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A INTERLOCUÇÃO ENTRE A FOTOGRAFIA COMO EXPRESSÃO ARTÍSTICA E A FÍSICA

Flávia Letícia Opúsculo, Bruna Graziela Garcia Potenza, Leonardo Crochik

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
31/01/2011
Linha de pesquisa
Aprendizagem Em Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## A INTERLOCUÇÃO ENTRE A FOTOGRAFIA COMO EXPRESSÃO ARTÍSTICA E A FÍSICA

## Flávia Letícia Opúsculo , Bruna Graziela Garcia Potenza , Leonardo Crochik 1 2 3

1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/ flaviaopusculo89@gmail.com 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/ brunapibid@hotmail.com 3 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/ crochik@gmail.com

## Resumo

Este trabalho consiste na divulgação de elementos de um projeto de pesquisa elaborado no âmbito do subprojeto da licenciatura em Física do IFSP-SP realizado para o Programa de Iniciação à Docência (PIBID). Nosso projeto se propõe a estudar as relações que se estabelecem entre o desenvolvimento da Fotografia como modo de expressão artística e o Ensino de Física, destacando como tais relações e suas respectivas práticas contribuem para a formação de diferentes visões de mundo e para a construção de realidades dos alunos e educadores. Buscamos a utilização da Fotografia juntamente com a linguagem Física e sua comunicação por meio de uma proposta de ensino, elaborada e aplicada numa escola estadual paulista conveniada. Assim desenvolvemos as discussões relacionadas às especificidades do projeto enquanto sua temática e características de implementação, relacionadas ao PIBID, e à sistematização de propostas e suas avaliações. Veremos a sua contribuição para que os alunos percebam o mundo a partir de diferentes contextos históricos e sociais, e para mobilizar os conhecimentos de Física apreendidos em sala de aula para possibilitar a criação de novos olhares diante de um mundo tecnológico, complexo e em transformação.

Palavras-chave : Ciência e Arte, Fotografia, PIBID

## Apresentação

Nosso projeto de pesquisa se propõe a estudar as possibilidades trazidas pela utilização da Arte, através da Fotografia como linguagem, no Ensino de Física. Além disso, refletir sobre como esta articulação pode contribuir para que os alunos percebam o mundo a partir de novos olhares, notando um mundo complexo e em transformação, posicionando-se criticamente diante das influências que a Física implica em seu cotidiano. Além disso, segundo Fourez (apud Pietrocola, 2002, p. 15), os saberes científicos procuram gerar alguma autonomia, possibilitando que o aprendiz tenha capacidade para negociar suas decisões, alguma capacidade de comunicação (encontrar maneira de dizer) e algum domínio em face de situações concretas.

Inicialmente pensávamos que uma maneira de demonstrar o diálogo entre a Fotografia e a Física seria propor a construção de câmaras escuras - Pin Hole, ou câmera de lata - para que os alunos as construíssem e utilizassem para produzir fotografias de temas relacionados às aulas de Física. Outra possibilidade pensada foi a de que fotografassem (até mesmo com câmeras digitais) procedimentos experimentais exigidos referentes aos temas estudados.

Porém, verificamos que ao restringir a proposta ao uso das pin holes ou a fotografar somente experimentos produzidos dentro do ambiente escolar não estimularíamos a criação/educação do olhar crítico do aluno simultâneo à

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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011

identificação das relações existentes entre a Física e a Arte. Notamos que era necessário definir uma proposta que evidenciasse a questão da criação de novos olhares e visões de mundo pelo aluno, para que desta maneira ele pudesse desenvolver novas concepções de realidade sobre o mundo que o cerca, através de um diálogo produtivo entre Física e Fotografia.

Percebemos também que essa nova concepção de proposta converge com algumas competências contempladas pelas Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+), o que colaborou para elaborarmos um trabalho em torno de tais referências, que afirmam:

- (...) Um aluno de Física do Ensino Médio deve compreender a ciência e a tecnologia como partes integrantes da cultura humana contemporânea, trabalhando as seguintes habilidades:

Compreender a Física como parte integrante da cultura contemporânea, identificando sua presença em diferentes âmbitos e setores, como, por exemplo, nas manifestações artísticas ou literárias, em peças de teatro, letras de músicas etc., estando atento à contribuição da ciência para a cultura humana.

Compreender formas pelas quais a Física e a tecnologia influenciam nossa interpretação do mundo atual, condicionando formas de pensar e interagir. (…) (BRASIL, 2002 p.68)

As competências acima referem-se às capacidades relacionadas à Investigação e Compreensão, no setor 'Ciência e tecnologia na cultura contemporânea', no sentido que a Física passa a ser contemplada como forma de cultura, da mesma forma que ela, em conjunto com a tecnologia modificam o nosso mundo. Além disso, há uma dimensão de valores associada a nossa proposta, presente no setor 'Ciência e tecnologia, ética e cidadania' referente ao PCN+:

- (...) Reconhecer e avaliar o caráter ético do conhecimento científico e tecnológico e utilizar esses conhecimentos no exercício da cidadania.

Compreender a responsabilidade social que decorre da aquisição de conhecimento (…).

Reconhecer que, se de um lado a tecnologia melhora a qualidade de vida do homem, do outro ela pode trazer efeitos que precisam ser ponderados quanto a um posicionamento responsável. (...) (BRASIL, 2002, p.68)

Ou seja: para formularmos as propostas a serem aplicadas aos alunos nas salas de aula, queremos enfatizar o uso da Fotografia como modo de expressão artística e linguagem, e não como instrumento físico, ou ferramenta tecnológica que utiliza conceitos da Física em seu funcionamento e que é capaz de produzir imagens com o intuito de apenas ilustrar ou registrar os conceitos da Física trabalhados nas aulas. Assim, as fotografias produzidas e/ou utilizadas pelos alunos cumprem um papel além da função de ilustrar as aulas. Elas devem ser capazes de expressar seus posicionamentos críticos, seus olhares e suas visões de mundo sobre determinado assunto da Física que esteja inserido em um contexto social, além do científico. Esse é o objetivo que buscamos avaliar no presente trabalho.

Nos seguintes capítulos do desenvolvimento, explicitaremos os fundamentos desta pesquisa, que compreendem características do PIBID, estudos da área sobre a relação entre a Física e a Arte e entre a Realidade e o Ensino de Física, assim como o discursaremos sobre a Fotografia como linguagem artística e, por fim, apresentaremos a elaboração de propostas de atividades e os comentários sobre suas aplicações em salas de aula.

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## As especificidades trazidas pelo Programa de Iniciação à Docência.

O Projeto de Iniciação à Docência do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), no âmbito do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID / CAPES / DEB, em vigência desde abril/2009, abriga o Subprojeto da Licenciatura em Física. O projeto oferece bolsas para alunos licenciandos em Física e para professores efetivos de Escolas Estaduais.

No interior do projeto do IFSP temos o subprojeto da licenciatura em Física, que foi estabelecido em consonância com as diretrizes do projeto do curso de Formação de Professores da Educação Básica de Licenciatura Plena em Física do IFSP, que procura articular o conhecimento pedagógico e os conteúdos disciplinares, assim como busca também favorecer abordagens integradoras dos saberes escolares, ressaltando a finalidade de se compreender o papel do recorte disciplinar específico em sua organização curricular.

Particularmente ao vincular docência e pesquisa, o Subprojeto aponta como um de seus objetivos promover a compreensão da indissociação do ensino de física e da pesquisa em ensino de física, caracterizando a prática como uma instância de formação do professor e como um laboratório de investigação, assim como a compreensão de aspectos metodológicos de uma pesquisa em ensino, particularmente, do ensino de física.

- O PIBID contribui com a formação inicial de professores ao oferecer mais oportunidades para que o aluno entre em contato com a escola. No projeto elaborado pelo IFSP, foi trazida a dimensão da pesquisa; dessa forma inseriu-se, além do aluno bolsista e do professor que o supervisiona na escola conveniada, um professor orientador que objetiva auxiliar o aluno nas questões de pesquisa no interior da escola.

Dessa forma nosso projeto se constituiu de forma articulada com a realidade de uma escola pública da capital paulista. Ele objetiva a interlocução entre perspectivas teóricas da pesquisa em Ensino de Física e as necessidades escolares, contribuindo para o aprendizado dos alunos, assim como para a formação inicial do licenciando e as formações continuadas do professor supervisor e do orientador. A estreita relação entre as questões de ensino e de pesquisa se faz presente nas características do nosso projeto e na maneira como foram concebidas e aplicadas as propostas de atividade.

## A Física na construção de realidades.

Antes de discutirmos a importância e os valores da Arte no Ensino de Ciências, em particular da Física, é importante nos debruçarmos sobre a questão da concepção de visão de mundo e de construção de realidade.

No decorrer da vida nos deparamos com inúmeros desafios e experiências que se acumulam e se complexificam, e à medida que isso ocorre nós passamos a ter necessidade de compreender não apenas individualmente as situações vividas, mas principalmente de compreendermos de maneira global o mundo em que vivemos. Ou seja, com a incorporação desses desafios ao nosso cotidiano, construímos uma visão de mundo, e a partir de interesses e necessidades particulares ou sociais, por exemplo, nós ampliamos, modificamos e até mesmo substituímos esta visão de mundo, buscando dar sentido aos desafios enfrentados.

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A escola, em particular, tem papel fundamental na elaboração dessa visão de mundo. Ela, como instituição social, incumbe-se de boa parte da tarefa de transmissão das formas de entendimento culturalmente estabelecidas em determinado momento histórico. (…) o conhecimento físico deve ser submetido às necessidades de uma educação geral que permita aos indivíduos incrementarem seu entendimento sobre o mundo em que vivem. (PIETROCOLA, 2001, p. 11)

A partir dessas afirmações, podemos pensar em como o conhecimento físico pode auxiliar os alunos a compreenderem o mundo e seus acontecimentos isolados, e também pensar em como trazer elementos culturais externos para dentro da sala de aula e, de certa forma, provocar o aluno para que ele relacione a linguagem Física com a sua visão de mundo construída até então, e assim consiga perceber o mundo de uma maneira complementada.

- O conhecimento promovido pelas aulas tradicionais de Física, por estabelecer poucas relações com o mundo real e vincular-se quase que exclusivamente com o mundo escolar, é em geral visto como desnecessário. (…) Os alunos terminam por estabelecer com ele vínculos profissionais, e não vínculos que extrapolem a escola e suas exigências. (…) Se através da Física pudermos 'enxergar' um mundo diferente daquele que se nos apresenta à percepção imediata, teremos a sensação de ganhar intimidade com a realidade. (PIETROCOLA, 2001, p. 18)

Ou seja, o ensino de Física enquanto não demonstrado como elemento intimamente relacionado ao mundo cotidiano, aparenta ser desinteressante para o aluno, fazendo com que o mesmo enxergue o conhecimento físico como algo necessário apenas para cumprir sua função escolar.

Conforme adquirimos conhecimentos, nós desvendamos diferentes olhares sobre o cotidiano e, consequentemente sobre o mundo em que vivemos, e isto nos causa a sensação de intimidade com o mesmo, pois ao mesmo tempo em que estamos em contato com algo que já conhecíamos, desta vez o percebemos de uma nova maneira, sob um novo prisma, estamos lidando, portanto, com algo novo, e isso acarreta a formação de consciência de uma nova realidade sobre aquilo que já havíamos observado antes. A realidade, logo, não é imutável e fixa. (Cf.: Pietrocola, 1996)

Por consequência, parece-nos que no intervalo que separa o desvanecimento dum objeto científico e a constituição duma nova realidade, há lugar para um pensamento não-realista, para um pensamento que se apóia em seu movimento. Instante efêmero, dir-se-á, que não pode contar quando se compara com os períodos de ciência adquirida, assentada, explicada, ensinada. É todavia aí, nesse breve instante de descoberta que se deve apreender a inflexão decisiva no pensamento científico. Restituindo esses instantes no ensino, constitui-se o espírito científico no seu dinamismo e na sua dialética. (BACHELARD, 1974b, p. 314-5)

Os processos pelos quais nos apropriamos do sentimento de realidade dependem das experiências pelas quais passamos, do que apreendemos em cada uma e dos conhecimentos que mobilizamos para realizar e interpretar cada uma delas, além das condições particulares sociais, políticas, culturais e econômicas. Quando configuramos todos estes fatores, nossa concepção do que é real, e consequentemente a nossa visão de mundo até então concebida, é complementada com novos elementos obtidos a partir do conhecimento. É, portanto, necessário que a escola demonstre e compartilhe com os alunos as possibilidades oferecidas pela Física e as demais Ciências como formas de construção de realidades sobre o

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mundo que nos cerca, e por isso tal olhar sobre a Física consiste em uma dimensão do nosso projeto e da proposta de atividade.

## As artes no ensino de física.

Sendo a Arte uma criação humana que exprime emoções, relações, posicionamentos críticos e acontecimentos, e que colabora para exploração do mundo e concepção de novas realidades, veremos as possibilidades trazidas pela utilização desta linguagem no Ensino de Física.

Há profundas relações entre ciência e arte que raramente são trabalhadas, mas a maneira como se apresenta o contexto cultural atualmente, (...) pede que o homem construa novas formas de sentir, pensar e agir que possibilitem a construção de novas formas de ensinar e aprender, de maneira a contemplar essas relações. (CARVALHO E ZANETIC, 2004, p.2)

A relação humana estabelecida com qualquer obra de arte é complexa e pessoal, e o princípio da junção entre a Arte e a Física é pensar em como tal relação pode contribuir para o aprendizado e a construção de realidade de alunos que utilizem-se da Arte para realizar uma nova leitura da Física e do mundo, e manifestar suas percepções através deste novo olhar. Frente à esta reflexão, o objeto artístico torna-se um rico elemento para ser trabalhado dentro da sala de aula por contribuir para a mobilização e a apreensão dos conhecimentos da Física.

- O discurso sobre o uso da Arte no Ensino de Física implica um desdobramento do saber, e, consequentemente da figura do ser humano e da humanidade contemporâneos. As leituras do mundo que as artes e as ciências nos possibilitam colaboram para a nossa compreensão e concepção do que é real, e aproximá-las nos ensino pode ser uma forma de enriquecer o diálogo com o mundo. Zanetic pontuou algumas dimensões simultâneas entre ambas culturas:
- i. vivemos numa época fortemente influenciada e/ou determinada pelas ciências da natureza, com papel de destaque para a física;
- ii. muitos fenômenos da natureza são basicamente explicados através da ciência;
- iii. a tecnologia contemporânea é fortemente baseada na ciência;
- (...)
- vi. a ciência permite um diálogo inteligente com o cotidiano;
- vii. a ciência enriquece e promove a imaginação;
- viii. a ciência influencia outras áreas do conhecimento, as artes aí incluídas;
- ix. o processo histórico dos últimos séculos é incompreensível sem a presença da ciência;
- x. a ciência ... tem 1001 utilidades! (ZANETIC, 2006, p. 42)

Ou seja: a Física não está apenas inserida nos fenômenos, acontecimentos e produções tecnológicas do mundo, mas também é um meio para enxergar este mundo e suas transformações, além de influenciar outras áreas do conhecimento, entre elas a própria arte. Assim o projeto conceitua a Física como um meio através do qual podemos compreender e modificar a realidade e, além disso, que ela faz parte dessa realidade, exatamente porque ela compõe a cultura, influi e é influenciada pelas transformações do mundo.

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## A fotografia como expressão artística.

O objeto fotográfico pode traduzir, além da sistematização do olhar através de uma técnica que capta o espectro de uma imagem visualizada a partir de processos físicos e químicos, e o registro ilustrativo de algo, também a impressão de uma determinada personalidade, de características autorais e um posicionamento crítico particular sobre o objeto fotografado.

Após o surgimento da fotografia, a impressão inicial era de que esta viria para substituir a pintura, com o papel praticamente exclusivo de registrar o mundo com objetividade. Segundo a historiadora e crítica de arte, Annateresa Fabris, que é especialista em arte moderna e fotografia, as primeiras fotografias:

Proporcionavam uma representação precisa e fiel da realidade, retirando da imagem a hipoteca da subjetividade; a imagem além de ser nítida e detalhada, forma-se rapidamente; o procedimento é simples, acessível a todos, permitindo uma ampla difusão.'(FABRIS, 2008, p. 13)

Com isso, acredita-se que fotografia alavancou a pintura, com o Impressionismo e o Cubismo, pois, afinal, a imagem fotográfica assumira inicialmente o papel de caráter retratista até então atribuído à pintura, e se esta não encontrasse outro viés a ser seguido, sofreria processo de extinção.

Após o avanço de estudos que levaram à e praticidade da fotografia através da redução do tempo de exposição, aumento da nitidez das imagens com o uso de lentes e diafragmas etc - é que a mesma passou a servir a outros objetivos, como ao fotojornalismo, por exemplo. E somente no início do século XX a fotografia começa a se popularizar, com a queda do preço das câmeras e dos filmes, tornando-se acessível também à outras camadas sociais, além da burguesia.

A ideologia da vulgarização, da difusão da imagem em larga escala é um dos esteios do pensamento liberal, então dominante, mas responde também a exigências econômicas, representando a passagem de um mercado restrito a um mercado de massa. (FABRIS, 2008, p.16)

Então, após popularizar-se, intensificaram-se as reflexões sobre as possibilidades de suas produções manifestarem personalidade e expressão de repertório e sentimento, além de contribuir para o advento da estandardização da arte, ou seja, torná-la acessível para um mercado mais abrangente, diferente da época em que a reprodução de imagens era exclusividade das pinturas e das gravuras.

Uma fotografia subjetiva no sentido de ser passível a uma grande diversidade de interpretações e leituras. O processo de criação de uma imagem fotográfica envolve desde a intenção do fotógrafo e a escolha do equipamento fotográfico até o momento e o contexto em que se situa o objeto . Ou seja, ao refletir e fazer escolhas pensando em todas essas variáveis, o fotógrafo imprime em sua obra uma enorme bagagem de personalidade e opinião, o que define o processo autoral.

Porém, leitura da fotografia não se limita às intenções do fotógrafo, mas também abrange as variáveis adotadas pelo observador da imagem. Quando observamos uma fotografia, refletimos sobre ela as nossas características particulares. O fotógrafo, crítico e historiador da fotografia Boris Kossoy diz o seguinte:

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A imagem fotográfica tem múltiplas faces e realidades. A primeira é a mais evidente, visível. É exatamente o que está ali, imóvel no documento (ou na imagem petrificada no espelho), na aparência do referente, isto é, sua realidade exterior, o testemunho, o conteúdo da imagem fotográfica (passível de identificação), a segunda realidade, enfim.

As demais faces são as que não podemos ver, permanecem ocultas, invisíveis, não se explicitam, mas que podemos intuir; é o outro lado do espelho e do documento; não mais a aparência imóvel ou a existência constatada, mas também, e sobretudo, a vida das situações e dos homens retratados, desaparecidos, a história do tema e da gênese da imagem no espaço e no tempo, a realidade interior da imagem: a primeira realidade.(KOSSOY, 2005, p. 40).

Portanto, a fotografia é também resultado da representação das diversas realidades do objeto retratado e de suas definições. Ao associar as realidades mostradas pela fotografia com os conhecimentos e realidades viabilizados pela Física, o aluno será conduzido a conceber uma nova realidade composta, entre outros elementos, pela sua criação subjetiva de uma fotografia, sua leitura, também subjetiva, de um conteúdo científico objetivo ou de uma imagem fotográfica já constituída como objeto, e pelas suas representações idiossincráticas daquilo que foi apreendido desta associação.

## A primeira proposta de atividades, sua aplicação e releitura.

Como o projeto desenvolve-se de acordo com o PIBID, tratam-se de alunos do primeiro ano de uma escola pública paulistana conveniada ao IFSP - a E.E. Padre Anchieta, sendo o projeto e a elaboração das atividades resultados de discussões entre o aluno bolsista e os professores orientador e supervisor.

A primeira proposta de atividade consistiu na tiragem de fotografias de um arranjo experimental realizado dentro do laboratório da escola, que se tratava de um sistema formado por pesos e molas. Tal proposta define primeiramente que os alunos em grupos deveriam fotografar o movimento realizado pela mola ao acrescentarem massas em sua extremidade, utilizando um enquadramento que o grupo julgasse ser o mais interessante em relação à observação do movimento.

## FOTOGRAFANDO A ENERGIA E O MOVIMENTO

Monte um sistema de pesos e molas com os materiais disponíveis em sua bancada e fotografe-o da maneira mais interessante possível. Justifique a sua escolha de montagem e de enquadramento da foto.

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Figura 1: Primeira parte: a proposta de tiragem de fotos de um arranjo experimental e algumas imagens produzidas pelos alunos

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Posteriormente, as imagens dos grupos seriam trocadas e uma segunda atividade discorre, na qual cada grupo observa a foto recebida e busca compreender a intenção do outro grupo na escolha do enquadramento, além de identificar nas fotos dos colegas e em outras imagens o olhar da Física.

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## FOTOGRAFANDO A ENERGIA E O MOVIMENTO

## O OLHAR DOS COLEGAS

Discuta com o seu grupo e escreva uma possível justificativa para o enquadramento feito na foto recebida.

## O OLHAR DA FÍSICA

- 1) Analise as demais fotografias recebidas (A, B, C, D) e identifique os movimentos como subida, descida, elongação minima (antes de ser solto) e elongação máxima (esticado ao máximo), justificando suas escolhas.
- 2) Qual é o movimento representado na foto dos colegas? Justifique.

Figura 2: Segunda parte: retomada das fotos para a discussão dos olhares.

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A intenção em propor esta atividade foi a de demonstrar a subjetividade dos alunos em relação a um objeto da Física, e a partir das leituras realizadas discutir a Física presente neste objeto. Ou seja: não somente mostrar a variedade de ângulos pelos quais podemos observar um mesmo fenômeno, mas que a escolha do enquadramento e a tentativa de justificá-la pode apresentar aspectos interessantes e diferentes para cada aluno.

Após a aplicação destas atividades, notamos que o desenvolvido foi insuficiente frente ao objetivo do projeto, pois apesar dos bons resultados, no sentido que discutimos os movimentos e como podemos percebê-los de variados ângulos, concluímos que restringimos a subjetividade do olhar do aluno.

Primeiramente porque trabalhamos basicamente com a escolha coletiva do enquadramento da foto, sem ressaltar as outras possibilidades de escolhas como, por exemplo, o instante da tiragem. Além disso, por se tratar de um experimento laboratorial, o fenômeno estudado permanecia distante do cotidiano do aluno. Faltava trabalhar o caráter individual crítico da fotografia, além de provocar o aluno para a criação de um olhar, de uma nova leitura do mundo a partir da Física estudada.

Objetivamos uma nova proposta que viabilize a identificação da relação entre a Física e a visão de mundo dos alunos. Dessa forma extrapolamos o âmbito escolar e buscamos elaborar atividades que estimulassem a identificação da Física no cotidiano.

Assim, no uso da fotografia para expressar a interpretação dos alunos em relação à Física no cotidiano, uma nova dimensão formativa instituiu-se no projeto, no sentido de que ao presenciarmos a Física no mundo podemos, através desse olhar, perceber suas finalidades e as influências.

## As novas atividades propostas.

A proposta consiste inicialmente em um trabalho extra-classe, a busca por uma imagem fotográfica que presencie um determinado objeto estudado pela Física no mundo, ou seja, não bastam imagens de aparelhos cujo funcionamento esteja associado à Física, eles devem ser representados no mundo, em contextos críticos.

Os contextos presentes em imagens fotográficas as tornam algo mais do que simplesmente um registro de um acontecimento ou local - trata-se de uma

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imagem que encerra uma mensagem crítica de seu autor, seja sobre a sociedade ou o meio ambiente, por exemplo. Essa mensagem impressa não se esvai, ela é compreendida por cada observador segundo a tradução que sua visão de mundo traz.

Dessa forma, a presença deste objeto na composição da foto deve despertar em seu observador um posicionamento crítico em relação aos usos e respectivas influências na sociedade.

Por se tratar de uma proposta abrangente, no sentido que permite ser inserida em bimestres e anos diversos, a apresentaremos inserida num contexto de aplicação. Seu desenvolvimento junto aos 2º e 3º anos do Ensino Médio, s s relacionada às ondas eletromagnéticas e aos motores elétricos. Foi necessária durante a proposição uma problematização sobre o significado da interpretação de um acontecimento e da leitura de seu contexto crítico, através da fotografia.

## REPRODUÇÃO FOTOGRÁFICA DE MOTORES ELÉTRICOS NUM CONTEXTO CRÍTICO.

Pesquise e selecione uma fotografia de um aparelho que contenha um motor elétrico. Tal imagem deve possuir um contexto que expresse o seu posicionamento crítico em relação aos possíveis usos do motor, contendo a sua marca pessoal.

## Figura 3: A nova proposta em sua primeira atividade, o caso dos motores elétricos.

Atualmente estamos nessa etapa de aplicação da proposta, nos restringindo a sensações e na proposição do planejado da segunda etapa. Por enquanto estamos acompanhando os alunos em relação as suas pesquisas. Os mesmos estão mostrando-se motivados com a atividade, questionando sobre as possibilidades pensadas e as situações encontradas.

Podemos exemplificar com algumas ideias trazidas pelos alunos, como a presença dos motores elétricos nos aparelhos da cozinha (discutindo-se até que ponto consiste numa questão do consumo ou no novo papel da mulher na sociedade e sua dupla jornada de trabalho) e os motores elétricos nas linhas de produção (mostrando a influência dos motores na ressignificação do trabalho).

Posteriormente, a intenção é que com a entrega das imagens pelos alunos, estas sejam trocadas e, ao receberem a imagem do colega, identifiquem o objeto solicitado e o contexto crítico e discutam a possibilidade de se recriar este contexto excluindo-se os objetos anteriormente identificados.

## Responda às seguintes questões:

- 1) Onde você visualiza a presença de um motor elétrico na imagem do trabalho do seu colega? 2) Analise a fotografia do seu colega. Descreva o seu olhar sobre a imagem, explicando o seu posicionamento crítico em relação ao contexto.
- 3) Recrie o contexto da fotografia, caso não existisse o motor identificado na primeira questão.
- 4) O novo contexto é melhor ou pior do que o anterior? Justifique.

## Figura 4: Segunda parte: retomada e discussão das imagens.

A intenção deste segundo momento da proposta é discutir os variados olhares possíveis sobre objetos relacionados à Física e a maneira como estabelecem relações com os contextos sociais nos quais estão inseridos.

## Considerações Finais.

Acreditamos que o projeto na sua forma final articula as dimensões inicialmente apresentadas. A fotografia enquanto forma de expressão artística, se

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refere às subjetividades de quem fotografa, observa e do objeto fotográfico (Cf.: Kossoy, 2005), evidenciando as suas realidades e visões de mundo.

A apropriação da fotografia como um meio de conceber realidades no Ensino da Física associa à discussão anterior novas perspectivas, relacionadas à percepção da ciência indiretamente presente nos objetos do cotidiano, oferecendo uma nova visão do mundo (Cf.: Pietrocola, 2001) e, além disso, possibilita a identificação da ciência como uma forma de cultura fortemente intrincada na sociedade, posto que ela e seus objetos são resultados da imaginação e da criação da humanidade e concomitantemente a influenciam através de novas relações estabelecidas (Cf.: Carvalho e Zanetic, 2004).

As características do PIBID e a forma como se estabeleceu na E.E. Padre Anchieta contribuíram para os ciclos de reflexão-ação-reflexão acerca do projeto, que levaram ao amadurecimento da pesquisa e suas propostas graças à interlocução entre a sala de aula e a academia. O amadurecimento só é possível com o uso da sala de aula enquanto espaço de investigação do professor pesquisador, tanto no sentido de delimitar e especificar o projeto, como no sentido de permitir a transformação da proposta em objetos de ensino e a aplicação de tais objetos para posterior reflexão e análise de resultados.

Buscamos as leituras realizadas pelos alunos dos objetos da Física, que através da arte intencionam a incorporação de tais leituras às visões do mundo e às concepções de realidades, no momento que eles são questionados sobre as relações entre ambas as culturas.

Acreditamos que a proposta aqui apresentada representa um avanço ao nosso projeto, apresentando seus primeiros passos no sentido de um ensino de Física contextualizado, que percorre um caminho que busca a formação de cidadãos capazes de se situarem na sociedade e argumentarem a respeito dos acontecimentos que influenciam diretamente suas escolhas e sua qualidade de vida.

## Referências Bibliográficas.

CARVALHO, S. H. M.; ZANETIC, J. Ciência e arte, razão e imaginação: complementos necessários à compreensão da física moderna. In: Atas do IX ENPEF , Jaboticatubas, 2004.

CARVALHO, S. H. M.; ZANETIC, J. Ciência e arte, razão e imaginação: um projeto de ensino de física moderna para alunos do ensino médio. In: Anais do XVI SNEF , Rio de Janeiro, 2005.

FABRIS, A. A invenção da Fotografia: Repercussões Sociais. In: Fotografia: usos e funções no século XIX , São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 2008.

KOSSOY, B. Fotografia e Memória: reconstituição por meio da fotografia. In: SAMAIN E. (Org.). O Fotográfico. São Paulo: Hucitec/Senac. São Paulo, 2005.

PIETROCOLA, M. Construção e realidade: o papel do conhecimento físico no entendimento do mundo. In: Ensino de Física: conteúdo, metodologia e epistemologia numa concepção integrada. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2001.

ZANETIC J.. Física e Arte: uma ponte entre duas culturas. Revista Pro-Posições , Campinas, v. 17, n.1 (49) - jan./abr. 2006.

BACHELARD, G. O Novo espírito científico. São Paulo: Abril, 1974b.

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