ENSINO DE ASTRONOMIA E A FORMAÇÃO DE LICENCIANDOS EM PEDAGOGIA E FÍSICA
Denis Eduardo Peixoto, Eugenio Maria De França Ramos, Bernadete Benetti
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 22/01/2013
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENSINO DE ASTRONOMIA E A FORMAÇÃO DE LICENCIANDOS EM PEDAGOGIA E FÍSICA
## Denis Eduardo Peixoto 1 , Eugenio Maria de França Ramos 2 , Bernadete Benetti 3
1 UNICAMP / Faculdade de Educação / PECIM, denis.peixoto@yahoo.com.br
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UNESP / IB / Campus Rio Claro, eugenior@rc.unesp.br UNESP / FFC / Campus Marília, bernadete@marilia.unesp.br
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## Resumo
Apresentamos neste trabalho parte de uma experiência didática com alunos do curso de pedagogia da UNESP (Universidade Estadual Paulista), campus de Marília, SP e alunos do curso de Física da UNESP, campus de Rio Claro, SP, que ocorreu durante o ano de 2010, envolvendo o ensino de tópicos de Astronomia, particularmente sobre o sistema Sol-Terra-Lua. Discutimos tomando por base propostas didáticas elaboradas pelos próprios licenciandos, como os futuros professores lidavam com novos temas e conceitos que deveriam ser levados para suas salas de aula em atividades de docência. Tais atividades ocorreram no trabalho de formação com alunos do terceiro ano do curso de Pedagogia, na cidade de Marília, assim como alunos da disciplina Prática de Ensino de Física do curso de Licenciatura plena em Física, na cidade de Rio Claro. O tema Astronomia foi selecionado por diferentes características, das quais destacam-se: (a) ser uma ciência multidisciplinar e motivadora, (b) despertar a curiosidade de professores e alunos, (c) estar presente nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), tanto no Ensino Fundamental quanto do Ensino Médio, (d) incluir-se na ementa dos dois cursos referidos. O trabalho realizado acabou por constituir-se em pesquisa exploratória sobre o Ensino de Astronomia e a formação de professores.
Palavras-chave : Ensino de astronomia. Ensino de Ciências. Ensino de Física. Formação de Professores.
## Introdução
A observação dos movimentos dos astros no céu e também a marcação do tempo, foram fatores cruciais para o avanço científico e tecnológico. Olhar para o céu para tentar compreender seus mistérios e explicar sua existência talvez tenha sido assim que surgiu a mais antiga das ciências, a Astronomia.
A Astronomia está presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN (BRASIL, 1998), em temas que envolvem inclusive a observação e a percepção diária de alguns fenômenos celestes como as Fases da Lua, as Estações do ano e os Eclipses, tratando do Sistema formado pelo Sol, pela Terra e pela Lua. Todavia fatores diversos - como (a) formação docente deficiente na temática, (b) erros conceituais em livros didáticos, (c) falta de material de apoio para os docentes fragilizam a implementação deste conteúdo na Educação Básica (PEIXOTO, RAMOS, 2012).
Até mesmo nos PCN, ao tratar da Astronomia, encontramos sugestão de atividades práticas e visitas a observatórios, planetários, museus de astronomia etc. com a finalidade de minimizar as dificuldades encontradas pelo professor ao trabalhar tal área de conhecimento. Mas nem sempre isso é possível devido às condições da escola ou da distância que estão desses centros de divulgação.
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O que fazer então para minimizar essas condições e gerar alternativas para os educadores trabalharem de uma melhor maneira o Ensino de Astronomia?
Diante de tal contexto é que se desenvolveu esse trabalho de formação e as reflexões decorrentes, que se constituem em nosso entendimento como estudo exploratório.
## O contexto do estudo
Nosso estudo se baseou na análise preliminar de propostas didáticas de alunos de um curso de Pedagogia e de um curso de Física , ambos da mesma 1 universidade porém de campus diferentes, após o trabalho com conceitos de Astronomia em oficinas e minicursos.
Durante tais atividades didáticas, analisamos trabalhos de 23 licenciandos em Física e 60 licenciandos em Pedagogia através de suas apresentações prévias de minicursos e aulas que seriam propostas a alunos da rede pública de ensino da cidade de Rio Claro e Marília, ambas do Estado de São Paulo.
Foram analisados registros das atividades didáticas por uma câmera filmadora (e sua posterior transcrição) assim como anotações em um diário de campo, que se constituíram em pesquisa qualitativa com características etnográficas.
## Licenciandos em Física
Para os licenciando em Física primeiramente ministramos um pequeno curso inicial com cerca de 4h de duração, durante o horário das aulas da disciplina Prática de Ensino de Física, onde expusemos conteúdos sugeridos pelos PCN para o Ensino de Astronomia. Após essa atividade discutimos quais tópicos poderiam ser levados para a sala de aula de maneira a contribuir significativamente para a aprendizagem dos alunos referente a tópicos de Astronomia. Dentre os temas possíveis o Sistema Sol-Terra-Lua se destacou.
Dividimos os licenciandos, organizando-os em grupos, cada um dos quais deveria fazer uma proposta de trabalho didático segundo o conteúdo do minicurso, para ser apresentado após uma semana de nosso primeiro encontro. Os grupos deveriam conceber um minicurso com três horas de duração no total, sendo destinada uma hora para cada licenciando. Os tópicos sugeridos foram: Sistema Solar, Sistema Sol-Terra-Lua e Estrelas.
Com tal encontro, os licenciandos tiveram a oportunidade de fazer uma prévia para os demais graduandos da disciplina, oportunidade em que pudemos aprimorar os conceitos envolvidos, procurando minimizar eventuais falhas conceituais. A execução efetiva dos minicursos com alunos interessados na temática seria realizada posteriormente à fase de preparação.
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Após cada apresentação todos os graduandos comentaram os tópicos discutidos e aproveitaram para tirar suas dúvidas sobre o tema. Ao final da discussão fizemos sugestões de melhorias, principalmente no que diz respeito à organização pedagógica, como, por exemplo, que trabalhassem melhor a abstração envolvida na Astronomia e se desprendessem de uma abordagem tradicional de ensino, onde apenas o professor, a lousa e o caderno têm papéis fundamentais na aprendizagem. Tais prévias e debates foram filmadas, constituindo-se parte de nossos registros de estudo.
Numa última etapa realizamos os minicursos em diversos dias na própria universidade, em atividade didática aberta para alunos, professores e funcionários do campus e, também, em algumas escolas da rede pública de ensino, oportunidades em que todos os grupos puderam apresentar seus temas em atividades didáticas no âmbito das atividades da disciplina Prática de Ensino de Física.
## Licenciandos em Pedagogia
Durante a semana de oficinas de Formação Continuada da UNESP de Marília, promovida pelo Núcleo de Ciência e Cultura da FFC do Campus de Marília, tivemos um espaço para trabalhar tópicos de Astronomia com alunos do terceiro ano do curso de Pedagogia. Devido ao pouco tempo que teríamos para trabalhar, cerca de três horas apenas, montamos uma oficina onde os licenciandos deveriam se dividir em grupos para explicar alguns dos fenômenos envolvendo o Sistema SolTerra-Lua.
Primeiramente fizemos uma apresentação mostrando a evolução histórica de diversos conceitos astronômicos, partindo da Astronomia antiga e chegando até meados do século XVII, demonstrando a revolução iniciada por cientistas como Johannes Kepler, Tycho Brahe e Galileu Galilei em suas obras.
Passada essa etapa, sugerimos a divisão dos alunos em grupos de no máximo oito pessoas, deixando a disposição bolas e placas de isopor, assim como espetos de churrasco, lanternas e canetas hidrocor para que eles explicassem para os demais as Estações do ano, as Fases da Lua e os Eclipses (fenômenos sentidos e observados por nós em nosso cotidiano). Após um tempo de discussão, os grupos
Figura 1 Alunos da Pedagogia demonstrando seus modelos.
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se organizaram para explicar aos demais seus modelos, como pode se ver na Figura 1.
Após a apresentação de todos os grupos, fizemos as correções necessárias, inclusive utilizando as esferas de isopor, palitos e lanterna para que todos pudessem perceber o significado dos conceitos discutidos em três dimensões.
Finalizamos as atividades com uma sessão de observação do céu noturno com um telescópio, que ocorreu numa das quadras da
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Figura 2 Atividade de observação do céu em Marília.
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universidade, como pode se ver na Figura 2. Com a ajuda de um green laser pointer ajudamos os licenciandos a encontrarem algumas das constelações que poderiam ser vistas naquela noite e horário.
## Resultados
Notamos que dúvidas surgiram durante as apresentações tanto com os licenciandos em Física como com os licenciandos em Pedagogia. Particularmente
percebemos nas argumentações a presença de erros conceituais presentes em livros didáticos, erros estes já analisados por Boczko (1998) e Langhi e Nardi (2007).
No caso dos alunos do curso de Física notamos certa confusão na explicação principalmente das Fases da Lua. Muito deles diziam não se recordar de suas aulas de Astronomia na Educação Básica, tentando assim criar modelos explicativos às vezes recheados de erros conceituais.
Além disso, chamou-nos a atenção que poucos graduandos de Física, mesmo com mais tempo para sua preparação, buscaram referências confiáveis no vasto acervo da biblioteca da universidade. A maioria baseou suas propostas de aulas em sites da internet (sem referências e sem datas de atualização) assim como em documentários televisivos, que costumeiramente podem nos apresentar vários erros de dublagem, sobretudo em informações com relação a escalas de tempo e distância de objetos astronômicos. Quanto a materiais didáticos, apenas um dos alunos elaborou um modelo do sistema em três dimensões para ajudar na compreensão dos fenômenos, desprendendo-se da lousa ou mesmo do recurso multimídia.
Os eclipses foram explicados corretamente na maioria das apresentações, porém o fato de haver uma inclinação na órbita da Lua ao redor da Terra era desconhecido por todos 2 . O movimento de rotação da Lua ao redor do seu próprio eixo, o que nos possibilita ver sempre apenas uma de suas faces devido a ter praticamente o mesmo período que sua revolução ao redor da Terra, também passou despercebido pela maioria dos alunos, que a encaravam como um astro sem esse movimento.
As explicações das Estações do ano foram tranquilas, porém a simples visualização em duas dimensões do fenômeno, tanto no projetor como na lousa, pode transformar algo relativamente simples numa representação com algumas falhas e pouca significação para os alunos do minicurso.
Os alunos da Pedagogia por sua vez mostraram um pouco mais de dificuldades com relação a representação das Estações do ano. Em algumas ocasiões a distância da Terra com relação ao Sol foi dada como real motivo da
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ocorrência das estações. Um dos grupos sugeriu que o próprio movimento de rotação da Terra era o motivo de tal fenômeno.
Notamos a falta de segurança por parte de alguns alunos ao trabalharem com o tema proposto. Assim como os alunos do curso de Física, diziam não se lembrar de suas aulas de Astronomia no Ensino Fundamental e Ensino Médio. À medida que as apresentações ocorriam, a segurança dos grupos parecia aumentar e os alunos defendiam com maior certeza seus modelos propostos.
As fases da Lua foram explicadas corretamente, mas o ângulo de inclinação da órbita lunar também era desconhecido por eles, assim como seu movimento de rotação ao redor de seu eixo.
Alguns grupos se confundiram em nomear corretamente os eclipses solares e lunares, mas explicaram o fenômeno corretamente.
## Considerações Finais
O acompanhamento de futuros professores em dois cursos de Licenciatura permitiu constatar a grave deficiência no domínio de conceitos de Astronomia, que comprometem a inclusão de tal temática na ação de docentes recém formados em sua futura ação profissional.
Analisando as observações sobre as apresentações e as prévias feitas pelos graduandos, percebemos que os alunos do curso de Física parecem preferir criar modelos explicativos próprios que os ajudem a levar a temática para a sala de aula ao invés de buscar referências confiáveis, enquanto que os licenciandos em Pedagogia parecem ter a preferência pela utilização do livro didático como principal apoio em suas aulas, preocupante fonte de informações em vista de vários erros já mencionados por Canalle (1997) e Trevisan (1997) em seus trabalhos acerca do tema.
Os conceitos apresentados sobre os fenômenos foram, em sua maioria, apresentados de maneira deficiente. Alguns itens importantes - como a rotação da Lua em torno de seu próprio eixo e a inclinação da sua órbita ao redor da Terra foram omitidos provavelmente devido ao pouco contato que os alunos tiveram com essa ciência em sua formação inicial.
A falta de bons materiais de apoio para a elaboração das aulas, assim como a ausência de sugestões de atividades práticas tornam-se uma barreira para o Ensino de Astronomia. Associado a ela, a falta de segurança que notamos nos graduandos parece se constituir em razão que geralmente os fazem desistir de ministrar aulas sobre o tema, mesmo ele sendo proposto nos PCN e fazer parte da grade curricular do Estado de São Paulo.
Disciplinas optativas sobre Educação de Astronomia, se criadas e inseridas na estrutura curricular de cursos como Licenciatura em Física e Pedagogia, poderiam contribuir não só para mudança na postura do professor, mas também para uma maior inserção desses tópicos em salas de aula, pois o futuro professor ao ter um maior contato e, se levado a discutir sobre o tema durante sua formação inicial, aumentará sua confiança e segurança, capacitando-os a trabalhar essa temática em suas atividades didáticas escolares e oferendo aos educandos uma fonte mais consistente, uma vez que a Astronomia está cada vez mais presente nos meios de comunicação.
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Acreditamos que um maior contato com essa Ciência - por meio de atividades de formação inicial (e até mesmo de formação continuada), bem como visitas a museus de ciências (que geralmente possuem exposições sobre o tema) e a participação em simpósios e congressos - poderiam ajudar na mudança da postura do professor, que teme levar temas de Astronomia para seus alunos.
## Referências
BOCZKO, R. Erros comumente encontrados nos livros didáticos do ensino fundamental . In: EXPOASTRO98 ASTRONOMIA: EDUCAÇÃO E CULTURA, 3, 1998. Diadema. Anais. Diadema: SAAD, 1998, p. 29-34.
BRASIL. Secretaria de Educação Média e Tecnologia. Parâmetros Curriculares Nacionais: ciências naturais . Brasília. MEC/SEMTEC. 1997. CANALLE, J. B. G. et al. Análise do conteúdo de Astronomia de livros de geografia de 1º grau . Caderno Catarinense de Ensino de Física, v.14, n.3, p.254263, 1997.
LANGHI, R. e NARDI, R. Ensino de Astronomia: Erros Conceituais mais comuns em livros didáticos de ciências . Cad. Bras. Ens. Fís., v. 24, n. 1: p. 87-111, abr. 2007.
PEIXOTO, D. E. ; RAMOS, E. M. F . Formação do Professor de Física para o Ensino de Astronomia : Algumas possibilidades e Reflexões. In: I Congresso Internacional de Ensino das Ciências, 2012. Un congresso virtual (online) sobre os desafios e as perspectivas do ensino das ciências , Espanha, 2012.
TREVISAN, R. H. et al. Assessoria na avaliação do conteúdo de Astronomia dos livros de ciências do primeiro grau. Caderno Catarinense de Ensino de Física, v.14, n.1, p.7-16, 1997.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.