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LINGUAGEM CIENTÍFICA E ENCULTURAÇÃO: BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O MATERIAL DE DIVULGAÇÃO DE UM ESPAÇO DO MUSEU EXPLORATÓRIO DE CIÊNCIAS DE CAMPINAS

Claudia De Oliveira Lozada

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
04/02/2011
Linha de pesquisa
Divulgação E Comunicação De Física Em Espaços Formais E Não Formais
Tipo
Pôster

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Texto completo

## LINGUAGEM CIENTÍFICA E ENCULTURAÇÃO: BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O MATERIAL DE DIVULGAÇÃO DE UM ESPAÇO DO MUSEU EXPLORATÓRIO DE CIÊNCIAS DE CAMPINAS

## Claudia de Oliveira Lozada,

Universidade de São Paulo/Faculdade de Educação/cld.lozada@gmail.com

## Resumo

Os museus de Ciências têm contribuído efetivamente para a enculturação científica e sua constituição e composição nos últimos tempos tem lançado mão de diversos recursos para divulgar e popularizar a Ciência, adquirindo um formato mais interativo, valorizando a semiótica visual e verbal.

Assim, este trabalho tem como objetivo fazer breves considerações acerca do tipo de texto e da linguagem científica presente nos materiais de divulgação das exposições dos museus de Ciências e de que maneira contribuem para o processo de enculturação científica. Visando restringir o âmbito de análise do tema, centramos o estudo nos materiais de divulgação do Espaço Nanoaventura, do Museu Exploratório de Campinas (SP), sendo que a análise focou em dois materiais de divulgação elaborados pelo Museu: folder e página na internet. Para tanto, faremos uma revisão de literatura, concentrando-se nos trabalhos de Sutton (1997, 1998) sobre a linguagem científica e nos trabalhos de Lemke (1996, 1998, 2000, 2003) sobre a semiótica visual e verbal, pontuando a análise da linguagem científica presente no material de divulgação do Espaço Nanoaventura a partir dos referidos autores.

Palavras-chave : Linguagem Cientifica, Enculturação Científica, Museus de Ciências, Material de Divulgação, Museu Exploratório de Ciências de Campinas

## 1. Introdução

É inegável o potencial educativo dos museus de Ciências (MARANDINO, 2000, 2002; CAZELLI et al , 2002; GOUVÊA e LEAL, 2003) e seu papel no processo de enculturação científica. Nos últimos anos, notadamente os museus de Ciências tem acentuado um caráter interativo e itinerante, facilitando o contato e acesso da população em geral aos objetos e aos conhecimentos científicos, o que os faz constituir-se como um espaço de inclusão social, para divulgação científica e popularização da cultura científico-tecnológica, bem como propiciando o desenvolvimento cognitivo e social dos visitantes. Nesse sentido, Barros (1990, p. 86), afirma que:

a sociedade moderna exige de todos os seus cidadãos uma compreensão básica da Ciência e da Tecnologia, devido ao papel que estas possuem para a vida pessoal dos indivíduos. Trata-se, pois, de pensar na alfabetização científica de todos os integrantes da sociedade (...)

Gharsallah (2008) pontua que as exposições dos museus promovem a democratização cultural, possuindo uma dimensão social e comunicativa. A referida autora enfatiza que o espaço do museu e da exposição é fruto de vários processos conceituais que permitem a sua organização e semiotização para se tornar um lugar de comunicação, e acredita que a exposição é objeto de várias estratégias de

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comunicação, cujo objetivo é combinar os objetos, espaços e meios para permitir a produção de significados e o material de divulgação é um desses meios. Neste contexto, cabe salientar que há poucas pesquisas que visam analisar o processo de construção do discurso expositivo dos museus. (MARANDINO, 2002). E sendo a linguagem científica peculiar e dotada de especificidades é de extremo relevo compreender como se configura, se constitui, se transforma, se transmite e se estabelece nos museus de Ciências.

Por outro lado, nota-se que os museus de Ciências têm atuado como coadjuvantes no ensino de Ciências, pois quando os professores conseguem promover a articulação dos conhecimentos presentes nas exposições dos museus (VALENTE, CAZELLI e ALVES , 2005) com aqueles desenvolvidos em sala de aula, poderá haver uma melhor compreensão, apropriação e ressignificação de conceitos científicos, que muitas vezes não são assimilados de forma significativa nas aulas de Ciências, preenchendo 'inúmeras lacunas deixadas pela educação formal.' (GASPAR, 1993, p. 3).

Dessa forma, num processo de enculturação científica de uma turma de alunos, por exemplo, na qual se pretende efetuar uma articulação entre a educação escolar e a educação museal, os conhecimentos científicos podem ser construídos por meio de um processo gradativo que se caracteriza inicialmente pela provisoriedade, imprecisão e uso de metáforas, num contexto persuasivo, que caracteriza a linguagem interpretativa (SUTTON, 1997, 1998) até atingir-se a linguagem de etiquetagem, que é marcada por ser direta, literal e precisa. Os alunos poderão perceber que o conhecimento científico e sua linguagem são elaborados ao longo de um percurso, sofrendo transformações, uma vez que a Ciência é uma construção humana e seu processo é marcado por momentos de especulações, dúvidas, contestações, persuasões, numa dimensão sócio-histórica de evolução do homem e da sociedade, marcada por períodos de avanços e também retrocessos.

Sutton (op.cit) afirma que a linguagem é consequência de uma personalidade viva e seus signos podem ser eliminados ou disfarçados em diferentes momentos, especialmente se ao escrever se pretende preservar de potenciais críticas. O autor prossegue afirmando que há uma progressão na escrita dos cientistas que começam com as primeiras afirmações provisórias de um investigador e acabam alguns anos ou décadas mais tarde, com um livro que descreve o conhecimento público estabelecido. Nesse sentido, as ideias de Sutton (op.cit) sobre a linguagem interpretativa e de etiqueta são relevantes para se analisar como a linguagem científica se desenvolveu e se transformou ao longo da construção do conhecimento científico. E estes dois tipos de linguagem podem ser transmitidos por diversos meios nos museus de Ciências (visitas monitoradas, folders, página do museu na internet, vídeos educativos, por exemplo) em um contexto multimídia (LEMKE, 1996, 1998, 2000, 2003) caracterizado pela transposição museográfica e pela recontextualização na elaboração do discursivo expositivo (MARANDINO, 2002) contribuindo para a enculturação científica.

Assim, o material de divulgação fornecido pelos museus ao público escolar, por exemplo, não deve se constituir apenas como material meramente informativo ou complementar às atividades escolares, mas como uma fonte para um trabalho expressivo que vise à assimilação de conceitos científicos e estimule o interesse pela Ciência, proporcionando a enculturação científica e questionamentos por parte dos alunos, tais como: De que forma os conhecimentos científicos são gerados e como são validados? Quais os impactos do desenvolvimento científico e tecnológico para a sociedade? As teorias científicas representam verdades absolutas,

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incontestáveis? Certamente esses questionamentos e tantos outros poderiam contribuir para o desenvolvimento do processo de argumentação, reflexão e criticidade dos alunos, tornando as aulas de Ciências mais dinâmicas e significativas.

Dessa maneira, apresentamos algumas questões que norteiam este trabalho: Seria a linguagem do material de divulgação da exposição dos museus uma linguagem interpretativa ou de etiqueta? Esses materiais reproduzem um tipo de linguagem ou apresentam uma linguagem com características próprias cujo objetivo é um maior alcance de seus conceitos e ideias por parte do público em geral e, portanto, são mais 'simples, compreensíveis e facilmente assimiladas' contribuindo de maneira mais efetiva para a alfabetização científica?

Nesse sentido, este artigo apresentará breves considerações sobre a linguagem científica presente no material de divulgação da exposição dos museus e de que forma contribuem para a enculturação científica. Para tanto, utilizamos como referenciais teóricos os trabalhos de Sutton (1998, 1997) que abordam a linguagem como sistema interpretativo e a linguagem como sistema de etiquetagem e os trabalhos de Lemke (1996, 1998, 2000, 2003) sobre a semiótica visual e verbal em textos científicos centrando o estudo nos materiais de divulgação do Espaço Nanoaventura, do Museu Exploratório de Ciências de Campinas (SP).

## 2. Museus de Ciências e processo educativo

No Brasil, os museus de Ciências tiveram períodos de queda marcados, sobretudo pela falta de investimento na infra-estrutura, e de ascensão, no qual parcerias com a iniciativa privada e apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia promoveram uma maior divulgação desses espaços e conseqüentemente o aumento do número de visitantes aos museus, visando à popularização da Ciência.

Jacobucci (2008) destaca a criação do Museu do Instituto Butantã em 1921 e sua reformulação no ano de 1984, no qual houve uma ênfase nas atividades educativas. Sendo assim, a partir da década de 80, houve um significativo aumento na criação de museus de Ciências no Brasil, '(...) de natureza interativa (...), no bojo do desenvolvimento dos movimentos de enculturação científica e de preocupação com o ensino de Ciências no país.' (MARANDINO, 2001, p. 2). A interatividade nos museus 'oferece ao público a oportunidade de experimentar fenômenos e participar nos processos de demonstração ou na aquisição de informações, com o propósito de ampliar seus conhecimentos', conforme coloca Valente et al (2005, p. 198). Assim, os visitantes podem tocar os objetos e experienciar situações científicas, o que proporciona uma aproximação do visitante a um contexto científico desfazendo muitas vezes a ideia estereotipada e distanciada de fazer Ciência e ser cientista.

Outro aspecto a ser considerado, foi o fato de que na década de 90, houve um crescimento dos museus de Ciências itinerantes no Brasil, tendo em vista os programas oficiais de popularização da Ciência promovidos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Dessa maneira, o conhecimento científico adquiriu um alcance maior na medida em que pode atravessar o território nacional e levar um pouco da Ciência para lugares longínquos, muitos dos quais as crianças nunca tiveram contato com um laboratório de Ciências na escola, pois muitas escolas carecem de infraestrutura e as aulas de Ciências se restringem à transmissão dos conteúdos.

Nesse compasso, Jacobucci (2008) ainda esclarece que os museus de Ciências surgiram no Brasil a partir de programas oficiais que visavam melhorar o ensino escolar de Ciências, o que demonstra nitidamente segunda a autora a

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relação e aproximação da escola (educação formal) com esses espaços (educação não formal).

Assim, os museus de Ciências contribuem efetivamente para a enculturação 1 científica, que segundo Miller (1983, p. 30) pode ser definida como a 'capacidade de ler, compreender e expressar opinião sobre assuntos de caráter científico' apresentando três dimensões (MILLER, 2000): vocabulário básico de conceitos científicos (incluindo termos básicos como "átomo", "molécula", "célula", "gene", entre outros e neste ponto a questão da linguagem de etiqueta ganha destaque), compreensão da natureza do método científico e compreensão sobre o impacto da ciência e a tecnologia sobre os indivíduos e sobre a sociedade. Estas dimensões são denominadas por Sasseron e Carvalho (2008) como eixos estruturantes da alfabetização científica. Diferentemente de Miller (op. cit), por exemplo, Bybee (1995 apud LORENZETTI e DELIZOICOV, 2001) discute a enculturação científica dando ênfase nos processos de incorporação do conhecimento científico, centrando-se no processo ensino-aprendizagem, de como os alunos compreendem a Ciência e nesta concepção se insere a articulação entre a educação escolar e a educação museal a qual nos referimos anteriormente.

Embora existam diferentes definições para a enculturação científica que dependem do enfoque dado pelo autor a um determinado aspecto, percebemos que a enculturação científica converge para um ponto que é dotar o cidadão de conhecimentos científicos (mesmo que estes sejam transmitidos de modo mais abrangente como nas exposições dos museus de Ciências, sem aprofundamento característico de uma comunidade científica, mas que sejam devidamente compreendidos) possibilitando a reflexão sobre os impactos do avanço científico e tecnológico na sociedade.

## 3. Linguagem e os museus de Ciências: o material de divulgação das exposições dos museus

O museu de Ciências é um espaço de comunicação e interação social, e como tal, a linguagem que ali circula é dotada de especificidade. Os temas das exposições de um museu de Ciências trazem no seu bojo conceitos científicos que são explicitados nos objetos estáticos ou interativos e visitas monitoradas. A exposição é concebida por uma equipe especializada na temática, bem como envolve não só a produção do material que compõe o cenário da exposição (objetos), mas também do material de divulgação (banners, folders, folhetos informativos, cartilhas, material de apoio, sites na internet, vídeos educativos) que também trazem conceitos científicos. A concepção das exposições se apóia numa perspectiva multimídia nos quais os diversos meios de comunicação exercem papel importante na divulgação da exposição. Nesse sentido, Jacobi (1998 apud MARANDINO, 2002) afirma que a exposição museal é como se fosse '(...) uma mídia que combina diferentes registros semióticos'.

A visita às exposições dos museus de Ciências proporciona o contato tanto do público escolar quanto do público em geral, com os conhecimentos científicos, de modo que os conceitos ali transmitidos podem se perpetuem para além do tempo da exposição, prolongando-se e gerando novas aprendizagens. Nesse sentido, o material de divulgação que contém informações e detalhes sobre o tema e a exposição, adquire um papel relevante no processo de enculturação científica.

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Poucos são os trabalhos que analisam o processo de construção do discurso expositivo dos museus de Ciências. Em um estudo realizado por Marandino (2002), concluiu-se que os textos presentes nos museus de Ciências diferem dos textos científicos e dos textos de divulgação científica. Gouvêa (2000) apud Marandino (2002) apresenta a diferença entre os textos presentes nas exposições dos museus, sintetizada no seguinte quadro:

A autora analisou as características de textos presentes em exposições de cinco museus de Biologia, constatando que a maioria apresenta características de textos científicos, apresentando informações de cunho científico sobre os objetos da exposição. No entanto, a autora aponta que os museus analisados também apresentaram textos com características de textos de divulgação científica, os quais utilizam explicações e recursos estilísticos e visuais. Marandino (2002, p. 200) salienta que é necessária a atenção na produção do texto do museu, afirmando que:

se o alvo é um público mais amplo e se os objetivos são de divulgação e ensino das ciências, a substituição do léxico científico e o uso de recursos metalingüísticos se fazem necessários e são mais comuns para que o texto seja acessível a este tipo de visitante.

E, segundo a autora é o visitante quem seleciona o texto da exposição que lhe interessa ler, e nesse sentido o material de divulgação ganha destaque, pois contém as informações que se destinam à enculturação científica do público em geral. Nesse sentido, dadas as peculiaridades do Espaço Nanoaventura - itinerante, interativo e lúdico - bem como a atualidade da temática de sua exposição Nanociência e Nanotecnologia (numa perspectiva CTSA) consideramos pertinente analisar o tipo de linguagem presente nos textos de divulgação da exposição através dos trabalhos de Sutton (1997, 1998) e Lemke (1996, 1998, 2000, 2003) sobre semiótica visual e verbal, que passamos a expor sucintamente a seguir, numa abordagem diferente daquela apresenta por Marandino (op.cit).

Para Sutton (1997, 1998) as idéias inicialmente são fluidas e a linguagem é um instrumento flexível e ativo do pensamento, o que ele denominou de linguagem interpretativa. Para ele, toda linguagem nova é interpretativa (caracterizada pela persuasão) e os sujeitos devem comparar e compartilhar as interpretações, com o objetivo de chegar a um consenso sobre a forma com que as coisas são percebidas. Posteriormente, o autor afirma que se estabelecem um corpo de conhecimentos e as dúvidas como expressá-los se reduzem. Assim, as palavras parecem ser como etiquetas para coisas definidas e Sutton (1997) define a linguagem neste estágio, de linguagem de etiquetagem, caracterizada pela transmissão. Na medida em que as palavras são frequentemente usadas, mais familiares se tornam e começam a

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funcionar como etiquetas para coisas cujo conhecimento nos sentimos seguros. Vejamos como concepção da Nanociência e a Nanotecnologia podem se enquadrar nas ideias de Sutton (op. cit) sobre linguagem científica.

A Nanociência é a área do conhecimento que estuda as estruturas que têm ao menos uma de suas dimensões físicas da ordem de dezenas de nanômetros. Por sua vez, a Nanotecnologia caracteriza-se pela capacidade de observar, medir e mexer nos átomos, bem como criar novos materiais a partir deles, sendo uma área que teve início com os estudos de Richard Feynman em 1959. Nesse ano, Feynman proferiu uma palestra intitulada 'There's plenty of room at the bottom' ('Há mais espaços lá embaixo'), na reunião anual da American Physical Society, realizada no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), ocasião em que abordou as possibilidades, vantagens e inovações que o desenvolvimento da tecnologia na escala nanométrica poderia proporcionar. A palestra soou ousada e especulativa (SCHULZ, 2005), pois se chegou a levantar a hipótese de se 'condensar na cabeça de um alfinete todos os 24 volumes da Enciclopédia Britânica, vislumbrando as futuras descobertas na fabricação de sistemas em escala atômica e molecular.' (SCHULZ, 2007, p. 14). Feynman propõe inclusive o rearranjo dos átomos e provoca: 'No ano 2000, quando olharem para esta época, perguntar-se-ão porque só no ano de 1960 que alguém começou a se movimentar seriamente nessa direção'.

Em 1981, o desenvolvimento do microscópio de varredura por tunelamento eletrônico, por Gerd Binning e Heinrich Roher, no laboratório da IBM em Zurique originou uma família de instrumentos de visualização e manipulação em escala atômica, contribuindo para o desenvolvimento da Nanotecnologia. No entanto, o termo Nanotecnologia foi popularizado apenas em 1986 por Eric Drexler, em seu livro Engines of creation (Motores da criação). Na efervescência do aparecimento da Nanotecnologia, iniciou-se uma discussão sobre os impactos ambientais gerados pelos rejeitos dos nanomateriais no Meio Ambiente, demonstrando outra face do avanço científico, que é tentar conciliar progresso com sustentabilidade, provocando reflexões na sociedade.

Todo esse percurso que narramos sucintamente para o desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia é marcado por uma linguagem científica que se inicia como interpretativa e se encaminha para linguagem de etiqueta, observada inicialmente pela palestra de Feynman até a concretização das descobertas na área e popularização do termo Nanotecnologia. E esses fatos devem ser explorados pelo texto do material de divulgação do Espaço Nanoaventura, para que os visitantes percebam a Ciência como construção humana e não como algo pronto e acabado, que 'simplesmente foi descoberto' num determinado período e posteriormente 'guardado num acervo' de museu como registro da evolução da Ciência. É importante que os visitantes percebam que a Ciência é dinâmica, que os cientistas possuem dúvidas, especulam, que seu discurso não se pacifica de imediato na comunidade científica e nem se constitui 'verdade universal' incontestável.

Prosseguindo em nossa análise sobre linguagem científica visando complementar a ideias anteriores, concentramos nosso foco nos trabalhos de Lemke (2000) que nos fornece alguns elementos relevantes para compreensão da linguagem e como ela se traduz. Para Lemke (2000) o processo de comunicação é plural e não se constitui apenas da linguagem verbal, mas de outros meios, o que perfaz um sistema semiótico dentro de contexto social. Assim, ele define a semiótica social que centra-se em práticas e atividades criadoras de sentido como processos sociais, algo que aprendemos a fazer como membros de comunidades, ou seja, os significados nascem do contexto social no qual estamos inseridos. Esse

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contexto social, segundo Halliday (1998) possui estruturas semióticas que são integradas por 3 dimensões: o campo, o teor e o modo, que nos fazem compreender a estrutura semântica de um texto, uma vez que como salienta Lemke (1996), o texto é o registro de nossas ações sociais. Assim, para o autor os conceitos científicos devem articular elementos de um sistema semiótico múltiplo que envolva representação lingüística, matemática e visual. Lemke (1998) apresenta um estudo no qual analisa os recursos lingüísticos de artigos científicos publicados na Revista Science e na Physical Review Letters e o sistema semiótico múltiplo utilizado pelos cientistas. O autor aponta que há uma combinação e integração sinérgica de palavras, diagramas, fotografias, gráficos, mapas, equações, tabelas (possuem recursos de organização visual para possibilitar relações de significados dos itens temáticos na falta de construções gramaticais) e outras formas de expressão visual (significados linguísticos apresentados através as semiótica visual da ortografia e tipografia - estilos de fonte, tamanho, uso do negrito, notas de rodapé, resumo, entre outros) e matemática (as expressões matemáticas, por exemplo, ilustram o texto verbal, adicionam informações importantes e necessárias, complementam o texto principal). Assim, a semiótica apresenta um conjunto de elementos que possibilitam a constituem uma rede de significados que conduzem à compreensão das idéias.

Lemke (op.cit) pontua que todos os recursos semióticos, independentemente da linguagem verbal, matemática, ou representação visual, combinam dois princípios básicos para criar significado: significação por espécie e significação por grau. A primeira, ou semiótica tipológica, é mais familiar aos estudantes de lingüística e sistemas de signos analisados por analogia à linguagem natural. Todos os significados são quase categorias de termos e as relações entre eles, categorias de processos e de relações. A maioria das categorias são mutuamente exclusivas, e um membro de uma categoria não está em nenhuma outra. A segunda, menos conhecida, mas extremamente importante para a ciência e educação científica, podemos chamar de "semiótica topológica" que permite o raciocínio quantitativo com base na utilização de representações visuais, posturas, gestos e desenhos.

Com base nas ideias de Lemke (op.cit) podemos afirmar que os textos de divulgação das exposições de um museu de Ciências poderiam ser enriquecidos adotando-se a semiótica visual em sua confecção, o que certamente pode chamar a atenção dos visitantes para a sua leitura, agregando-se às idéias de Sutton (op. cit) para que se elabore o texto a partir de uma narrativa que contemple os fatos da Ciência por meio da linguagem interpretativa e de etiqueta que foram adotadas pelos cientistas na construção dos conhecimentos científicos que estão expostos nos museus, passando a ter também uma visão global do processo de nascimento dos conhecimentos científicos, percebendo todas aquelas características que marcam a linguagem inicial dos cientistas - provisoriedade, imprecisão, especulação - até a linguagem precisa e nominalizada. Em relação à semiótica visual, o Espaço Nanoaventura se utiliza de muitos de seus elementos, como veremos a seguir, mas poderia explorá-la de modo mais intenso.

Assim, julgamos inovadora a adoção das idéias de Sutton e Lemke para elaboração dos textos do material de divulgação da exposição dos museus de Ciências, tendo em vista as vantagens decorrentes de sua adoção, que poderão também contribuir com o processo de enculturação científica dos visitantes.

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## 4. Análise da linguagem do material de divulgação do Espaço Nanoaventura (Museu Exploratório de Ciências de Campinas)

O Museu Exploratório de Ciências de Campinas iniciou suas atividades em 2005 com a inauguração do espaço Nanoaventura, concebido por professores e pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em parceria com a Prefeitura Municipal de Campinas e o Instituto Sangari, e apoio da Fundação Vitae e Fapesp. O Museu ainda conta com mais dois projetos que são a Oficina Desafio, que é composta por um caminhão equipado com diversos materiais e ferramentas, cuja atividade se baseia em propor um problema real para os estudantes, o qual deverá ser solucionado estimulando os estudantes a utilizarem seus conhecimentos utilizando os materiais e ferramentas cedidos pelos monitores para a solução do problema. O outro espaço que será inaugurado em 2010 é a Praça Tempo Espaço (uma exposição que não é itinerante, diferentemente das outras duas, e que ficará ao ar livre em um espaço do Museu em Campinas) e que se destina a levar os visitantes a interagirem com os diversos experimentos que ilustram a questão do tempo e espaço.

Desde a sua inauguração em 2005, o espaço Nanoaventura visitou diversos municípios, ganhou prêmios (Prêmio de Menção Honrosa na categoria Vídeo didático no Festival de Cine e Vídeo Científico do Mercosul -CINECIEN'06 e Premio Latinoamericano de Popularización de la Ciencia y la Tecnologia 2007-2008 como melhor projeto de divulgação e popularização de ciência e tecnologia da América Latina e Caribe) e recentemente foi construída uma réplica da Nanoaventura que foi instalada no Museu Catavento Cultural e Educacional localizado na cidade de São Paulo.

A Nanoaventura além de ser caracterizada por sua itinerância, enfatiza o aspecto lúdico e interativo como forma de divulgar e popularizar os conhecimentos sobre Nanociência e Nanotecnologia. Os visitantes entram em um nanotubo e são recebidos ao som de música pop - semelhante àquela que escutam nas rádios e baladas - por um monitor (que tem formação artística - é um ator). Ele interage com os visitantes de um modo animado, diferente dos monitores 'tradicionais' que em geral são mais sérios, apresentando a exposição de um jeito mais moderno. Em seguida, os visitantes assistem a um vídeo educativo, que introduz a noção de escala, apresenta os fundamentos da Nanociência e da Nanotecnologia e mostra o desenvolvimento das pesquisas nessas áreas no Brasil, com preponderância de uma linguagem de etiqueta. Esse vídeo não retrata a história do surgimento da Nanociência - a palestra de Feynman, que citamos neste trabalho, e que se fosse abordada poderia ensejar um trabalho com a linguagem interpretativa que se encontra no processo de construção dos conhecimentos científicos para que os visitantes observassem todo o percurso de elaboração das ideias científicas.

Em seguida, outros monitores dividem os visitantes em grupos para percorrer as quatro estações que são constituídas pelos seguintes jogos eletrônicos: Laboratório Virtual, Nanocircuito, Nanomedicamento e Limpeza de Superfície. Os componentes dos grupos devem agir em conjunto para pontuar nos jogos, ou seja, a ação de um componente afeta diretamente a ação do outro. Os jogos foram projetados para que os visitantes tivessem a idéia de cooperação entre os pares, ajuda mútua para se alcançar um objetivo. As descobertas científicas muitas vezes são o resultado do trabalho de muitos cientistas. Após percorrerem a plataforma dos jogos, os visitantes retornam para a sala na qual foram recebidos e descobrem que

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não há um grupo vencedor, mas que todos são vencedores, ou seja, todos ganharam conhecimento ao jogarem juntos, assim como todos são beneficiados com as descobertas científicas. No final da visita, um vídeo 3D resgata os conceitos apresentados inicialmente no primeiro e vídeo e aqueles que foram aprendidos ao longo da visita ao espaço e na interação com os jogos educativos. A linguagem do vídeo contém uma linguagem de etiqueta, nominalizada.

Assim, concluímos que a exposição caracteriza-se por seu aspecto multimídia (vídeos, visitas monitoradas, jogos interativos), utilizando-se de vários recursos, o que enfatiza a semiotização do espaço do museu. Dessa forma, a seguir faremos uma breve análise de dois materiais de divulgação elaborados pelo Museu visando identificar o tipo de texto e o tipo de linguagem.

## a) Folder

Figura 1 - Folder de divulgação da Nanoaventura

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O folder apresenta um texto curto que possui características de texto expositivo na medida em que explicita as características do espaço da exposição, além de utilizar de recursos semióticos visuais. Abaixo segue um trecho do texto contido no folder: 'A NanoAventura é uma exposição interativa de ciências que visa apresentar para crianças e jovens conceitos sobre nanociência e nanotecnologia de maneira lúdica e educativa. Fazem parte dessa 'aventura' diversas técnicas de comunicação e imersão que permitem aos seus visitantes vivenciarem uma experiência que integra elementos reais e virtuais (...)' O texto também se caracteriza como um texto de divulgação na medida em que traz uma metáfora, ao empregar a expressão 'força atômica virtual' para caracterizar o jogo 'Limpeza de Superfície' como se vê no trecho adiante: 'Com um poderoso microscópio de força atômica virtual, o jogo permite limpar a superfície de uma amostra, manipulando átomo por átomo, com a colaboração entre colegas.'

Embora, a Nanociência e a Nanotecnologia sejam áreas recentes de pesquisa, não se observa no corpo do texto do folder traços de linguagem interpretativa. Não há sequer um trecho que narre os primeiros estudos em Nanociência, cuja época certamente artigos foram escritos sobre o tema e cuja linguagem devia se caracterizar por interpretativa, uma vez que naquele momento havia especulações diversas sobre esta área, sobre os materiais que poderiam ser criados pela Nanotecnologia e também sobre seus impactos para o Meio Ambiente, como dissemos anteriormente no item 3 deste trabalho. No entanto, há traços de linguagem de etiqueta, em trechos que definem o nanômetro 'Um nanometro (nm) é a bilionésima parte do metro (...)', e na descrição de um jogo denominado de 'Nanocircuito' na qual aparece a expressão microscópio de tunelamento . A linguagem nesses trechos é nominalizada, impessoal e isenta, caracterizando a linguagem de etiqueta.

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## b) Página na Internet

A página do Espaço Nanoaventura está disponível no endereço http://www.mc.unicamp.br/nanoaventura/ e se caracteriza por conter textos de divulgação, textos expositivos (que abordam o histórico do espaço, agendamento das visitas, seus objetos e como os visitantes interagem no espaço). Não se observa a presença de textos científicos, mas há nos textos de divulgação de autoria diversa uma presença massiva da linguagem de etiqueta.

Figura 2 - Página na Internet do espaço Nanoaventura

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Há também jogos interativos, destacando-se a 'Nanocharada' com níveis fácil, médio e difícil, sendo que um deles deverá ser escolhido pelo jogador. Após a seleção do nível, na tela aparece uma figura que representa um objeto ou um ser que deverá ser identificado pelo jogador, bem como a unidade de medida pela qual o objeto ou o ser que aparece na figura pode ser mensurado e o instrumento para visualizá-lo. São atribuídos pontos caso o jogador acerte os três itens citados. Neste jogo há a presença da linguagem de etiqueta pela nominalização, como no termo microscópio óptico .

## 5. Conclusão

Os textos do material de divulgação da exposição do museu geralmente são textos de divulgação e textos expositivos, que apresentam clareza e objetividade, visando atrair atenção do público para a temática da exposição, sem deixar de ser uma linguagem de etiqueta, por transmitir conhecimentos, uma vez que trata-se de uma linguagem direta, literal, precisa, por utilizar-se das palavras exatas para cada coisa (nominalização), constituindo a linguagem de etiqueta um vocabulário básico no processo de alfabetização científica. E não é diferente com o Espaço Nanoaventura, que traz em sua exposição diversos termos específicos (nominalização). Por outro lado, a linguagem interpretativa (SUTTON, 1997) pode encontrar seu espaço em textos de divulgação das exposições que narrem o processo de construção dos conhecimentos científicos, marcada pela provisoriedade e especulações até se atingir a linguagem de etiqueta, que consolida os termos científicos por meio da nominalização. E dadas as especificidades do Espaço Nanoaventura - interatividade, ludicidade, itinerância, enfoque CTSA - seria pertinente explorar de modo mais efetivo a linguagem interpretativa em seu material de divulgação do museu, o que certamente pode despertar ainda mais o interesse

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dos visitantes pela Nanociência e Nanotecnologia para a percepção de como o corpo do conhecimento científico destas áreas foi gerado.

Bahktin (1985, 1986), por exemplo, aponta que a constituição social do sujeito e de sua linguagem se dá por meio de textos verbais ou não, através do qual o sujeito expressa suas ideias, fazendo transparecer o conteúdo ideológico por meio do sentido que atribui às idéias e nesse contexto o interlocutor (o outro) exerce papel importante na medida em que contribui para construção e reconstrução dos conhecimentos, bem como é no interlocutor que o processo de persuasão e convencimento é focado, numa relação dialógica na qual pretende-se que conceitos, por exemplo, sejam estabelecidos e disseminados. Aqui, objetiva-se uma compreensão responsiva ativa, ou seja, que o ouvinte (receptor) se manifeste, concordando ou discordando (total ou parcialmente). Portanto, a linguagem interpretativa é importante na medida em que coloca situa o sujeito no processo de construção do conhecimento, levando-o a perceber as idéias que foram mais importantes, a origem das palavras, a ambigüidade das interpretações, demonstrando que muitos conhecimentos científicos passam por um processo de construção dialético, não foram facilmente constituídos e estabelecidos.

Por outro lado, os textos presentes no material de divulgação da exposição do Espaço Nanoaventura sejam expositivos ou de divulgação, embora não sejam científicos, trazem recursos apontados por Lemke (2000) que aparecem em textos científicos como a presença de figuras e a semiótica visual da ortografia e tipografia da letra. Esses aspectos contribuem para que a leitura combine a figura, com os subtítulos, por exemplo, e o texto principal, para que seja feita a conexão para a construção de significados.

Todavia, é necessário frisar que o texto também orienta o leitor, fazendo com se posicione diante das idéias expostas, assumindo determinados pontos de vista. Lemke (2000) afirma que um texto científico deve ter um conteúdo presentacional, que lhe atribua garantibilidade, importância, usualidade e tenha a qualidade de ser desejável. Estes atributos podem ser estendidos aos textos do material de divulgação dos museus, tendo em vista que o museu de Ciências é um espaço coletivo que visa atender ao público em geral.

Por fim, salientamos que embora os saberes passem pela transposição museográfica para que o seu alcance seja maior, o rigor com os conceitos científicos contidos no material de divulgação da exposição deve prevalecer, sendo que os textos presentes no material de divulgação dos museus não é meramente informativo, mas sim formativo, tendo em vista que o que se pretende alcançar com a enculturação científica é a capacitação dos sujeitos para utilização de todas as linguagens de formas significativas e apropriadas para que possam integrá-las funcionalmente formando-se cidadãos mais críticos, reflexivos e conscientes. Cabenos asseverar que o tema discutido nestas breves considerações não deve ser exaurido, estendendo-se e aprofundando em trabalhos posteriores.

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