MOTIVAÇÕES PARA A PERMANÊNCIA OU ABANDONO DO MAGISTÉRIO SEGUNDO LICENCIADOS EM FÍSICA DE UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA
Sérgio Rykio Kussuda, Roberto Nardi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## MOTIVAÇÕES PARA A PERMANÊNCIA OU ABANDONO DO MAGISTÉRIO SEGUNDO LICENCIADOS EM FÍSICA DE UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA
## Sérgio Rykio Kussuda 1 , Roberto Nardi 2
- 1 Universidade Estadual Paulista - UNESP/ Departamento de Educação/ Faculdade de Ciências - Bauru - SP, e-mail: [ rykio@fc.unesp.br ]
- 2 Universidade Estadual Paulista - UNESP/ Departamento de Educação/ Faculdade de Ciências - Bauru - SP, e-mail: [ nardi@fc.unesp.br ]
## Resumo
Atualmente temos observado em diversos meios de comunicação, bem como em trabalhos acadêmicos, a discussão sobre a falta de professores no Ensino Médio, principalmente das disciplinas voltadas às Ciências (Biologia, Física e Química). Um dos possíveis motivos para esta alta demanda de profissionais da educação parece ser a evasão dos professores da carreira docente. A fim de levantarmos os motivos que favorecem a permanência ou o abandono do magistério, realizamos uma pesquisa entre licenciados em Física de uma universidade pública, egressos nas duas últimas décadas, através de um questionário online. A análise dos dados recolhidos demonstra que a evasão da profissão docente é motivada, segundo os licenciados que abandonam a profissão docente, geralmente por motivos salariais, bem como devido às condições de trabalho impostas para este profissional, fato também observado por Lapo e Bueno (2002) e Ruiz, Ramos e Hingel (2007). Os licenciados que se mantêm na carreira docente, geralmente o fazem por motivos de cunho pessoal, principalmente devido ao gosto pela profissão. Contudo, entre os motivos alegados pelos licenciados para continuar a atuar no magistério surge a ideia da docência como emprego temporário, indicando tendências de abandonar a profissão futuramente. Os dados mostram, também, que o maior índice de evasão da carreira de magistério ocorre nos primeiros anos da profissão, dados semelhantes encontrados por Huberman (1989, apud Garcia, 1999).
Palavras-chave : Falta de professor em Física; Motivações para evasão docentes; Motivações para trabalho docente; Abandono do magistério.
## Introdução
Atualmente o sistema de ensino brasileiro vem apresentando grande defasagem de professores, como têm demonstrado estudos realizados por Gobara (2007), Gatti (2009) e Ruiz, Ramos e Hingel (2007). No caso específico da Física, Ruiz, Ramos e Hingel (2007) afirmam que existe uma evasão nos cursos de licenciatura em Física de 65% dos ingressos. Esta vasta evasão existente na própria graduação é uma das causas da atual falta de professores, contudo apenas a baixa quantidade de licenciados formados não compreende toda a causa para a atual crise de profissionais no ensino do país. Como exemplo podemos observar o caso de Bauru, uma cidade interiorana do Estado de São Paulo, com aproximadamente 380mil habitantes e possui um curso de licenciatura que forma professor de Física desde 1969. Contudo, mesmo formando profissionais anualmente, ainda existiam 188 classes nas escolas estaduais de Ensino Médio sem professores efetivos
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20 a 25 de janeiro de 2013
lecionando Física no ano de 2011. Camargo (2006), ao realizar uma reunião com professores que lecionavam Física nesta cidade nas escolas estaduais de Ensino Médio, observou que entre os 46 docentes desta disciplina que compareceram à reunião, 18 eram formados em Física, dois em engenharia, 20 em Matemática, um em Química e cinco se formaram pela licenciatura curta, com habilitação em Física. Estes dados mostram que, nesta cidade, embora exista um curso de licenciatura que forma professores em Física para atuarem no Ensino Médio, existe uma grande quantidade de cargos de professor de Física sendo preenchido por outros profissionais, sem a formação específica para lecionarem esta disciplina.
Lapo e Bueno (2003), em pesquisa realizada com ex-professores que haviam abandonado o magistério, observaram que a defasagem de professores possui diversas causas como a perda de prestígio social da função, a questão salarial e questões pessoais. Ruiz, Ramos e Hingel (2007) afirmam que parte desta defasagem de professores é devido ao aumento do número de estudantes no Ensino Médio, principalmente entre 1995 e 2000, período em que houve um aumento de 52% de alunos neste nível de ensino, e que o baixo investimento do governo na educação, e consequentemente, a baixa remuneração tem afastado os jovens dos cursos de licenciatura. A falta de atratividade na carreira docente também é observada, por levantamento realizado por Gatti (2009) através de questionários e entrevistas com alunos de escolas particulares e públicas que cursavam o último ano do Ensino Médio.
O financiamento insuficiente tem um reflexo direto na questão da qualidade porque ele toca na questão da baixa remuneração do professor, que por sua vez, leva a um número cada vez menor de jovens procurem ingressar nos cursos de licenciatura, levando, naturalmente a um outro grave, e possivelmente mais importante, problema para o enfrentamento da qualidade do ensino: a escassez de professores no ensino médio, especialmente nas disciplinas das ciências exatas e da natureza, mais precisamente química, física e matemática. Ruiz, Ramos e Hingel (2007)
Além da falta de interesse dos jovens por cursar a licenciatura, outro fator que influencia na falta de professores é a alto nível de abandono da carreira docente. Em relação à evasão da carreira docente, Jesus (1995, apud LAPO e BUENO, 2003) aponta que o período crítico na evasão são os primeiros anos, fato também observado por Huberman (1989, apud GARCIA, 1999).
Partindo destes pressupostos, procura elencar as motivações para o abandono da carreira docente entre os licenciados da amostra, bem como as motivações para continuar a seguir a profissão de docente através da aplicação de um questionário online com licenciados de uma universidade pública que haviam concluído o curso de licenciatura em Física nas duas últimas décadas. Esta pesquisa é parte de uma pesquisa maior que visava estudar a escolha profissional dos licenciados de uma universidade pública.
Nesta pesquisa mais abrangente, que visava elencar a escolha profissional dos licenciados formados em uma universidade pública, o qual forneceu dados que possibilitaram produzir este trabalho, observamos que houve uma grande evasão da carreira docente pelos licenciados, principalmente entre os que haviam atuado na Educação Básica. Entre os 40 licenciados considerados nesta pesquisa, 33 haviam lecionado em algum momento de sua carreira na Educação Básica, e, sete
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lecionaram exclusivamente no Ensino Superior. Desta amostra 13 licenciados abandonaram o magistério, uma evasão de aproximadamente 32,5%.
## Metodologia de constituição dos dados
Para a aplicação do questionário online foi necessária realização de busca dos endereços de correio eletrônico dos licenciados formados nas duas últimas décadas no curso de licenciatura em Física da universidade em questão partindo de seus nomes. Os nomes foram fornecidos pela Diretoria Técnica Acadêmica da universidade, sendo litados 377 nomes de licenciados que haviam concluído o curso neste período.
Partindo dos nomes que possuíamos realizamos o levantamento, primeiramente a partir das listas de presença fornecida pelo segundo autor deste trabalho, uma vez que o mesmo havia lecionado neste curso para a maior parte dos licenciados da amostra. Em seguida utilizamos a plataforma lattes , uma vez que este é um meio seguro de evitar homônimos, pois através desta pode-se observar o local de formação e o curso em que a pessoa inscrita nesta plataforma se formou, bem como o ano de conclusão do curso. Caso ainda não possuíssemos o endereço de correio eletrônico utilizávamos motores de busca como Google , Bing , 123 people e Pilp , sendo os dois últimos específicos para procurar pessoas. Estes se mostraram os meios de busca mais eficientes através dos nomes.
Como método seguinte de busca utilizamos a lista telefônica online, seguido de busca em redes sociais, sendo o último método apresentado o menos eficaz de busca, pois muito possuem homônimos ou assumem pseudônimos nas redes sociais.
Através desta forma de levantamento dos endereços de correio eletrônico encontramos 273 licenciados, destes 52 responderam ao questionário, e para este trabalho, serão consideradas as respostas de 40 licenciados que lecionaram em algum momento após concluírem o curso de licenciatura em Física.
Entre as respostas fornecidas, observamos que existe uma grande evasão do magistério pelos licenciados após alguns anos lecionando, sendo o índice de evasão 32,50% dos licenciados, a maior parte da evasão (92,30%) ocorrida nos cinco primeiros anos de sua carreira, fato semelhante ao apresentado por Huberman (1989, apud GARCIA, 1999). Segundo esse autor, os primeiros anos de atuação são caracterizados como fácil ou difícil, de acordo com o relacionamento com os alunos, bem como a ansiedade e a carga horária, entre outros fatores e, em seguida, após quatro a seis anos de atuação, atinge uma fase de estabilidade, passando a se integrar melhor com colegas e pensar em promoções.
Tabela 01: Período em que ocorre o abandono da carreira de docente
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Dos 13 licenciados que abandonaram o magistério, três lecionavam no Nível Superior, sendo que dois deles abandonaram o ensino por lecionar como substitutos contratados em caráter emergencial enquanto cursavam a pósgraduação e um deles por passar a receber bolsa de estudos, não tendo apresentado outras motivações para abandonar o magistério. Entre os outros dez licenciados que abandonaram o magistério, oito lecionavam no Ensino Básico, um deles exclusivamente no Ensino Fundamental e outro exclusivamente no Ensino Médio.
## Motivos alegados para abandono do magistério
Entre os motivos alegados para abandonar o magistério apresentados pelos licenciados que atuaram na Educação Básica estão principalmente a questão financeira e terem sido contemplado com bolsas de estudo na pós-graduação, como apresentado na tabela a seguir.
Tabela 02: Motivos alegados pelos sujeitos da amostra para abandonar o magistério.
Devemos observar que na tabela anterior, a quantidade de respostas foi maior que o número de licenciados que abandonaram o magistério (13), pois, alguns dos licenciados apresentaram mais de um motivo para o abandono do magistério.
Através da análise da tabela anterior podemos observar que os principais motivos alegados para o abandono do magistério estão de acordo com pesquisas realizadas por Lapo e Bueno (2003) e Ruiz, Ramos e Hingel (2007).
A grande quantidade de licenciados que ingressaram em programas de pósgraduação observada nesta pesquisa possivelmente decorre da facilidade de existirem, principalmente, dois cursos de pós-graduação voltados aos licenciados em Física na mesma universidade em que os licenciados da amostra haviam se formado.
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## Motivos alegados para continuar no magistério
Entre os 27 licenciados que continuam a lecionar, os principais motivos alegados para continuar no magistério são o gosto pela carreira, a concepção de que estão trabalhando para a melhoria na qualidade de vida, tanto do aluno como da sociedade e o fato do magistério ser o mercado de trabalho voltado aos que se formaram em cursos de licenciatura. Observamos também que poucos apresentam motivações externas como melhoria na remuneração sendo a motivação para continuar a atuar na carreira docente.
Entre as respostas dos licenciados surge a possibilidade de estar lecionando em Nível Superior como motivação para continuar a lecionar, sendo este um indício de que a Educação Básica não é tão atrativa quanto o Ensino Superior. Outra observação possível é a existência de motivações momentâneas como a necessidade de trabalhar e emprego temporário que indicam uma grande possibilidade destes procurarem outra profissão futuramente.
Tabela 03: Motivos alegados pelo licenciado da amostra que os encorajam a optar ou continuar no magistério
Chamamos a atenção para o fato de haver, na tabela acima, mais de 27 respostas, número superior à quantidade de licenciados que continuam atuar no magistério. Isto se deve ao fato de alguns licenciados apresentarem mais de uma resposta para como motivação para optar manter-se no magistério.
Observando o número de respostas dadas pelos licenciados para os motivos que os levaram a atuar no magistério, pudemos notar que a maior parte encontra-se no campo intrínseco, como classifica Skinner (1998, apud GUIMARÃES et. al., 2004), ou seja, a sensação de bem estar relacionada ao altruísmo por ajudar a melhorar a condição de vida dos alunos e o gosto pela carreira. Em menor escala, aparecem os fatores extrínsecos, como mercado de trabalho para licenciados em Física, desenvolvimento da carreira e melhoria na remuneração.
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## Considerações finais
Ao analisarmos as respostas fornecidas pelos licenciados, pudemos observar que os dados obtidos através das respostas obtidas pelo questionário online são semelhantes aos dados obtidos por pesquisadores como Lapo e Bueno (2002) ao afirmar que a defasagem de professores está relacionada à questão salarial e pessoal. Os dados também se assemelham aos obtidos por Ruiz, Ramos e Hingel (2007) que aponta a falta de professores como sendo motivada pelo baixo investimento do governo na educação, e consequente baixa remuneração, o que têm afastado os jovens dos cursos de licenciatura.
Partindo dessas constatações acreditamos que para amenizar a falta de professores no Estado de São Paulo, devem ser implementadas políticas que visam melhorar tanto o salário dos professores quanto as condições de trabalho, criando modos de promoção sem a necessidade dos licenciados cursarem pós-graduação. Algumas políticas voltadas a essas medidas já estão sendo implantadas, como o artigo 2º da Lei 11.738 de 16 de julho de 2008 que estabeleceu um salário mínimo para profissionais da Educação Básica, bem como o artigo 5º da mesma lei que obriga o reajuste anual no salário no mês de Janeiro. Contudo, mesmo com a implantação desta Lei, o salário dos professores ainda está abaixo das profissões que não necessitam de curso superior, como aponta uma reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo em 25 de abril de 2012, em que indica o salário dos professores inferior ao de secretário júnior, técnico em eletricidade e torneiro mecânico júnior.
Observamos ainda é necessário criar políticas públicas que tornem a profissão docente uma profissão respeitável a fim de melhorar a qualidade de trabalho dos professores, tornando a mais atrativa, de forma que o licenciado perceba que existem condições para realizar um bom trabalho já nos primeiros anos de experiência docente e que faça o aluno respeitar este profissional.
Entre os motivos que os licenciados apresentam para continuar a atuar no magistério, observamos que são, em sua maioria, fatores intrínsecos, principalmente voltado ao lado humanístico, o que reforça a ideia da profissão docente como sendo profissão de poucos, pessoas humanitárias, sem desejo de receber retorno, afastando ainda mais os potenciais professores.
## Referências
BRASIL. Lei número 11.738, de 16 de julho de 2008 . Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/\_ato2007-2010/2007/Lei/L11494.htm> Acesso em: 28 jul. 2012.
CAMARGO, S. Discursos Presentes Em Um Processo De Reestruturação Curricular De Um Curso De Licenciatura Em Física : O legal, o real e o possível. 2007. 287f. Tese (Doutorado em Educação para as Ciências) - UNESP - Bauru.
LAPO, F. R.; BUENO, B. O. Professores, desencanto com a profissão e abandono do magistério. Caderno de Pesquisa . n.118, p. 65-88, 2003
GARCIA, C. M. Formação de professores para uma mudança educativa . Porto Editora 1999, 271p.
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GATTI, B. A. (org.) Atratividade da carreira docente no Brasil , 2009, 85 p.
GOBARA, S.T.; Garcia J.R.B. As licenciaturas em física das universidades brasileiras: um diagnóstico da formação inicial de professores de física. Revista Brasileira de Ensino de Física , v.29, n.4, p. 519-525.
GUIMARÃES, S. E. R. O Estilo Motivacional do Professor e a Motivação Intrínseca dos Estudantes: Uma Perspectiva da Teoria da Autodeterminação. Psicologia: Reflexão e Crítica , v.17, n.2, p.143-150, 2004.
RUIZ, A. I.; RAMOS, N. M.; HINGEL, M. Escassez de professores no ensino médio: Soluções emergenciais e estruturais . 2007.
TAKAHASHI, F. Falta professor em 32% das escolas estaduais de São Paulo.
Folha de São Paulo , 25 abr. 2012. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/saber/1081124-falta-professor-em-32-das-escolasestaduais-de-sao-paulo.shtml Acesso em: 04 ago. 2012.
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