A EDUCAÇÃO FÍSICA ALIADA A FÍSICA: UMA POSSIBILIDADE PARA A APRENDIZAGEM DOS CONCEITOS DE MECÂNICA
Patricia Weishaupt Bastos, Cristiano Rodrigues De Mattos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XX
- Ano
- 2013
- Data
- 21/01/2013
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A EDUCAÇÃO FÍSICA ALIADA A FÍSICA: UMA POSSIBILIDADE PARA A APRENDIZAGEM DOS CONCEITOS DE MECÂNICA
## Patrícia Weishaupt Bastos , Cristiano Rodrigues de Mattos 1 2
1 USP/Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciênicas,weishbastos@gmail.com 2 USP/Instituto de Física, mattos@if.usp.br
## Resumo
Neste trabalho enfocamos a complexificação do conhecimento cotidiano de esporte, que será apresentada através de relações interdisciplinares entre o conteúdo de física e educação física, enfocando a prevenção de lesões na prática de esportes. Para isso, construímos um conjunto de nove atividades de multi-abordagens de característica interdisciplinar baseadas nos ciclos de aprendizagem de Lawson desenvolvidas para sala de aula que envolve o tema motivador esporte, por intermédio de um conhecimento escolar concebido por um 'recorte' para mostrar que a prática esportiva não é sinônimo de saúde. Estas atividades englobam os conceitos de mecânica da física utilizados na área de biomecânica, com o objetivo de compreender o movimento humano em determinadas habilidades praticadas em algumas modalidades esportivas, além de mostrar que os conhecimentos da física podem ser utilizados como um dos critérios para se alcançar uma vida saudável pela prática adequada de esportes. Desta forma, fornecemos subsídios que auxiliam ao professor a ministrar o conteúdo de Mecânica desenvolvido no 1ºano do Ensino Médio de acordo com o Currículo de Física do Estado de São Paulo (SEE, 2008), contribuindo para o êxito na aprendizagem dos conceitos de mecânica tratados no 1º semestre do 1º ano do Ensino Médio por meio de um tema motivador.
Palavras-chave : esporte, ensino de física, biomecânica, complexidade, interdisciplinaridade.
## Introdução
A preocupação em demonstrar aos estudantes que a realização de esportes nem sempre é sinônimo de saúde vem de situações cotidianas diversas: desde a prática de exercícios físicos e esportes até o assistir uma competição esportiva ao vivo ou pela televisão.
Além disso, a forma com que a mídia divulga a relação entre a prática de exercícios físicos, esportes, saúde e estética corporal são preocupantes. Ou seja, o corpo se tornou um instrumento de valorização dos sujeitos na sociedade, virou 'moda' (KOWALSKI & FERREIRA, 2007).
Segundo Costa & Venâncio (2004), a saúde imersa neste discurso de beleza, produz nas pessoas uma procura indiscriminada pelo exercício físico, que neste contexto se torna uma receita para a salvação.
Nesta perspectiva, uma abordagem interdisciplinar que contenha as relações entre esporte, saúde, biomecânica, educação física e física poderá ajudar os estudantes a adquirirem uma visão mais crítica e consciente da prática esportiva. A abordagem interdisciplinar utilizada neste trabalho se dá por meio de níveis de interdisciplinaridade, pois realizamos pequenos recortes em cada um dos itens citados em níveis diferentes.
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20 a 25 de janeiro de 2013
Os esportes, quando praticados de forma incorreta, podem apresentar níveis de exigência física incompatíveis com a dos praticantes levando-os a situações de risco para sua saúde (LIMA & MONSON, 2007). Assim, segundo Guedes (1999), há necessidade de incluir na escola a educação para saúde, de modo a ampliar a visão do conceito de saúde e doença.
Apresentamos uma forma de incluir a discussão sobre saúde, mesmo que simplificada, nas aulas de física do 1º ano do ensino médio no conteúdo de mecânica, introduzindo conhecimentos de biomecânica contextualizados no esporte. O ensino de biomecânica faz parte dos parâmetros curriculares nacionais de educação física (PARÂMETROS, 1997, p. 75), dada sua importância na compreensão de que todo e qualquer movimento corporal pode ser mais bem entendido com os conceitos e padrões biomecânicos, que podem ser destacados pelo professor de educação física durante as aulas (FREITAS & COSTA, 2000).
Na biomecânica dos esportes, por exemplo, se aplicam as leis de Newton para entender o movimento do corpo humano e aumentar a performance . Porém, muitos atletas e seus treinadores não têm conhecimento suficiente dos conceitos newtonianos para se obter uma máxima performance do corpo humano (PARKER, 2001).
- É evidente a afinidade e o interesse que os estudantes apresentam ao debater sobre esportes (BETTI, 1999), pretendemos aproveitar esta motivação e propor atividades que apresentem os conceitos de mecânica aplicados aos esportes.
## Referencial Teórico
Para a construção da intervenção utilizamos Mattos & Ferrara (2006) e Garcia (1998) que trabalham com a complexificação do conhecimento cotidiano para nos auxiliar na efetuação de um recorte responsável em um conteúdo amplo para ser inserido nas atividades, Lawson (2001) para elaboração das atividades mediante um ciclo de aprendizado que atenda as características dos estudantes e Uema (2005) para diversificar as metodologias didáticas - multi-abordagem - utilizadas nas atividades.
Ao tomarmos o mundo como um sistema complexo, conhecê-lo não pode mais ser uma tarefa de metodologias baseada em uma estrutura disciplinar do conhecimento. Como sistema complexo, o mundo apresenta diversos níveis hierárquicos em retro-alimentação, no qual a representação e resolução de problemas exigem diferentes recortes epistemológicos para sua resolução (MATTOS & FERRARA, 2002).
- É necessário buscar as interdependências entre os conhecimentos para tratar os problemas da realidade sem separá-lo do contexto em que surgem. É importante abranger problemas relevantes para os alunos, ajudando-os a enfrentar os problemas complexos do mundo e isto pode se dar por meio da complexificação do conhecimento do cotidiano (GARCIA,1998).
Assim, na educação escolar é necessário oferecer aos alunos e professores em formação mecanismos para utilizar os conhecimentos de forma inter-relacionada e possibilitar a atuação sobre a complexidade do cotidiano. É este argumento que fundamenta nossa proposta de trabalho, no qual pretendemos apresentar uma articulação entre conhecimentos da física e biomecânica, não como meros elementos prescritivos ou informativos, mas formativos para uma educação para
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saúde. Isto implica em escolher diferentes instrumentos conceituais e metodológicos dos diferentes campos do saber que relacionados ou integrados, ajudem a resolver os problemas do cotidiano.
Devemos possibilitar ao aluno/professor que construa através de atividades escolares representações complexas que lhe permitam uma melhor compreensão de seu cotidiano. Para isso, devemos conectar a rede de conteúdos complexos às ideias dos alunos. Este movimento não é o de uma substituição de formas de pensar o senso comum, por formas de pensar científico, nem o de considerá-lo um conhecimento superior ao cotidiano, mas enriquecer o conhecimento cotidiano complexificando-o com o conhecimento científico (GARCIA, 1998).
Para Garcia (1998), a complexificação se processa pelas articulações e interdependências entre os conhecimentos e é o fio condutor da intervenção educativa. É preciso que o professor apresente aos estudantes as ligações entre os conhecimentos - o estudante não constrói por si próprio - para que haja uma mudança de contexto com uso do significado correto do conceito.
## Atividades
Com as atividades (tabela 1) damos possibilidades para os estudantes alcançarem um entendimento maior quanto ao conteúdo de mecânica abrangido no 1º semestre do 1ºano do Ensino Médio da rede pública de ensino do Estado de São Paulo, no qual o tema é: Movimentos - variações e conservações.
Tabela 1: Atividades e objetivos .
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Optamos por fazer um recorte interdisciplinar visando ajudar o estudante a complexificar seu conhecimento cotidiano em relação a esporte e saúde. Similarmente encontramos nos cadernos de física do aluno do 1º ano do Ensino Médio (vol. 1 e 2) um recorte do conteúdo de mecânica, feito por razões que desconhecemos, mas que de algum modo buscam o aprendizado de alguns conceitos de mecânica elegidos a priori . Nas atividades acoplamos estes conceitos a prática esportiva com objetivo de formar uma cadeia coerente e conectada para proporcionar sucesso no aprendizado.
- O Currículo do Estado de São Paulo para o ensino de física contextualiza o conteúdo de mecânica no 1º ano do ensino médio da seguinte forma:
- 'A Mecânica pode corresponder às competências que possibilitam, por exemplo, analisar movimentos de coisas que observamos, identificando suas causas, sejam carros, aviões, foguetes ou mesmo movimentos das águas de um rio ou dos ventos, sejam sistemas nos quais os movimentos dependem da ampliação de forças, como as ferramentas e os utensílios. Também pode compor esse espaço a análise de sistemas que requerem ausência de movimento, ou seja, o equilíbrio, como o de uma estante de livros, de uma escada de apoio ou de um malabarista.
- A Mecânica deve propiciar a compreensão de leis de regularidades, expressas nos princípios de conservação, como os das quantidades de movimento e da energia, e também dar elementos para que os estudantes tomem consciência da evolução tecnológica relacionada às formas de transporte ou do aumento da capacidade produtiva do ser humano' (SÃO PAULO: SE, p.46 - 47, 2008).
Seguindo, portanto, o Currículo do Estado de São Paulo para o ensino de física, as atividades interdisciplinares foram elaboradas e organizadas de acordo com os conteúdos da Proposta da disciplina física do Ensino médio (SÃO PAULO: SE, p. 49 - 50, 2008): 1ª série - Tema: Movimentos: variações e conservações.
Por meio das atividades apresentamos os conceitos físicos com um enfoque diferenciado que tenha aplicabilidade no cotidiano dos estudantes e que sejam utilizados futuramente.
- Ao utilizarmos nas atividades algumas modalidades esportivas (que são trabalhadas em educação física), como um artifício para despertar a motivação nos estudantes. Esperamos produzir um interesse maior pelo estudo da física, além de evidenciá-la não apenas como aplicação de fórmulas matemáticas, mas mostrar que seus conhecimentos podem ser utilizados como um critério para uma vida saudável.
- É de suma importância que os professores façam as pontes interdisciplinares para que os estudantes apliquem os conhecimentos no seu cotidiano. A atividade 2 (tabela 1) leva o estudante a discutir tópicos como: saúde e beleza física, saúde e esportes, que estão diretamente ligados o Currículo do Estado de São Paulo para o ensino de educação física - 1º semestre do 1ºano, no qual encontramos grande ênfase em temas como: 'Os adolescentes e jovens são atingidos por um bombardeio de imagens e enunciados que propõem um padrão de beleza corporal' (SÃO PAULO: SE, p. 41, 2008).
- O Currículo de Educação Física do Estado de São Paulo (S.E., 2008) traz várias modalidades esportivas que são abrangidas nas atividades da intervenção que propomos, possibilitando um diálogo interdisciplinar entre os conteúdos de física e educação física. Este diálogo pode ser utilizado por ambos os professores para resultar no êxito de aprendizado dos estudantes, evidenciando a ligação real entre as diversas áreas do conhecimento (que não podem ser abordadas de forma isolada como apresentada na grade curricular atual do Ensino Médio).
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Neste trabalho o nível de interdisciplinaridade entre educação física e física não é integral, mas durante as atividades tratamos de temas que no global estão relacionados a educação física. Durante a aplicação das atividades não é necessário que os estudantes realizem na prática os movimentos de cada habilidade esportiva mencionada nas atividades, pois focamos o alto desempenho dos atletas.
Tabela 2: Proposta da disciplina educação física (SÃO PAULO: SE, p. 53, 2008) e da disciplina física (SÃO PAULO: SE, p. 49 - 50, 2008) para 1ª série do ensino médio.
Encontramos no PCN+ do Ensino Médio de Educação Física (2002) a proposta de temas a serem discutidos em sala de aula como: esporte, padrões de beleza, saúde corporal, papel do esporte, dor e lesão, e vários outros impostos pela mídia e pelo contexto atual, colocando na responsabilidade do professor estar atento a esses temas e rever cientificamente estas questões. Além disso, diz que o professor deve assegurar a autonomia do aluno em relação à prática da atividade física, pois após o término do ensino médio o jovem e o adulto devem ter condições de saber por que, para que e como realizar as suas atividades físicas se assim desejarem sem a necessidade de um acompanhamento profissional.
Com isto percebemos a necessidade do ensino de biomecânica no ensino médio, para que o estudante tenha uma autonomia para analisar seus movimentos no jogo, no esporte, na luta, na ginástica, na atividade rítmica, etc.
Nas atividades da intervenção enfocamos com mais ênfase a importância da ciência na prática esportiva, na prevenção de lesões, na explicação dos movimentos e funcionamento do corpo humano, sendo importante tanto em física quanto em educação física (disciplinas que escolhemos) abranger os conhecimentos de
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biomecânica no Ensino Médio. Lembramos que as questões sobre a definição de saúde não são vistas em detalhes (visão reducionista de saúde).
## Resultados e considerações finais
Os resultados obtidos após o desenvolvimento e aplicação das atividades em duas Escolas Estaduais de Ensino Médio do interior de São Paulo indicaram uma complexificação do conhecimento cotidiano de esporte (BASTOS, 2011), por meio da apropriação de um conhecimento interdisciplinar, que antes não era identificado. Isto nos remete a importância da complexificação do conhecimento cotidiano com o conhecimento científico como forma de compreensão do seu papel na vida dos estudantes.
Fica claro, de certa forma, que cada um destes conhecimentos, científico e cotidiano, deve estar inserido no conhecimento escolar. E, o recorte interdisciplinar escolhido para sua apresentação, deve ser feito de forma responsável, já sintetizado pelo professor, para aumentar as chances de que os estudantes consigam complexificar seus conhecimentos anteriores, incluindo novos elementos e novas relações entre eles, tornando sua representação mais complexa.
Fornecemos novos caminhos de como abordar o conteúdo de mecânica de maneira interdisciplinar, auxiliando na aprendizagem dos conceitos e despertar o interesse nos alunos, além de demonstrar sua aplicabilidade em uma típica escola estadual. Sabemos que não é a solução para todos os problemas enfrentados pelo professor na sala de aula, mas é uma opção de como abranger o conteúdo de mecânica, juntamente com o caderno do aluno de física do 1ºsemestre do 1ºano do ensino médio.
Abranger os conteúdos de física de forma interdisciplinar abre um campo amplo de estudo na área de ensino de física, visto que no currículo oficial do estado de São Paulo para disciplina de física é enfatizada a importância de se fornecer durante as aulas meios para que os estudantes consigam entender os fenômenos a sua volta. Para que isso ocorra é necessário que o professor revele aos estudantes as diversas pontes interdisciplinares que podem ser construídas na abordagem do conteúdo. O professor ao estabelecer estas pontes utiliza-se de níveis de interdisciplinares variados para atender os objetivos prévios a cada aula que farão os estudantes a complexificar seu conhecimento gradativamente.
## Referências
BASTOS, P. W. A ciência complexificando o conhecimento cotidiano: uma intervenção na escola pública . Tese de Doutorado, Ensino de Ciências (Física, Química e Biologia), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. Em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/81/81131/tde-30052012-155511/.
BETTI, I. C. R. Esporte na escola: é só isso professor. Motriz , v. 1, n.1, p. 25-31, 1999.
COSTA, E. M. B.; VENÂNCIO, S. Atividade física e saúde: discursos que controlam o corpo. Pensar a prática , v.7, n.1, p.59 - 74, mar., 2004.
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FREITAS, F. F.; COSTA, P. H. L. O conteúdo biomecânico na educação física escolar: uma análise a partir dos parâmetros curriculares nacionais. Revista Paulista de Educação Física , v.14, n. 1, p. 78 - 84, 2000.
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MATTOS, C.R.; FERRARA, N. F. . Seleção e organização de conteúdos escolares: recortes na pandisciplinaridade . Águas de Lindóia. Resumos VIII Encontro de Pesquisadores em Ensino de Física. São Paulo : SBF, p. 119-119, 2002.
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