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OBJETOS DE MUSEU, OBJETOS DE ENSINO: INTERPRETAÇÕES DE UM DIRETOR DE UM MUSEU DE CIÊNCIAS

Silvania Sousa Do Nascimento, Maria José Pereira M. De Almeida

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XI
Ano
2008
Data
22/10/2008
Linha de pesquisa
Física E Divulgação Científica Em Espaços Educativos Formais E Não Formais
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## OBJETOS DE MUSEU, OBJETOS DE ENSINO: INTERPRETAÇÕES DE UM DIRETOR DE UM MUSEU DE CIÊNCIAS 1

## MUSEUM OBJECTS AND TEACHING OBJECTS: INTERPRETATIONS OF T THE DIRECTOR O OF THE SCIENCES MUSEUM

Silvania Sousa do Nascimento 1 , Maria José Pereira M. de Almeida 2

1 Universidade Federal de Minas Gerais/FAE/DMTE e GepCE silnascimento@ufmg.br

2 Universidade Estadual de Campinas/FE/DEPRAC e GepCE mjpma@unicamp.br

## Resumo

Esta comunicação discute algumas concepções de museu de ciências e suas implicações para o ensino de fís ica. Analisamos a interpretação de um diretor de um museu de ciência universitário em uma entrevista semiiestruturada, parte de uma investigação sobre museus de ciências de Minas Gerais . A A perspectiva é da a análise de discurso iniciada por Michel Pêcheux e nos pautamos num dispositivo analítico baseado em diferentes concepções subentendidas para instituições patrimoniais e seus objetos. Segundo essa análise parece que a relação entre os objetos d de m museu e os objetos de ensino aparece em uma dinâmica de contextos do passado e do presente. A memória discursiva de construção de conhecimento da prática escolar que aparece na fala do diretor ao relacionar os processos de aquisição de objetos de museu é oriunda de três práticas: o fazer das ciências naturais que organiza as coleções; o cotidiano de elaboração de modelos e protótipos para os trabalhos práticos e o estabelecimento de um vínculo afetivo do passado e o presente o que pode gerar futuras doações. Em relação ao ensino de física, inferimos que a presença nanas coleções de diversos objetos de ensino como modelos para ensino de física e astronomia pode ser compreendida, na fala do diretor, como elemento motivador do interesse pelas ciências.

Palavras -chave: entrevista, museu de ciências, objetos de museu, ensino de física.

## Abstract

This communication discusses some conceptions of sciences museum and his implications for the physics teaching . We analyse the interpretation of the e director of a university science museum in a semi-i-structured interview, it leaves frfrom an investigation about sciences museums of Minas Gerais. The perspective is of the analysis of discourses begun by Michel Pêcheux and we rule ourselves in an analytical device based on different conceptions inferred for

patrimonial institutions and his objects. According to this analysis it looks that the relation between the museum objects and the teaching objects appears in the dynamic one of contexts of the past and of the present. Regarding the physics teaching, we infer that the presence in the collections of several objects of teaching as models for teaching of physics and astronomy can be understood, in the discourses of the director, like motivation for the sciences education .

Keywords: interview, science museum, museum objects , physics education .

## 1. Introdução e Justificativa

A década de setenta do século XX foi considerada pelos pesquisadores do campo da museologia um divisor de águas na história dos museus em decorrência, principalmente, de discussões ocorridas em 1972 na Mesa 2 Redonda de Santiago do Chile patrocinada pelo ICOM 2 e convocada pela UNESCO. O objetivo dessa reunião foi de discutir o papel dos museus na América Latina e subsidiar a Convenção do Patrimônio Mundial promulgada nesse mesmo ano na Conferência Geral das Nações Unidas (PRIMO,1999). O cerne das discussões, na época, era a constituição de um "museu integral" que considerasse as transformações sociais, econômicas e culturais vivenciadas na América Latina e buscasse estabelecer relações com as diferentes realidades locais, com o constante desenvolvimento científico e tecnológico e com os processos de educação permanente. Os museus passaram então, segundo esse documento, a ter nessas recomendações eixos para a construção do cenário cultural da América Latina. Novos tempos e formas de interação com público já anunciavam o desenvolvimento da sociedade de informação e dos processos de inovação tecnológica dos anos que se seguiram. Em um final de século permeado por crises econômicas e conflitos de ordem social, os museus ampliaram suas possibilidades de atuação nos campos da educação e da conservação do patrimônio cultural e natural. Sobre os museus, instituição de educação não formal, de pesquisa e de inovação educacional, pode-se dizer que as prescrições da Mesa de Santiago promoveram o questionamento do conceito de museu guardião de objetos cuja finalidade única era armazenar e apresentar suas coleções, sendo prescritos: 1 -a organização de serviços educativos que garantisse condições adequadas para o atendimento ao público dentro e fora do museu; 2 - a integração do serviço educativo às políticas educacionais vigentes; 3 - a produção de material de difusão de conhecimento espec ífico para o público escolar; 4 - o incentivo à constituição de coleções e exposições sobre a escola e 5 - o estabelecimento de programas de formação de professores dos diferentes níveis de ensino (PRIMO, 1999:110-111).

Algumas pesquisas têm indicado a importância social e educativa dos museus, suas as capacidades es de construir conhecimento, de promoverem a compreensnsão do mundo pelo homem e a constrtrução de sua cidadania (VALENTE et. al. , 2005). Elas indicam também a necessidade de um maior conhecimento sobre os aspectos educacionais e comunicacionais das ações

dos museus como espaço cultural e educativo que procuram "educar por meio da sensibilização " " (PEREIRA et al, 2007:11).

No que toca às instituições escolares, sobretudo a partir dos anos 1980, constata-se que essas têm aumentado o reconhecimento da importância dos espaços e instituições culturais nos processos educacionais. Pesquisas desenvolvidas em ambientes não formais de aprendizagem vêm demonstrando a potencialidade que os museus possuem em promover uma educação integral e continuada às populações (NASCIMENTO, 2005 e MARANDINO, 2005). A escola , ao encaminhar as crianças e os jovens para esses espaços, pressupõe que a problematização dos usos sociais da memória, das relações e produções materiais e simbólicas do homem ao longo do tempo, em diferentes sociedades e culturas possa contribuir para o desenvolvimento de uma atitude cidadã.

Neste artigo trabalhamos, em dois momentos, , a partir de uma pequena síntese calcada em trabalhos publicados em que e procuramos compreender algumas relações entre objetos de um museu e os objetos de ensino da física. Primeiramente, buscamos significados para os objetos de um museu e, em seguida, nos referirmos ao fato de que diferentes interpretações sobre o que é um objeto de museu acarretam diferentes interpretações sobre a própria natureza do museu. Na elaboração dessa síntese cononcluímos buscando tendências educativas para os museus de ciências no século XXI com seus novos objetos de ensino da física.

Em um segundo momento, discutimos o uso de uma entrevista como fonte de informações sobre a interpretação atribuída por um diretor r de museu aos objetos de exposição e os objetos de ensino. Buscamos nessa análise, compreender em determinadas condições de produção o sentido que o diretor parece conferir à relação entre tais objetos.

## 1.1 Os objetos de um museu de ciências

Podemos dizer r que os objetos da cultura simbólica e estética de um museu, além de serem alvo de admiração, contribuem para a compreensão das muitas facetas das experiências sociais e históricas dos sujeitos. Esses podem ser mediadores na construção do conhecimento, na medida em que os visitantes, a partir de suas mais diferentes reações - - espanto, curiosidade, rememoração, emoções - - possam interpretá-los em articulação com outros tempos de sua história e da produção de conhecimentos.

O objeto é um documento portador de informações e resultado de uma série de ações intencionais, que se iniciam na escolha do material de sua fabricação, de sua forma e sua estética. É a partir desses vestígios de intenções que buscamos decifrar sua função social, seja doméstica, ritual, militar ou fúnebre. Para Tisseron (1999), os objetos de nosso contexto são mobilizadores de representações, portadores de sensações e de emoções. Eles não possuem apenas uma função utilitária, mas são instrumentos permanentes de mediação pela assimilação psíquica de nossas experiências de mundo sem que tenhamos forçosamente um projeto de transformação do mundo. Dagognet (199494) observou que os objetos nos enviam sempre a três funções ligadas ao corpo: alimentar, vestir e habitar. Já a técnica designa , segundo Tibon-Cornillot (1994), o conjunto de objetos e de gestos ligados à fabricação e à utilização dos sistemas de melhoramento e ampliação de

performances do corpo e suas relações com o ambiente. Assim o objeto, o sujeito e a técnica estão intimamente ligados.

Cada objeto selecionado pela convergência de produção, uso e herança histórica, estabelece elos relacionais entre diversos atores sociais. Assim, uma exposição de objetos forma uma rede de atores entre os quais esses elos selam um equilíbrio de forças. Para Bonnot (2002: 212) a entrada de um objeto na coleção de um museu não representa o "fim de uma viagem", mesmo se , ao ser eleito como patrimônio público, a história desse objeto passa a ser singularizada. O pertencimento ao inventário de um museu atribui um significado especial ao objeto diante do conservador, do museólogo e do visitante, porém a exploração temática sobre esse objeto pode promover diferentes construções didáticas. A exposição pode unir todas essas forças, e preencher as qualidades descritivas, por exemplo, ultrapassar as informações de uma prancha da Encyclopédie. Não estamos mais dentro de gabinetes de curiosidade, logo não expomos mais objetos frios e inertes. Expomos objetos particulares, exhibits ou objetos criados para a exposição, objetos de museu , que mostram a relação entre eles e a sociedade. Esses objetos de museu são transformados após múltiplas negociações possíveis e necessárias entre os cientistas, equipe de concepção e diferentes profissionais de designer. Eles são organizados como um puzzle, como um labirinto, objetos que jogam entre a idéia e a sensibilidade entre a palavra e a coisa, entre a imagem e a memória de outros objetos, entre a representação social e a negociação de significados.

## 1.2 Os museus de ciências a partir de seus objetos

Falar de objetos de um museu supõe determinadas interpretações do que sejam esses objetos, e estas implicam em interpretações sobre o museu como um todo.

Os significados atribuídos pelos membros de um grupo social e por eles partilhados se expressam concretamente, seja através das práticas sociais, de discursos, da falas, de manifestações artísticas seja, ainda, na criação de objetos. Os objetos da cultura resultam da experiência da vida cotidiana e são formadores e identificadores das identidades dos grupos. Eles são portadores de informações para diversos campos de conhecimento, produtos culturais e depositários de memórias. É muito difícil datar o movimento das primeiras coleções particulares de objetos científicos. Provavelmente a tradição cultural grega cultivou a organização de tais objetos, mas há poucos registros desse movimento. Giraudy e Bouilhet (1990) apontam que a organização das coleções em pequenos espaços expositivos, os gabinetes de curiosidades, foi uma das primeiras concepçpções de museus de ciências que temos registro. Segundo os autores, esses espaços conferiam poder e status aos colecionadores. No século XVIII os ideais nacionalistas ampliaram a função pública dos museus e o modelo de exposição de objetos de artes serviu de guia para a organização dos objetos das ciências, principalmente aqueles oriundos das coleções de naturalistas. O pensamento iluminista com seu projeto de sistematização do conhecimento científico e a estruturação de novas disciplinas como a arqueologia e a etnografia deram suporte à concepção de novos espaços de arquivos, museus e bibliotecas. Temos nesse período a criação do British Museum (1753) e do Conservatoire

d'Arts et Métiers (1794). Nas Américas, a construção dos museus de ciências representou um um símbolo de prestígio e glória da metrópole sendo, portanto, abrigado por uma arquitetura majestosa e constituído de coleções centradas nos moldes da cultura européia (NASCIMENTO e VENTURA, 2001). A institucionalização e a ampliação dos museus de ciências aconteceu , ao longo do século XIX , juntamente com a paulatina urbanização e industrialização mundial. No século XX a apresentação dos objetos nos espaçaços museológicos mudou seu foco e proliferou a produção de objetos próprios para essa finalidade. No períoíodo do pós -g-guerra, a apresentação dos objetos passou a construir uma cena muitas vezes exclusiva para o espaço museal. Contudo, ela se manteve predominantemente seu caráter enciclopedista.

Os museus criados nos anos 1990 valorizaram tanto histórias locais quanto temas universais como o museu do tempo, ou o museu das medidas. Podemos observar nesses museus um progressivo destaque do discurso em torno dos objetos considerados capazes de seduzir o público. Tudo isso implica na reorganização dos espaços internos e, na maioria dos casos, na mudança de sua arquitetura interior, permitindo transformar o museu em um local de pesquisa. A exposição dos objetos, no final do século XX, questionou a ausência de referência ao contexto social, político e econômico de grupos étnicos até então pouco privilegiados. O desafio que marcou a década foi a procura do estabelecimento de uma comunicação entre o objeto de museu e o visitante através da interpretação de problemas contemporâneos, uma vez que as funções primeiras de memória e testemunho não satisfaziam mais as políticas culturais vigentes na época.

## 1.3 As tendências educativas para os museus de ciências no século XXI e seus objetos de ensino de física

Já ao longo do século XX, os museus de ciências e tecnologia trouxeram para a cena museológica um novo formato de museu, como apontam Nascimento e Ventura (2001), pois a ciência e a tecnologia, ao mesmo tempo paradigma de mudanças profundas na sociedade industrial se transforma em objeto museal. Gruzman e Siqueira (2007) sintetizam a trajetória da constituição dos museus de ciências e os estudos sobre os papéis educativos em cada uma das tendências pedagógicas predominantes nas exposições. As autoras destacam os desafios da escola e do museu na formação de cidadãos críticos e e autônomos. Para Valente et al. (2005), o desenvolvimento dos museus de ciências e tecnologia de caráter interativo no Brasil, segue do movimento internacional de criação dos sciences centers s que buscavam em seus propósitos ultrapassar o aspecto marcante de preservação de artefatos da cultura científica e tecnológica até então presente nos museus de História Natural. A dinâmica principal observada nos centros de ciências foi o trabalho de criar objetos correlatos aos artefatos tecnológicos, culturais e sociais, isto é, o foco da exposição não estava unicamente na musealização de um objeto testemunho, mas na criação de um objeto próprio para a apresentação de um conceito ou produto tecnológico. Esta prática museológica tornou -s -se uma possibilidade de acesso às redes de produção de conhecimentos e de fruição cultural a partir de novos objetos. Assim abrindo a possibilidade de novas formas de práticas educativas como destaca Nascimento (2005).

Os novos projetos de museus de ciências tendem a priorizar a manifestação da diversidade das práticas sociais e, em geral, provocam um afastamento de formas consagradas de edifícios majestosos e reluzentes e se aproximam de uma arquitetura ousada e integrada ao contexto do visitante. Eles conciliam abordagens que estavam até então separadas: a ciência, a técnica, a arte, a poesia, a história, o virtual, o mistério, a beleza e o homem.

Greub e Greub (2007) ao apresentarem o catálogo da exposição "Musées du XXIème siècle: idées, projets, réalisations", destacaram que os novos museus, instituições normativas, saem do cotidiano à busca de uma "espetacularização" da cultura e da arte, mas devem permanecer abertas para retratar os processos de transformações desse mesmo cotidiano, cada vez mais dinâmico.

Esse desafio é vivido pelas instituições patrimoniais a a exemplo das mudanças urbanas no coração de Paris e a dinâmica instalada pelo Centro Georges Pompidou, construído em 1977, deliberadamente a "máquina das artes" com grandes transparências que o abrem em direção à rua, ou o recenente projeto do Museu da Língua Portuguesa coabitando com a Estação da Luz na cidade de São Paulo.

Compreender como os objetos podem estar dispostos em um museu para melhor promover a constituição de um "museu integral" é uma preocupação que tem sido abord ada por diferentes ângulos. Gonçalves (2006), ao analisar o museu como opção de lazer, destaca que muitas vezes a criação de um museu está dissociada dos interesses da comunidade local, e consequentemente de seus objetos, o que pode justificar a pequena freqüência dos habitantes da cidade que o abriga.

A física e as demais ciências são produtoras de conhecimentos e de objetos culturais e , no contexto dos museus de ciências e tecnologia, podem promover novas formas de interpretação dos objetos de ensino de física. Tais objetos, tradicionalmente, foram apresentados aos visitantes através das propostas curriculares, passando por processos de institucionalização curriculares e didáticos. Os museus de ciência, aparentemente, se colocam em um papel de complementaridade à escola no tratamento de tais objetos que algumas vezes são objetos de fins claramente didáticos como exhibits que reapresentam conceitos e experiências já didatizados.

Contudo a documentação que registra o percurso de concepção dos museus e a origem de suas coleções é muitas vezes escassa e parcial. Assim para compreendermos esse processo, a entrevista com os sujeitos envolvidos em sua constituição passa a ser um elemento de investigação importante. Apresentamos a seguir um caso de entrevista a um diretor de museu de ciências e, evidenciamos algumas de suas interpretações. Ao final destacamos alguns limites de uma entrevista quando o que se pretende é buscar relações entre os objetos de um museu e objetos de ensino.

## 2. Metodologia de coleta de informações e de análise

Em um estudo iniciado com um recorte na linguagem como objeto de investigação, Almeida (2007) procura mostrar como diferentes autores têm utilizado as entrevistas com vistas a explorarem aspectos diversificados das

falas. Nesse estudo a autora destaca que "os referenciais de apoio apontam a não transparência da linguagem e o papel das condições de produção na formulação de discursos, com destaque para as representações sociais e a noção de ideologia" (idem: 117).

Em outra vertente Mondada (2001) destaca que são radicalmente opostas as concepções de sentido dado à entrevista se a considerarmos , de um lado, como um instrumento de coleta, explicitação e estabelecimento de conteúdos sob o controle de uma situação de investigação ou, de outro lado, uma investigação conjunta de negociações de proposições, pontos de vista e posições sobre o mundo. No primeiro caso a presença do entrevistador tende a ser reduzida ou eliminada, enquanto no segundo, ela é um aspecto constitutivo da interação em curso. A autora aprofunda discutindo duas concepções de discurso apresentada nesta polarização. A primeira, concepção representacionista, implica geralmente no reconhecimento da intencionalidade comunicativa do locutor e no compartilhamento de um código que garante a simetria da troca de informações. A segunda concepção, apresentada pela autora, é a interacional do discurso, que o concebe como constitutivo e ligado à situação na qual ele é produzido.

Independente da concepção de discurso presente, a entrevis ta é um instrumento amplamente presente tanto em situações sociais, como as entrevistas de seleção ou de recrutamento (j(jobs interviews), nas cenas jornalísticas (n(news interviews) como no contexto de pesquisas nas ciências humanas. Contudo , Mondada destaca que o estudo detalhado da entrevista é pouco freqüente.

Nesse estudo, para o qual destacamos apenas uma entrevista de um conjunto de nove realizadas com diretores de museus mineiros, nos apoiamos na corrente de Análise de Discurso que assume a não transparência da linguagem. Embora não seja nosso propósito aqui aprofundar a natureza desse quadro teórico, julgamos pertinente apenas comentar que consideramos as falas de uma entrevista inseridas em contextos sócio -histórico dos sujeitos. Apoiamos-nos na proposição de que:

Um efeito de sentido não preexiste à formação discursiva na qual ele se constitui. A produção de sentido é parte integrante da interpelação do indivíduo em sujeito, na medida em que, entre outras determinações, o sujeito é "produzido como causa de si" na forma-a-sujeito do discurso, sob o efeito do interdiscurso. (Pêcheux, 1997:261)

Em nosso caso optamos por apresentar, em nossa análise, comentários seguidos de excertos da fala do diretor entrevistado visando trazer alguns elementos de sua interpretação sobre a temática em estudo, considerando que elas certamente estariam associadas às condições de produção imediatas à entrevista, por exemplo, o conhecimento que o diretor possuía da posição assumida pela entrevistadora na coordenação de museus. Mas tendo em conta o apoio teórico ao qual nos referimos, sabemos que tais interpretações do diretor estão também associadas a um contexto sóciohistórico mais amplo como veremos a seguir. No conjunto dessas condições há a produção de sentidos que buscaremos explicitar.

Por outro lado, a seleção dos excertos não ocorreu de maneira aleatória, mas partem da investigação da produção de sentido que toma como base a aplicação de um dispositivo teórico (ORLANDI, 2003). Tal dispositivo

considera a interpretação integral da entrevista sob um olhar dos elementos que foram apresentados anteriormente, ou seja, a concepção de museus a partir de seus objetos. Dessa forma não buscamos estabelecer uma relação de causa e efeito, mas compreender, considerando a não transparência da linguagem e as condições de produção em que a entrevista foi realizada. Destacamos que esse tipo de análise não busca estabelecer uma lei empírica, mas , dentro da unicidade , levantar possíveis interpretações do diretor que, em seu discurso aponta para uma memória discursiviva va associada a objetos de um museu de ciências e especificamente para objetos de ensino.

## 2.1 O contexto da entrevista

No quadro geral da investigação sobre as origens e os propósitos dos museus de Minas Gerais 3 , foram convidados para participar da pesquisa 25 museus da cidade de Belo Horizonte localizados no projeto de cadastramento dos museus mineiros desenvolvido pela Superintendência de Museus da Secretaria de Estado da Cultura 4 . Desse total conseguimos agendar entrevistas com nove diretores. A investigação analisa também as diversas fontes documentais disponibilizadas pelos museus e suas expografias. Destacamos nesta comunicação a entrevista com um Museu de Ciência e Tecnologia para discussão de sua relação entre os objetos em exposição e os objetos de ensino. Pretendemos discutir as implicações de tais concepções para a promoção de um ensino de física em espaços não escolares. Construímos um protocolo de entrevista semi-estruturado que nos orientou em todos os encontros com os diretores ou coordenadores dos museus que nos receberam. O fato de a entrevistadora ser uma professora universitária e ter assumido cargos políticos em um órgão público de regulação de museus, marca bem uma presença institucional no contexto das entrevistas e pode ter sido um elemento inibidor da cessão da mesma. Antes das entrevistas os diretores leram uma síntese do projeto de pesquisa e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. A entrevista que discutiremos aqui , de 51 minutos , foi integralmente transcrita para posterior análise, e foram numerados seqüencialmente 80 turnos de fala. Para discussão de nossa análise inserimos excertos indicando os interlocutores e o número do turno de fala.

## 2.2 Buscando compreender uma entrevista

- O diretor, logo nos primeiros minutos da entrevista, justifica para a entrevistadora a ausência de documentação de constituição do museu:
- 16. Diretor: Eh... na verdade aqui assim... infelizmente... com o passar dos anos a gente não tem aquela famosa ata ou um documento de abertura ... / do museu, então nós consideramos na mesma data da fundação da escola já que o museu é da escola, então a gente considera, a data de fundação da escola .

E mais à frente destaca que , nos últimos dez anos, iniciou-s-se o processo de institucionalização e documentação do museu.

28. Diretor: É.... porque isso [hoje] já é possível, porque pode se dizer , dez anos, desculpa, né, há dez anos de criação. Então isso já num momento bem mais recente, então, isso já é documentado, já tem [ uma documentação]...

A necessidade de identificar uma referência com a cultura européia parece permear todo o discurso do diretor:

16. Diretor: [...] Dom Pedro II queria que instalasse aqui no Brasil ah... uma escola nos moldes da escola alemã e francesa, aqui, então ele foi lá e convidou o diretor da escola de minas e obviamente não deu pra ele vir [...]

## A origem do acervo do museu é uma coleção pessoal

16. Diretor: [...] Ele trouxe uma coleção... uma vasta coleção de minerais, fósseis e moluscos pra cá, ... inclus ive com maquetes e instrumentação. Ele parou no Rio de Janeiro aí ele foi até o Rio Grande do Sul lá... nas minas de ouro de lá... eh... na pesquisa, em busca de local para a instalação da escola, então, nesta trajetória ele também coletou mais amostras ainda né... para a futura escola [...]

E esse acervo é acrescido permanentemente e aparentemente como indicador de pertencimento dos visitantes à cidade ou unicamente à escola.

37. Diretor: [...] Ah, bom... ah como a parte, carro chefe, como eu falei, é a mineralogia, muitas excursões de campo, ainda, professores trazem, alunos trazem, ex-alunos que passam a trabalhar em outras instituições trazem, eh... recentemente eu ganhei uma coleção grande de bens minerais, que foi [constituir] a última da sala que nós inauguramos [...]

Como o museu tem sua origem em uma coleção naturalista, os diversos objetos expostos podem ser categorizados como exemplares da história natural: animais empalhados, amostras de minerais, exemplares de folhas, frutos e flores. Esses objetos estão dispostos em vitrines e estão dispostos por categorias taxionômicas.

26. Diretor: [...] Foi a história natural, mineração, metalurgia, desenho, topografia, astronomia, ah... então foi enriquecendo...esse acervo, em termos de, [dar].... visibilidade e esses móveis, antigos, eu, particularmente, costumo chamar museu do museu que é a parte antiga aqui da mineralogia, que é um mobiliário de madeira, [...]

Muitos desses objetos foram criados como objetos de ensino e as coleções cumpriram esta funç ão de demonstrar o caráter evolutivo das ciências. Muitos deles, quando observamos suas características, foram desenvolvidos como modelos de ensino de física, principalmente astronomia, mecânica e termodinâmica.

24. Diretor [...]E já criou no molde [no ensino ] da engenharia, então, quer dizer, os objetos já eram, para trabalhos práticos, mas, numa disposição, dá pra se perceber [pelas] fotografias, ali que a gente tem a documentação fotográfica, assim um esmero muito grande nessa parte, não é simplesmente sabe, alguns... [objetos], em uma prateleira. Hoje, normalmente para sala de aula, você entulha, simplesmente,ou seja, você trabalha, manipula objetos na prateleira, aqui não, ... já tem tudo nas estantes, e muitas delas estão até hoje em funcionamento no museu[...]

Na palavra do diretor nos parece que o museu possui uma marcada função de preservação dos objetos. De dar visibilidade aos objetos privados, seja de uma coleção, seja o resultado da pesquisa científica. Em sua fala, ao ser perguntado sobre os novos objetivos do museu, nos parece haver alguns pré-requisitos necessários para organizar uma visita ao museu. Ele fala em "critérios" para a leitura de "contexto" dos objetos do museu de ciências que não seriam os mesmo de um museu de artes.

29. Entrev istadora: Sim e os objetivos? São [atualmente] muito diferentes dos objetivos do antigo museu?

30. Diretor: Não eu acho que o objetivo, na minha opinião, é o mesmo. [...] talvez na época mais antiga, não tinha essa visão, da importância da ciência que...talvez na época, se via a ciência mais como...uma coisa...de elite...talvez pensante, não sei, não desmerecendo as outras áreas, mas acho que quando você vai a um, por exemplo, museu de artes, pintura, é óbvio que tem os estudiosos, mas tem o leigo que ele chchega lá, ele vê, ele sabe admirar, ele sabe apreciar. Você ir a um museu de ciência, já é uma coisa um pouco mais ... se você não tiver um critério, mais cuidadoso, é uma coisa mais enfadonha, você olhar peças, instrumentos, quer dizer você fica sem saber o contexto, o porque de uma evolução, ou como era um equipamento antigo, hoje, essa criançada, pega o celular com tranqüilidade, assim uns botões, eu que tenho cinqüenta anos, quer dizer.... não sou de uma época, de uma geração de botões, quer dizer, não tinha televisão, quando apareceu era preta e branca, colorida não tinha... não tinha fax, não tinha celular, não tinha computador. Quando eu vi o meu primeiro computador, porque eu fui trabalhar , era disquete flexível, hoje você tem o pen drive,/ quer dizdizer, mudou com o tempo, por completo, mas eu acho que o museu sempre é , você preservar o que você tem, o acervo, cuidar dele, e ensinar, divulgar, mostrar, não é aquela coisa fechada, que você tem dentro da sua casa uma gaveta que só você pode admirar, desfrutar daquela informação, então eu acho que o contexto em si não mudou, assim, porque era só mineralogia, hoje é mineralogia e mais alguma coisa, então na verdade ampliou, mais a idéia, eu acho que, ... a base é a mesma, divulgar material cientifico, acadêmico, a pesquisa, então eu acho que isso [...].

Já no início dessa fala, o diretor manifesta sua posição de que é necessário algo mais (...um pouco mais ...um critério) que na seqüência podemos inferir como sendo o papel de mediação entre o objeto de exposição e o objeto de ensino. E, para ele, esse algo mais que chama de critério, parece estar associado ao contexto, aos porquês de uma evolução, ou seja, aparentemente o diretor associa os objetos do museu a processos, para que lhe possam ser atribuído um funcionamento. Em suas exemplificações, o diretor cita sua própria memória de uso dos objetos do cotidiano , mais antigos e atuais. E interessante notar como ele apresenta e resolve uma contradição aparente entre o antigo e o atual:

(...) então eu acho que o contexto em si não mudou, assim, porque era só mineralogia, hoje é mineralogia e mais alguma coisa, então na verdade ampliou, mais a idéia, eu acho que ... a base é a mesma (...)

Por outro lado, a relação existente entre os objetos do museu e esses objetos pensados nesse "contexto" como objetos de ensino, torna-s-se bastante evidente quando ele afirma:

mais a idéia, eu acho que, ... a base é a mesma, divulgar material cientifico, acadêmico, a pesquisa, então eu acho que isso [...].

Para o diretor , aparentetemente o "contexto" de uso dos objetos é uma formrma de despertar de outra forma o o interesse dos visitantes pela ciência mesmo que futuramente ela não se envolva em uma carreira científica. O diretor nos relatou diversos exemplos de contextos de uso dos objetos e formas didáticas de apresentá-los ao público.

35. Diretor: [...] Urucum, sementes... e minerais, terra, então, um tal de mineral, o ocre, que chamam de minério de ferro, tem cor mais vermelha, moída..... tem o carvão, ou o manganês, que é preto, enentão quer dizer que a base da pigmentação da tinta, também, tem a sua participação de origem mineral. O azul, que a lazurita, que era o pigmento mais caro, que existia. Hoje, você faz azul sinteticamente ... numa maneira simples e barata, então quer dizer, o que teria a ver Guignard com a escola de minas aqui.... Você buscando que ciência dos materiais deles de trabalho era a tinta e não

necessariamente, a tinta dele fosse de origem direta do mineral mas, a história (...) então você tem... então é uma coioisa muito interessante. Então o objetivo da gente realmente é divulgar, difundir, e principalmente pra... as crianças, mostrar que a ciência, de uma forma lúdica, que você possa passar e agradável, assim, a ciência interativa, por exemplo, tem um objeto lá que a criança toca e, ... então dá uma dinâmica, assim, maior numa visita, então eu acho que...

O diretor termina sua fala com um questionamento projetivo importante sobre o futuro do museu comprometido com a forma de interação. Sua função formadora é novamente reforçada.

70. Diretor: É como diz, o museu está sempre de portas abertas, eu acho que o nosso interesse é o da escola, você falou objetivo, qual é o objetivo? É crescer, mas crescer como? Não só a gente como a gente pode... é, com a participação, a integração, porque se você não tem troca, se você não tem, participação, você cresce, como? Você... aprende como? Você interage como?

Analisando esta entrevista, percebemos uma relação entre os objetos de museus e os objetos de ensino. A A memória discursiva de construção de conhecimento da prática escolar que aparece na fala do diretor ao relacionar os processos de aquisição de objetos de museu é oriunda de três práticas: o fazer das ciências naturais que organiza coleções de espécimes (fala 16); o cotidiano de elaboração de modelos e protótipos para os trabalhos práticos (fala 24) e o estabelecimento de um vínculo afetivo do passado e o presente o que pode gerar futuras doações (fala 37). Em relação aos objetos de ensino de física, nessa fala , somente os modelos, aparentemente, decorrem de uma prática pedagógica que relaciona ensino à exposição.

## 3. Implicações para o ensino de Física

Analisamos nesta comunicação uma entrevista com um diretor de um museu de ciências e tecnologia pertencente a uma institutuição de ensino. Nossa análise das falas do diretor nos ajuda a pensar sobre a tensão da gestão das coleções decorrentes das pesquisas universitárias, as mudanças tecnológicas que levam instrumentos de ensino muitas vezes para o descarte ou para os acervos de museu. A dinâmica entre o expor e ensinar não é particular dessa instituição que possui as duas facetas: instituição patrimonial e de ensino. Os museus , principalmente no Brasil , surgiram como as primeiras instituições de pesquisa e ensino (Lopes, 2001).

Essa análise nos aponta outros elementos para a interpretação da documentação, por exemplo, na documentação museológica, investigar no registro da origem dos objetos, aqueles que vieram de coleções didáticas ou de trabalhos de final de curso; no registrtro iconográfico a disposição dos objetos em salas de aula e em laboratório de ensino em confronto com os catálogos de exposição, entre outros.

Nessa entrevista, inferimos que na fala do diretor, a relação entre os objetos de exposição e os objetos de ensino de física pode ser estabelecida através da organização no museu de ciências de um "contexto". Interpretamos esse contexto com os dispositivos de mediação que são oferecidos pela exposição para leitura do objeto. Na fala desse diretor, essa mediação não foi destacada, possivelmente outras condições de produção discursiva são necessárias para uma análise complementar de outros discursos, como o

expográfico. Isto é, investigar o destaque dos objetos do museu na ação com o ensino de física.

Em sintonia com o movimento de renovação no campo da museologia, cuja matéria específica é a evidência material e simbólica da cultura, esse museu , na interpretação de seu diretor, busca novos processos de sistematização de seu programa educativo. A abordagem de uma Educação para o Patrimônio permanente e sistemática é bem marcante na fala do diretor ao destacar a importância de contextualizar ar r os objetos do museu em seu uso no passado e no presente como objetos de ensino. Essa abordagem relacionase à à cultura material e imaterial, na medida em que ambas relevam a importância de bens culturais: ciências, tecnologia, artefatos, símbolos... para a compreensão dos diferentes grupos étnicos e sociais que compõem a sociedade, favorecendo a preservação de diferentes identidades e memórias sociais. O aprendizado que pode ser desencadeado através das memórias sociais compartilhadas é de grande importância para a criação de significado, pois atrás de cada artefato há muitos sujeitos.

A manutenção dos museus no novo milênio vai depender de suas capacidades de se tornarem instituições abertas a todos os cidadãos. A necessidade de novas formas museográficas, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não-f-formais ou informais. Mas o museu, ainda que em complementaridade aos espaços formais de aprendizagem, promove hoje uma aprendizagem social das ciências. Exatamente pelo fato de o museu de ciências não ser a sala de aula e muito menos o laboratório de ciências, ele carece de novas formas de organização de seus objetos e de pesquisas sobre as práticas educativas que ele propõe. O museu de ciências é, como já foi dito anteriormente, um local de patrimônio, um local de coleções de objetos e de artefatos, mas é também um local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, de construção de conhecimentos. Além da educação para o patrimônio, o museu de ciências surge com uma função social de síntese dos conhecimentos tornando -os palatáveis, interagindo com o passado, o presente e o futuro. Nesta síntese o conhecimento físico pode ter uma abordagem complementar às propostas curriculares e promover novas relações do sujeito com o conhecimento. E principalmente colocar o ensino de física na pauta cultural do cidadão possibilitando assim uma abordagem do conteúdo fora do espaço escolarizado.

A pesquisa é, então, necessária para o conhecimento e formação ao atendimento dessas demandas. Retomando as falas desse diretor, a pesquisa pode fornecer pistas para a a criação de novos contextos, que, promovendo mediações inovadoras em relação ao ensino de física, possibilite a apropriação de novos conhecimentos ao visitante. Esta ênfase se vincula à importância de se avançar nos debates relativos a didatização dos museus, à sensibilização em relação à memória, à cultura material e ao patrimônio, e à própria concepção do espaço-o-museu e sua relação com o público. São funções pedagógicas dos museus de ciências: apresentar a evolução da cultura e da ciência; difundir a cultura e a ciência e torná-las conhecidas. Democratizar a cultura e o conhecimento científico e técnico, além de suas funções culturais, presentes no imaginário do público e promover, como já destacou Zanetic

(2002), a física como cultura são alguns dos pontos de pesquisa possíveis para os museus.

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