Atividades interativas no processo ensino-aprendizagem de física
Rafael José Pereira Vieira, Ozorio Saturnino Barbosa Neto, Paulo Henrique Dias Menezes, André Vital Dias De Souza, Gean Carlos De Souza Costa, Vagner De Barros Xavier, Lúcia De Fátima Salvador
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 31/01/2011
- Linha de pesquisa
- Aprendizagem Em Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## Atividades interativas no processo ensino-aprendizagem de física
Rafael José Pereira Vieira , Ozorio Saturnino Barbosa Neto , Paulo Henrique 1 2 Dias Menezes 3 , André Vital Dias de Souza , Gean Carlos de Souza Costa , 4 5 Vagner de Barros Xavier 6 ,Lúcia de Fátima Salvador 7
- 1 Universidade Federal de Juiz de Fora (rafaeljpv@hotmail.com)
## Resumo
Neste trabalho, apresentamos o relato de uma proposta de intervenção educacional realizada no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). A proposta foi desenvolvida em uma escola estadual, com o objetivo de analisar o interesse dos educandos pelas aulas e pelos conteúdos de ensino de física. Logo no início de nossa intervenção, foi constado um considerável desinteresse dos alunos em relação aos conteúdos trabalhados nas aulas de física. Com base nessa constatação, procuramos desenvolver instrumentos que permitissem investigar os possíveis motivos desse desinteresse. Primeiramente, elaboramos e aplicamos um questionário para verificar a relação dos alunos com os conteúdos de ensino de física. Analisando os dados obtidos por meio das respostas dadas às perguntas do questionário, planejamos e executamos uma atividade didática tendo como tema o magnetismo. Essa atividade foi elaborada com base numa metodologia cognitivista, em que procuramos envolver os alunos no processo de ensino-aprendizagem, visando despertar o interesse deles pelo conteúdo de ensino. A proposta de intervenção foi organizada em torno de três objetivos principais: 1) detectar possíveis conceitos prévios acerca do tema; 2) desenvolver experimentos demonstrativos simples que permitissem visualizar alguns fenômenos magnéticos; 3) estabelecer relações interdisciplinares com outros conteúdos. Na análise da atividade realizada foi possível perceber um relativo aumento do interesse dos estudantes pelo conteúdo ministrado. Por fim, consideramos que o desinteresse observado no início da intervenção está diretamente relacionado com a forma como a física é desenvolvida em sala de aula. Entendemos que é possível despertar o interesse dos alunos pela física, tornando o seu ensino mais significativo para o aluno.
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Palavras-chave : ensino de física, Interesse/desinteresse escolar, interdisciplinaridade, física do cotidiano.
## Introdução
O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação a Docência (PIBID), da Universidade Federal de Juiz de Fora, tem como objetivo principal o acompanhamento do trabalho docente e o desenvolvimento de atividades de ensino em escolas públicas do município de Juiz de Fora, MG. A experiência aqui relatada ocorreu durante o acompanhamento do trabalho de uma professora de física em uma escola estadual.
Logo no início, - ainda na fase de acompanhamento do trabalho docente observamos que os alunos tinham pouco interesse pelas aulas de física. Percebemos que muitos deles, em alguns momentos, reclamavam que não estavam entendendo o que era ensinado e que não conseguiam ver a importância e a relação dos conteúdos ministrados com as atividades do dia-a-dia.
Com base nessa constatação, decidimos investigar essa falta de interesse. Para isso, primeiramente, elaboramos um questionário para verificar a opinião dos alunos sobre os motivos da falta de interesse pelos conteúdos de física e a relação deles com as aulas de física que lhes eram apresentadas.
A partir das respostas dadas pelos alunos, às perguntas formuladas no questionário, elaboramos uma proposta de intervenção em que apresentamos uma nova forma de abordagem dos conteúdos de física, que utiliza recursos tais como: a interdisciplinaridade, a relação da física com o cotidiano e a experimentação.
Além disso, procuramos também fundamentação na teoria cognitivista de Vigotsky, pelo fato de essa teoria valorizar a interação social dos indivíduos, como pode ser observado na citação destacada abaixo.
É nos estudos de Vigotsky que a aprendizagem escolar toma a dimensão do social, da interação dos indivíduos. Isso fica evidente nas suas discussões acerca do que ele denomina zona de desenvolvimento proximal, caracterizado como a distância entre o nível do desenvolvimento real da criança (aluno), determinado pelas capacidades de resoluções de problemas de forma independente e o nível de desenvolvimento potencial, que representa aquilo que a criança consegue realizar com a ajuda de um adulto ou com o auxílio de companheiros mais capazes. Quando levado isso em consideração, a aprendizagem escolar tende a se tornar mais eficiente, atingindo um grupo maior de alunos. A cooperação entre os alunos de uma classe no processo de aprendizagem permite que os 'mais adiantados' auxiliem os 'mais atrasados', pois segundo Vigotsky (1999, p. 113), 'aquilo que a criança pode realizar com assistência hoje, ela será capaz de fazer sozinha amanhã'.(ROSA & BECKER, 2004, p.5)
O tema escolhido para a proposta de intervenção foi o magnetismo. Nela procuramos tratar de conceitos básicos sobre esse tema e realizamos com a colaboração efetiva dos alunos e da professora regente da turma, algumas atividades experimentais que permitissem uma melhor visualização dos fenômenos estudados. Tal ação foi inspirada na proposta dos PCN para o ensino das ciências da natureza e suas tecnologias.
É indispensável que a experimentação esteja sempre presente ao longo de todo o processo de desenvolvimento das competências em Física, privilegiando-se o fazer, manusear, operar, agir, em diferentes formas e níveis. É dessa forma que se pode garantir a construção do conhecimento pelo próprio aluno, desenvolvendo sua curiosidade e o hábito de sempre
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indagar, evitando a aquisição do conhecimento científico como uma verdade estabelecida e inquestionável. (BRASIL, 2002, p.37)
Durante a execução das atividades previstas na proposta de intervenção, procuramos observar e analisar o comportamento dos diversos alunos. Tais observações, juntamente com os dados coletados por meio do questionário, compuseram as fontes de dados deste trabalho, em que objetivamos avaliar o interesse dos alunos pelas aulas de física no ensino médio. Nesse aspecto, concordamos com Guimarães e Boruchovitch (2004, citados por SANTOS, 2008, p.2), que um aluno motivado apresenta entusiasmo no aprendizado.
Um estudante motivado apresenta entusiasmo na execução de tarefas e orgulho dos resultados que obtém, podendo em alguns casos superar previsões baseadas em suas habilidades ou conhecimentos prévios (GUIMARÃES & BORUCHOVITCH, 2004, citados por SANTOS, 2008, p.2).
Neste trabalho apresentamos o relato da intervenção desenvolvida e os resultados parciais que obtivemos a partir da análise de nossas fontes de dados. Em particular, analisamos como uma aula de física, dada de forma a transformar o aluno em um colaborador ativo de sua própria aprendizagem, pode despertar o interesse pelo conteúdo de ensino, levando esse aluno a uma percepção mais real do conhecimento científico e da relação desse conhecimento com a sua vida. Nosso pressuposto é de que o interesse pelos conteúdos de ensino é o primeiro passo para despertar a motivação dos alunos, que, por sua vez, gera mais interesse, promovendo uma aprendizagem mais significativa e efetiva.
## Metodologia
A pesquisa foi desenvolvida em uma escola pública estadual do município de Juiz de Fora, MG, e envolveu, inicialmente, três turmas de alunos do 3º ano do ensino médio, do turno matutino. O procedimento metodológico foi dividido em três etapas: 1) Elaboração e aplicação de um questionário (APÊNDICE A) para verificar a opinião e o nível de interesse dos alunos pelas aulas de física; 2) Elaboração e execução de uma proposta de intervenção, com base na análise das respostas dadas pelos alunos às perguntas do questionário; 3) Análise dos resultados obtidos com a proposta de intervenção.
## O Questionário
O questionário foi aplicado a todos os alunos do 3º ano do ensino médio, do turno matutino, que estavam presentes nas aulas do dia 19/08/2010, na escola estadual onde a pesquisa foi desenvolvida. Com isso, o questionário foi respondido por 57 alunos.
As questões foram organizadas de forma que pudéssemos perceber a visão dos alunos sobre a física que lhes era ensinada e se eles tinham algum tipo de contato extraclasse com os temas abordados por esse ramo da ciência (questões 1, 2 e 3). Outro ponto que queríamos verificar era como os alunos avaliavam a qualidade do ensino de física ministrado na escola onde estudavam (questões 4, 5, 6, 9,10 e 11). Além disso, procuramos também verificar se os alunos eram capazes de associar a física que eles aprendiam em sala de aula com as tecnologias atuais (questão 7) e se eles conseguiriam fazer alguma conexão da física com outras disciplinas estudadas no ensino regular (questão 8).
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Depois de aplicados, os questionários foram recolhidos e analisados. Em relação às questões que investigavam a visão que os alunos têm sobre os conteúdos de física, percebemos que a maioria deles não gosta dessa disciplina. As alegações foram diversas, mas, as que mais se destacaram, foram as que consideram a física como uma matéria 'chata'. Alguns alunos declararam que têm dificuldades com os temas abordados nas aulas de física e houve outros que declararam nunca saberem as fórmulas que devem utilizar para resolver um determinado exercício. Sete alunos disseram que gostam da física, porém, alegam que têm dificuldades para compreender seus conteúdos, apesar de entenderem que a física poderá ajudá-los a resolver problemas do dia-a-dia.
Durante o trabalho de análise, pudemos perceber que, apesar de a maioria dos alunos declarar que não gosta de física, há certa simpatia deles para com essa disciplina. Em contrapartida, esses alunos não entendem a necessidade de aprender física e não conseguem estabelecer uma relação entre seus conteúdos de ensino. Apenas uma minoria dos simpatizantes conseguiu fazer esta relação, porém, relacionando a física com apenas um tema ou um conceito como, eletricidade, mecânica, aceleração, gravidade, entre outras.
No grupo de perguntas que tinha o intuito de verificar como os alunos avaliam o ensino de física (questões 4, 5, 6, 9, 10 e 11) , nossa análise permitiu destacar alguns pontos interessantes. A maioria dos alunos, para essas perguntas, respondeu apenas 'sim' ou 'não', não permitindo a realização de uma análise mais significativa desses itens. Porém, quando questionados sobre o que deveria ser mudado nas aulas de física, a maioria gostaria que houvesse o aumento do número de aulas. Alguns ainda gostariam que o professor incluísse experimentos nas aulas. A maioria dos alunos respondeu que se sente a vontade para tirar dúvidas do conteúdo durante as aulas, porém não justificaram essa liberdade. Os que responderam algo além de 'sim' ou 'não', reclamaram de dificuldades para perguntar devido à falta de disciplina dos outros alunos no decorrer das aulas.
Em relação à conexão que os alunos fazem da física com o cotidiano as respostas estiveram divididas entre os que conseguem e os que não conseguem estabelecer essa relação. Porém, os que alegaram conseguir fazer esta conexão, apenas citaram fenômenos como empuxo, gravidade, eletricidade, pressão, mas não conseguiram dar exemplos práticos de aplicação desses fenômenos.
## A Proposta de Intervenção
Após analisarmos as respostas dadas pelos alunos às perguntas feitas no questionário, decidimos elaborar uma proposta de intervenção que permitisse melhorar a concepção dos alunos quanto ao ensino e a aprendizagem de física. Para isso, em primeiro lugar, nos reunimos com a professora responsável pelas turmas, para que pudéssemos traçar as estratégias de trabalho e escolher o tema que seria abordado. Devido ao currículo regular da escola e ao calendário estabelecido pela mesma, percebemos que alguns conteúdos não teriam tempo suficiente para serem trabalhados, entre esses conteúdos encontrava-se o magnetismo. Por esta razão, em comum acordo com a professora regente das turmas, optamos por trabalhar com este tema.
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Organizamos a proposta de intervenção da seguinte forma: a primeira parte da aula consistiria em questionar os alunos a respeito da possibilidade de aplicar uma força a um objeto, sem a necessidade de um contato direto com esse objeto. Após o debate suscitado por esse questionamento, seria feita uma breve introdução histórica sobre o magnetismo. Em seguida, seria proposta uma reflexão sobre as aplicações do magnetismo no dia-a-dia de cada aluno.
As respostas dos alunos relativas ao questionamento inicial apontaram para a possibilidade da existência dessa força que não necessita de um contato direto com o objeto, sendo citado inclusive, como exemplo, a força aplicada pelos ímãs. Quanto às aplicações do magnetismo no dia-a-dia dos alunos, foram citados diversos exemplos, tais como: celulares, máquinas de lavar, aparelhos de som, televisões e a própria bússola, que, por sua vez, era o ponto chave da proposta de intervenção que girava em torno da construção de uma bússola rudimentar.
Escolhemos trabalhar com a construção de uma bússola, por se tratar de um instrumento muito importante para a orientação em geral e também pela possibilidade de poder ser usada como detector de materiais magnéticos inclusive do campo magnético terrestre. Para construção da bússola, dividimos os alunos em dois grupos com 11 alunos cada e pedimos para que eles magnetizassem uma agulha de costura, esfregando-a em um imã. Em seguida, essa agulha era colocada para boiar em um copo d'água, com o auxílio de um pedaço de papel, como ilustra a Figura 1A.
Figura 1: Os desenhos indicam os instrumentos utilizados na aula prática. A) Imagem da bússola que foi construída pelos próprios alunos. B) Representação de um motor elétrico.
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Aproveitando a construção da bússola, discutimos a sua importância para a humanidade, com destaque para o fato de ter sido um instrumento que colaborou muito para o advento das Grandes Navegações (séculos XV e XVI), período este em que ocorreu um grande desenvolvimento econômico e a descoberta de novas terras nas Américas, inclusive o Brasil.
A segunda atividade proposta consistia em visualizar o comportamento das linhas do campo magnético - a curiosidade dos alunos para conseguir 'ver' essas linhas era grande - depois da construção da bússola. Para isso, utilizamos limalha de ferro dentro de um tubo de vidro cilíndrico e pedimos para que os alunos aproximassem do tubo dois ímãs - alternando entre atração e repulsão, eles conseguiram perceber o comportamento das linhas de campo em cada situação.
Outra atividade consistiu na montagem de um motor elétrico simples, como ilustrado na Figura 1B. Nossa intenção com essa atividade foi de mostrar a base de
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funcionamento dos motores elétricos utilizados em diversos artefatos disponíveis no nosso dia-a-dia, que envolvem a troca da eletricidade pelo movimento, como no caso dos liquidificadores, batedeiras, ventiladores, etc.
O último tema debatido na proposta de intervenção foi a propriedade de os ímãs atraírem ou não qualquer tipo de material. Para isso, distribuímos para os diversos grupos alguns materiais, tais como: pedaços de madeira, aço, PVC, alumínio e outros pequenos imãs, para que os alunos verificassem quais materiais iriam interagir com os ímãs. Ao final da manipulação desses materiais, os alunos nos questionaram sobre o porquê de os imãs não atraírem todos os tipos de metais. Esse questionamento serviu para falarmos sobre as propriedades magnéticas da matéria.
Aproveitando a curiosidade dos alunos, perguntamos se eles sabiam como os pombos correios se orientavam em relação à Terra. Depois de escutarmos suas respostas, explicamos sobre a teoria de alguns cientistas, que acreditam que esses animais possuam pequenas quantidades de magnetita (mineral do qual o imã é formado) em seus bicos, suficientes para que eles se localizem através do campo magnético da Terra.
Aproveitamos a oportunidade para explicar também, de forma básica, o funcionamento do trem eletromagnético, por se tratar de um tema que está presente na mídia, já que o Brasil tem a pretensão de construir um trem de alta velocidade, que interligue as cidades de Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. A curiosidade dos alunos foi despertada pela possibilidade de o país poder optar por um trem elétrico ou pelo trem eletromagnético.
Encerramos a atividade explicando, de forma simples, como ocorre as transmissões de através das ondas eletromagnéticas, que levam as informações para o celular, a televisão, o rádio e outros aparelhos receptores. Todas essas atividades tiveram a duração de um módulo aula de 50 minutos.
## Análise e Resultados
A análise das respostas que os alunos deram para a pergunta 7 do questionário (Você consegue fazer uma conexão da Física que você aprende em sala de aula com o seu dia a dia? Dê exemplos.), nos fez concluir que a maioria deles não consegue perceber a ligação da Física que é ensinada na sala de aula, com as atividades e os artefatos tecnológicos que envolvem o seu cotidiano. Essa falta de correlação pode ser observada, nas declarações seguintes, extraídas de alguns questionários:
-'Não, pois não consigo parar durante o dia para pensar em Física.'
- - 'Não. Apesar de ter teorias que explica como a eletricidade acontece. Tem coisas que não tem sentido nenhum para minha vida.'
- - 'Não. Porque muita das coisas eu não entendo.'
Porém, os PCN para o ensino de física indicam que a Física no ensino médio deve apresentar-se:
- [...] como um conjunto de competências específicas que permitam perceber
e lidar com os fenômenos naturais e tecnológicos, presentes tanto no
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cotidiano mais imediato quanto na compreensão do universo distante, a partir de princípios, leis e modelos por ela construídos. (BRASIL, 2002, p.2)
Por isso, na aula que ministramos aos alunos, buscamos mostrar que o magnetismo está presente em situações do cotidiano, como no caso da televisão, do telefone celular e dos motores elétricos. Além disso, destacamos sua importância no uso de novas tecnologias - pelo menos para o Brasil, como no caso do trem eletromagnético - visando com isso despertar a curiosidade e a atenção dos alunos.
A participação dos alunos na atividade de intervenção nos levou a perceber que o desinteresse dos mesmos não é pelos conteúdos de física, mas sim, pela forma como eles lhes são apresentados, em aulas repletas de fórmulas com conteúdos teóricos e exercícios descontextualizados, que não despertam o interesse dos alunos e, como conseqüência, não geram motivação para o aprendizado. Quando discutimos algo atual, como o trem eletromagnético, os alunos se mostraram muito curiosos. O fato de um deles ter visto uma reportagem na TV sobre o debate se o trem deveria ser eletromagnético ou elétrico, serviu de ensejo para um debate sobre qual seria mais vantajoso. O desinteresse pela forma como o conteúdo é ensinado pode ser percebido em algumas das respostas dadas pelos alunos à pergunta nº. 1 do questionário (Você gosta de física? Por quê?), como mostrado a seguir.
- - ' Gostar de Física eu não gosto, porque é preciso guardar muitas fórmulas, fazer cálculos e etc. Mas é preciso aprender para querer chegar e conquistar alguma coisa na vida.'
- - 'Não. Porque é uma matéria difícil e eu encontro dificuldade em identificar qual a fórmula certa para usar no problema.'
- - ' Não. Porque física é só fórmula e acho ter que ficar decorando as coisas muito chato.'
Em nossa análise, não entendemos que essa constatação implique na abolição da resolução de exercícios nas aulas de Física, tendo em vista que as fórmulas e sua utilização na resolução de situações problemas fazem parte de uma linguagem e um domínio específico do ensino e da aprendizagem dessa disciplina. Porém, consideramos que seria positiva, a interlocução desse domínio específico com um contexto mais rico em que tais fórmulas e teorias pudessem ser utilizadas para resolver situações práticas do dia-a-dia, sempre que tal aplicabilidade fosse possível.
Outro ponto que percebemos, nas respostas dadas à pergunta 8 do questionário (Você consegue fazer uma conexão da física com outras disciplinas que você estuda?), é que os alunos não conseguem estabelecer uma relação interdisciplinar entre as diversas disciplinas escolares, já que a grande maioria respondeu 'não'. As poucas relações feitas foram com a Matemática e a Química. Mas não foram citados exemplos em que isso ocorra. Abaixo apresentamos um exemplo de resposta dada para essa questão.
- ' Não. Acho coisas completamente diferentes.'
Durante o trabalho de análise, percebemos que a pergunta não foi bem elaborada, já que deu margem para uma resposta dicotômica: 'sim' ou 'não'. Outro problema que identificamos foi o fato de a pergunta não abrir a possibilidade, para os alunos que declararam perceber a relação da física com alguma outra disciplina, de dizerem em que situações essa relação ocorre.
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Essa preocupação com a interdisciplinaridade está relacionada com os PCN para o ensino de Física, que indicam que:
[...] as competências para lidar com o mundo físico não tem qualquer significado quando trabalhadas de forma isolada. Competências em Física para a vida se constroem em um presente contextualizado, em articulação com competências de outras áreas, impregnadas de outros conhecimentos. (BRASIL, 2002, p.2)
Sendo assim, na proposta de intervenção, procuramos mostrar que o magnetismo está relacionado com as outras disciplinas, tais como: Biologia, História e Química. No caso da História, com a bússola, que foi um dos instrumentos importantes nas Grandes Navegações. Isso fez com que uma das alunas nos questionasse em relação às navegações da atualidade, se ainda seria necessário o uso de bússolas para se orientarem. Já na Biologia, destacamos algumas pesquisas recentes de cientistas que acreditam que os pombos-correios se guiam através de pequenas quantidades de magnetita, presente em seus bicos. E com a Química, no que se refere às propriedades da matéria que não permitem os ímãs atraírem qualquer tipo de metal. Esse assunto também gerou muitas dúvidas e questionamentos em relação a estrutura interna do metais ferromagnéticos.
Consideramos que é importante chamar a atenção para o fato de que a participação dos alunos durante a realização da atividade de intervenção foi intensa, com muitos questionamentos em relação ao funcionamento da bússola e ao comportamento do campo magnético da Terra. O processo de construção da bússola, e a visualização do seu funcionamento, chamaram a atenção e despertou o interesse dos alunos para o tema da aula. Os questionamentos sobre o comportamento do campo magnético puderam ser ilustrados com a utilização do cilindro com limalha de ferro e dos ímãs que eram colocados ao seu redor. Foi marcante a percepção do fascínio dos alunos ao verem a limalha se mexer de acordo com as posições dos ímãs.
Podemos concluir que as demonstrações experimentais realizadas durante a atividade de intervenção tiveram um papel fundamental para despertar o interesse dos alunos para o conteúdo que estava sendo ensinado. Lembramos que tais demonstrações favorecem o aprendizado e não requerem o espaço formal de um laboratório e nem uma grande quantidade de material, como aponta Gaspar (2005):
[...] alguns fatores parecem favorecer a demonstração experimental: a possibilidade de ser realizada com um único equipamento para todos os alunos, sem a necessidade de uma sala de laboratório específica, a possibilidade de ser utilizada em meio à apresentação teórica, sem quebra de continuidade da abordagem conceitual que está sendo trabalhada e, talvez o fator mais importante, a motivação ou interesse que desperta e que pode predispor os alunos para a aprendizagem. (GASPAR, 2005, p.227)
Foi notório que após os experimentos, inclusive o da construção do motor elétrico, os alunos passaram a perguntar mais, demonstrando um interesse pelo conteúdo que estava sendo ensinado que contraria a concepção demonstrada nas respostas dadas às perguntas do questionário. Entendemos que as dificuldades que os alunos apontavam não estavam na física ou em seus conteúdos, mas sim, na forma como esses conteúdos lhes são apresentados. A intervenção realizada mostrou ser possível despertar o interesse dos alunos e, com isso, gerar motivação para o aprendizado de física.
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## Considerações Finais
Neste trabalho tivemos como objetivo principal apresentar os resultados parciais de uma proposta de intervenção desenvolvida no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência da UFJF, que foi motivada pela constatação, no início das atividades de observação em sala de aula, da falta de interesse dos alunos pelas aulas de física e pelos conteúdos de ensino dessa disciplina. Com o propósito de caracterizar o problema constatado nas observações realizadas, foi elaborado um questionário (APÊNDICE A) para verificar os possíveis motivos de tal desinteresse. A partir da análise das respostas dadas às perguntas feitas no questionário, elaboramos, com a colaboração da professora regente das turmas investigadas, uma proposta de intervenção, com o propósito de promover uma melhor avaliação da situação do desinteresse dos alunos pela física.
Analisando o comportamento dos alunos, durante e depois da realização das atividades presentes na proposta de intervenção, percebemos que o desinteresse que os alunos declaravam inicialmente não era em relação aos conteúdos da física e sim pela forma como esses conteúdos lhes eram apresentados. Durante a realização da proposta de intervenção os alunos demonstraram grande curiosidade em relação ao tema escolhido - o magnetismo - e apresentaram questionamentos e posicionamentos em relação às experiências que foram realizadas. Com destaques para as atividades de construção de uma bússola rudimentar, a montagem de um motor elétrico e a explicação sobre o funcionamento do trem eletromagnético.
Os resultados parciais, obtidos até o momento, mostram que as atividades desenvolvidas durante a execução da proposta de intervenção, baseadas numa experimentação demonstrativa, ajudam a tirar o aluno do papel passivo de receptor do conhecimento, levando-o a fazer ligações entre o conteúdo de ensino e as atividades cotidianas e a promover uma relação interdisciplinar entre as diversas disciplinas escolares. Consideramos que o papel principal dessas atividades, foi despertar o interesse dos alunos pelos conteúdos de ensino de física. Consideramos ainda, que o aumento desse interesse está diretamente relacionado com o entendimento que o aluno tem daquilo que lhe é ensinado. Sendo assim, destacamos a importância do trabalho do professor no sentido de envolver os alunos de forma que consigam enxergar a importância e o significado dos conteúdos de ensino de física.
## Referências
ROSA, Cleci Teresinha Werner da Rosa; BECKER, Álvaro. A Teoria HistóricoCultural e o Ensino da Física. Revista Iberoamericana de Educación , número 33/6, 10 agosto de 2004.
SANTOS, Adevailton Bernardo dos Santos. Aulas Práticas e Motivação dos Estudantes de Ensino Médio. In: XI Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, Atas.., Curitiba, 2008. p. 1-10.
BRASIL. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnologia. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio - PCN+. 2002.
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GASPAR, Alberto; MONTEIRO, Isabel Cristina de Castro. Atividades Experimentais de Demonstrações em Sala de Aula: Uma Análise Segundo o Referencial da Teoria de Vygotsky. Investigações em Ensino de Ciências , v10, p. 227-254, 2005.
MORTIMER, Eduardo Fleury; CARVALHO, Anna Maria Pessoa. Referenciais Teóricos Para Análise do Processo de Ensino de Ciências. Caderno de Pesquisa , São Paulo, n.96, p. 5-14, fev.1996.
FREITAS, Maria Teresa de Assunção. Uma Teoria Social do Desenvolvimento e da Aprendizagem. Presença Pedagógica . p.17-27, v.13, n.73, jan/fev, 2007.
## Apêndice A
## Questionário
- 1. Você gosta de Física? Por quê?
- 2. O que é Física para você?
- 3. Você já teve a oportunidade de assistir programas de conteúdo científico, ou até mesmo já procurou ler algum livro a respeito do assunto?
- 4. O que você acha de suas aulas de Física?
- 5. Em suas aulas, o professor aplica muita teoria de Física?
- 6. Em suas aulas, o professor aplica muitos exercícios?
- 7. Você consegue fazer uma conexão da Física que você aprende em sala de aula com o seu dia a dia? Dê exemplos.
- 8. Você consegue fazer uma conexão da Física com as outras disciplinas que você estuda?
- 9. O que você acha que deveria mudar em sua aula de Física?
- · O número de aulas?
- · A forma com que o professor ensina?
- · O número de alunos em cada sala?
- 10. Você se sente a vontade durante as suas aulas para fazer perguntas e esclarecer suas dúvidas?
- 11. Na sua visão, a física é uma matéria difícil? Ou você não manifesta nenhum interesse pela mesma?
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.