Oficinas de Som: Relações entre Física e Música nas séries iniciais
Ana Carolina Mattiuci, Zanoni Tadeu Saraiva Dos Santos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 21/01/2013
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## OFICINAS DE SOM: RELAÇÕES ENTRE FÍSICA E MÚSICA NAS SÉRIES INICIAIS
## Ana Carolina Mattiuci , Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 1 2
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte/DIAC/carol.mattiuci@gmail.com
2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte/DIAC/zanoni.tadeu@gmail.com
## Resumo
O ensino de física é um ensino característica do Ensino Médio, além disso, é uma disciplina baseada em inúmeras fórmulas e para compreendê-la é preciso compreender seus cálculos. Esta é a imagem que se tem da disciplina de física, porém os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) defendem que a física, não deve se deter apenas ao Ensino Médio, mas deve estar presente nas séries iniciais, não como uma disciplina isolada, e sim dentro da disciplina de ciências juntamente com a química e a biologia. Independente do nível, a física pode e deve ser ensinada por outros meios, os cálculos têm a sua importância, mas não podem ser o único recurso, principalmente quando se fala do Ensino Fundamental. Por isso este trabalho vem expor oficinas que foram realizadas no Ensino Fundamental de uma escola, com o objetivo de mostrar que é possível ensinar física nas séries iniciais. As oficinas tiveram como tema, o som. O som está presente na vida de qualquer ser humano em muitas formas e ao contrário da visão errônea que se tem da física, o som, pode ser explicado com a ausência de cálculos, assim como muitos outros assuntos. As oficinas foram compostas de diálogos e conclusões positivas expressadas pelos próprios alunos.
Palavras-chave: Ensino de Física, Ensino de Ciências, Som.
## Introdução
A física é vista como a matéria das fórmulas, assim como afirma Sousa e Cavalcante (2000). Isso faz com que os alunos parem de pensar e não consigam relaciona-la ao seu cotidiano, 'fazendo assim com que a Física perca toda a sua beleza e, fatalmente, venha a trazer um total desinteresse por parte dos alunos e até mesmo dos professores' reforçam os autores.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) defendem que a física pode e deve ser lecionada desde as séries iniciais, ou seja, a partir do segundo ano (primeira série) do Ensino Fundamental, inserida na disciplina de ciências. Segundo esses parâmetros, a física não necessita de nenhum tipo de cálculo para ser ensinada para as crianças desta faixa etária. A física que os PCN sugerem é uma física que está diretamente ligada ao cotidiano dos alunos e que tem por objetivo apresentar sua história, explicar alguns fenômenos e principalmente fazer com que o aluno conheça seu próprio mundo.
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Portanto este trabalho vem apresentar a realização de uma oficina realizada na Escola Municipal Professora Francisca de Oliveira sobre o som. Optou-se por realizar oficinas com as crianças na presença dos professores, mostrando-lhes as possibilidades de se trabalhar com esta disciplina mesmo nas séries iniciais.
Este tema foi escolhido por estar presente no cotidiano das pessoas de muitas formas e por isso, qualquer criança pode ter suas próprias opiniões sobre o assunto. As oficinas são compostas de questionários e diálogos sobre o que as crianças sabem sobre o assunto. As próprias crianças participavam ativamente das oficinas e ao final eram convidadas a expressar o que haviam entendido.
Este trabalho tem como objetivo mostrar aos alunos e professores a importância de inserir a física na disciplina de ciências desde as séries iniciais, relacionando-a com o cotidiano das crianças e com sua alfabetização, no intuito de tornar a criança conhecedora do mundo em que vive para assim sentir-se capaz de transformá-lo.
## O ensino de ciências e a formação de professores
A disciplina de ciências nas séries iniciais é ensinada por professores que cursaram pedagogia. Um curso de pedagogia reserva em média uma carga horário de 90h para a disciplina de ciências, em uma divisão justa podese dizer que 30h são reservadas para física, o que representa no máximo duas aulas por semana durante um único semestre. Quando os professores chegam nas escolas estão 'aptos' segundo sua graduação a ensinar cinco disciplinas, ciencias, geografia, história, português e matemática. Ou seja, são professores polivalentes, mas será que eles estão realmente aptos a ensinar com qualidade as cinco disciplinas? E qual seria o melhor método de dividir o tempo para estas cinco disciplinas? Será que a disciplina de ciências tem direito à pelo menos um quinto deste tempo?
A disciplina de física no entanto não consta diretamente no ensino fundamental, mas ela está inserida na disciplina de ciências, e esta por sua vez é ensinada do 2º ao 5º ano, o que subentende-se que a física pode e deve ser ensinada a partir do 2º ano do ensino fundamental, conforme defende os Parâmetros Curriculares Nacionais.
Damásio e Steffani (2000) defendem que é preciso iniciar o ensino de física desde cedo, pois ele promove a evolução conceitual, porém é preciso inicia-lo com qualidade.
Portanto a escola, deve ser o ambiente onde, pela primeira vez, os alunos irão receber informações e aprender, de maneira formal, o conhecimento organizado e científico sobre as coisas que estão a sua volta. Porém, é preciso que a formação dos professores capacite-os para isso. Krasilchic (1980), defende que os professores precisam se capacitar para que englobem em suas aulas a ciência de maneira adequada e completa.
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## Física e música
Quando se pensa em música, dificilmente se pensa em física, a maioria das pessoas não relaciona estes dois temas, quando na verdade eles tem tudo para serem relacionados um com o outro.
- O som, como explica Wuensche (2009), é uma onda longitudinal que necessita de um meio para se propagar no caso do som esse meio é o ar. Essas ondas chegam aos nossos ouvidos e fazem o tímpano vibrar. Estas vibrações se tranformam em impulsos nervosos e vão até o cérebro e lá são codificadas, só então percebemos o que ouvimos.
A onda sonora é caracterizada pela sua amplitude - a distância da onda entre a origem e o seu pico - comprimento de onda - a distância entre um pico e outro ou entre um vale e outro - e frequência - é o número de ondas completas (ou ciclos) por segundo.
- A nossa volta podemos perceber sons graves e agudos, esta percepção está ligada à altura do som: o som alto é considerado um som agudo e o som baixo é um som grave. A diferença entre o grave e o agudo se deve a variação da frequência de vibração.
Como toda onda, o som também sofre reflexão, difração, interferência, transmissão, absorção e dispersão. Todos esses efeitos interferem no modo como o som nos é transmitido.
Reflexão: é o encontro da onda com uma superfície rígida de dimensões muito maiores que o comprimento da onda.
Difração: é a mudança de direção da propagação da onda devido a passagem do som por um obstáculo qualquer.
Interferência: é a superposição de duas ou mais ondas e pode ser construtiva, quando estas ondas estão em fase e se somam, ou destrutiva, quando estas ondas não estão em fase e se anulam.
Absorção: ocorre quando uma onda atinge um obstáculo qualquer e deposita parte de sua energia sonora ali, sendo refletida, transmitida ou refratada com uma intensidade menor.
Transmissão: acontece nos refletores ou absorvedores de som e causa a propagação da onda que foi refletida ou absorvida.
Dispersão: como o nome já sugere, a dispersão acontece sempre que a onda sonora encontra uma superfície rígida e parte dela se dispersa.
Até aqui se falou de muitos conceitos físicos que nos ajudam a entender melhor essa relação, mas para uma criança, a qual o som está igualmente presente em seu ambiente, é possível enxugar um pouco do assunto e adaptar para que seu entendimento seja possível.
- O som foi explicado para as crianças de forma muito simples, em nenhum momento se usou fórmulas ou palavras complicadas, com as quais
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elas não estavam acostumadas. É possível, por exemplo, explicar que o som é uma onda longitudinal usando como demonstração uma mola ou uma espiral de caderno.
## Metodologia
As oficinas consistiam de três partes, a primeira era um questionamento oral, a segunda uma construção dos conceitos e um questionamento por escrito, e a terceira era a realização da oficina em si e a conclusão das crianças que em sua maioria optaram por desenhar o que haviam entendido.
A metodologia se baseou nas três etapas dos momentos pedagógicos que segundo Pernambuco (1995) são: O Estudo da Realidade (ER), Organização do Conhecimento (OC) e Aplicação do Conhecimento (AC). No primeiro momento, o objetivo é introduzir um conteúdo (qualquer que seja ele) e fazer relações com os conhecimentos dos alunos que provavelmente não disponibilizarão de informações suficientes para explicá-los por completo ou corretamente. Neste momento 'é desejável que a postura do professor seja mais de questionar, lançar dúvidas do que de responder ou fornecer explicações' reforça Pernambuco (1995) - as crianças sempre possuem suas próprias explicações para algo que acontece em suas vidas, provavelmente deverão ter também várias ideias acerca dos fenômenos físicos. Cabe ao professor questionar, discutir, instiga-los a expor suas ideias e dessa forma ampliar este conhecimento primitivo.
O segundo momento, Organização do Conhecimento, é o momento de compreender, com o auxílio do professor, a problematização gerada no momento anterior, dessa forma, diz Pernambuco, o aluno irá perceber que existem visões diferentes da que ele possui e poderá comparar o seu conhecimento, com o conhecimento dos outros e com o conhecimento adequado, podendo assim escolher a melhor interpretação para tal fenômeno e ou situação - Neste trabalho a aplicação de questionários auxiliou na definição desta etapa, onde a resposta dos alunos serviu de direção para as oficinas.
Por fim, o terceiro momento, Aplicação do Conhecimento, procura sistematizar o conhecimento que foi introduzido e incorporado em cada aluno para que estes sejam capazes de interpretar as situações que surgiram no início da problematização e as que poderão surgir. As oficinas aplicadas e os desenhos dos alunos foram caracterizadas pelo terceiro momento, onde as crianças puderam descobrir por si só se, aquelas ideias que surgiram no diálogo inicial e que foram respostas dos questionários, estavam cientificamente corretas.
As oficinas realizadas foram as seguintes:
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Quadro 01: Relação dos níveis escolares com suas experiências.
A oficina 'A força do Som' foi demonstrada em todos os níveis e apenas o quinto ano teve a oficina realizada pelos próprios alunos. As demais oficinas complementares nos níveis anteriores foram realizadas pelos alunos.
## Discussão dos resultados
A primeira questão perguntava a opinião dos alunos sobre o som.
Gráfico 01: O que os alunos acham que é o som.
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Podemos observar que do primeiro para o segundo ciclo a diversidade de respostas aumenta significativamente. Em todos os níveis o som está diretamente ligado com a música, perdendo apenas para algum tipo de instrumento no 2º ano. Os conceitos físicos como vibração e onda sonora aparecem pouco, mas é importante destacar que, mesmo assim, isso já é um conceito presente para alguns alunos e isso é positivo.
As respostas consideradas nulas englobam tanto as ilegíveis como as que não condiziam com as perguntas. Em seguida era perguntado se os alunos gostavam de música e se ouviam as músicas baixas ou altas.
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Gráfico 02: Alunos que gostam de música.
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Gráfico 03: Intensidade do som.
A grande maioria dos alunos gosta de música, e fica fácil mostrar a física que está envolvida nisso, uma vez que já existe uma aceitação inicial do conceito.
O objetivo de perguntar se a preferência era de escutar música alta ou baixa se refere à diferença entre uma coisa e outra e engloba conceitos físicos referentes ao som. Talvez a criança não tenha noção de que o volume do som esta relacionado com a intensidade sonora e com a potência, mas é um bom argumento para começar a entrar nesses conceitos físicos.
Por fim, foi questionado se os alunos tocam ou gostariam de tocar algum instrumento.
Gráfico 04: Alunos tocam ou gostariam de tocar algum instrumento.
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Algumas poucas crianças já tocam algum instrumento, ou seja, já estão inseridos na música ativamente, já lidam com conceitos de timbre, harmonia, entre outros conceitos musicais que poderiam servir de introdução para conceitos físicos. Logo depois que os alunos responderam, o assunto sobre som começou a ser inserido, com explicações direcionadas para a oficina que estava sendo realizada.
Após as oficinas e as conversas foi pedido para que as crianças escrevessem ou desenhassem sobre tudo que haviam entendido. Abaixo estão expostos alguns desenhos que representam o que a maioria das crianças puderam entender sobre as explicações e a prática das oficinas.
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Figura 01: A força do som e telefone sem fio.
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Figura 02: Ondas Sonoras.
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Figura 03: Notas Musicais.
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Figura 04: Instrumentos Musicais.
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Figura 05: Eco. Figura 06: O som empurrando o ar e kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk chegando aos nossos ouvidos.
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Figura 07: Ondas Sonoras .
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## Considerações finais
No início da vida escolar a ciência deve fazer parte da alfabetização dos alunos e deve compor igualmente as três disciplinas que lhe competem, física, química e biologia. Infelizmente alguns professores não trabalham com a física em sala de aula, várias razões podem ser reflexo deste resultado, talvez a formação inapropriada, talvez o fato dos professores serem responsáveis por mais quatro disciplina além de ciências, ou ainda pelo fato de como os próprios professores veem a física. Porém o desenho final das crianças é a verdadeira
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Figura 08: Como o som ecoa.
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conclusão das oficinas, além disso, ele é uma prova de que é preciso apenas envolver as crianças e falar sua língua para obter resultados positivos. Este documento vem apenas expor um trabalho de pesquisa e uma aplicação que foi possível através da disponibilidade da escola em questão, porém é um trabalho que pede continuidade, pois provavelmente a aplicação de uma única oficina, não convenceu todos os professores sobre a escassez que acontece no ensino de ciências e a possibilidade de se ensinar física desde o segundo ano do Ensino Fundamental. São oportunas novas oficinas e novos projetos, e é oportuno ainda a reunião da física com a química e a biologia para se buscar uma reavaliação e uma possível melhoria no Ensino de Ciências.
## Referências
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais. Brasília: Mec/sef, 1997. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro04.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2011.
DAMASIO, Felipe; STEFANI, Maria Helena. A física nas séries iniciais (2ª a 5ª) do ensino fundamental: desenvolvimento e aplicação de um programa visando a qualificação de professores. Revista Brasileira de Ensino de Física , São Paulo, v. 30, n. 4, p.4503-1-4503-9, 12 set. 2010.
GUIA PRÁTICO DE CIÊNCIA: Como a Ciência Funciona. Rio de Janeiro: Editora Globo.
KRASILCHIK, Myriam. Uma visão panorâmica do ensino de Ciências nas escolas de 1° grau na cidade de São Paulo. Revista Brasileira de Ensino de Física , São Paulo, v. 2, n. 2, p.98-100, jun. 1980. Disponível em: <http://www.sbfisica.org.br/rbef/pdf/vol02a20.pdf>. Acesso em: 15 maio 11
PERNAMBUCO, Marta Maria. Momentos Pedagógicos . UFRN , 1995.
SCHROEDER, Carlos. A importância da física nas quatro primeiras séries do ensino fundamental. Revista Brasileira do Ensino de Física , São Paulo, v. 29, n. 1, p.89-94, 01 mar. 2007.
SILVA, Marco Aurélio da. O Fenômeno da Interferência. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/fisica/o-fenomeno-interferencia.htm>. Acesso em: 13 fev. 2012.
SOUZA, Martin L.K.A; CAVALCANTE, Marisa Almeida. Magnetismo para Crianças. A Física Na Escola , São Paulo, v. 1, n. 1, p.21-24, nov. 2003. Disponível em: <http://www.sbfisica.org.br/fne/Vol1/Num1/artigo7.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2010.
WUENSCHE, Carlos Alexandre. A Física da Música. Disponível em: <http://www.das.inpe.br/~alex/FisicadaMusica/fismus\_indice.htm>. Acesso em:
abr.
2011.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.