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INVESTIGANDO AS CONCEPÇÕES DOS ALUNOS SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE FÍSICA E FILOSOFIA.

Karla Martins, Marco Braga

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
04/02/2011
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## INVESTIGANDO AS CONCEPÇÕES DOS ALUNOS SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE FÍSICA E FILOSOFIA.

## RESEARCHING THE STUDENTS CONCEPTIONS ABOUT THE RELATIONS BETWEEN PHYSICS AND PHILOSOPHY

Karla Martins e Marco Braga 1 2

1 EPSJV-FIOCRUZ/CEFET-RJ, Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática, karlafisica@hotmail.com

2 CEFET-RJ, Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática, braga@tekne.pro.br

## Resumo

O presente artigo mostra parte de uma investigação a respeito das concepções de alunos de ensino médio sobre as relações entre física e filosofia. A investigação foi feita em três escolas bem distintas de ensino médio. Os resultados apontaram para uma visão onde a matemática é a matéria mais importante para a compreensão dos conceitos físicos. A filosofia foi apontada por alguns estudantes como tendo relação com física, mas essa relação não é tão clara para o aluno. A forma como a pesquisa é feita, e a maneira como o professor conduz sua aula, ressaltando ou não os aspectos históricos e/ou filosóficos, influenciam nas respostas dos alunos. A pesquisa tem como objetivo a elaboração de um material didático de história e filosofia da ciência para o ensino médio, onde serão apresentadas em forma de um texto, com um caráter interdisciplinar, as discussões de cunho histórico-filosóficas a respeito dos princípios de conservação.

Palavras-chave : Epistemologia - Filosofia, História e Ensino de Ciências.

## INTRODUÇÃO

O ensino de Física está associado muito fortemente para a maioria dos estudantes à resolução de problemas. Sendo assim, para a maioria das pessoas, aprender Física significa memorizar uma quantidade enorme de fórmulas e treinar o uso das mesmas resolvendo o maior número de exercícios possível. Quando se diz que um aluno é bom em Física, significa que ele sabe resolver problemas.

Essa ideia está bem arraigada não só nos alunos, mas também nos professores, pois estes, em sua maioria, receberam uma formação baseada nesse tipo de prática.

Muitos estudantes não se sentem a vontade pra responder questões conceituais, quando estas são colocadas em suas avaliações. Quando são levantadas questões de cunho histórico-filosóficas então, o desconforto é maior ainda, pois como já citamos anteriormente, a Física só se relaciona com a Matemática. Ao se depararem com controvérsias, logo perguntam:'Quem ganhou?'; 'Qual é a teoria mais importante?'; 'Qual é a ideia que devemos usar?'; 'Quem está certo afinal?'.

Recentemente tornou-se obrigatório no currículo do Ensino Médio o ensino de Filosofia. Os alunos tem se deparado com uma reflexão sobre a construção do conhecimento, a epistemologia, em especial no campo das ciências matemáticoexperimentais.

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Esse fato cria uma dicotomia. Os professores que ensinam as ciências apresentam os produtos da ciência mas quase nunca propõem uma reflexão sobre a construção do conhecimento dessas ciências.

Por outro lado, tem sido muito disseminada através dos currículos dessas ciências uma visão empírico-indutivista, onde a observação é apresentada como sendo a base e a fonte e do conhecimento científico. Nessa perspectiva o conhecimento passa a ser percebido pelo aluno como fruto de regras e de um pseudo 'método científico'. Não existe espaço para a imaginação, criatividade, especulação ou intuição. Ainda segundo esta epistemologia, as teorias são descobertas, e a ciência é neutra. Com isso o cientista é visto como uma pessoa genial, isolada e que 'descobre' quase que por acaso.

O que se faz normalmente em sala de aula é retransmitir os resultados apresentados pela ciência (TRINDADE & TRINDADE, 2003). Apresenta-se uma ciência dogmática, descontextualizada e fragmentada. Essa visão acaba apoiando uma ideia de que o conhecimento científico não tem nada a ver com a humanidade, que independe do tempo, que é linear e cumulativo, e ainda está acima da moral e da ética, sendo neutro (TRINDADE E TRINDADE, 2003). Parece que ao se chegar a uma teoria ou lei científica alcançou-se a verdade, e esta é o ponto final da investigação.

Tomando como base os PCNEM entendemos que a Física não deve ser apresentada como um produto acabado, que seja originária do brilhantismo da mente de alguns privilegiados (BRASIL, 1999). A ciência, de uma forma geral, é tratada como um empreendimento autônomo, objetivo, baseado na aplicação de um código de racionalidade alheio a qualquer tipo de interferência e neutra (BAZZO, 2003).

Os currículos de Física no Brasil, em sua grande maioria, dão ênfase apenas ao ensino de Física e quase nunca sobre a Física (TEIXEIRA et. al, 2009). Aprender Física significa estudar um programa bastante extenso. Entretanto, o excesso de conteúdos pode vir a impedir que ocorra um maior aprofundamento em questões de extrema relevância, dificultando um diálogo que possa contribuir de forma construtiva para a formação da cidadania(BRASIL, 1999).

Sem negligenciar os conteúdos, mas fazendo uma seleção daqueles mais relevantes para a formação da cidadania, pode-se construir um currículo que atenda a essa demanda. Nesse sentido, uma abordagem histórico-filosófica no ensino de Física pode ser usada como uma estratégia que venha a facilitar a compreensão de conceitos, modelos e teorias (FERRER, 2007) e ainda assim possibilite uma reflexão sobre a ciência como construção humana.

## UM PROJETO PARA A CONFECÇÃO DE UM TEXTO PARADIDÁTICO COM ENFOQUE HISTÓRICO-FILOSÓFICO.

A partir dessa idéia, um grupo de professores começou a trabalhar na elaboração de pequenos textos paradidáticos que pudessem ensinar Física e ao mesmo tempo refletir sobre questões fundamentais da ciência. A ideia é a de construir um texto que mostre para os estudantes que a ciência não progride por acumulação, (KUHN, 1979), que teorias não são verdades absolutas, isentas de crítica. Em outras palavras, deseja-se deixar claro para o aluno o caráter provisório do conhecimento científico (POPPER, 1975). A partir de determinadas temáticas,

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como os princípios de conservação, pretende-se realizar uma reflexão históricofilosófica.

Durante muitos anos os alunos de Ensino Médio não tiveram aulas de Filosofia. Poucos sabiam o que isso significava. Recentemente, com a obrigatoriedade do ensino de Filosofia, alguns alunos passaram a contar com um espaço de reflexão sobre diversas questões, dentre elas a ciência. Entretanto, tal ensino é desconectado da Física, Química e Biologia.

- O projeto de construção de textos científicos a partir de uma visão históricofilosófica poderia também abrir portas de contato entre as disciplinas científicas e a Filosofia. O tema dos princípios de conservação se encaixava muito bem nesse objetivo.

Diversos debates filosóficos precederam a elaboração desses princípios na ciência. A controvérsia entre os pré-socráticos Parmênides e Heráclito sobre permanência e transformação foi um deles. As diversas soluções propostas posteriormente, tanto pelos atomistas como por Empédocles, para tentar explicar o que permanece na transformação serviriam como pano de fundo histórico para uma introdução à idéia de princípios de conservação.

Entretanto, antes de começar a elaborar o texto e introduzi-lo nas salas de aula, surgiu uma questão com a qual o grupo de professores se deparou. Os alunos percebem as relações entre Física e Filosofia? Será que o ensino dogmático e extremamente mecânico e matemática das escolas possibilitam uma percepção mínima dessas relações?

## UMA PESQUISA EXPLORATÓRIA.

Partiu-se, então, para a formulação de uma pesquisa exploratória que nos desse algumas pistas sobre esse tipo de percepção. Com o objetivo de verificar qual a visão sobre a natureza do conhecimento científico dos alunos, utilizamos uma pesquisa 'survey'.

A pesquisa foi realizada em três escolas de ensino médio. Apesar de todos os alunos serem da mesma série (2 série do EM), os conteúdos vistos nas duas escolas são diferentes. Em uma delas os estudantes estudavam Termologia e Óptica na primeira série, e nas outras duas os alunos tiveram contato com quase toda a Mecânica, inclusive o princípio de conservação de energia.

Escola A - é uma escola pública, com formação técnica, localizada num bairro de baixo poder aquisitivo. Por ter qualidade acima da média das outras, a escola A atrai alunos com um bom nível que se destacaram no nível fundamental da região. A escola recebe também alunos de boas escolas particulares de várias regiões da cidade. Os alunos têm uma vivência de laboratório quase que diária.

Escola B - é uma escola pública, de ensino regular, localizada num bairro de classe baixa. Os alunos, em sua grande maioria, moram nesse bairro, ou em bairros próximos.

Escola C - é uma escola pública, de ensino regular, localizada num bairro de classe baixa. Assim como a escola A, essa escola atrai alunos com um bom nível que se destacaram no nível fundamental, por ter qualidade acima da média. Ainda

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como a escola A, a escola C também recebe alunos de boas escolas particulares de várias regiões da cidade.

A realização da pesquisa exploratória contou com o seguinte quantitativo de alunos:

Foram 12 questões, e elas estavam relacionadas com metas da ciência, relação da física com outras disciplinas, origem e significado da física, caráter controverso na elaboração de teorias, caráter provisório do conhecimento científico. Algumas perguntas foram abertas e outras fechadas.

A seguir apresentamos e analisaremos 2 das 12 perguntas, a partir dos percentuais de respostas escola. Escolhemos apenas 2 para este artigo, exatamente aquelas que procuraram correlacionar a Física com outras disciplinas, em especial a Filosofia.

As perguntas e os respectivos percentuais de respostas são expostos a seguir:

## 1) Existe relação entre física e filosofia?

- 2) Dadas as matérias abaixo, coloque em ordem crescente de relevância aquelas que contribuem para um melhor aprendizado de física (8: muita relevância; 1: pouquíssima relevância ou 0:nenhuma relevância).
- ( ) Matemática. ( ) História. ( ) Filosofia. ( ) Química.
- ( ) Geografia. ( ) Língua Portuguesa. ( ) Biologia.
- ( ) Sociologia.

Nesta questão apresentaremos apenas os extremos, ou seja, aquela que os alunos acharam que tinha muita relevância (8), uma relevância considerável (7), nenhuma relevância (0) e pouquíssima relevância (1). Os alunos podiam dar o mesmo grau de relevância para mais de uma matéria.

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## ANÁLISE DOS RESULTADOS

Na questão 1 esperava-se que a maioria dos alunos respondessem que não existe relação entre Física e Filosofia, uma vez que normalmente a primeira é vista como uma aplicação da matemática.

Na questão 2 a expectativa era de que a Matemática e a Química liderassem os números, pois de uma maneira geral os alunos veem muita relação entre essa três matérias.

Nas escolas A e B as perguntas foram apresentadas na ordem em que se encontram no presente artigo, porém na escola C a ordem foi trocada para que pudéssemos verificar se ocorreria diferença nos resultados.

Interessante notar que nas escolas A e B, onde a primeira questão era sobre a possível relação entre Física e Filosofia a maioria dos alunos respondeu que existe e na questão 2 a filosofia ficou sendo a segunda matéria mais importante para ajudar na compreensão dos conceitos físicos, atrás da Matemática.

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Já na escola C, a maioria respondeu que não existe essa relação, e Filosofia ficou como uma das que tem pouca ou nenhuma relevância para o aprendizado de física.

Como as escolas A e B foram investigadas antes da escola C, os pesquisadores perceberam que a própria estrutura do questionário poderia estar induzindo as respostas dadas. Ao perguntar sobre a existência de relações entre Física e Filosofia, os alunos já estariam percebendo que a própria existência da pergunta indicaria uma possível relação. Logo, a questão 1 teria um alto índice de concordância e a pergunta 2 seria contaminada pela primeira.

Além disso, a professora de Física das escolas A e B vinha procurando de alguma forma contextualizar suas aulas com questões de cunho histórico-filosóficas, mas não de uma maneira sistemática. Já a professora da escola C não procurava ater-se à discussões dessa natureza.

Nessa investigação introdutória ficou claro que os alunos não conseguem perceber de forma clara as relações intrínsecas que existem entre Física e Filosofia. A Matemática ainda é percebida como a disciplina de maior ligação, dado ao caráter de abordagem que os professores costumam dar. Mesmo a introdução da disciplina Filosofia no currículo do Ensino Médio não mudou muito este panorama.

A investigação mostrou ainda que a atuação de um professor, por menor que seja, tentando apresentar um olhar diferenciado para a disciplina, pode reverter esse quadro.

- O fato de língua portuguesa ter um índice razoavelmente alto pode nos indicar que, para os estudantes, aprender física seja apenas decorar as fórmulas e tentar resolver o problema, sem necessitar de uma boa interpretação para isso, ou seja, basta ele ser bom em contas e está tudo resolvido.

## CONCLUSÕES

Seria muito ingênuo de nossa parte pensar que um aluno de Ensino Médio tenha uma postura filosófica clara e definida quanto a construção do conhecimento científico. Nossa intenção foi investigar a visão dos alunos sobre Física e de suas possíveis relações com outras matérias, principalmente com Filosofia. Através da leitura do texto paradidático pretendemos levar as discussões histórico-filosóficas para dentro da sala de aula, e também mostrar as interlocuções da física com as outras matérias, ou seja, tirar um pouco dessa visão de um ensino compartimentado, em que cada disciplina existe isoladamente da outra, sem a possibilidade de nenhum diálogo.

## BIBLIOGRAFIA

BAZZO, Walter; LISINGEN, Irlan von e PEREIRA, Luiz T. do V. Introdução aos Estudos CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) . Cadernos de Ibero América. OEI - Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura. Espanha: Madrid, 2003.

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BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio . Brasília: MEC, 1999, p.364 .

FERRER, A.P.M. A História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho. Cad. Bras. Ens. Fís., v. 24, n. 1: p. 112-131, abr. 2007.

KUHN, T. S. Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa? In: LAKATOS, I., MUSGRAVE, A. A crítica e o desenvolvimento do conhecimento . São Paulo: Cultrix, 1979.

McCOMAS, W. Seeking historical examples to illustrate key aspects of the nature of Science . Science & Education, 17:249-263, Kluwer, Dordrech; 2008.

POPPER, K.R. Conhecimento objetivo . São Paulo: EDUSP, 1975.

TEIXEIRA ET AL. A influência de uma abordagem contextual sobre as concepções acerca da natureza da ciência de estudantes de física . Ciência e Educação, v. 15, n. 3, Bauru, 2009.

TRINDADE, Diamantino Fernandes & TRINDADE, Laís dos Santos. A História da História da Ciência: Uma possibilidade para aprender ciências . São Paulo: Madras Editora Ltda, 2003.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.