BIOCOMBUSTÍVEIS: UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR
Juliana Rocha Tavares, Marcelo Silva Sthel
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 04/02/2011
- Linha de pesquisa
- Divulgação E Comunicação De Física Em Espaços Formais E Não Formais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## BIOCOMBUSTÍVEIS: UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR
## Juliana Rocha Tavares 1,2 , Marcelo Silva Sthel 2
1 Instituto Federal Fluminense, jutavares@iff.br
2 Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, sthel@uenf.br
## Resumo
A interdisciplinaridade constitui uma excelente ferramenta para a abordagem de temas instigantes da atualidade, como a questão dos biocombustíveis. A temática energética é extremamente rica e instigante, podendo ser debatida sob diferentes pontos de vista em diversas disciplinas lecionadas no Ensino Médio, como a física, a química, a biologia, a sociologia e a geografia. Atualmente, problemas ambientais, como o aquecimento global e chuva ácida, aliados à não-renovabilidade dos combustíveis fósseis, colocam em cheque sua utilização num futuro próximo, tornando necessária a sua gradual substituição por outra forma de energia mais limpa. Nesse contexto, os biocombustíveis aparecem como os principais substitutos dos combustíveis fósseis na área do transporte. Uma das principais vantagens dos biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis está no fato de que as plantas consomem, durante o seu crescimento, o CO2 que será emitido durante a queima do combustível. A física, a química e a biologia terão um papel essencial na discussão sobre o que é energia e como se processam as transformações energéticas relacionadas aos biocombustíveis. As disciplinas humanas, no entanto, indicarão que é necessário bastante cautela na utilização desse tipo de combustível, de modo que sua expansão não comprometa a biodiversidade e a segurança alimentar, num mundo onde a fome já faz tantas vítimas a cada dia. Enquanto o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas defende a utilização dos biocombustíveis para a redução de emissão de gases estufa, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) alerta para o decorrente aumento nos preços dos alimentos. As diferentes disciplinas poderão oferecer subsídios para que os alunos realizem pesquisas em torno do tema, gerando debates altamente instrutivos e produtivos.
Palavras-chave : Interdisciplinaridade, Energia, Biocombustíveis.
## Introdução
As Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (BRASIL, 2002) sugerem que, no nível do Ensino Médio, prevaleça a formação geral, em oposição à formação específica; o desenvolvimento de capacidades de pesquisar, buscar informações, analisá-las e selecioná-las; a capacidade de aprender, criar, formular, ao invés do simples exercício de memorização.
A interdisciplinaridade não é a criação de novos saberes, mas a utilização de conhecimentos de várias disciplinas para resolver um problema concreto ou compreender um determinado fenômeno sob diferentes pontos de vista. Em suma, a interdisciplinaridade tem uma função instrumental. Trata-se de recorrer a um saber diretamente útil e utilizável para responder às questões e aos problemas sociais contemporâneos.
- O grande educador Edgar MORIN (2001) destaca a importância do desenvolvimento do pensamento sistêmico, que engloba diversificados setores do
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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
pensamento, ao invés de uma compreensão isolada e fragmentada dos fenômenos naturais e sociais.
A física é comumente apresentada aos alunos como uma miscelânea de conceitos, leis e fórmulas, sem articulação entre si e com os fatos que ocorrem no mundo. As situações envolvidas nos problemas de física são, na maioria das vezes, bastante artificiais e não remetem o aluno a situações práticas, o que dificulta uma aprendizagem aprofundada e significativa.
Compreende-se que, dentre os conteúdos de física, o conceito de energia é um extremamente importante, pois é a base de todos os mecanismos que envolvem a vida e o funcionamento das coisas. Apesar de ser um conceito abstrato, é necessário que seja tratado de maneira concreta, a partir de situações reais.
Desta forma, acreditamos que a questão dos biocombustíveis constitui excelente opção para introduzir idéias a respeito da conservação e transformação de energia, estando também, com a grande vantagem de ser facilmente associada a outras disciplinas, como química, biologia, sociologia e geografia.
## Revisão Bibliográfica
## Energia: o que é e de onde vem?
A energia é um elemento presente no funcionamento de todos os sistemas vivos e não-vivos existentes no universo. Ela é fundamental para a realização de nossas atividades vitais, para o funcionamento dos aparelhos eletrodomésticos, para o transporte, iluminação e todos os serviços oferecidos à sociedade moderna.
É comum, em livros didáticos, encontrarmos a definição da energia como a capacidade de realizar trabalho ou produzir movimento. Tal definição, no entanto, acaba gerando uma redundância, uma vez que trabalho também é energia. Melhor do que definir a energia através de conceitos, é exemplificar as transformações de energia presentes no dia-a-dia da vida dos alunos, de modo que o conceito não seja memorizado, mas vivenciado por eles.
A energia pode se apresentar sob diversas modalidades. Quando um corpo está em movimento, por exemplo, dizemos que ele possui energia cinética. A energia potencial, por sua vez, se refere à energia armazenada em determinado corpo nas suas ligações químicas (energia potencial química), associada à sua altura (energia potencial gravitacional), ou à deformação de um corpo elástico (energia potencial elástica). Existem ainda outras modalidades de energia, como a energia nuclear, a energia térmica, luminosa, sonora e elétrica.
A energia está em constante processo de transformação. Num carro, por exemplo, a energia potencial química do combustível é convertida em energia térmica durante a sua queima e em energia cinética, no movimento dos pistões e das rodas. Da mesma forma, a energia elétrica que chega até as nossas casas é convertida em energia luminosa e sonora num aparelho de televisão.
A energia não pode ser criada ou destruída, apenas transformada. Isso significa que, num sistema isolado, a energia total do sistema é sempre conservada. O problema é que o resultado final de muitas transformações de energia é a produção do calor residual que, muitas vezes, é transferido ao ambiente, e deixa de ser útil para a realização de qualquer trabalho. Expressando de outra forma, o
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potencial da energia de gerar trabalho útil acaba sendo "degradado" no processo de transformação de energia. (HINRICHS and KLEINBACH, 2002)
## Fontes de Energia
Como a energia não pode ser criada nem destruída, apenas transformada, para obter a energia necessária para a realização de suas atividades, o homem necessita das chamadas fontes de energia.
- A principal fonte de energia do planeta Terra é o sol. Direta ou indiretamente, é responsável pela maior parte do fornecimento de energia ao nosso planeta. A constante solar, grandeza que mede a quantidade de energia que chega, por unidade de tempo e por unidade de área, a uma superfície perpendicular aos raios solares, à distância média Terra-Sol, é de 1367 W/m . Isso significa que, no topo da 2 atmosfera terrestre, cada metro quadrado, em média, recebe uma energia equivalente a 1367J a cada segundo. Aproximadamente metade dessa energia consegue chegar à superfície terrestre.
Aproximadamente 1% dessa energia é aproveitada pelos vegetais para realizar a fotossíntese. Nesse processo, os vegetais transformam a energia luminosa do sol em energia química. Os animais, ao se alimentar de plantas e de outros animais, absorvem parte dessa energia proveniente do sol. Como os combustíveis fósseis se originaram a partir da decomposição de matéria orgânica, sua energia também é de origem solar.
- O sol também é responsável pelo ciclo hidrológico e pelo movimento das massas de ar atmosféricas (ventos), gerando duas importantes fontes de energia para o nosso planeta: a energia hidráulica e a energia eólica.
As fontes de energia podem ser divididas entre fontes renováveis e nãorenováveis. Uma fonte é considerada renovável se puder ser reabastecida num intervalo de tempo compatível com a escala de tempo humana. Entre as fontes renováveis de energia, podemos citar os alimentos que consumimos, a energia solar, hidráulica, eólica, os biocombustíveis, entre outros.
Fontes de energia não-renováveis são aquelas, cuja formação é tão lenta ou existência tão curta que, ao serem esgotadas, não poderão nos reabastecer num intervalo de tempo significativo para o ser humano. Entre elas, destacamos os combustíveis fósseis (que levam milhões de anos para serem formados) e os combustíveis nucleares.
- É importante ressaltar que combustíveis renováveis não são necessariamente eternos. "Tanto os combustíveis fósseis como os biocombustíveis são quantitativamente não-renováveis quando queimados na quantidade excessiva exigida por nossa civilização superdimensionada e dependente de energia." (LOVELOCK, 2006)
## Biocombustíveis
Os biocombustíveis representam na atualidade uma das mais promissoras alternativas na substituição dos combustíveis fósseis para o transporte. Considerando o fato de que o transporte é responsável por cerca de 1/3 das emissões globais de dióxido de carbono, esse tipo de combustível aparece como um importante instrumento na luta contra o aquecimento global. (IPCC, 2007)
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Os biocombustíveis são produzidos a partir de matéria orgânica, que, nada mais é, do que a energia do sol empacotada. Através da fotossíntese, as plantas realizam a combinação de gás carbônico, água, sais minerais e energia e sintetizam carboidratos (açúcares e amidos), liberando, durante esse processo, oxigênio para o ar. A principal vantagem dos biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis é que, enquanto esses últimos lançam no ar uma quantidade de carbono armazenada há milhões de anos, os biocombustíveis apresentam um ciclo de carbono curto e renovável, de modo que o carbono liberado durante sua queima é o mesmo absorvido durante o crescimento da planta. O equilíbrio, dessa forma, é mantido.
Os principais biocombustíveis disponíveis para a geração de energia para os veículos automotivos são o biodiesel e o etanol. O biodiesel vem sido desenvolvido para complementar ou substituir o óleo diesel, combustível fóssil muito utilizado em ônibus, caminhões, locomotivas e navios. O etanol, por sua vez, pode ser um excelente substituto para a gasolina ou o gás natural veicular nos carros de passeio. Estudaremos, agora, separadamente cada um dos biocombustíveis, analisando suas vantagens, desvantagens e desafios a serem superados.
## Biodiesel
- O biodiesel é um combustível que pode ser utilizado em motores diesel, sendo um bom substituto do óleo diesel tradicional. É constituído por cadeias de ésteres de alquila, de metila ou etila, sendo produzido através de um processo denominado transesterificação. Durante esse processo, o óleo ou gordura é associado a um álcool (metanol ou etanol), originando ésteres metílicos ou etílicos e glicerol. Essas reações, representadas abaixo, devem ocorrer na presença de um catalisador, como o hidróxido de sódio (NaOH) ou o hidróxido de potássio (KOH).
- O etanol e o metanol tem a função de auxiliar na quebra da gordura animal ou do óleo vegetal, que irão originar o biodiesel. Já o glicerol, subproduto da reação de produção do biodiesel, poderá ser aproveitado na indústria farmacêutica e de cosméticos.
- O biodiesel pode ser produzido a partir de óleos vegetais na categoria de óleos fixos ou triglicerídios, retirados de vegetais em forma de sementes, amêndoas ou polpas. Os óleos ou gorduras animais, que possuem estruturas semelhantes a dos óleos vegetais (moléculas triglicerídicas de ácidos graxos), também podem ser utilizados na fabricação desse biocombustível. Por fim, óleos e gorduras residuais, resultantes de processamentos domésticos, comerciais e industriais completam o quadro de matérias-primas disponíveis para o processamento do biodiesel.
Óleo ou gordura + Álcool Ésteres Metílicos + Glicerol
Em relação ao óleo diesel convencional, o biodiesel apresenta largas vantagens. Tem um ciclo renovável, não é tóxico, é muito mais biodegradável, não possui aromáticos ou enxofre, possui valor calorífico 2% maior que o diesel, apresenta rendimento similar ou superior ao do óleo diesel, utiliza o mesmo tipo de motor, melhora a lubrificação do motor e da bomba de injeção.
Estudos recentes indicam que a utilização de 1 quilo de biodiesel reduz em cerca de 3 quilos a quantidade de CO2 emitidos na atmosfera. As emissões de poluentes do biodiesel são cerca de 66% a 90% em relação ao diesel convencional. (OLIVEIRA, 2007)
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Além disso, o biodiesel pode ser utilizado sozinho ou em qualquer proporção juntamente com o diesel convencional. Chamamos de B5, por exemplo, a mistura de 95% de diesel convencional e 5% de biodiesel. Dessa forma, o mercado poderá se adaptar facilmente à quantidade de biodiesel produzida.
No Brasil, o primeiro programa de incentivo ao biodiesel foi lançado pelo Governo Federal em 1982. O chamado Programa Nacional de Energia de Óleos Vegetais tinha como principal objetivo viabilizar a utilização de óleos vegetais na indústria automobilística. Contudo, com a queda do preço do petróleo, em 1985, os investimentos no setor foram praticamente abandonados.
Recentemente, devido ao contínuo aumento no preço do barril do petróleo e, em decorrência dos problemas ambientais causados na queima dos combustíveis fósseis, o biodiesel voltou a ocupar um lugar de destaque no quadro energético brasileiro. Em 2004, foi aprovada uma lei federal que estabelece o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel. Essa lei prevê que, em 2008, o Brasil atinja a cota de 2% de incorporação do biodiesel ao diesel convencional (B2), o que totaliza 840 milhões de litros. Até 2013, essa percentagem deve subir para 5% (B5).
Uma interessante característica do programa brasileiro de biodiesel é o fato de ter características diversificadas nas diferentes regiões do Brasil onde é produzido. Na Amazônia, por exemplo, o biodiesel pode ser produzido a partir de óleos de Palmeiras Nativas e de Plantios de Dendê em áreas de reflorestamento, em pequena escala, nas ilhas energéticas, ou em grande escala, nos dendezais. Na região da Pré-Amazônia, o óleo de babaçu constitui principal matéria-prima para a produção do biodiesel. No semi-árido nordestino, as lavouras familiares poderão produzir plantas oleaginosas xerófilas, como é o caso da mamona, o que poderá auxiliar na erradicação da pobreza e na geração de renda para milhares de famílias. Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o biodiesel é produzido a partir da soja e de algumas outras culturas temporárias. Atualmente, a soja é a principal matériaprima do biodiesel brasileiro, produzindo cerca de 55% de todo o biodiesel nacional. Com um maior investimento direcionado para as potencialidades de cada região, é possível que a produção de biodiesel cresça de maneira mais equilibrada, de modo a gerar trabalho e renda para uma parcela maior da população brasileira.
## Etanol
Ultimamente, o etanol tem recebido grande destaque na mídia, sendo apontado como um grande substituto para os combustíveis fósseis na indústria automobilística. O etanol pode ser produzido a partir do processo de fermentação de açúcares ou amido produzidos em larga escala em determinadas plantas, como a cana-de-açúcar, o milho, a beterraba, o sorgo e, inclusive, a madeira. A produção do etanol, no entanto, requer a utilização de certa quantidade de combustível fóssil, no plantio e na colheita da matéria-prima. A tabela 1 fornece dados sobre a produção de etanol a partir de diferentes matérias-primas.
Nota-se que o etanol brasileiro, produzido a partir da cana-de-açúcar, apresenta um balanço energético bastante superior ao etanol gerado a partir de qualquer outra matéria-prima no mundo. O milho americano, por exemplo, requer 1 unidade de energia proveniente de combustíveis fósseis para produzir somente 1,3 unidades de energia renovável, enquanto a cana brasileira é capaz de produzir 8,9 unidades de energia para cada unidade de combustível fóssil. Sendo assim, a cana
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brasileira desponta como a matéria-prima mais eficiente na produção de biocombustíveis.
Tabela 01: Balanço de energia na produção de etanol, com diversas matérias-primas. (MACEDO, 2007)
A utilização do etanol produzido a partir da cana no Brasil remonta da década de 70, quando a súbita elevação no preço do barril do petróleo gerou uma grande crise no Brasil e em todos os países onde a matriz energética era fortemente dependente dos combustíveis fósseis. Tal situação propiciou uma busca de alternativas que diminuíssem nossa dependência desse tipo de combustível. Essa busca fez com que, no ano de 1975, o Governo Brasileiro criasse o Programa Nacional do Álcool, ou Proálcool. Numa primeira fase, o programa previa a adição de 22% de etanol à gasolina (gasohol). A seguir, foram produzidos veículos movidos exclusivamente a álcool que, rapidamente, se espalharam por todo o país, já que o preço do álcool combustível era bem inferior ao da gasolina. O programa brasileiro foi economicamente e tecnologicamente muito bem sucedido, contando com profissionais de excelente qualificação e sendo mundialmente reconhecido. (HINRICHS and KLEINBACH, 2002)
No entanto, com a queda do preço da gasolina, o preço do etanol combustível, inicialmente fixado a 64,5% do preço da gasolina, chegou a alcançar um percentual de 80% no início dos anos 90, perdendo algumas de suas vantagens competitivas. Além disso, a chegada dos chamados "carros populares", movidos a gasolina e o suprimento insuficiente e irregular desse combustível fizeram com que, em meados da década de 90, a venda de carros movidos a álcool no Brasil ficassem próximas de zero, desmantelando o principal programa de biomassa combustível existente no mundo.
Recentemente, com a criação dos veículos flex-fuel, movidos a álcool e gasolina, esse quadro começa a se modificar e o Brasil volta a consumir em larga escala o etanol combustível.
## Segurança alimentar e Biodiversidade
Um grande desafio que se coloca à frente da expansão do mercado de biocombustíveis é a ameaça que este pode representar à segurança alimentar e à biodiversidade do mundo. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançaram um relatório sobre Bioenergia, que aponta que o aumento na produção de biocombustíveis pode ocasionar a elevação de 10% a 20%
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no preço internacional de alimentos, ocasionando sérias conseqüências para os países subdesenvolvidos, onde o problema da fome já é uma triste realidade.
Essa elevação decorre do fato de que, com o aumento da demanda de grãos para produção de biocombustíveis, sua oferta para produzir alimentos pode ser reduzida, de forma que o preço no mercado irá subir. O aumento da demanda do milho norte-americano para a produção do etanol já está provocando um aumento no seu preço de mercado e, considerando que o milho é o principal componente da ração de porcos, gados e frangos, o preço da carne, do queijo e do leite também está sujeito a aumentos. Na Europa, os vilões da agflação são a canola e a soja, utilizados na fabricação do biodiesel.
É uma questão bastante preocupante, considerando que cerca de metade da população mundial é subnutrida. O ambientalista Lester Brown considera que a expansão da produção de biocombustíveis dará origem a um grande embate entre os 800 milhões de proprietários de carros e os dois bilhões de pessoas condenadas a fome.
No caso do Brasil, ainda existe certa disponibilidade de terras para o plantio de cana-de-açúcar para a produção do etanol. No entanto, se o Brasil se propuser a satisfazer não só o seu mercado interno, mas à crescente demanda do mercado mundial, é possível que esse quadro se torne insustentável. A expansão da produção de cana-de-açúcar poderá tomar espaço de outras culturas, como a soja, resultando num aumento do seu preço no mercado. Além disso, a expansão fará com que tais culturas ocupem outras áreas, o que pode ocasionar desmatamento na Amazônia, com graves conseqüências à biodiversidade da região.
Como então conciliar a necessidade de substituição dos combustíveis fósseis por biocombustíveis com as questões referentes à segurança alimentar do planeta e à biodiversidade? Uma possibilidade é aumentar a produtividade dos biocombustíveis, através de desenvolvimentos tecnológicos no setor industrial e agroindustrial, sem aumentar a área da cultura. Isso pode ser feito através do desenvolvimento do chamado etanol de segunda geração, produzido a partir de materiais lignocelulósicos, presentes no bagaço e na palha da cana. Isso permitiria, a princípio, um aumento de 200% na produção de etanol com a mesma área plantada. (LEITE, 2007)
Uma outra boa alternativa é integração entre os sistemas de produção de alimentos e energia, adaptados aos diferentes biomas. Um bom exemplo é a integração biodiesel-pecuária, onde os resíduos da extração do óleo podem servir para ração do gado, enquanto o esterco poderá servir de e o sebo bovino, de matéria-prima para a produção de biodiesel. A produção de biocombustíveis em áreas impróprias para o cultivo de gêneros alimentares, como é o caso do pinhãomanso cultivado em terras semi-áridas e o reflorestamento da Amazônia com o dendê também são opções bastante interessantes.
Enfim, no Brasil, os biocombustíveis representam uma excelente alternativa para substituição dos combustíveis fósseis. No entanto, a expansão do setor deve ser realizada com bastante cautela, de modo a não comprometer a produção de alimentos e à biodiversidade do país. Definitivamente, não é possível que o Brasil seja capaz de abastecer todo o mercado mundial de biocombustíveis, mas estes passarão a ter importante função na geração de recursos para o Brasil. Cabe ao governo direcionar tais recursos para uma melhor distribuição de renda e desenvolvimento para as diversas regiões do país.
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## Metodologia
Os professores responsáveis pelo projeto Interdisciplinar deverão, primeiramente, se reunir e fazer a divisão de alguns temas relacionados aos biocombustíveis. O presente trabalho e suas referências bibliográficas oferecem alguns subsídios para a pesquisa. A seguir, os temas deverão ser, aos poucos, apresentados durante aulas ou palestras, de maneira que os alunos sejam inseridos nesta discussão. Palestrantes e estudiosos da região poderão ser convidados pela escola de modo a enriquecer o debate.
Expostos os principais conceitos envolvidos na polêmica dos biocombustíveis, os alunos serão também convocados a fazer pesquisas em torno do tema. Uma sugestão é que sejam divididos em equipes que pesquisem sobre diferentes aspectos relacionados aos biocombustíveis. Algumas sugestões de temas que podem ser trabalhados são: Aquecimento Global e Biocombustíveis; História e perspectivas do etanol no Brasil; Etapas da produção do biodiesel; Funcionamento dos motores otto e diesel; Biocombustíveis x segurança alimentar; Biocombustíveis x biodiversidade.
Outros temas poderão ser adicionados a esta lista, uma vez que o assunto é bastante amplo e a cada dia novas informações sobre biocombustíveis nos chegam através da mídia.
Os alunos deverão apresentar seus trabalhos para o restante da turma e para os demais alunos que estiverem interessados. É possível também que a exposição de trabalhos seja aberta para a sociedade. As apresentações poderão ser orais, utilizando recursos multimídia e vídeos. Com a participação de professores de arte, poderão ser elaboradas também apresentações artísticas relacionadas ao tema, como teatros, paródias, danças e pinturas. Uma outra opção interessante seria a organização de debates e mesas redondas com os alunos e professores convidados. O importante, nessa fase do trabalho, é que o professor dê liberdade e suporte para que os alunos escolham a melhor maneira de se expressar.
Como etapa final, a avaliação dos trabalhos deve ser realizada pelos professores em parceria com os próprios alunos, de modo que eles possam julgar o seu desempenho e o de seus colegas.
## Conclusão
Através de um tema bastante atual, é possível discorrer sobre a temática energética sob diferentes pontos de vista, em um trabalho conjunto com professores de diversas disciplinas, possibilitando a construção do conhecimento pelo aluno de forma integral.
Os professores indicarão os caminhos, estimularão o debate, plantarão idéias. Os alunos participarão ativamente: pesquisando, perguntando, apresentando, debatendo. A escola será enriquecida pela profundidade do tema e todos, alunos, professores e demais interessados em assistir as apresentações, serão beneficiados pela discussão.
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## Referências
ALVES, Porque morrem os cortadores de cana . Revista Saúde e Sociedade n.3, p.90-98. São Paulo, 2006.
BRASIL, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN+ Ensino Médio: Orientações Educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 2002.
HINRICHS, Roger A. and KLEINBACH, Merlin et al. Energia e Meio Ambiente. Thomson, 2002
IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima - Mudança do Clima 2007: a Base das Ciências Físicas.
LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Intrínseca, 2006.
MACEDO,Isaias C. Situação atual e perspectivas do etanol. Revista Estudos Avançados, Edição n. 59, p. 167-177, São Paulo, 2007.
MORIN, Edgar. Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001.
OCDEFAO, Agricultural Outlook 2007-2016, 2007.
OLIVEIRA, Marcos . Biodiesel em ascenção. Revista PESQUISA FAPESP n. 134. p. 63 a 67. São Paulo, 2007.
LEITE, Rogério Cezar de Cerqueira. Etanol, o melhor dos biocombustíveis . Revista Scientific American Brasil. Edição Especial n.19, p. 52-55. São Paulo, 2007.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.