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A Importância da Leitura para o Ensino de Física

Andre Luis Tato, Roberto Soares Da Cruz, Julien Lopes Pereira

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
04/02/2011
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## A IMPORTÂNCIA DA LEITURA PARA O ENSINO DE FÍSICA

André Tato , Roberto Soares , Julien Lopes Pereira 1 2 3 1 Colégio Pedro II 2 IFRJ- Unidade Maracanã 3 Colégio Pedro II

RESUMO

Neste trabalho será explorada a importância da leitura para o desenvolvimento de conceitos nas aulas de Física. Atualmente o ensino de Física tende a dialogar com diversas áreas do conhecimento. Os vestibulares corroboram essa tendência, inserindo questões que envolvem conceitos de diferentes áreas. Nesse contexto, a compreensão e o desenvolvimento da capacidade de análise são apresentados como uma proposta cujo intuito é contribuir para que o aluno dê significado aos conhecimentos explorados em sala de aula. O aluno, por sua vez, imerso em um mundo com transformações cada vez mais rápidas, não pode mais se limitar às informações dadas em sala, devendo ter autonomia suficiente para buscar as informações referentes aos assuntos que lhe são de interesse. Esse aluno, em contato limitado com o professor, para melhor aproveitar o tempo em sala de aula, deve estar apto a opinar sobre questões acerca dos fenômenos naturais apresentados nos meios comunicativos.

## INTRODUÇÃO

Desde o berço da humanidade, o homem busca interpretar a natureza. A cada época, cada qual com suas motivações, surgem novos paradigmas relacionados aos problemas de cunho coletivo, desde a escolha do local e da data de plantio, até o lançamento de satélites e as televisões de plasma. Entretanto, a questão da modelagem científica e sua importância não são necessariamente discutidas em sala de aula. No caso de um currículo que contenha esse tema, deve ser feito o seguinte questionamento:

- 1. Estarão os alunos aptos a debater sobre ciência?
- 2. Qual o interesse pedagógico em utilizar jornais e revistas, além do livro didático?
- 3. Quais as competências desejadas para o aluno ao concluir o curso?

Cabe salientar que existem diferentes níveis de entendimento ao se explicar um fenômeno. Alguém que se proponha a fornecer informações sobre fenômenos naturais não precisa ser classificado como 'homem da ciência'. Fenômenos presentes no cotidiano da população em geral dirigem-se à 'cultura popular' e, nas escolas, encontram-se as explicações mais aceitas pelo mundo científico.

É relativamente comum um morador de determinado local, em virtude do pragmatismo inerente a um residente de 'longa data', ser capaz, com considerável precisão, de determinar chuvas pela direção dos ventos, posição das nuvens, etc. Todavia, por mais precisas que sejam as previsões desse morador, ele está limitado às suas experiências pessoais, carecendo de parâmetros externos para emitir uma

opinião 'firme'. Sem a leitura, uma pessoa interessada em emitir opiniões sobre fenômenos naturais estará limitada a seus 'achismos'.

Em sala de aula, embora as experiências pessoais dos alunos tenham certo valor, a qualidade da mediação realizada pelo professor é proporcional a quanto seu aluno acessou materiais de divulgação científica.

No decorrer deste artigo, serão desenvolvidas ideias cuja intenção é estimular o aluno a compreender o mundo que o cerca. Para participar desse processo, o aluno deverá sentir necessidade de conhecer fatos, fenômenos, contextos e temas relacionados, arrolados junto a termos de cada área do conhecimento.

## AS FORMAS DE INTERPRETAR A NATUREZA

As interpretações dadas aos fenômenos naturais dependem do contexto, das convicções de quem se propõe a interpretar e do meio em que se está inserido, assim como da aceitação daqueles a quem se dirige a explicação. Não se deve esquecer a possibilidade de a referida explicação estar acompanhada de interesses de ordem econômica - como o caso de empresas patrocinadoras de pesquisas -, 1 social, etc. Como exemplo envolvendo as variáveis citadas, veja-se o episódio vivido por Galileu nos dias 24 e 25 de abril de 1610 2 , quando levou seu telescópio à casa de seu rival, Magini, em Bolonha, para demonstrá-lo a vinte e quatro professores. Nas palavras de Horky, discípulo de Kepler (GALILEU. Opere.v. X.p. 342 apud FEYERANBEND, 2003):

'Não dormi nada nos dias de 24 e 25 de abril, nem de dia nem de noite, mas testei de mil maneiras o instrumento de Galileu, tanto em coisas aqui de baixo quanto naquelas lá de cima. Aqui embaixo, ele funciona maravilhosamente; nos céus ele nos engana, pois algumas estrelas fixas aparecem duplicadamente (...) Isso silenciou Galileu e, no dia 26, ele partiu tristemente de manhã cedo...'(p.133)

Ainda segundo Feyerabend (Op. Cit.), meses após o ocorrido, Kepler estava recebendo, de diversos cientistas de renome, uma 'avalanche de cartas' com críticas às observações realizadas com o telescópio de Galileu. Acreditando na possibilidade de as observações de Galileu serem verdadeiras, Kepler solicitou-lhe novos testemunhos, conforme o trecho transcrito abaixo ( idem, ibidem apud FEYERABEND, OP.Cit., p.134), configurando-se num exemplo de convicção científica:

'Não desejo esconder de você que vários italianos enviaram cartas a Praga afirmando que não conseguiram ver essas estrelas [as luas de Júpiter] com seu próprio telescópio. Pergunto-me como pode ser que tantos neguem o fenômeno, inclusive aqueles que usam o telescópio. Ora, se considero o que ocasionalmente acontece comigo 3 , não julgo impossível que uma única pessoa possa ver o que milhares são incapazes de ver (...) Portanto, Galileu, suplico-lhe que me envie testemunhos tão logo seja possível.'

Para um aluno compreender a situação de Galileu em abril de 1610, deve realizar a análise de pelo menos algumas variáveis envolvendo observações

astronômicas. Passemos a um exemplo atual envolvendo a mesma observação. Desde o início de setembro de 2010, é possível observar Júpiter a leste após 19h40min, na rua São Francisco Xavier, localizada na Tijuca - RJ. Com um telescópio feito com cano de PVC e lentes convergentes, geralmente é possível enxergar os satélites de Júpiter. Entretanto, quem o tentou na semana de 20/09 a 24/09 não conseguiu a visualização (pelo menos não uma boa) com o material citado. Motivos:

- 1- As condições atmosféricas não estavam favoráveis a observações;
- 2- A interferência luminosa da Lua cheia.
- O aluno, mesmo nunca tendo feito uma observação de céu com instrumentos, poderia participar satisfatoriamente de uma atividade sobre o tema observações e o caso de Galileu , se já tivesse alguma leitura sobre condições de visibilidade, instabilidade atmosférica e temas relacionados.
- O trecho supracitado suscita ainda a idéia de como 'novas teorias' devem ser sempre analisadas cuidadosamente, pois, mesmo com o rompimento do paradigma, as novas idéias tendem a manter características do paradigma anterior (FEYERABEND, 2003).

Pretensões de inovação à parte, as interpretações geralmente são feitas a partir de acontecimentos com os quais se está familiarizado. No processo de ruptura com um modelo científico não mais satisfatório, estão presentes pessoas cuja convivência com a idéia anterior, que não mais justifica todas as experiências realizadas, pode ter criado raízes, gerando um grande obstáculo à aceitação do novo.

Isso posto, é possível estabelecer uma discussão tendo os termos 'explicações mais aceitas' e 'experiências possíveis' como focos e fatores de humanização da ciência, desmistificando a ciência e tornando-a acessível ao cidadão comum. Por humanizar a ciência , deve-se entender que o conhecimento científico não pode estar desvinculado da relação homem-sociedade.

- O termo 'explicações mais aceitas' nos remete imediatamente à falta de unanimidade sobre um assunto. É comum encontrarmos exemplos de teorias divergentes para explicar o mesmo fenômeno. Como exemplo histórico, pode-se citar a polêmica em torno da natureza da luz, cuja solução, dada pelo princípio da incerteza de Heisenberg, em 1927, aguardou mais de 200 anos. Os diferentes comportamentos da luz podem ser explicados considerando-se a luz como onda ou como corpúsculo. Em certos experimentos, como na difração em fendas de Young ou no efeito fotoelétrico de Einstein, apenas uma natureza é detectável. Em outros experimentos, como no processo de formação de sombras, ambas as teorias conseguem justificativas satisfatórias.
- O experimento de difração de ondas de Young e o efeito fotoelétrico de Einstein são posteriores ao surgimento das dúvidas sobre a natureza da luz. A divulgação de ambos agitou o mundo científico, sendo o efeito fotoelétrico posterior à difração em fendas em aproximadamente um século, cada qual reforçando uma natureza da luz. Isso nos remete à questão das experiências possíveis tentando responder à pergunta 'por que as ideias (interpretações da natureza) mudam?'. A evolução tecnológica e o próprio desenvolvimento das idéias possibilitam a realização de experimentos cada vez mais complexos.
- O aumento das possibilidades de teste de uma teoria, somado às evoluções, poderá definir, a longo prazo, a validade, ou não, de um modelo explicativo. Exemplos:
- 1- As Leis de Newton, imponentes até o fim do século XIX, com limitações mais claras a partir de 1905 com a publicação da relatividade restrita de Einstein. Em nenhum momento, as Leis de Newton foram invalidadas, apenas 'esbarraram' num limite de aplicação.
- 2- A teoria do calórico, segundo a qual a transferência de um fluido calórico de um corpo a outro definiria variações de temperatura, não era capaz de explicar diversos fenômenos, como dois corpos se aquecendo simultaneamente ao se atritarem, como o caso dos canhões do Conde Rumford e o comportamento anômalo da água. 4

Ambos os casos relatados acima suscitam diversos equívocos em sala de aula, por suas concepções alternativas. As concepções dos alunos, ao chegar à sala de aula, dependem de suas experiências e de leituras relacionadas ao assunto estudado.

- O aluno sem leituras poderá apenas basear-se em sua intuição, incorrendo em erros comuns e, consequentemente, não compreendendo a evolução do pensamento científico, com dificuldades para emitir um parecer sobre temas relacionados e provavelmente aderindo às ideias mais aceitas, sem questionamentos sobre novas possibilidades.

## A NAVALHA DE OCKHAN

A ciência, para ser acessível a todos, deve ser apresentada de forma simples, ou pelo menos o mais simples possível, respeitando-se as complexidades do tema a ser abordado. Para melhor entendimento, analisar-se-ão dois extremos:

- 1- O modelo é apresentado em seus mínimos detalhes, sem preocupação com simplicidade. Resultado: torna-se um discurso distante do aluno, causando afastamento da aula.
- 2- O modelo é apresentado de forma muito simplificada, omitindo pontos vitais. Resultado: o aluno incorrerá em erros conceituais.
- O formato final de um modelo científico, ou pelo menos sua apresentação didática para leigos, deve omitir todas as características desnecessárias. Por 'desnecessários', entendam-se detalhes irrelevantes para a explicação completa do fenômeno e sua compreensão. A navalha de Ockhan pode ser apresentada de forma simplificada (nada mais apropriado no momento!) como: 'A explicação mais simples, para um determinado conjunto de evidências, é, em geral, a mais correta'.

Não se deve confundir simplificação com mera economia verbal. A simplificação das explicações sobre certo fenômeno, para aproximar-se da 'linguagem do aluno', deve ser moderada. O aluno deve perceber a importância de aumentar seus conhecimentos, com consequente ampliação de possibilidades.

Evitar excessos em dado modelo científico significa ter um conjunto de detalhes a menos para serem colocados à prova pelo meio científico, cuja aceitação

de uma nova ideia é condicionada a todos os testes possíveis. Para melhor compreender a importância de testes científicos, observe-se a teoria do falseamento.

## INDUTIVISMO X RACIONALISMO

Dentre a totalidade dos alunos da maioria das escolas, percentual considerável não pretende seguir carreira científica ou afim. Para contemplar e estimular aqueles cuja preferência resida em outras áreas, será apresentada a lógica das investigações cientificas de Karl Raimund Popper (1934), uma forma não convencional para muitos cientistas de como lidar com um fenômeno. O racionalismo é iniciado no campo das idéias sobre como as coisas acontecem, daí a importância de conhecer o método experimental e suas peculiaridades. Nessa modalidade, fica ainda mais evidente que um aluno sem 'bagagem cultural' apresenta dificuldades.

- O pensamento epistemológico de Karl Popper vai no sentido oposto ao de todos que acreditam ser a ciência fruto de um conjunto de observações sobre determinado fenômeno. Para ele, o homem cria conjecturas no intuito de explicar fenômenos, numa linha oposta à adotada pelos empiristas.

No caso dos empiristas, o experimento precede a teoria para explicação do fenômeno, e, a partir dos resultados encontrados, um modelo explicativo será criado, para justificar os dados obtidos e fazer previsões sobre novos acontecimentos.

Para Popper, do ponto de vista lógico, o experimento tem como função tentar refutar a teoria, ou seja, o fortalecimento de uma conjectura que pretende explicar determinado fenômeno deve resistir a testes experimentais. Após a formação da conjectura, experimentos devem ser realizados, para testar sua validade. A conjectura, então, se consolida quando, após sucessivos testes dentro do limite observável, não há refutação.

Pelo critério de verificação experimental adotado por Popper, quanto mais uma conjectura 'sobrevive' às tentativas de refutação, mais fortalecida fica. Todavia deve-se considerar que o número de observações existentes é infinito e sempre se estará trabalhando com um conjunto finito de informações. A navalha de Ockhan, em consonância com o racionalismo de Popper, é útil porque, ao reduzir a quantidade de detalhes, diminui a quantidade de pontos com possibilidade de serem refutados.

A utilização das atividades experimentais, no caso do racionalismo crítico, encontra-se numa linha oposta à indagação da natureza de Francis Bacon (15611626), para quem a teoria seria oriunda de um conjunto de dados resultantes da observação do fenômeno que se pretende compreender.

- O passo inicial do empirismo lógico consistiu em delimitar o domínio de cada linguagem, de modo que cada área do conhecimento deveria impor limites para estabelecer os conhecimentos 'merecedores' de serem considerados científicos.

Popper, com seu racionalismo crítico, coloca em xeque os indutivistas, tentando esclarecer:

- 1- Qual é a possibilidade de elaborar uma 'lei,' partindo de um conjunto finito de observações?
- 2- É possível o conceito de verdade científica apoiar-se apenas em base observacional? A resposta a essa pergunta nos remete ao 'valor' de uma teoria científica.

Para Popper, uma teoria pode se originar pela livre criação de nossa mente, resultado de intuição, e em nenhum momento procuramos prová-la ou verificá-la. Para nos assegurarmos da veracidade de uma conjectura, devemos a todo custo tentar falseá-la. 'Nosso intelecto não deriva suas leis da natureza, mas tenta impor à natureza leis que inventa livremente, com grau variável de sucesso'

É comum tentarmos justificar algo a partir de nossos conhecimentos, podendo muitas vezes incidir no equívoco de utilizar parâmetros indevidos. A capacidade de resistir ao falseamento interfere diretamente na consolidação do modelo adotado. No caso das órbitas elípticas de Kepler, por exemplo, as observações não provaram que a hipótese elíptica era correta, mas podiam ser explicadas por ela.

Para Feyerabend (2003), a ciência não deve ter um método único. O método único, além de tolhir a criatividade de quem analisa um fenômeno, limita a própria análise em si. Os autores desse trabalho acreditam que o aluno deve ter autonomia para escolher a metodologia em cada situação problema apresentada.

## PROPOSTAS DE ATIVIDADE

Ambas as atividades são destinadas a alunos do Ensino Médio. Independente da série, considerando a diversidade de sequencias existentes em todo Brasil, espera-se que o aluno esteja estudado ou tenha estudado o conceito de energia.

## ATIVIDADE 1

- O texto a seguir, retirado de um trecho de jornal, faz referência a projetos apresentados à prefeitura da cidade do Rio de janeiro. Um deles em especial faz referência a uma torre construída na ilha de Cotunduba, próximo ao bairro do Leme. A atividade proposta em seguida será mais bem conduzida se realizada por grupos de trabalho.

## A NOVA PAISAGEM CARIOCA NO SONHO DOS ARQUITETOS

Se depender da criatividade dos arquitetos cariocas e internacionais, a paisagem do Rio de janeiro será bem diferente a partir de 2014 (...). Segundo Schmidt, a proposta da torre é servir como ponto turístico símbolo de boas vindas pelo mar e ainda como fonte geradora de energia para a vila olímpica e parte da cidade, seguindo a filosofia do 'edifício máquina'. Isso seria feito por meio de painéis para a captação de energia solar. Haveria ainda uma cascata no lado externo, com água do mar, que geraria energia à noite.

Retirado do Jornal O Globo , no dia 7 de agosto de 2010 n 0. 28.124

Suponha a existência de um plebiscito para instalação da torre citada no texto.

- a) Identifique áreas do conhecimento que seriam envolvidas na construção da torre e seus equipamentos.
- b) Faça uma estimativa da área total do edifício e do total de energia a ser produzida diariamente.
- c) Todos os lados do edifício serão iluminados por igual o ano todo?
- d) Discuta com seus amigos a questão do gasto energético para a elevação da água do mar e a quantidade de energia que a cascata gerada pela queda d'água pode gerar. Tome como base da discussão o princípio de conservação de energia.
- e) Estime o custo de produção e os impactos ambientais. Analise-os considerando a produção energética.
- f) Procure no mapa a proposta de localização. Existiria algum local próximo que pudesse melhorar a relação custo, produção energética e impacto ambiental?
- g) Sobre quais temas você julgaria útil já ter lido para melhor entender a notícia? Quais você ainda poderia ler para complementar sua análise?

Essa questão apresenta um fator de alteração considerável na paisagem do Rio de Janeiro, assim como o dinheiro gasto para construí-lo vindo dos cofres públicos. No exercício da cidadania, deve-se saber buscar informações para efetuar uma análise. Deve ficar clara, para o aluno, a necessidade de conhecimentos prévios sobre o tema. Sem a existência de um ponto de partida, o professor terá dificuldade em debater o tema.

- O professor, a fim de contemplar alunos com diferentes formas de entendimento, ainda pode estimular a atividade, com a criação de grupos para análises em 'sentidos contrários'. São elas:
- 1- A partir dos dados, chegar a conclusões, de acordo com o método tradicional adotado no mundo científico. Será interessante observar que, diante dos mesmos dados, aparecerão conclusões distintas. O professor então, instigando os alunos a pesquisar, pode pedir mais dados sobre a construção da torre e suas variáveis para nova análise.
- 2- Criar conjecturas sobre a instalação da torre e, a partir dos dados, iniciar ataques à própria conjectura. Após atingir certo nível de confiança no próprio modelo explicativo, pode-se iniciar um ciclo de debates onde cada grupo tentará falsear as conjecturas dos outros. O professor deve mediar os debates de modo a chegar a um consenso final. Provavelmente alguns grupos farão alterações em seus modelos durante a atividade. São essas alterações o fator de aproximação das idéias. Como atividade complementar, os alunos devem pesquisar mais sobre os pontos levantados, para novas tentativas de falsear o modelo comum ou dos outros grupos, conforme o resultado do primeiro debate.
- Ao final, os grupos poderão entrar em acordo ou não sobre um 'melhor método' para a situação apresentada, assim como um melhor modelo. Independentemente do resultado final 5 , todos os alunos saem com conhecimento agregado e, espera-se, estimulados a obter mais conhecimentos gerais através da leitura de jornais, revistas, sites confiáveis e, principalmente, livros.

## ATIVIDADE 2

Observe-se um enunciado corriqueiro em livros didáticos de Física: 'Qual a quantidade de calor necessária para aquecer água de 20 C a 50 C?' 0 0

Agora leia o texto abaixo, referente a uma das experiências de experiência do Conde Rumford nas palavras do próprio.

'O cilindro, girando a uma taxa de 32 vezes por minuto, estava ainda em movimento por um tempo curto quando percebi, colocando minha mão n'água e tocando o lado externo do cilindro, que Calor havia sido gerado. E não demorou muito para que a água cercando o cilindro ficasse quente de maneira sensível. Ao final de uma hora descobri, mergulhando um termômetro dentro da água na caixa (a quantidade deste fluido era 18,77 libras Avoirdupois, ou 2¼ galões de vinho), que sua temperatura aumentou nada menos do que 47 graus, sendo agora 107° na escala de Fahrenheit. Quando mais 30 minutos se passaram, ou seja, 1 hora e 30 minutos após o maquinário ter sido posto em movimento, o Calor da água na caixa era 142°. Ao final de 2 horas, desde o início do Experimento, a temperatura da água foi encontrada em 178°. Após 2 horas e 20 minutos ela estava em 200°, e após 2 horas e 30 minutos ela DE FATO FERVEU! [212°F] Seria difícil descrever a surpresa e o espanto expressos nas fisionomias dos espectadores, ao verem uma quantidade tão grande de água fria ser esquentada e de fato ferver sem nenhum fogo. [...] Meditando sobre os resultados de todos esses Experimentos, somos naturalmente levados àquela grande questão que tão freqüentemente tem sido objeto de especulação entre filósofos, qual seja: O que é Calor? Existe algo como um fluido ígneo ? - Existe algo que possa, com propriedade, ser chamado calórico ?'

Agora faremos algumas comparações entre o texto de Rumford e o enunciado corriqueiro.

- 1- Ambos utilizam o termo calor. Em ambos, calor possui o mesmo significado?
- 2- Qual a diferença entre a forma de apresentação das variações de temperatura?
- 3- Argumente com dados do próprio texto a existência de um fluido ígneo.

Esta atividade pode ser feita em grupo ou individualmente, sendo recomendada sua aplicação em grupo e com certo tempo de aula disponível. O cálculo exigido no enunciado não precisa ser feito, mas apenas utilizado como parâmetro de aceitação pela maioria. Nos 3 itens existem sutilezas que necessitam da presença do professor, por isso a atividade NÃO é recomendada para o lar em sua totalidade.

Esta atividade possui certo grau de abertura em suas respostas. Entretanto favorece amplo conjunto de análises. Em cada item não podem deixar de ser explorados:

Item 1: As características do calor, se utilizadas indevidamente (mesmo com professores), pode gerar confusão entre calor e calórico. Em um segundo momento existe uma distinção mais evidente entre calor e temperatura, podendo-se utilizar frases cotidianas como 'hoje está calor' e a respectiva análise do emprego do calor.

- Item 2: No enunciado é fornecido uma variação determinada, enquanto no experimento de Rumford a variação, sem expectativas de valores determinados, serve de base para análise de possíveis ocorrências.

Item 3: Esta discussão deverá ser mediada pelo professor, preferencialmente o professor deve fornecer nova leitura sobre algum outro fator que deponha contra a existência de uma partícula ígnea. Recomenda-se aos alunos a análise do comportamento anômalo da água em busca da quebra do paradigma da partícula ígnea.

## QUAL A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA ATIVIDADE PROPOSTA?

Aqui será apresentada sumariamente, através da opinião de autores da área educacional, a questão do ato comunicativo, com o intuito de aprofundar as razões pelas quais o professor deve trabalhar a leitura em sala de aula. A ênfase, nesse caso, deve estar na inserção do aluno no discurso científico, instrumentalizando-o para a utilização de termos próprios a essa área.

Em todo ato comunicativo, os sujeitos envolvidos precisam compartilhar não apenas o código pelo qual se dará a comunicação, mas também uma série de conhecimentos contextuais - as condições de produção - que conferem significação aos enunciados. Nesse sentido, importa considerar quem fala / escreve, de que posição institucional, para quem, com que intenção etc. (CHARAUDEAU, 2008).

Para Lemke (1997), cada área do conhecimento constrói uma linguagem própria, com termos e formas de se expressar próprios. Por esse motivo, deve-se falar ciências nas aulas de ciências, com termos corretos e devidamente aplicados a cada situação. A simplificação da linguagem do professor para aproximar-se da linguagem do aluno não deve inibir a evolução esperada através das aulas.

Para Vigotski (2005), as informações escritas nem sempre representam o pensamento do aluno. Não basta ter informação, é necessário saber expressar-se de acordo com as situações e os meios onde se apresenta a informação. O hábito de ler fornece ao aluno farto conjunto de parâmetros de como conduzir sua escrita. Nesse caso, o próprio Vigotski (op.cit.) aponta um processo de retroalimentação entre pensamento e linguagem. O autor (2004) aponta ainda a existência de signos e significados atribuídos aos signos, corroborando as características da linguagem própria de Lemke para cada grupo, em nosso caso científico, e das condições para estabelecer um ato comunicativo pleno por Charaudeau.

## CONCLUSÃO

A leitura possui importância vital em vários aspectos do ensino de Física. Destacam-se:

- 1Acúmulo de conhecimentos de base. Sem conhecimentos prévios as possibilidades de aulas envolvendo discussões são reduzidas. O estabelecimento de debates com alunos 'zerados' tende a um baixo grau de conhecimento agregado.
- 2- Fornecer ao aluno a oportunidade de aplicar seus conhecimentos em situações reais, dando significado às aulas.
- 3- Articulação de idéias contidas em um texto e entre textos e a respectiva correlação das ideias apresentadas.
- 4- Para melhor fazer-se entender, o aluno deve utilizar, na medida de seu alcance, termos próprios à área com a qual deseja dialogar. Esta não é uma peculiaridade da Física, mas de todas as áreas do conhecimento.

Em um mundo cujas transformações são cada vez mais rápidas o aluno deve saber buscar informações nas fontes disponíveis e 'filtrá-las'. O exercício pleno da cidadania depende da associação entre os acontecimentos de ordem social, econômica, tecnológica, ambiental, etc.

Isto posto, deve-se questionar qual o papel da escola, e os materiais por ela fornecido, no processo de formação do cidadão crítico e atuante em um mundo com facilidade de acesso a informações diversas.

## BIBLIOGRAFIA

- · CHARAUDERAU, Patrick. Linguagem e Discurso: modos de organização . São Paulo: Contexto, 2008.
- · FEYERABEND, P.. Contra o Método .São Paulo: UNESP, 2007.
- · LEMKE. J.L. Aprender a Hablar Ciência: lenguage, aprendizaje y valores . Barcelona: Paidós, 1997.
- · VIGOTSKI, L. S.. Pensamento e Linguagem . São Paulo: Martins Fontes, 2005a.
- · VIGOTSKI, L. S.. Psicologia e Pedagogia . São Paulo: Martins Fontes, 2004.

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