questionário. Nele buscou-se chamar a atenção do aluno por meio de manchetes veiculadas na mídia sobre acidentes nucleares, especificamente, sobre o acidente de Fukushima ocorrido em 2011, e também sobre o acelerador de partículas LHC, que tem sido um dos grandes destaques na
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imprensa quando se trata dos estudos em Física de Partículas. A intenção com esse questionário foi identificar as ideias dos alunos visando, com isso, adequar a proposta levada para a escola com as expectativas discentes. Note que as respostas não serão aqui aprofundadas, visto que o foco desse trabalho é apresentar e discutir as aulas propostas.
As manchetes destacavam os assuntos 'Fukushima descontaminará 110 mil casas afetadas por radioatividade'; 'Região de Fukushima terá retirada de 29 milhões de m³ de terra radioativa'; e 'Em busca da origem de todas as coisas'. Com base nisso e nos seus conhecimentos, os alunos respondiam as questões: O que você entende por Energia Nuclear? Quais os possíveis danos que acidentes nucleares, como o de Fukushima, podem causar? Você se lembra de outros? Quais? Para que serve o acelerador de partículas como o LHC e Pelletron?
Para a análise das respostas considerou-se as etapas sugeridas pela Análise Textual Discursiva (ATD) (MORAES e GALIAZZI, 2007). Segundo os autores, a ATD refere-se a um processo no qual as categorias são construídas à medida que a análise é realizada, ou seja, durante a análise dos trabalhos é possível identificar elementos que darão suporte para as categorias finais. Este método pauta-se em três etapas fundamentais, a saber: 'unitarização' (fragmentação dos textos analisados, originando as unidades de significado); 'categorias temáticas' (que surgem após junção das unidades de significado, que, por sua vez, advém das semelhanças semânticas das frases e sob um olhar teórico); e 'comunicação' (refere-se à elaboração de textos descritivos e interpretativos sobre as categorias temáticas). Vale ressaltar que tais categorias foram subsidiadas por referenciais teóricos que apresentam elementos relacionados aos riscos e incertezas (BECK, 2010; MORIN, 2007).
Apoiando-se nessa metodologia foi possível notar que a questão energética, sob a perspectiva dos alunos, está baseada na abordagem trazida pelos livros didáticos. Isso, de certa forma, implica dizer que a questão energética não se relaciona com as preocupações mais atuais que envolvem a temática, como as advindas dos problemas socioambientais, políticos e econômicos que permeiam a implementação e manutenção das usinas nucleares, assim como as tecnológicas e econômicas que envolvem os aceleradores de partículas. De modo geral, notou-se que havia um distanciamento entre a Física escolar e a que resolveria algumas questões provenientes da realidade em que os alunos estão imersos. Também ficou clara a dificuldade dos alunos com a abordagem Física, em especial quando eles tiveram que se expressar a respeito da Energia Nuclear.
Assim, considerando os resultados obtidos com os questionários, houve uma tentativa dos pesquisadores e do professore em adequar a sequencia de ensino à realidade dos alunos, em especial, considerando o grau de aprofundamento das discussões que seriam levadas para a escola. Além disso, esses resultados contribuíram para explicitar a necessidade de estabelecer relações mais claras entre a Física escolar e as questões socioambientais, econômicas e políticas vinculadas a temática energética.
## A proposta para a sala de aula
A sequência aqui apresentada foi elaborada para alunos do 3º ano do Ensino Médio que, seguindo o currículo 'tradicional' de Física, já deveriam ter estudado os conceitos de energia, suas leis de conservações e transformações. A produção da sequencia de ensino, embasada na proposta do PCN+, tinha a intenção de promover as reflexões que pudessem resgatar nos estudantes as dimensões
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sociais, culturais, econômicas, politicas e científicas/ conceituais sobre o tema Energia, em especial, enfatizando relações estabelecidas com as questões socioambientais. Portanto, a proposta da sequencia de ensino baseia-se na produção, demanda e riscos que envolvem os aspectos acima mencionados e que se articulam com a dimensão do fazer científico.
Para as aulas foram considerados dois grandes assuntos orientadores: (i) Energia, Energia Nuclear e Física de Partículas e; (ii) Implicações socioambientais, científica e tecnológica. O primeiro assunto orientou os pesquisadores na definição dos conceitos e conteúdos necessários para que os alunos pudessem se posicionar frente às questões que emergem do segundo assunto. Cabe ressaltar que no primeiro grupo estão concentrados, em sua maioria, os conceitos e conteúdos científicos/ escolares que regem a temática das aulas; mas isso não significa que questões de natureza socioambiental, política e econômica não estão presentes nessas aulas. Para uma visão geral da proposta, no Quadro 1 estão dispostas as aulas e seus principais assuntos.
Quadro 1 - Proposição de aulas que compõe a sequência didática
Na 1ª aula discute-se o que é uma matriz energética e como está disposta a matriz brasileira. Nessa aula, além de retomar alguns conceitos voltados às transformações de energia, a intenção é discutir o que caracterizam as fontes de energia renováveis e não renováveis, procurando abordar a questão da utilização dessas fontes e suas interferências no meio ambiente. Nesse momento também se discute a matriz energética brasileira em contrapartida à mundial, dando oportunidade para que os alunos comparem o consumo dos ditos países desenvolvidos com os em desenvolvimento. Note que a intenção é aproximar o aluno do problema, portanto não se espera que ele tenha clareza sobre, por exemplo, o conceito de energia nuclear.
Na 2ª aula conceitua-se o termo energia, tomando como referências as ideias de Feynman (1999). A intenção aqui é sistematizar e definir a energia na perspectiva Física, além de apresentar o princípio de sua conservação. A partir disso, são discutidas as transformações de energia em uma usina hidroelétrica, levantando a questão 'De onde vem a energia que faz essa usina funcionar?'. Assim, abre-se espaço para que alunos possam identificar tanto as transformações como a principal fonte de energia que a movimenta, o sol. A partir disso é possível trazer à tona as interações e reações nucleares. Nessa aula, ainda que com caráter informativo, falase das usinas em fase de construção no país.
Nas 3ª e 4ª aulas discutem-se os tópicos introdutórios que trarão subsídios para abordar a Física de Partículas ( Figura 1 ). Especificamente, trata-se de abordar
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a estrutura do átomo, ou seja, o modelo atômico clássico e seus constituintes (elétrons, prótons e nêutrons). Após apresentar as propriedades dos núcleos atômicos e suas partículas portadoras de cargas elétricas, a intenção é discutir as interações de natureza elétrica, compreendidas pela Lei de Coulomb. Nesse momento, sugere-se que os alunos resolvam alguns exercícios e problemas sobre o assunto.
Figura 1 : Exemplo de slides da aula 3.
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Na 5ª aula retoma-se a discussão sobre o núcleo atômico e interação elétrica. A problematização se dá por meio do questionamento sobre a instabilidade do núcleo, uma vez que os prótons são carregados positivamente e exercem forças repulsivas entre si. Para discutir essa questão são apresentadas as quatro forças fundamentais da natureza: gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e nuclear forte. O foco da discussão volta-se à interação nuclear forte, responsável por manter a coesão das partículas subatômicas que constituem o núcleo. Nessa aula ainda propõe-se que, por meio de cálculos, os alunos comparem as forças gravitacional e elétrica. A intenção é mostrar o quanto a força elétrica é mais intensa que a gravitacional e, com isso, promover uma discussão sobre a intensidade das outras duas forças fundamentais.
Na 6ª aula explora-se conceitualmente a obtenção e liberação da energia, através das reações nucleares. Abordam-se o conceito de fissão nuclear, iniciada pelo bombardeio de nêutrons, e as reações em cadeia; assim como a fusão nuclear. Outro elemento importante, porém brevemente discutido, refere-se à equivalência massa-energia explicitada pela equação E=m.c² . Ainda em se tratando das reações nucleares discute-se outro fator delimita as reações nucleares, o chamado Q da reação.
A partir da 7ª aula a discussão volta-se aos elementos que são utilizados para obtenção da energia nuclear. Primeiramente, discute-se a representação de um elemento qualquer previsto pela tabela periódica de Mendeleev-Pauli para, em seguida, tratar de dois elementos importantes para obtenção dessa energia: o urânio (cujos núcleos estão suscetíveis à reação de fissão) e o hidrogênio (suscetível a reação de fusão). Trata-se aqui de discutir a possibilidade de um elemento se transmutar em outro por meio dos decaimentos alfa ou beta. A partir das discussões promovidas nessa aula duas observações são feitas: a primeira de que a reação de fusão dos isótopos de hidrogênio é considerada o 'motor' das estrelas e, a segunda, trata da possibilidade de se utilizar a energia proveniente das reações de fissão e fusão, visto as limitações cientificas e tecnológicas atuais.
Na 8ª aula abordam-se os tipos de radiações (alfa, beta, gama e raios X), sua fenomenologia física e relação com as partículas nucleares. Ainda nesse contexto, discutem-se como os cientistas conseguiram compreender o fenômeno do decaimento beta ( + β e -β ). Especificamente, procura-se apresentar como os físicos
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chegaram à conclusão de que a questão decaimento -β refere-se à emissão de um elétron juntamente com um antineutrino e que o decaimento + β refere-se à emissão de um pósitron com um neutrino. Em seguida, aborda-se o conceito de radiação gama, dando espaço para interpretação de uma onda eletromagnética de alta frequência. Por fim, discute-se o poder de penetração das radiações nos objetos e seres vivos. Para encerrar, a intenção é explorar as diversas aplicações das radiações, em especial na área médica e pesquisas em Física, dando possibilidade de introduzir as aulas seguintes.
Na 9ª aula aborda-se a questão do aproveitamento da energia liberada nas reações nucleares, procurando evidenciar os riscos envolvidos no processo. A princípio, retomam-se alguns conceitos da Termodinâmica (como o calor) com ênfase no funcionamento detalhado de uma usina termoelétrica movida, por exemplo, a carvão; posteriormente, utiliza-se um discurso análogo para tratar do combustível nuclear. Em seguida, discutem-se as implicações do uso da tecnologia nuclear, evidenciando os riscos envolvidos. Tais riscos envolvem desde a instalação e funcionamento das usinas até os resíduos atômico-nucleares. Somente como exemplo, coloca-se para a discussão assuntos como 'um dos grandes desafios para a sociedade, ciência e tecnologia é solucionar a difícil questão do lixo atômico'.
A partir dessa reflexão, na 10ª aula abre-se a discussão sobre o papel das radiações na compreensão da estrutura da matéria. A intenção com isso é abordar o que são, para que servem, como funcionam e quais as implicações sociais, políticas e econômicas relacionadas aos aceleradores de partículas, tais como o Pelletron e o LHC. Nessa aula há uma preocupação em discutir o papel dos aceleradores no que se refere ao desenvolvimento da ciência e tecnologia e o financiamento público à esse tipo de empreendimento. Note que ao se discutir os aceleradores também é possível mostrar que a Física é uma ciência em construção, o que implica que está aberta às descobertas, inovações e aplicações.
Na 11ª aula procura-se trazer à tona as implicações decorrentes da construção da bomba atômica. A intenção é mostrar que, além dos riscos provenientes do uso da energia nuclear, há de se considerar a manipulação política e econômica sobre o assunto. Essa 'relação' foi mostrada durante a segunda guerra mundial quando os norte-americanos devastaram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki com bombas atômicas ( Little Boy e Fat Man ), desenvolvidas no Projeto Manhattan por físicos como Oppenheimer, Fermi e Feynman. Nessa aula, além de explicar o funcionamento dessas bombas atômicas, procura-se evidenciar os efeitos da corrida e do avanço tecnológico nuclear.
## Considerações e encaminhamentos
De forma geral, com essa sequencia de ensino houve a tentativa de deixar espaços para que os alunos pudessem se posicionar diante das questões polêmicas/ controversas suscitadas pela temática energética. A nosso ver, esse posicionamento só é consistente se estiver embasado pela abordagem da ciência, nesse caso da Física, assim como por argumentos que advenham do contexto socioambiental, político, econômico, etc. Nesse sentido, em diversos momentos, procuramos evidenciar questões nas quais essas relações pudessem ficar explícitas. Por exemplo, ao tratar do funcionamento das usinas termonucleares buscamos trazer aspectos que evidenciassem a interferência causada no meio, seja devido ao lixo atômico produzido ou a alteração no meio ambiente, a exemplo do aumento da temperatura da água utilizada para resfriamento do reator. Da mesma forma, ao
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tratar dos investimentos no LHC e no Pelletron, incentivamos discussões nas quais os alunos refletissem sobre as relações ciência, economia e política, visto o grande investimento e retorno que esse empreendimento pode gerar; ou, ao se tratar da bomba atômica, abordamos os interesses econômicos e políticos revertidos, em parte, pela soberania conquistada pelos países por meio do avanço científico e tecnológico.
De forma geral, podemos dizer que essa sequência, ainda que necessite de ajustes, pode proporcionar um debate em sala de aula no qual o papel das incertezas e dos riscos são evidenciados, mostrando aspectos da complexidade (WATANABE-CARAMELLO, 2012). Essa abordagem nos parece fundamental para mostrar que a ciência é mais umas das perspectivas que deve ser considerada no momento de se tomar uma decisão. Em outras palavras, além do conhecimento científico/ escolar, as contribuições de outras esferas do conhecimento devem ganhar espaço na tomada de decisões. Isso contribui para que a ciência não seja tomada como a verdade única e um empreendimento já construído e finalizado.
Por fim, destacamos que essa sequência de ensino foi produzida e levada para a escola pública básica acompanhada por um professor pesquisador em Física Médica, o que, a nosso ver, contribuiu para um adequado andamento das aulas. Da nossa percepção, foi notório que alguns elementos propostos nessa sequência deverão ser alterados, de forma que um professor não especialista possa conduzir uma aula como a aqui pretendida. Além disso, essa intervenção nos mostrou a necessidade de se fazer alguns ajustes, como adequar os conceitos e tempo de aula à realidade da escola pública. Como encaminhamentos, a nossa intenção é levar essa sequência para a escola, procurando analisar as ideias dos alunos e suas relações com a temática e a problematização proposta para a sala de aula. Esperamos, com isso, adequar a proposta de forma a se aproximar da realidade escolar. De qualquer forma, as intenções aqui relatadas, a nosso entender, podem contribuir para que o Ensino de Física, especificamente, nuclear e de partículas, ganhe mais espaço na escola básica. Acreditamos em uma abordagem na qual as questões socioambientais, políticas e econômicas possam vir articuladas com os conceitos e conteúdos de Física, de modo a não negligenciar nenhum deles.
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