Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

PARCERIA ENTRE UNIVERSIDADE E ESCOLA NA FORMAÇÃO DOCENTE NA VISÃO DO PROFESSOR DA ESCOLA - UMA EXPERIÊNCIA DE CO-DOCÊNCIA DE LICENCIANDOS DO INSTITUTO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E PROFESSORES DA REDE PÚBLICA

Danila Farias Brito Ribeiro, Vera Bohomoletz Henriques

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XX
Ano
2013
Data
22/01/2013
Linha de pesquisa
Formação De Professores E Prática Docente
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2013

Texto completo

## PARCERIA ENTRE UNIVERSIDADE E ESCOLA NA FORMAÇÃO DOCENTE NA VISÃO DO PROFESSOR DA ESCOLA - UMA EXPERIÊNCIA DE CO-DOCÊNCIA DE LICENCIANDOS DO INSTITUTO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E PROFESSORES DA REDE PÚBLICA

Danila Farias Brito Ribeiro 1 , Vera Bohomoletz Henriques 2

1 Instituto de Física da USP, danila.ribeiro@usp.br 2 Instituto de Física da USP, vera@if.usp.br

## Resumo

Este trabalho aborda o papel da disciplina 'Práticas do ensino de Física', ministrado no curso de licenciatura do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, na qual os estudantes devem cumprir horas de estágio em escolas públicas de ensino fundamental II e médio, sobretudo no que tange ao papel do professor que recebe os estagiários na formação dos mesmos para futuro exercício da licenciatura. Todo o trabalho é coordenado pelos professores que ministram a disciplina, auxiliados por um grupo de educadores, composto por pós-graduandos bolsistas da universidade, os quais preparam e acompanham os licenciandos em seu estágio, dirigindo oficinas que são realizadas no instituto. O trabalho começa com um planejamento anual feito pelos ministradores da disciplina juntamente com os educadores ('monitores da disciplina'), visitas às escolas que receberão os estagiários e reuniões com a equipe gestora das escolas e os professores de ciências e física envolvidos. Para contextualização, apresentaremos um breve histórico da disciplina em seus 4 anos de existência, suas dificuldades, limitações e resultados na transformação da prática docente de professores de Física da rede pública e no aprendizado de seus alunos. O foco serão transformações proporcionadas aos estudantes de licenciatura que se preparam para atuar como professores de Física na Educação Básica, a partir da contribuição do docente que recebe esses estudantes em sua formação. Por meio de roteiros de aula elaborados pelos estagiários, seus portefólios semestrais, entrevistas com os ministradores da disciplina, sua equipe de educadores, gestores, professores e alunos de uma escola estadual de São Paulo que recebeu os estagiários em 2011 e 2012, bem como análise de filmagens das aulas regidas pelos estagiários, buscamos verificar os resultados dessa parceira entre o Instituto de Física da USP, e a rede pública de Educação Básica e estudantes de licenciatura na formação de futuros profissionais da Educação.

Palavras-chave : formação, co-docência, estágio, escola pública

## Introdução

O estágio curricular do curso de Licenciatura em Física da USP envolve uma parceria entre a universidade e a escola, e se estrutura sobre uma relação triangular entre três atores: os educadores da universidade, o licenciando-estagiário e o professor da escola. Neste estudo, nosso foco é o papel do professor da escola na formação inicial prática do futuro professor (Pimenta e Lima, 2004), o licenciando. Segundo Galindo (2012), o papel dos formadores, que incluem tanto o professor da universidade quanto o professor da escola, tem sido pouco investigado, sendo que, no caso do professor da escola, este papel não tem sido devidamente reconhecido. Embora seja o professor da escola aquele que propicia 'elos entre o conhecimento

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

20 a 25 de janeiro de 2013

da academia e a realidade da prática pedagógica' (Daniel, 2009), ouvir o professor da escola básica na organização do estágio tem sido negligenciado, segundo Tardif e Lessard (2008).

Nosso estudo realiza-se no âmbito do estágio curricular da Licenciatura em Física do Instituto de Física da USP (IFUSP), organizado pela disciplina Práticas de Ensino de Física a partir de 2008. Segundo o projeto dessa disciplina, baseado no Programa de Formação de Professores da USP (PFPUSP, http://web.if.usp.br/coclic/node/6) , a realização do estágio deve ocorrer em escolas parceiras, em regime de co-docência dos estagiários e professores da escola. A parceria entre a escola de ensino médio Prof. Andronico de Mello e o IFUSP levou ao envolvimento no projeto, como membro da equipe que organiza os estágios, de uma das professoras da escola, Danila Farias Brito Ribeiro, que é, também, uma das autoras deste estudo, ao longo deste texto mencionada apenas como professora Danila. Por sua vez, a autora Vera Bohomoletz Henriques é referida aqui como professora Vera.

A investigação sistemática do papel do professor na formação dos licenciandos, sob a ótica do estagiário, do professor da escola e do monitoreducador, baseia-se na abordagem qualitativa proposta por Bogdan e Biklen (1994). São considerados três tipos de instrumento: (i) a análise dos roteiros preparados pelos estagiários parceiros da professora e sua evolução ao longo da colaboração com a mesma; (ii) a análise do discurso de estagiários da E. E. Prof. Andronico de Melo, em seus relatórios de aula e portefólios semestrais; (iii) entrevistas semiestruturadas com estagiários, com outros professores da escola que recebem estagiários e com monitores-educadores que acompanham os estagiários da E. E. Prof. Andronico de Melo; (iv) vídeos das aulas experimentais ministradas pelos estagiários no laboratório da escola.

## História da disciplina Práticas de Ensino e seu papel na formação de professores de Física

As orientações mais recentes do Conselho Nacional de Educação levaram a alterações no currículo do curso de licenciatura do IFUSP. Assim, em 2007 foi criada, a disciplina 'Práticas de Ensino de Física', anual, com carga horária de 2 horas, e 120 horas de estágio. A primeira experiência da disciplina ocorreu como projeto-piloto, teve duração semestral e a participação de oito licenciandos. Essa experiência ficou a cargo de uma das autoras deste trabalho, professora Vera, e seguiu um modelo previsto na ementa da disciplina, na qual os estágios deviam ser cumpridos em projetos coordenados por docentes do IFUSP relativos à pesquisa em ensino de física, associados à elaboração de material didático ou em escolas da rede pública. A única escola que participou neste primeiro ano foi a E.M.E.F. Des. Amorim Lima, com o desenvolvimento de um conjunto de aulas para uma oitava série do período ministrado por dois estagiários.

No ano seguinte, houve um trabalho prévio de visita às escolas do entorno da universidade para propor a parceria para a formação na co-docência. Não houve imposição de um projeto pré-estabelecido, ao contrário, foi perguntado aos professores de Física e de Ciências das escolas visitadas qual era a contrapartida que esperariam da universidade, que necessidade da sala de aula ou da escola imaginavam que a universidade pudesse suprir. A resposta dos professores que se

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

interessaram pela parceria foi unânime: experimentação. Nenhuma das escolas contava com laboratório ou com material pedagógico que permitisse elaborar aulas com uso de experimentação.

Assim, a organização do estágio passou a ser construída com base no respeito ao professor da rede pública e na valorização do mesmo como o detentor do conhecimento acerca do 'saber fazer' - uma vez que é ele quem conhece a escola, seus contextos, seus alunos e vivencia isso cotidianamente - bem como na necessidade de atender a demanda solicitada pelos professores da rede pública. Esse propósito teve um alcance tal que gerou a reabertura do laboratório da E.E. Prof. Andronico de Melo e a reforma de uma sala de aula transformada em laboratório na E.M.E.F. Des. Amorim Lima.

A partir desse ano, 2009, a disciplina passou a contar com a participação dos chamados 'monitores-educadores', estudantes de pós-graduação, contratados a partir de processo seletivo interno, para trabalho de 20 horas semanais. Esses educadores passariam a ajudar a organizar todo o trabalho dos estágios e a promover oficinas para preparo dos estagiários que trabalhariam nas escolas. Houve aproximadamente setenta estagiários que acompanharam, em duplas, cerca de setenta turmas de escolas da rede pública. Nesse ano, todos os estágios já eram realizados em escolas da rede pública dos entornos da Universidade de São Paulo.

Em 2011, professora Danila assumiu cargo de professora de Física na rede estadual de São Paulo e acompanhou dois grupos de estagiários na E. E. Prof. Andronico de Melo. No ano seguinte, acompanhou outros três grupos de estagiários e passou a atuar como colaboradora da disciplina, frequentando as reuniões e acompanhando de perto o trabalho de preparo dos estágios. A integração ao trabalho desenvolvido na universidade permitiu que a professora da escola formasse uma visão mais geral dos avanços, das dificuldades e dos propósitos da disciplina.

Nesse ano, em 2012, incorporou-se à organização dos estágios e da disciplina o recém-contratado pelo IFUSP, prof. dr. Ivã Gurgel, ao mesmo tempo em que o número de monitores-educadores envolvidos aumentou para quatro. Hoje há 4 escolas públicas que participam dessa parceria: E.M.E.F. Des, Amorim Lima, E.E. Prof. Andronico de Melo, E.E. Prof. Daniel Paulo Verano Pontes e E.E. Prof. José Liberatti.

## Preparo e acompanhamento dos estágios na universidade

O preparo dos estagiários na universidade se dá em dois momentos: nas aulas e nas 'oficinas'.

Em sala de aula, os professores da disciplina abordam temas diversos que se aplicam à prática docente, visando o preparo dos estudantes para as aulas que ministrarão ao longo de todo o ano letivo nas escolas públicas. Desde o começo do curso até meados de abril, mês em que os estagiários começam a ir às escolas, as aulas têm o objetivo de ensinar os licenciandos a prepararem algumas atividades, como exercícios de caráter investigativo, atividades mais práticas, montagem de experimentos e elaboração de roteiros experimentais.

Ao longo do curso são tratados temas considerados relevantes a partir de levantamento feito pelos professores da disciplina nos relatos que os estudantes

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

apresentam após cada visita às escolas. Aos estudantes é dada a liberdade de solicitarem aulas específicas sobre assuntos de que sentem necessidade durante a realização dos estágios. Alguns temas são recorrentes, como indisciplina, comportamento dos alunos, relação aluno-professor e o papel das atividades experimentais no cumprimento do currículo.

Durante as aulas na universidade os estudantes da Licenciatura enriquecem esses debates relatando maiores detalhes das experiências vividas nas escolas. Não raro um mesmo tema já tratado em aula volta a debate, devido a necessidade apresentada pelos licenciandos. Eles não demoram muito para perceber que dificilmente em Educação se têm respostas prontas para os problemas que se manifestam na escola, porém, saem com boas indicações de encaminhamento para essas questões.

É certo que muitos dos estudantes do curso de Licenciatura não pretendem necessariamente seguir carreira na Educação, mas mesmo alguns desses e aqueles que já optaram por se tornarem professores consideram fundamental o preparo prático que a disciplina em questão proporciona em sua formação acadêmica, justamente por tratar diretamente, e com feedback constante ao longo do ano, os problemas gerais da Educação e os peculiares do ensino de Física.

As aulas experimentais a serem ministradas nas escolas são preparadas em oficinas de duas horas, sob orientação dos educadores, que ministram as oficinas de preparo das aulas. Em sua maioria, são elas experimentais, consistindo em atividades participativas e abertas, que devem ser realizadas a partir de roteiros sugeridos pelos educadores. Os experimentos propostos nesses roteiros são provenientes do projeto 'Experimentando' (desenvolvido entre os anos de 2005 e 2009, com participação intensiva de alunos do curso de Licenciatura, sob coordenação da professora Vera, e que tinha como objetivo desenvolver material pedagógico para a sala de aula participativa, o qual era apresentado a professores de física e de ciências da rede pública em cursos de atualização nos Encontros IFUSP-Escola), de projetos desenvolvidos pelos professores Mikiya Muramatsu e Fuad Saad, do IFUSP, e pelo professor Cláudio Furukawa, da UNIFEO, que também é técnico de laboratório no IFUSP. Hoje, o 'laboratório didático-pedagógico', ambiente localizado no IFUSP onde são feitas essas oficinas, já está bastante equipado, contando com uma diversidade de montagens, peças, aparelhos, materiais descartáveis e peças montadas em função dos estágios.

Os estagiários, que geralmente trabalham em duplas, têm toda a liberdade de alterar os roteiros propostos e adaptá-los da forma que consideram mais adequada para 'suas' turmas, bem como para adequar às sugestões do professor da escola,

Em geral, os estudantes fazem a oficina sempre na semana que antecede a visita à escola. São previstas 12 visitas ao longo de todo o ano letivo, além de uma visita inicial de reconhecimento da escola, uma visita para conhecer as turmas e o professor-parceiro, e uma final para avaliação por parte da turma.

Durante as oficinas são montadas caixas com todos os instrumentos e recursos necessários para a prática das atividades experimentais. Há um esquema de logística nos quais os educadores se encarregam de levar essas caixas junto com cópias dos roteiros experimentais para as escolas que recebem os estagiários. Todo o material é transportado quinzenalmente para as escolas, constituindo um 'laboratório móvel'. Dessa forma, o projeto de estágio foi transformado em um

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

projeto de colaboração com a extensão do IFUSP, denominado 'IFUSP vai à Escola'.

## As aulas experimentais nas escolas

No caso da E. E. Prof. Andronico de Melo, as aulas ocorrem no laboratório da escola, reativado após o início da parceria. Os alunos se sentam livremente em grupos nas bancadas, enquanto os estagiários e a professora ou professor acompanham seu trabalho seguindo o roteiro entregue.

Para professora Danila é uma experiência gratificante acompanhar o procedimento e avanços tantos dos alunos da escola quanto dos estagiários durante as aulas que ministram no laboratório da escola. Esse é um momento em que os alunos da escola ficam mais livres para expor dúvidas e comentários, muitas vezes reprimidos na sala de aula (seja por estarem num grande grupo ou pelo reduzido tempo de aula).

Após essa interação, na aula subsequente, a professora Danila consegue reaver muitos dos conceitos debatidos na aula prática, sempre com retorno positivo por parte dos alunos que a frequentaram. Além disso, é evidente o fato de que esses estudantes parecem se apropriar melhor do conteúdo, vendo-o na prática. Dessa forma, é possível retomar muitos pontos discutidos com mais interação por parte deles. Outro resultado muito positivo que acaba impactando em sua prática docente é que os alunos parecem ver com mais facilidade os conteúdos abordados presentes em seu dia-a-dia. São recorrentes muitos comentários que surgem a partir dessa interação.

Citamos dois desdobramentos das atividades com experimentos e roteiros. Por um lado, a professora tem condições de aumentar seu arcabouço de experimentos e questões que surgem a partir dos mesmos, utilizando-os em aulas de outras turmas que não recebem os estagiários. Por outro, modifica-se, na prática, o papel da experimentação no planejamento da professora, qual seja o de um elemento que contribua para o desenvolvimento do pensamento científico nos alunos a partir do trabalho com os roteiros e das discussões que ocorrem durante as aulas, deixando de constituir meramente um subsídio para verificação, demonstração, entretenimento, contextualização, verificação da Física no cotidiano, envolvimento, aplicação de teorias ou dinamismo, muito embora esses elementos também estejam presentes em todo o processo.

## Comunicação entre professor e educador

Algo bastante interessante nessa parceria é a colaboração constante que ocorre entre os educadores, os estagiários e os professores das escolas. No caso particular da professora Danila, há um combinado de fornecimento prévio do planejamento das aulas e aviso sobre quaisquer alterações na agenda da escola. Dessa forma, vai-se planejando o que será feito com os alunos de acordo com o planejamento de aulas. Ao mesmo tempo, o educador sempre envia previamente por e-mail o roteiro finalizado que será utilizado na escola. Consideramos essa forma de atuação imprescindível para uma boa relação do professor com os estagiários e uma atuação eficiente dos mesmos, pois, dessa forma, os estagiários

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

têm condições de colaborar com o trabalho do docente, seguindo a mesma sequência do planejamento. Assim, as aulas experimentais passam a fazer parte de toda a sequência didática planejada e os estagiários, por sua vez, fazem parte de todo esse processo, uma vez que o projeto de parceria é anual.

## Professor como orientador do estagiário

As dificuldades recorrentes para consecução de toda proposta da disciplina ainda estão sendo conhecidas e trabalhadas com os graduandos à medida que aparecem. Cita-se, por exemplo, o fato de que nem sempre se conseguem professores com essa mentalidade de parceria que permeia a disciplina. Ao mesmo tempo, quando se consegue, é preciso contornar - e ensinar os graduandos a fazerem o mesmo - problemas com a indisciplina nas escolas e problemas oriundos do contexto escolar, como, por exemplo, mudanças da grade horária da escola, turmas do período noturno dispensadas por falta de professor e excesso de aulas vagas, conflitos de horário entre graduandos e grade horária da escola, falta de tempo livre do professor da escola, o qual muitas vezes trabalha em mais de uma escola ficando impossibilitado de dedicar mais tempo à interação com os estagiários, etc etc. Essas e outras questões ainda se apresentam como grandes desafios ao projeto da disciplina. Na forma particular da professora Danila por em prática essa parceria, procuram-se evitar dificuldades por parte dos estagiários mantendo contato constante via e-mail com eles e com o educador responsável. Por meio desses contatos, a professora Danila envia o planejamento de aula, sua confirmação e eventuais mudanças de plano devido a eventuais ocorrências na escola que possam afetar as atividades do dia (como alterações na agenda escolar ou liberação dos alunos por ocorrência de aulas vagas).

Ao mesmo tempo, em todo esse processo, a professora Danila auxilia os universitários em sua formação antecipando-lhes situações com as quais terão de lidar e orientando pontualmente na execução de algumas ações relacionadas à indisciplina e à relação dos estagiários com os alunos, ao planejamento de aula e à dinâmica para encaminhamento das discussões, conforme detalhado nos parágrafos a seguir.

Quanto à indisciplina e à relação dos estagiários com os alunos, a professora Danila dedica várias orientações ao longo de todo o ano sobre técnicas de imposição de voz, uso do tempo para explanação verbal a classes superlotadas (tanto na sala de aula quanto no laboratório) e, sobretudo, construção de uma boa relação com os alunos. Alguns estagiários demonstram assimilar e praticar tais dicas a contento, o que é perceptível ao longo do período do estágio por mudanças no comportamento dos alunos (perguntas ansiosas dos mesmos sobre quando os estagiários irão novamente à escola e comentários positivos por parte dos mesmos sobre as aulas experimentais) e na relação dialógica com os colegas e com os estagiários (é notável o progresso quanto à participação ativa dos alunos durante as aulas experimentais).

Ainda sobre a relação dos estagiários com os alunos, houve casos de destaque, como por exemplo, alunos cujos nomes eram conhecidos pelos estagiários e não pela professora! Muitas vezes, mesmo em se tratando de licenciandos que nunca tiveram experiência como professores, a professora Danila teve a impressão de que alguns estagiários já exerciam há tempos o magistério, devido à facilidade, ao entusiasmo e à eficiência com que propiciam os momentos

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

dialógicos nas aulas e como conseguem estabelecer uma relação de respeito e produção entre os alunos.

Quanto ao planejamento de aula, as trocas entre a professora Danila e seus estagiários ocorrem frequentemente nas visitas dos mesmos à escola, atendo-se a um aspecto considerado fundamental nessa parceria: as atividades experimentais levadas à escola pelos estagiários abordam simultaneamente os mesmos conteúdos tratados em sala de aula pela professora, de modo que elas servem para reforçar, demonstrar, aplicar, revisar, aprofundar esses conteúdos. Dessa forma, os alunos da escola aprendem a ver - e aproveitar - as aulas no laboratório como uma extensão das aulas em sala de aula, uma oportunidade de aprimoramento, num espaço mais dinâmico e aberto a participações práticas, debates e interação dinâmica com os colegas.

Ainda sobre o planejamento das aulas experimentais, uma atenção especial é dada pela professora à elaboração dos roteiros das atividades. Dois aspectos importantes são recorrentes nesse preparo: o tamanho do roteiro, que deve estar de acordo com a duração da aula, e a clareza do objetivo da atividade. Sobre o primeiro aspecto, já ocorreu algumas vezes de o tempo da aula (45 minutos para as turmas noturnas e 50 minutos nas turmas matutinas vespertinas) acabar antes que os alunos conseguissem concluir a atividade proposta. Quando isso acontece, a professora chama a atenção dos estagiários para a necessidade de se planejar bem o uso do tempo de que dispõem, pois boa parte dele se esvai com a ida dos alunos ao laboratório, sua organização no ambiente, a distribuição dos roteiros e dos instrumentos e as orientações iniciais. Em pouco tempo os estagiários percebem essa questão e a necessidade de um planejamento de aula objetivo, com roteiros de atividade mais compactos.

Quanto à dinâmica para encaminhamento das discussões, os estagiários são orientados da forma descrita a seguir.

Após fazerem uma breve explicação geral a toda a turma sobre a atividade proposta para a aula em curso, os estagiários orientam e acompanham o trabalho prático dos alunos nas bancadas o laboratório, esclarecendo dúvidas que surgem a partir do roteiro experimental. Ao mesmo tempo, acompanhando o trabalho dos alunos e dos estagiários, a professora Danila chama a atenção desses para dúvidas frequentes dos alunos, assuntos que surgem nas discussões os quais ainda não foram tratados em aula, questões cujo aparecimento é previsto a partir de dúvidas mais recorrentes em sala de aula, muito frequentemente devidas à falta de base matemática por parte dos alunos (são recorrentes dúvidas sobre cálculos que envolvem contas de divisão e transformação de unidades de medida).

Ao mesmo tempo, há uma tônica procedimental nesse trabalho de parceria: o ambiente dialógico é proporcionado por professora e estagiários de tal forma a propiciar o desenvolvimento do pensamento científico nos alunos. Isso é conseguido por meio da natureza aberta das atividades experimentais propostas, isto é, os estagiários são incentivados e instruídos a elaborarem atividades que oportunizem uma discussão ampla entre os alunos, que, assim, têm a possibilidade e a liberdade de inferirem conceitos, levantarem hipóteses, testar as mesmas e discutirem possibilidades de resultados a partir de modificações e adaptações nas atividades realizadas. Em outras palavras, ao contrário de serem tolhidos em sua capacidade de explorar um fenômeno e relacioná-lo a conceitos e eventos do cotidiano, os alunos tem a oportunidade de desenvolver a criatividade e o senso crítico,

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

desenvolvimento esse que não somente é permitido, mas incentivado e propiciado por meio de atividades conduzidas da forma descrita acima.

Por outro, modifica-se, na prática, o papel da experimentação no planejamento da professora, qual seja o de um elemento que contribua para o desenvolvimento do pensamento científico nos alunos a partir do trabalho com os roteiros e das discussões que ocorrem durante as aulas, deixando de constituir meramente um subsídio para verificação, demonstração, entretenimento, contextualização, verificação da Física no cotidiano, envolvimento, aplicação de teorias ou dinamismo, muito embora esses elementos também estejam presentes em todo o processo.

## Conclusões acerca dos resultados obtidos com o trabalho de codocência na formação de futuros professores

Quanto ao impacto sobre os estagiários, parece-nos que a experiência tem sido muitíssimo boa no sentido de acrescentar uma perspectiva realmente prática à sua formação. Percebemos da parte deles uma constante preocupação quanto a manter a atenção dos alunos na escola, despertar sua curiosidade, satisfazer suas dúvidas e até a desenvolver estratégias para manter o envolvimento dos alunos e a disciplina durante a aula.

É muito interessante observar esses resultados no procedimento deles, pois são as mesmas inquietações com as quais a professora Danila se depara no início da carreira e ainda hoje, ao assumir uma nova turma ou ao preparar uma aula diferente.

Durante as aulas experimentais, chega a ser empolgante observar como os estagiários ficam entretidos com as perguntas dos alunos, como se envolvem, procuram decorar os nomes deles, como se envolvem esforçando-se para atender as solicitações dos estudantes e os acompanham na conclusão da atividade e do roteiro.

Há depoimentos de estagiários que não pensavam em lecionar, mas que passaram a ter uma nova visão do trabalho em sala de aula, que gostariam de ter essa experiência e que foi mais interessante e desafiador do que eles pensavam a princípio.

No momento do estágio, os estagiários interagem pessoalmente com os alunos, colocando em prática o que aprenderam e planejaram nas oficinas. À medida que vão aprendendo a entender a mente dos alunos, estão sempre a observar detalhes diversos nas aulas que julgam não serem adequados ficando, assim, mais aptos para o preparo das próximas atividades.

Como descrito brevemente no tópico anterior, os estagiários - destacandose os inexperientes -, parecem fazer excelente usufruto da oportunidade que os estágios da disciplina 'Práticas do ensino de Física' do curso de licenciatura do Instituto de Física da USP lhes oferece.

Quanto aos problemas gerais da Educação, os estagiários são conscientizados de que não há soluções prontas, mas que, com o esforço para o estabelecimento de um bom convívio, fundamentado pelo respeito e absoluta disposição em ajudar os alunos no processo de aprendizagem, é possível

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

conseguirem-se avanços que dirimem alguns problemas e contornam algumas dificuldades.

Assim, o presente trabalho mostra como essa proposta de parceira entre universidade pública e escolas públicas de Educação Básica é tão mais eficiente quanto maior é o engajamento por parte do professor que recebe os estagiários e os mesmos. Essa eficiência aponta para um alcance que vai além da quebra da rotina das aulas, envolvendo transformações nos alunos no que diz respeito ao desenvolvimento de um espírito crítico-discursivo-argumentativo, à disposição para assimilação dos conteúdos e cooperação no trabalho em equipe. Como evidenciado por este relato, resultados como esses podem ser alcançados por futuros professores ainda durante seu processo de formação. Tal fato justifica quaisquer esforços no sentido de promover essa rica e produtiva parceria.

## Referências

BOGDAN, Rober; BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em educação : Uma introdução à teoria e aos métodos . Porto: Porto Editora, 1994.

DANIEL, Luana Amoroso. O professor regente, o professor orientador e os estágios supervisionados na formação inicial dos futuros professores de Letras. Dissertação de Mestrado. Universidade Metodista de Piracicaba, 2009.

GALINDO, Monica Abrantes. O professor da escola básica e o estágio supervisionado: sentidos atribuídos e a formação inicial docente . Tese de Doutorado. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2012.

PIMENTA, Selma Garrida; LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio e Docência . São Paulo: Cortez, 2004.

ROTH, Wolff-Michael; TOBIN, Kenneth. The implication of coteaching/cogenerative dialogue for teacher evaluation : learning from multiple perspectives of everyday practice . In Journal of Personnel Evaluation in Education. Vol. 15. Number 1 (2001). pp . 7-29.

TARDIF, Maurice; LESSARD Claude. O trabalho docente: Elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas . 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.